sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O POETA E CRONISTA BERILO WANDERLEY,
nos anos 50, ao escrever suas crônicas sobre cinema para a Tribuna do Norte, de Natal, costumava brindar os leitores com duas cotações: uma, a partir de sua particular compreensão crítica do filme analisado; a segunda, considerando a possível reação do público. A rigor, era interessante o seu sistema de dupla avaliação. O problema maior é que, na maioria das vezes, o chamado "grande público" não estava (como ainda não está, em linhas gerais) minimamente informado sobre os meandros da linguagem cinematográfica. As coincidências (um filme ótimo para o público e para sua leitura crítica) eram poucas: alguns filmes de Hitchcock, Fellini, Ford, Minnelli, certos musicais da Metro - e assim por diante. Por que nos lembramos de Berilo, exatamente agora? Por causa do filme O homem que desafiou o diabo (baseado em As pelejas de Ojuara). As primeiras críticas no sul do país (O Globo, Época) são arrasadoras. Até uma segunda leitura - e pretendemos vê-lo mais uma vez - a nossa opinião não sofreu nenhum abalo: apesar de Marcos Palmeira, Flávia Alessandra, do final "turístico", da passagem malresolvida de Araújo para Ojuara, o filme consegue se sustentar como um bom espetáculo, padrão cinema-pipoca. Retomando o espírito do cronista BW, com um pequeno acréscimo, com as cotações supostamente variando entre 0 (péssimo) e 5 (excelente), assim o avaliamos: Para o público potiguar, 4; para o público do Sul-Matavilha, 3; para a crítica, 1,5. Ou seja, vale a pena ser conferido, já que a média 2,83 não é nada desprezível. E a crítica, qualquer crítica, não tem o direito de ser elitista. Hoje, por exemplo, se amamos os filmes de Antonioni, Bresson, Dreyer, Mizoguchi, Godard, Visconti, Bergman, Buñuel, Pasolini, Rossellini, Keaton, Kubrick, Murnau, Welles, Straub & Huillet, Hawks, Sergio Leone, Glauber Rocha e outros, vemos com simpatia as chanchadas com Oscarito e Grande Otelo, muitos dos filmes da Vera Cruz, o cinema da Boca do Lixo, alguns melodramas americanos dos 40 e 50. Por outro lado, o cinemão de Hollywood, à base de efeitos visuais e pirotécnicos, não nos interessa.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2130
Natal, 28 de setembro de 2007


POESIA POPULAR
de Luiz Xavier
[ in Versos sacânicos, 2003 ]

Mote:
Tomei cachaça no céu,
lá no hotel de Jesus

Glosa:
Levando um litro de mel
dessa abelha italiana
com muita santa bacana
tomei cachaça no céu.
Aprontei, fiz escarcéu,
dancei com defuntos nus
quebrando a famosa cruz,
os anjos bateram palmas.
Sonhei mais cantando as almas
lá no hotel de Jesus.


RETRATOS DO BRASIL

A Biblioteca EntreLivros, dedicada ao tema Retratos do Brasil, à venda nas bancas (ou cigarreiras, como se dizia em Natal, antigamente, quando, aqui, bebíamos garapinhadas nas sorveterias e caldo-de-cana acompanhado de pão doce, nas esquinas e mercados da cidade), apresenta uma lacuna indesculpável. Sim, numa primeira folheada, não vimos a menor referência a Luís da Câmara Cascudo. É possível que exista uma ou outra citação, acidentalmente. É pouco, muito pouco, para a grandeza de Cascudo. Voltaremos ao assunto, depois de lida com a devida atenção.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

EM NATAL, A FUNDAÇÃO CULTURAL CAPITANIA DAS ARTES
e a Fundação José Augusto são as instituições que melhor mobilizam o patrimônio e o acervo artístico e literário da cidade e, por extensão (no caso da segunda), do próprio Estado. Ou, pelo menos, assim deveria ser. De uma forma ou de outra, seja com chuvas e trovoadas, seja com mangas e mangabas. Em se tratando da Capitania das Artes, com o apoio decisivo do Prefeito da capital, assim tem sido. E da melhor maneira possível. Infelizmente, ao que parece indicar, com o apoio politiqueiro do governo estadual, a Fundação José Augusto, segundo todas as evidências, perdeu-se por completo. Ou quase. O próprio PT/Partido dos Trabalhadores, que assumiu a sua presidência, não está sabendo contornar os problemas que a atingem, paralisando, em grande escala, suas políticas públicas de agenciamento e atuação culturais. É duro dizer, mas o PT e a FJA estão sendo dominados pela incompetência e pela burrocracia. O que fizeram com a Preá, por exemplo? Com o Teatro Alberto Maranhão (subordinado à FJA, não?)? Com as edições de livros significativos? Com o incentivo a manifestações de raiz popular? Com as casas de cultura do interior? Em alguns casos, nada; em outros, quase nada.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2129
Natal, 26 de setembro de 2007


A LÍNGUA DOS POETAS
de Antônio Mariano
[ in Guarda-chuvas esquecidos. João pessoa, 2005 ]

Língua era lâ-
mina
aconchegante,
e explosiva,
conforme a boca.

Maleabilíssima
a língua do poeta:
tátil às vezes,
tática sempre.


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS
A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.
(Pablo PICASSO)
Uma simples linha pintada com o pincel pode levar à Liberdade e à Felicidade.
(Joan MIRÒ)
Fecho meus olhos para ver.
(Paul GAUGUIN)
Onde reina o amor, o impossível pode ser alcançado.
(Provérbio Indiano)
Certas mulherem amam tanto seu marido que, para não gastá-lo, usam o de suas amigas.
(Alexandre DUMAS Fº)
Você não pode confiar em seus olhos quando sua imaginação está fora de foco.
(Mark TWAIN)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

TODOS SABEM DA MINHA ADMIRAÇÃO
por As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, um dos grandes romances picarescos da literatura brasileira. E, de igual modo, da minha admiração pelas realizações teatrais de Moacyr Góes, no Rio de Janeiro. Por isso mesmo, quanto a mim, havia uma certa expectativa pela adaptação cinematográfica da obra, que recebeu o título cordelístico de O homem que desafiou o diabo. Um bom título, diga-se de passagem. O clima humorístico-nordestino do livro está presente no filme, sem dúvida. Há boas cenas, há bons momentos. Ao contrário de Marcos Palmeira (bom como Zé Araújo, ruim como Ojuara) e de Flávia Alessandra (uma Mãe de Pantanha tenebrosa em sua inexpressividade), o elenco destaca-se: Hélder Vasconcelos (como o Cão Miúdo), Leon Góes (como o corcunda), Tarcísio Gurgel (como o barbeiro de Jardim dos Caiacós), Juliana Porteous (como a jovem trapezista), entre outros, estão muito bem. Mas, de qualquer maneira, ao se marcar pelo cinemão-pipoca do seu produtor Barretão, o filme apresenta dois ou três problemas estéticos complicados, em última instância, para dizer o mínimo. Aliás, o crítico e jornalista Alex de Souza, em No Minuto (cf. Colunas: Bazar - Engolindo o mundo com cachaça) apreendeu a sua essência: bom como espetáculo, ruim como obra-de-arte. Decerto, é possível rediscutir / problematizar essa dicotomia bom/ruim no espaço mesmo de seus objetivos cinematográficos, devidamente "costurados" com uma boa dose de eficiência cinetelevisiva. Uma última observação: por mais que o governo estadual tenha exigido, não há como justificar aquele "final" depois do final - cartões postais de Natal que nada acrescentam à estrutura romanesca do filme.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2128
Natal, 24 de setembro de 2007


EXIGÊNCIA
de Lisbeth Lima
[ in Felice. Natal, 2004 ]

Quero um colo que me cale;
que me fale enquanto calo.

POLITICAMENTE CORRETA
de Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]
minha poesia é do tipo reciclável
recicla-me
ou te devoro
LUNAÇÃO
de Acantha
apaguei minha lua
nova.
estou cheia.
REBULIÇO
de Renato Caldas
[ in Fulô do mato,
republicado em Versos sacânicos. Natal, 2003 ]
Menina me arresponda
Sem se ri e sem chorá:
Pruque você se remexe
Quando vê homem passá?
Fica toda balançando,
Remexendo, remexendo...
Pensa, talvez, qui nós, véio,
Nem tem ôio e nem tá vendo?
Mas, si eu fosse turidade,
Si eu tivesse argum valô,
Eu botava na cadeia
Esse teu remexedô...
E, adespois dele tá preso,
Num logar, bem amarrado,
Eu pedia: - Minha nêga,
Remexe pru Delegado...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

POESIAPOEMVPOESIA

POEME-SE!
(J. Cardias, Rio, anos 80)

Versão 2007

poeme-se de vermelhância
poeme-se de azuluminosidade
poeme-se de ventania
poeme-se de trovoada
poeme-se de natalpotengi
poeme-se de sertãocaicó
poeme-se de garapinhada
poeme-se de poesia
e, de poema em poema,
poeme-se de amorpaixão
mangamangaba e cinepax
gonzagão e bachelardência

[ in Poemas inaugurais. Natal, 2007 ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2127
Natal, 21 de setembro de 2007


OS MELHORES FILMES DOS ANOS 50
segundo os integrantes da
Liga dos Blogues Cinematográficos

1. Crepúsculo dos deuses (Wilder, 1950)
2. Vertigo / Um corpo que cai (Hitchcock, 1958)
3. Cantando na chuva (Kelly & Donen, 1952)
4. Janela indiscreta (Hitchcocck, 1954)
5. A marca da maldade (Welles, 1958)
6. The searchers / Rastros de ódio (Ford, 1956)
7. Rio Bravo / Onde começa o inferno (Hawks, 1959)
8. Les 400 coups / Os incompreendidos (Truffaut, 1959)
9. Hiroshima, meu amor (Resnais, 1959)
10. Morangos silvestres (Bergman, 1957)
11. A palavra (Dreyer, 1955)
12. Quanto mais quente melhor (Wilder, 1959)
13. Glória feita de sangue (Kubrick, 1957)
14. No silêncio da noite (Ray, 1950)
15. O sétimo selo (Bergman, 1956)
16. Noites de Cabíria (Fellini, 1957)
17. Pickpocket (Bresson, 1959)
18. Intriga internacional (Hitchcock, 1959)
19. Os esquecidos (Buñuel, 1950)
20. Rashomon (Kurosawa, 1950)

Uma seleção de alto nível, sem dúvida,
com várias das maiores obras-primas do cinema.
Já os meus 20 Mais dos anos 50 privilegiam:
1. Hiroshima, meu amor (Resnais); 2. Contos da lua vaga (Mizoguchi);
3. A palavra (Dreyer); 4. Pickpocket (Bresson);
5. A princesa Yang Kwei Fei (Mizoguchi); 6. A marca da maldade (Welles).
E mais, entre outros:
Rastros de ódio (Ford); O grito (Antonioni);
Morangos silvestres (Bergman); Johnny Guitar (Ray);
Um condenado à morte escapou (Bresson);
Diário de um pároco de aldeia (Bresson);
O salão de música (S. Ray); As férias do Sr. Hulot (Tati).


UMA RECOMENDAÇÃO BOROGODOSA

Paulo Bruscky - Arte, arquivo e utopia, de Cristina Freire.
Recife: Companhia Editora de Pernambuco [apoio], 2007, 272p.
Levantamento crítico e iconográfico do mais conhecido dos poetas e artistas experimentais da Pernambucália/Recifernália de todos os amores, pecados, sonhos e frevolências gráficas. Um livro-álbum da melhor qualidade estético-editorial: Paulo Bruscky em sua dimensão humana e de artista multimídia. Reproduções e mais reproduções. Poemas e mais poemas. Brusckys e mais Brusckys. E um viva para o inquieto artista e para os inquietos Jomard Muniz de Britto, Celso Marconi, Ivan Maurício, Daniel Santiago, José Cláudio, Alceu Valença e Sandra Camurça.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

ONTEM À NOITE, no Teatro de Cultura Popular da Fundação José Augusto, em Natal, vivemos um momento mágico: o lançamento do cd Meu machado cortador, do excelente artista pernambucano Cacau Arcoverde, de longas vivências natalenses. Realizado pela Estrela Produções, com patrocínio do Banco do Nordeste e apoio do Projeto Nação Potiguar, o cd investe de forma a mais criadora possível no coco de ganzá, no coco de roda, no coco de zambê e no samba de coco. Ou seja, uma verdadeira maravilha em termos culturais. Para completar, o lançamento em si a todos encantou, seja pela vivacidade do espetáculo, seja pela presença mítica em cena de alguns mestres do coco, como, por exemplo, o Mestre Bacalhau com os figurantes (mais de 20: crianças, jovens, adultos, velhos, homens e mulheres) do Coco de Roda de Canguaretama. Voltando ao cd, eis algumas de suas faixas mais expressivas: Chegou o maracajá (coco de ganzá), Mamãe eu vou tomar banho (samba de coco das Irmãs Lopes), Pinto pelado (coco de ganzá), Roseira (coco de roda), Cangote cheiroso (coco de roda), Navios de guerra (coco de zambê). E mais: Menina da boca de ouro, Cajueiro abalou, Na sombra do dendezeiro, Berro estradeiro/Recordações. E outras. Registre-se, ainda, que desde os tempos de Chico Antônio, o coco é uma das manifestações populares mais importantes do Rio Grande do Norte. Cacau Arcoverde, cidadão nordestino, músico dos melhores, sabe disso. Emeio para contato: cocosideral@hotmail.com


BALAIO PORRETA 1986
nº 2126
Natal, 19 de setembro de 2007


HAIKAIS de
Livío Oliveira
[ in Pena mínima. Natal, 2007 ]

Tempo
Pertenço à época
de uma tensão freqüente
feita à mão das horas.

Lugar
Poema onde vivo
todo espanto melífluo
que faz o meu canto.

Sono
Acordo, não durmo.
Pássaro improvisando
um jazz no meu sono.

Haikais sobre um Corpo de Mulher

III - Lábios

Tateio-te a boca,
albergue de língua acesa,
moldura molhada.

VIII - Púbis

Chegada doída,
suspiros de cansaço único,
exílio fálico.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007


Natal que te quero Natal:
eis-me de volta, para mais uma pequena temporada
em terras potiguares.
Aqui, em foto de autoria não-identificada,
aparecem em primeiro plano as dunas e lagoas de Genipabu;
em seguida, a Redinha e a barra do Rio Potengi;
depois, os edifícios de Natal e, por último, à esquerda,
o Morro do Careca, em Ponta Negra.

Em tempo: voltarei a editar imagens depois do dia 8 de outubro.
Enquanto isso, a edição do
Balaio dar-se-á de forma irregular,
e não mais diariamente, como tem sido nos últimos tempos.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2125
Rio, 17 de setembro de 2007


FOME
de Jeanne Araújo
(Acari/Ceará-Mirim, RN)

Colaram-se em mim
uma fome antiga de palavras
e uma sede assoberbada de cantigas.
O meu desejo seria par de asas
coladas aos meus pés
e um carro de boi cantante
selado à minha língua.
Porque de pó e terra escura
é a minha estrada
e eu tenho pressa de descobrir
o que há por trás
da tessitura.


Memória 1978
OS DEZ CONTOS MAIS IMPORTANTES
DA LITERATURA MUNDIAL
segundo
Tarcísio Gurgel
(Natal/Mossoró, RN)
[ in Revista Vozes, setembro de 1978 ]

Missa do Galo (Machado de Assis)
Auto-estrada do sul (Cortázar)
Os funerais da Mamãe Grande (Márquez)
Episódio do inimigo (Borges)
A terceira margem do rio (Guimarães Rosa)
Kaschtanka (Tchecov)
Escaramuça contra Sartoris (Faulkner)
O piano (Aníbal Machado)
Torotumbo (Astúrias)
A morte de D.J. em Paris (Roberto Drummond)


UM OLHAR CANGAÇO
de Moacy Cirne
(Rio/Seridó, RJ/RN)
[ in Qualquer tudo, 1993 ]

um certo cansaço
um lambelambe sem memória
um velho cinema pax
um cão sem plumas
um potengi ao crepusculecer
um maraca maracanã
um poema sem poesia
um xerenhennhenhé de mulher
um quase tudo nenhum
e
50
sonhos adormenguecidos


UM BLOGUE PORRETA

Blog de Adriano, de Adriano de Sousa.
Poesia. Memórias. Poesia.
Cestas básicas de livros.
Escrita/Sensibilidade.

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O tempo aqui [Acari, RN] anda velhaco. Quinta feira, me disseram, passou uma chuva minguada, correndo as goteiras. (Paulo BEZERRA. Cartas dos sertões do Seridó. Natal, 2000, p.47)

domingo, 16 de setembro de 2007


Ouro sobre Azul
Foto de
Paulo Medeiros
[ in Olhares ]


BALAIO INCOMUN 1986
nº 2124
Rio, 16 de setembro de 2007



PRIMEIRO MANDAMENTO
de Paulo de Tarso Correia de Melo (RN)
[ in Rio dos Homens, 2002 ]

Coronel Chiquinho não chegava
a desejar mal ao próximo.
Apenas perguntava:

Com tanta cascavel desocupada
por aí, como é que gente ruim
no mundo não se acaba?


Memória 1980
OS MAIS IMPORTANTES FILMES BRASILEIROS
segundo Sérgio Augusto, jornalista cultural
[ in Revista Vozes, agosto 1980 ]

Fragmentos da vida (José Medina)
Ganga bruta (Humberto Mauro)
Nem Sansão, nem Dalila (Carlos Manga)
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos)
O grande momento (Roberto Santos)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
São Paulo S/A (Luís Sérgio Person)
A falecida (Leon Hirszman)
Terra em transe (Glauber Rocha)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)


DISCOS QUE ME EMOCIONAM (4 / 120)

Kind of blue, de Miles Davis [Columbia CK 40579 (grav. 1959) ]. Jazz que te quero jazz: um disco-essência / um disco-sentimento / um disco-encantalamento / um disco-magia. Há pelo menos duas faixas deslumbrantes: All blues e Flamenco sketches. Acompanham Davis - em seu melhor momento - nada mais nada menos do que os músicos John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Wynton Kelly (numa faixa), Paul Chambers e Jimmy Cobb. Ou seja, a nata da nata. Um clássico irresistível do jazz modal. Entre meus 20 ou 22 discos preferidos, da música medieval a Luiz Gonzaga, Kind of blue é presença certa.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Poesia pois é Poesia, de Décio Pignatari. São Paulo : Duas Cidades, 1977, 192p. [] Toda a produção do poeta paulista (que acaba de completar 80 anos, como me lembrou em boa hora o amigo e professor Alceste Pinheiro), do verso à poesia concreta, de 1950 a 1975. Um dos mais inventivos escritores brasileiros do século XX, autor de algumas jóias literárias do experimentalismo tupiniquim. É o caso dos antológicos terra, beba coca cola, LIFE, OrganismO, Cr$isto é a solução, entre outros poemas emblemáticos: poemas que investem semioticamente numa alta voltagem estética. Acrescente-se, a título de informação (para os menos avisados): ao lado de Wlademir Dias Pino e poucos outros, Pignatari foi um dos fundadores da poesia concreta em 1956. Nos anos 60 tornar-se-ia um verdadeiro "guerrilheiro da luta literária"

31 poetas, 214 poemas; do Rig-Veda e Safo a Apollinaire, de Décio Pignatari (org., trad. & notas). São Paulo : Companhia das Letras, 1996, 132p, [] Transcriações poéticas de alto nível, aproximando a concisão oriental com a precisão ocidental, incluindo Safo, Catulo, Horácio, Juvenal, poetas da dinastia Tang, trovadores dos séculos XII-XIV, Burns, Byron, Heine, Leopardi, Rimbaud, Apollinaire. E mais. Com biografemas e comentários. Enfim, uma bela coletânea. Décio Pignatari, que nasceu no dia 20 de agosto de 1927, em se tratando de poesia e semiótica literária, é um dos nossos grandes nomes. Indubitavelmente. Assim sendo: "Que venha a noite e soe a hora/ Os dias se vão não vou embora" (Apollinaire, p.110-111).


Fragmentos de DON JUAN
de George Gordon Byron (1788-1824)
[ in 31 poetas, 214 poemas, trad. Décio Pignatari ]

III, 88
Palavra é coisa. Uma gota de tinta,
Caindo como orvalho numa idéia,
...

IV, 00
Afilhado da Fama, à procura da essência,
No tempo e língua, o poeta proclama:
A vida é a menor parte da existência

XIII, 6
Ódio é prazer comprido, vida e meia:
Ama-se às pressas, com vagar se odeia.

[][][]

sábado, 15 de setembro de 2007


Grandes momentos do cinema:
Hiroshima meu amor (Alain Resnais, 1959).
Eu já li tudo sobre Hiroshima. Tudo. Tudo. Não, não. Você não leu nada sobre a interpretação de Emannuelle Riva. Sobre a história de Marguerite Duras. Mas eu já vi Hiroshima mais de 10 vezes. Mais de 20 vezes. Mais de 30 vezes. Não, você não viu Hiroshima. Não viu a fotografia de Vierny & Michio. Não ouviu a música de Delerue & Fusco. Não sentiu a montagem de Colpi e dos outros. Eu vi Hiroshima, sim, vi em Natal, no Rex. Vi no Rio, na Cinemateca, várias vezes, várias vezes. Só não o vi em Caicó. Só não o vi em Jardim do Seridó, em São José do Seridó. Mas eu vi, eu vi: seu canto de amor e morte. O soldado alemão. O sangue do soldado alemão. Eu vi. Resnais, Godard, Antonioni. Eu vi tudo. Não, você não viu. Não viu Hiroshima. Não viu Nevers. Eu vi. Eu vi. Eu vi o horror da guerra. Vi a esperança da paz. Vi as pessoas protestando contra a bomba atômica. Eu vi. Eu vi. Senti a memória, vivi o passado. Depois, eu vi Marienbad. Eu vi. Eu sou Hiroshima, você é Nevers. Nevers em Hiroshima.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2123
Rio, 15 de setembro de 2007


Cinema
O MELHOR DO CURTA
(segundo Moacy Cirne)

1. Neve e neblina (Resnais, 1955)
2. O olhar de Michelangelo (Antonioni, 2004)
3. Um cão andaluz (Buñuel, 1928)
4. La jetée (Marker, 1963)
5. Uma semana (Keaton, 1920)
6. Terra sem pão (Buñuel, 1932)
7. O sangue das bestas (Franju, 1948)
8. Dois homens e um armário (Polanski, 1958)
9. Blábláblá (André Tonacci, 1968)
10. Arraial do Cabo (Mário Carneiro & Paulo César Saraceni, 1959)
11. Aruanda (Linduarte Noronha, 1959)
12. Entr'acte (Clair, 1924)
13. Fireworks (Anger, 1947)
14. 79 primaveras (Alvarez, 1969)
15. Film (Schneider, 1965)
16. The high sign (Keaton & Cline, 1921)
17. Di (Glauber Rocha, 1976)
18. A study in choreography for camera (Daren, 1945)
19. Gente del Pò (Antonioni, 1943-47)
20. Toda a memória do mundo (Resnais, 1956)


POEMA de
Antonio Carlos de Brito (Cacaso)
[ in Grupo escolar, 1974 ]

Desperto mais uma vez
de meu penúltimo sonho:
o mapa-múndi viaja
entre suspiros de amor.

Uma gaivota bissexta desova a tarde.


AUTO-FLAGELO
de Suzana Vargas
[in Caderno de outuno, 2ª ed., 1998 ]

Na mesa:
o pão, o leite, a manteiga
e o
Nescafé
insolúvel dos meus dias.


UM BLOGUE PORRETA

Cine Art
, de Ronald Perrone.
Críticas objetivas e claras.
Um olhar especial para o cinema brasileiro.

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Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.// É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. (Otto Lara RESENDE. Vista cansada)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007


Foto de Gabriele Rigon


LUNAÇÃO
de Acantha
[in La Vie Bohème ]

apaguei minha lua
nova.
estou cheia.


POEMA
de Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

acordou sem saber
se era segunda ou domingo...
era segunda
e abandonado entre lençóis
seus sonhos adormeceram


BALAIO PORRETA 1986
nº 2122
Rio, 14 de setembro de 2007


SÚPLICA
de Fernanda Passos
[ in Poesia na Veia ]

Guia-me por entre as relvas
que
em teu corpo germinam

Meu desejo se alimenta
da
seiva que brota do tronco
de
tuas pernas
e
sacio a sede
que
me consome
em
teus pêlos
ou
sugo o néctar
das
tuas reentrâncias

Sufoca meus gemidos
com o
peso de tua carne

Arqueia meu quadril
num
espasmo de luxúria


Cordel
ALGUNS TÍTULOS MARAVILHOSOS

A beata que mordeu a outra com ciúmes do vigário
(Cuíca de Santo Amaro, 1944)
Como Antonio Silvino fez o diabo chocar
(João Martins de Athayde, 1947)
Os sofrimentos da criada da princesa seduzida
(Moisés Matias de Moura, 1935)
História da moça que virou cavalo
(Rodolfo Coelho Cavalcante, s/d)
História do burro que matou seu próprio dono de faca - e o homem que matou a vaca e a vaca matou o homem com a mesma faca
(Moisés Matias de Moura, s/d)
História em versos de um jegue que matou um homem, a porca comeu a criança e a mulher morreu de choque, no município de Santana de Ipanema, Estado de Alagoas
(José Honório Oliveira, s/d)
A menina que morreu em Caicó e depois de 20 horas enviveceu - falou contra o comunismo e o protestantismo
(José Gomes da Silva, s/d)
A moça que mordeu o travesseiro pensando que fosse
Vicente Celestino

(Cuíca de Santo Amaro, s/d)
A moça que dançou com o diabo cantando Cintura Fina
(Manoel Camilo dos Santos, 1951)
A grande batalha do reino da bicharia
(José Bernardo da Silva, 1957)


DISCOS QUE ME EMOCIONAM (3 / 120)

Troubadours & Cantigas de Santa Maria, por René Clemencic / Clemencic Consort [Harmonia Mundi CD HMX 2901524.27 ]. Canções & cantigas medievais compostas pelos deuses da sonoridade encantatória: magia pura. As canções trovadorescas de amor cortês, belíssimas, são anônimas ou trazem as assinaturas de Bernard de Ventadour e Folquet de Marseille. As Cantigas de Santa Maria, com poucas exceções, foram recolhidas por Alfonso X, o Sábio, em pleno séc. XIII. [Aqui temos uma pequeníssima parte das 427 cantigas.] Já as canções dos trovadores são do séc. XI. As gravações são dos anos 70 do século passado. Um dos dez melhores discos de todos os tempos, segundo a minha leitura de "ouvinte feliz".
Nota: a reprodução das 427 peças recolhidas por Alfonso X, o Sábio pode ser vista no livro, em três volumes, Cantigas de Santa Maria, editado por Walter Mettmann (Madrid : Clásicos Castalia, 1989).

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A única diferença entre um santo e um pecador é que o primeiro tem um passado, enquanto o segundo tem um futuro. (Oscar WILDE)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007


Arte/Fotografia
Sonho/Surrealidade
O devaneio & O digital
por
MARIAH
[ in Olhares ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2121
Rio, 13 de setembro de 2007



POEMA de
Benno Assmann
[ in Noites Insones ]

Deus
não sei se existe
mas acredito
na verdade
do alpiste
e seu dom
de realizar
o milagre do vôo
dos pássaros.


ENCONTRO
de Lisbeth Lima
[ in Flor de Craibeira ]

Trouxe-me a chuva
e, depois dela,
céu aberto, anil.

Trouxe-me a noite
e, dentro dela seu corpo chuviscado,
amanhecido junto ao meu.
Dia claro, céu aberto, abril.


GOSTO
de Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Gosto mesmo do imprevisível:
dos beijos suspensos no ar,
da voz que fala em silêncio;
do olho que diz sem falar.

Gosto mesmo do olhar,
da voz e do toque,
da língua e do choque.

Gosto...


FARSA
de Isabella Benício
[ in Brumas ]

quando a ausência
anoitece açoitando
meus dedos tentam
em vão
trabalhar como se fossem
os teus


Futebol
UM POUCO DE HISTÓRIA

Na segunda metade dos anos 20, os times mais populares do Rio eram o Vasco e o América. Como assim?, perguntarão muitos. Explica-se (cf. Mario Filho e o seu excelente O negro no futebol brasileiro): Flamengo, Fluminense e Botafogo eram clubes da zona sul, que só admitiam jogadores brancos (com raríssimas exceções) e, na quase totalidade, de "boa família". Dos três, o Flamengo era o mais popular por um motivo muito simples: como não tinha espaço para treinar, nos seus primeiros anos de existência, improvisava um campo na rua, para os lados da Praia do Russell, com os jogadores tendo contato direto com a meninada e os marmanjos das redondezas. Já com o América e o Vasco a história era outra: clubes da zona norte, admitiam jogadores brancos, pretos e morenos. Assim como, antes dos dois, o suburbano Bangu. O Flamengo só atingiria uma popularidade maior, superando os demais, a partir dos anos 30, sobretudo em função de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, verdadeiro ídolo do povão, seja pelo futebol (cantado em prosa e verso por todos os amantes do bom futebol), seja pelo comportamento pouco usual para os padrões da época. Na mesma ocasião, jogou no Flamengo outro jogador negro fantástico: Domingos da Guia. [Em tempo: Leônidas jogou no Clube da Gávea, de 1936 a 1941 (antes jogara no Bonsucesso, Peñarol, Vasco e Botafogo); Domingos da Guia, de 1936 a 1943 (antes jogara no Bangu, Vasco, Nacional e Boca Juniors).]


UM BLOGUE PORRETA

Almanaque, de Marcos Faria.
Quase um saite. Quase uma revista.
Variedades. Literatura. Variedades.

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Em sessão fechada o Senado brasileiro pode tomar a decisão inédita de cassar o mandato de seu presidente. [Não cassou, infelizmente.] Por trás da decisão, além das questões de quebra de decoro, está o jogo não muito limpo do que fazer com o governo Lula. Dá vontade de dizer: quem for inocente nessa história, que jogue o primeiro voto! O que, é claro, não inocenta o senador Renan. (Flávio AGUIAR. Hoje é dia de Renan, in CartaMaior, 12/9/2007)

quarta-feira, 12 de setembro de 2007


A beleza e a expressão maior
de um olhar
na foto de Carlos Manuel Pereira
[ in 1000 Imagens ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2120
Rio, 12 de setembro de 2007



JOGOS FLORAIS
de Antonio Carlos de Brito (Cacaso)
[ in Grupo Escolar, 1974 ]

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com 2 esses
que se escreve paçarinho?)


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (31c / 111)

Grupo Escolar, de Antonio Carlos de Brito. Rio de Janeiro : Coleção Frenesi, 1974. [Com dedicatória do Autor: "Para Moacy Cirne, sabendo que acima da revolução poética ou gráfica está a amizade. C/ um grande abraço do Cacaso, 6/74.] De um dos expoentes da "literatura alternativa" dos anos 70, este Grupo Escolar parece ser a síntese dos grilos e anseios políticos culturais de uma uma época marcada pelos vôos libertários e socialistas da juventude inquieta com a sua própria história fundada no pós-existencialismo e no pós-tropicalismo, perdida entre Marcuse, McLuhan e Althusser. Os versos de Cacaso, assim, adquiriam um tom irônico em relação ao fazer literário: "O poema anfíbio descansa/ sob meu olho educado".

Les murs ont la parole; Journal Mural Mai 68, citations recueillies par Julien Besançon. Paris : Tchou Éditeur, 1968, 180p. [] São mais de 1000 frases escritas com revolta, suor e lágrimas - e amor juvenil - nos muros da Sorbonne, do Odéon, de Nanterre, em Paris, no famoso Maio Francês de 1968. Eis aqui a história viva do momento/movimento em frases como:

| Exagerar é começar a inventar |
| Decreto o estado de felicidade permanente |
| Ser livre em 1968 é participar |
| Um homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é |
| Todo poder abusa. O poder absoluto abusa de forma absoluta |
| Aqui, o espetáculo da contestação. Contestemos o espetáculo |
| A política se faz na rua |
| A Revolução deve se fazer nos homens
antes de se realizar nas coisas |
| Inventai novas perversões sexuais |
| É proibido proibir. A liberdade começa por uma proibição: a de prejudicar a liberdade de outra pessoa |
| A floresta precede o homem, o deserto o segue |
| A novidade é revolucionária, a verdade também |
| O álcool mata. Tome LSD |
| Contestação permanente |
| Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo |
| Deus é um escândalo, um escândalo que rende. Baudelaire |
| Criatividade Espontaneidade Vida |
| A morte é necessariamente uma contra-revolução |
| A vontade geral contra a vontade do general |
| A insolência é a nova arma revolucionária |
| A liberdade é a consciência da necessidade |
| Abaixo o orientalismo neo-exótico |
| Meus desejos são a realidade |
| Sonho ser um imbecil feliz |
| Sejam realistas, exijam o impossível |

| A imaginação no poder |
| Exagerar, eis a arma |

[ Nota: algumas dessas frases são releituras de textos
anarquistas e socialistas
]

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terça-feira, 11 de setembro de 2007


Há crepúsculos que, de tão belos,
desafiam qualquer imaginação,
mesmo a mais criadora, mesmo a mais sensível.

[Foto de Jose A. Gallego, in Photo Net ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2119
Rio, 11 de setembro de 2007



Repeteco
UM DIA TRÁGICO
[ in Balaio 1839, de 11 de setembro de 2006 ]

11 de setembro. Um dia trágico para a história da humanidade. 11 de setembro. Um dia terrível para a história das Américas. 11 de setembro... de 1973. A data que assinala uma vergonha mundial: golpistas chilenos, com o apoio estratégico dos governantes terroristas dos Estados Unidos da Morte, derrubam o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Uma data para não ser esquecida. Nunca. Anos depois, outro 11 de setembro atinge, dessa vez, o coração dos norte-americanos. Qual a grande lição do episódio de 2001: Quem com terrorismo fere com terrorismo será ferido.


Memória
EM 12 DE SETEMBRO DE 1973,
UM JORNAL SEM MANCHETE

"O socialista Salvador Allende é eleito presidente do Chile em 1970, em coalizão popular de que participam comunistas e outras forças à esquerda. Seu governo é desestabilizado e, em 11 de setembro de 1973, derrubado por um golpe militar ativamente apoiado pelo governo dos Estados Unidos. Implanta-se uma ditadura sanguinária responsável por execuções, massacres e tortura. Allende suicida-se em seguida ao golpe. No Brasil do general Médici, a Polícia Federal, através de telefonema do censor, determina que os jornais não podem tratar do caso em manchete. No Jornal do Brasil a primeira página já está arrumada. O editor-chefe [Alberto Dines, com Carlos Lemos como chefe de redação, e Ezio Speranza como diagramador] resolve desmoralizar a censura: desenha uma primeira página, sem título [em quatro colunas], como queriam as autoridades, mas com um texto dramatizado tipograficamente. O silêncio mais clamoroso já registrado na imprensa do país". (Alberto DINES, org. 100 páginas que fizeram história. São Paulo : LF&N, 1997)


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (31b / 111)

Poemas escolhidos, de Gregório de Matos. Sel., int. & notas José Miguel Wisnik. São Paulo : Cultrix, 1976, 334p. [] "Na obra enorme de Gregório de Matos, desfigurada em parte pela sua má preservação, com todos os seus desvãos, suas lacunas e seus descompassos, fica certamente um saldo de problemas e de possibilidades que ultrapassa em muito os limites dos demais poetas do Brasil colonial, e que o fazem, seguramente, um dos poetas mais instigantes da nossa literatura. ... Além disso, o seu itinerário desloca efetivamente os eixos da poesia acadêmica, auto-satisfeita na sua própria retórica. ... a mobilidade insatisfeita da poesia de Gregório de Matos acaba sendo um sinal do seu melhor inconformismo" (Introdução, p.27). Há que notar: a seleção de poemas é a mais criteriosa possível.

Imagem-máquina; a era das tecnologias do virtual, de André Parente (org.). Rio de Janeiro : Ed. 34, 1993,300p. [] São muitos os ensaios, nesta seleção, que nos fazem refletir sobre as novas tecnologias do "fazer cultural", entre os quais As imagens de terceira geração, tecno-poéticas (por Julio Plaza), As imagens artísticas e a tecnociência (Frank Popper), Passagens da imagem: pintura, fotografia, cinema, arquitetura (Nelson Brissac Peixoto), Poeira nos olhos (Jean-Paul Fargier), Da produção de subjetividade (Félix Guattari), A imagem virtual mental e instrumental (Paul Virilio). Há também textos de Arlindo Machado, Rogério Luz, Jean-François Lyotard e outros. Apesar do considerável avanço das tecnologias virtuais, sob vários aspectos ainda é um livro para ser lido com a devida atenção crítica.

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Não há livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. É tudo. (Oscar WILDE. A esfinge e seus segredos /máximas e citações/, por Marcello Rollemberg [org., trad. & apresentação]. Rio de Janeiro : Record, 2000, p.69)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007


De São José da Bonita a São José do Seridó
no Rio Grande do Norte
são 90 anos de história
são 90 anos de emoções.
Jardinense e caicoense
caicoense e jardinense
por lembranças & afeições
sertanejo de 90 mil crepúsculos
aqui nasci
nasci aqui
nas lonjuras de 43
nas lonjuras da Caatinga Grande
quando São José ainda era um distrito de Jardim.
E no encontro dos três municípios
- Jardim, Caicó, São José
São José, Caicó, Jardim
-
eu me procuro e me acho
simbolicamente transfigurado
na Passagem das Traíras
na Geometria das Pedras
no Despertar das Águas.

(Moacy Cirne)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2118
Rio, 10 de setembro de 2007


Memória
UMA SENTENÇA JUDICIAL DE 1833
na Villa de Porto da Folha, Sergipe
(de acordo com vocabulário, estilo e ortografia da época)

"O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora de Sant'Anna quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto della, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume, e como ella se recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, não conseguio matrimônio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja peijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto.

As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluemos. Dizem as leises que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunha de avaluemos e assim:

Considero - que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana.

Considero - que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver.

Considero - que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou [a] mãe falecesse.

Considero - que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer coxambranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia.

Considero - que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo [o] que elle desejou.

Considero - que sua Magestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e para as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados.

Considero - que o cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga das encomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo.

Posto que:

Condeno o cabra Manoel Duda pelo malefício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malefícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.


A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o carcereiro [e] solte o cujo cabra para que vá em paz. O nosso Prior aconselha: Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus est macete macetorim carrascus sine facto nostre negare pote.

Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares públicos. Apello ex-officio desta sentença para juiz de Direito desta Comarca.

Porto da Folha, 15 de outubro de 1833
Assinado:
Manuel Fernandes Santos,
Juiz Municipal suplente em exercícios."

[ Fonte : Instituto Histórico de Alagoas ]

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domingo, 9 de setembro de 2007


Grandes momentos do cinema:
Pickpocket (Robert Bresson, 1959)
"O cinema antinarrativo [apesar de sua semioticidade narracional], desdramatizado, enxuto, seco de Bresson: o anti-espetáculo por excelência. Despojado de qualquer recurso formalista, suas afinidades estéticas podem se voltar, entre poucos outros, para os cinemas de Dreyer e Straub [& Huillet], o primeiro em sendo espiritualista, o segundo em sendo materialista: a interiorização do estar-no-mundo. Mesmo que seja através de um batedor de carteiras, como aqui". (Moacy Cirne. Luzes, sombras e magias. Natal : Sebo Vermelho, 2005, p.105)


BALAIO PORRETA 1981
nº 2117
Rio, 9 de setembro de 2007



POEMA de
JOSÉ ANTONIO
[ in Verbo e Devaneio, de Giovanna ]

Vende-se sol.
Negócio de ocasião.
Aceito troca por noites sem lua.


DA FALTA DE INSPIRAÇÃO
Poema de
LINALDO GUEDES
[ in Zumbi Escutando Blues ]

às vezes
a dificuldade do poema
está
no olhar que não surge

na blusa
que a musa
teima em usar


POEMA de
MÁRIO COIVARA
[ in Faca de Fogo ]

não sei das possibilidades do beijo. só alcancei a infância.


ZINGU! ZINGU!

Mais um número nas bancas virtuais da blogosfera:
Costinha / Antonioni / O Amigo da Onça.
Mais um número polêmico.
Para ser visto, sim.
Com atenção.


UM BLOGUE PORRETA

Pickpocket, de Lucian Chaussard.
Críticas breves e inteligentes.
Um olhar penetrante voltado para o cinema.

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Nossos agradecimentos àqueles que, ontem e sempre, nos prestigiaram nestes 21 anos de Balaio: o Balaio Incomun cujo início se deu no interior da UFF, em Niterói, no já distante 8 de setembro de 1986, em sua fase xerográfica, e que, a partir de 29 de outubro de 2003, como blogue, transformou-se em Balaio Vermelho / Balaio Porreta.

sábado, 8 de setembro de 2007


Hoje é dia de festa no Maranhão: 395 anos de sua capital

De comum acordo com o blogue
Os Morcegos
apresentamos
AS SETE MARAVILHAS DE SÃO LUÍS
segundo
Dilberto Lima Rosa:

1. Praia de São Marcos
(a começar pela Pedra da Memória, com dois canhões, assinalando onde um dia foi o Forte de São Marcos: início da Avenida Litorânea);
2. Teatro Artur Azevedo
(na Rua do Sol, um bom exemplo das ladeiras de São Luís,
no Centro);
3. Avenida e Praça Dom Pedro II
(com os prédios Palácio dos Leões, Tribunal de Justiça, Palácio La Ravardière e Catedral da Sé);
4. Rua Portugal
(de paralelepípedos, com os sobradões de azulejos e os telhados históricos, como em toda a área conservada do Projeto reviver, e seus museus e casas de artesanato);
5. Rua da Estrela
(cheia de casarões seculares, que desemboca no Convento das Mercês; lindo, mas de propriedade de José Sarney, que tomou de assalto para ser sua "Fundação Republicana" só com coisas dele, quando no poder no Maranhão! Bela vista do fim do Rio Bacanga ao encontro da baía de São Marcos);
6. Largo dos Amores
(Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e Praça Gonçalves Dias, com vista para a Beira-Mar e o fim do Rio Anil);
7. Fonte do Ribeirão
(donde se vê, por pequenas aberturas, parte das Galerias Subterrâneas, túneis escuros ainda não totalmente descobertos, que ligam igrejas seculares e onde estaria a Serpenste que, se acordada, afundaria a ilha: lenda local).


BALAIO PORRETA 1986
Desde 8/9/1986
nº 2116
Rio, 8 de setembro de 2007



21 anos de Balaio
21 MOMENTOS MÁGICOS
PARA UMA TEMPORADA DE 21 MESES EM SÃO SARUÊ
- não necessariamente os melhores, nem os mais importantes -
(sem ordem preferencial)

[] Vésperas da Virgem, de Monteverdi, por Jordi Savall
[] Suítes para violoncelo, de Bach, por Anner Bylsma, grav. 1979
[] Troubadours & Cantigas de Santa Maria, por René Clemencic
[] Quartetos opus 64, nºs 2, 4 & 5, de Haydn,
por Quatuor Mosaïques
[] Dom Quixote, de Cervantes
[] Hamlet, de Shakespeare
[] Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa
[] Poesia completa e prosa, de Murilo Mendes
[] Blow-up, de Antonioni
[] As férias do Sr. Hulot, de Tati
[] Cantando na chuva, de Kelly & Donen
[] Era uma vez no Oeste, de Leone
[] The Spirit, de Eisner
[] Krazy Kat, de Herriman
[] Corto Maltese, de Pratt
[] Arzach, de Moebius
[] A love supreme, de Coltrane
[] Kind of blue, de Davis
[] Vibrações, de Jacob do Bandolim
[] Da Palestina ao Seridó, de Ubaldo, Totó & Urbano Medeiros
[] A ave, de Wlademir Dias Pino, ou O Brasil de Marc Ferrez (fotos)

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O vento liberta-se ventando.
(Murilo MENDES. Textos sem rumo [1964-66], in Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1995, p.1459)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007


Arte digital através da fotografia
de
Mariah [ in Olhares ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2115
Rio, 7 de setembro de 1822

CHEGANÇA
de Sílvia Câmara (BA)
[ in Brisa Poética
]

A poesia vem
invade
inverte
preenche.
Ah! Deus
a poesia subverte.
Amém!


TRÊS POEMAS
de Moacy Cirne (RN/RJ)
[ in Cinema Pax, 1983 ]

FORDIANA

banguebanguelafumenglória
de mocinhos e bandidos
no sertão marciano

longelonge do meu seridó

EISENSTEINIANA

a revolução
(sangue, suor e carne)
é violenta como o vermelho
dos crepúsculos de
outubro
e doce como o cheiro de
terra molhada

GLAUBERIANA

o cantador tece a trama
com os olhos fixos
no sertão
o poeta desenha a epopéia
com os pés fixos
no chão


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (31a / 111)

Nosferatu, de Philippe Druillet. Paris : Dargaud, 1978, 64p. [] Do expressionismo cinematográfico de Murnau ao expressionismo quadrinhográfico de Druillet, com referências existenciais e futuristas que atestam a qualidade estética de um preto&branco marcante. Uma obra-prima dos quadrinhos franceses dos anos 70.

Le petit cirque, de Fred. Paris : Dargaud, 1973, 64p. [] Entre a fantasia e a poesia, com toques metalingüísticos que beiram o surrealismo, mesmo que ingênuo, eis um quadrinho cujos traços e cores (em tom pastel) surpreendem pela qualidade e pela sensibilidade gráfica. Fred, para quem não sabe, é o criador do extraordinário Philémon.


UM CERTIFICADO PARA O BALAIO

O blogueiro, cronista e autor teatral Marco, do ótimo Antigas Ternuras, concedeu um Certificado Blog para o Balaio. E agora é preciso indicar cinco blogues que o mereçam. Não é tarefa fácil já que, por exemplo, mais de 30 já receberam o nosso Blogue Porreta e mais uns 20 ou 25 ainda deverão recebê-lo nos próximos meses. Mesmo assim, sem desmerecer os demais, claro, apontamos cinco que, de acordo com o estabelecido, nomearão mais cinco. E assim por diante. E assim por diante. E assim por diante.

Eis os cinco, portanto, entre aqueles
que já foram contemplados com o Blogue Porreta:
Marconi Leal, do próprio
O Refúgio, de Sandra Camurça
Toca do Jens, de Jens
Isso é Bossa Nova, de Sandra Leite
Poesia na Veia, de Fernanda Passos

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Nunca estamos em nós; estamos sempre além. O temor, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora então já não sejamos mais. (Michel de MONTAIGNE. Ensaios [1580]. Trad. Sérgio Milliet. Porto Alegre : Gobo, 1961, p.105/v.1)


quinta-feira, 6 de setembro de 2007


O sol deixa na queda
Um céu de panos roxos
O chão que imita pedra.

Manhã na alma.
A tarde arde
A noite acalma.
...
(Diógenes da Cunha Lima,
in Os pássaros da memória, 1994)

[ Foto de Carlos Carvalho, in Photo Net ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2114
Rio, 6 de setembro de 2007



ENTÃO TÁ
de Ademir Antonio Bacca (RS)
[in Germina Literatura ]

Que tua boca
Diga não
Mesmo que teus olhos
Digam sim.

Que teu corpo
Diga não
Mesmo quando tua boca
Disser sim.

Que teus olhos digam não
Quando tudo em ti
Disser sim.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30c / 111)

Cien años de soledad [1967], de Gabriel García Márquez. [Madrid :] Real Academia Española ; Asociación de Academias de la Lengua Española, 2007, 610p. [] Edição comemorativa dos 40 anos da obra máxima de García Márquez, reconhecidamente uma das mais vibrantes de toda a América Latina. Com textos de Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, entre outros, além de oportuno glossário. A edição brasileira, traduzida por Eliane Zagury, traz o selo d'O Globo.

Os frutos da terra [1917], de André Gide. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1982, 200p. [] Poeticamente: "Que a importância esteja em teu olhar, não na coisa olhada" (p.18). E mais: "Todo ser é capaz de nudez; toda emoção, de plenitude" (p.20); "O sábio é quem com tudo se espanta" (p.26); "Surdem da terra mais nascentes do que as sedes que temos de beber" (p.99). Completa a edição Os novos frutos, de 1935.

Prosa do observatório, texto & fotos de Julio Cortazar. Trad. Davi Arrigucci Júnior. São Paulo : Perspectiva, 1974, 82p. [] "Cortázar revém, reinventado, reinventando: sinuoso, elástico, irônico, erótico, revolucionário: enguias, estrelas, estrias nos açudes celestes em que a perseguição persiste com a proposição de um novo perscrutar: metáforico, metafísico, féerico, fálico, telescópico: abarcante desejo cósmico de abraçar num só ato tudo de uma vez" (DAJr.)

A poética de Maiakóvski, de Boris Schnaiderman. São Paulo : Perspectiva, 1971, 300p. [] Ensaios, ensaios: para uma arte revolucionária da civilização industrial. Maiakóvski, a tradição e a modernidade. A poesia, a prosa e o "texto" como experiência. Poética e vida, vida e poética. Seleção de artigos & documentos, entre os quais Como fazer versos, de 1926: "A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção" (p.201).

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Nossos desejos já atravessaram muitos mundos;
Nunca se fartaram.
E a natureza inteira se atormenta
Entre a sede de repouso e a sede de volúpia.
(André GIDE. Os frutos da terra, p.77)