sábado, 31 de maio de 2008

Eis-me aqui em praça pública, em Natal/2007,
reconstruindo os 40 anos do poema/processo

BALAIO PORRETA 1986

n. 2328

Natal, 31 de maio de 2008

Todo escritor faz preceder à construção de sua obra um modelo teórico. ... Nesses termos, todo escritor é também um teórico da literatura, visto que ele é obrigado a fazer opções, a cada momento, entre inúmeros recursos possíveis, para dar um fecho a seu trabalho. (Nelson Patriota)

DUAS PERGUNTAS, ENTRE OUTRAS,

DE LÍVIO OLIVEIRA PARA ANTONIO CARLOS SECCHIN:

[P] Traduzir é mesmo trair? [R] Sim, mas há traições maravilhosas. [P] O que deve fazer um jovem que busca ser escritor? [R] Ler o máximo, escrever o mínimo. [cf. Substantivo Plural ]

POR FALAR EM TRADUÇÕES E TRAIÇÕES, recomendamos a Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses (Natal : EDUFRN, 2008, 176p., organizada por Nelson Patriota. Entre os traduzidos/tradutores, com maior ou menor intensidade poética, figuram Derek Walcott/Carlos de Souza, Robert Herrick/Carmen Vasconcelos, Rosalía de Castro/Diva Cunha, Góngora/Francisco Ivan, Paul Valéry/Iracema Macedo, Jorge Luis Borges/Jarbas Martins, Edgar Allan Poe/Luís Carlos Guimarães, César Vallejo/Lívio Oliveira, Walt Whitman/Luís da Câmara Cascudo, Baudelaire-Rimbaud/Marcos Silva, John Donne/Nei Leandro de Castro, Robert Frost/Nelson Patriota, Edwin Arlington Robinson/Paulo de Tarso Correia de Melo. Em tempo: trata-se de uma edição bilingüe.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A Ponta do Morcego,
que divide a Praia do Meio de Areia Preta,
em Natal,
em provável foto dos anos 20 do século passado
(Acervo: José Farias Castro)
BALAIO PORRETA 1986
n. 2327
Natal, 30 de maio de 2008
... em Natal eu sou o único pecador pecador profissional. Os outros são amadores. (Luís da Câmara Cascudo /ou Cascudinho, para os boêmios da cidade/)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Barra de Tabatinga,
ao sul de Natal
Foto de
Helder Lima Freire

BALAIO PORRETA 1986

n. 2326

Natal, 29 de junho de 2008

Há luz e sombra no ano de 1968. ... Há leveza e esperança, mas também solidão e desespero. (Pablo Capistrano)

terça-feira, 27 de maio de 2008

A Igreja do Galo e o Convento de Santo Antônio,
no centro de Natal
Foto
de
BALAIO PORRETA 1986
nº 2325
Natal, 27 de maio de 2008
Eu fui louca o suficiente para construir castelos. E fui santa o bastante para destruí-los. (Jeanne Araújo)
UMA PEQUENA HISTÓRIA COM ARIANO SUASSUNA
O relato a seguir foi "costurado", oralmente, como palestrante, pelo escritor paulista Ignácio de Loyla Brandão, no ENE 2006, em Natal:
"... nas última Jornada de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, o Ariano Suassuna foi chamado para receber um título de Doutor Honoris Causa e ele deu uma aula-magna. Claro, uma aula-magna à moda do Ariano, que é uma pessoa de vasta cultura e vasto humor e vasto mau humor e tudo. Mas fascinante. E Ariano estava falando exatamente dessas pessoas com nomes às vezes complicados e que nos deixam suando nas noites de autógrafos, porque você não sabe bem como se chamam e pensa que não ouviu.
Ele estava na mesa [depois da aula], estava sentado, e a fila vinha vindo, e ele escrevendo. Aí veio o primeiro e falou o nome: Roulrouldrown. 'Como, meu filho?' Roulrouldrown. 'Soletra, por favor'. O cara soletrou, ele escreveu. Veio o segundo: Roultronn. 'Por favor, soletra'. O cara soletrou e aí Ariano ouviu alguém, para o terceiro, atrás na fila: 'Chegando lá, soletra o nome porque o homem é analfabeto'. O cara chegou e disse: 'O meu nome é Hugo - H, U, G, O'. Ariano escreveu."
[in Vozes e reflexões; Anais do I ENE, p.299]

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Solar do Ferreiro Torto,
em Macaíba (RN),
nas proximidades de Natal
Foto de
AG Sued
in
BALAIO PORRETA 1986
nº 2324
Natal, 26 de maio de 2008
Utopias e distopias, além de nos forçar a construir mundos diferentes, nos ajudam muito mais a enxergar aquele em que vivemos com outros olhos. E isso não é nenhuma novidade. (Alex de Souza)
A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
Livros fundamentais do Rio Grande do Norte (3)
Província submersa [1957], de Octacílio Alecrim. /Brasília :/ Instituto Pró-Memória de Macaíba/RN ; Senado Federal, 2008. 280p. [] O macaibense Octacílio Alecrim (1906-1968), no período 1948-1955, despontou como um dos maiores conhecedores da obra de Marcel Proust no Brasil. Neste sentido, ao que tudo indica, seus estudos Museu de literatura proustiana (1948), Proust e a província (1949), Em busca da Província perdida (1949) e Recriações da memória proustiana (1955), entre outros, devem ser reveladores. Esta segunda edição de Província submersa nos aponta para um intelectual consumado, cuja bagagem literária não se esgota no autor francês. E o livro se faz importante por vários motivos: pela recriação de sua infância, na Macaíba do início do século passado; pela releitura dos costumes da época; pelo levantamento de autores e pensadores que formavam, então, um insuspeito "museu imaginário da literatura brasileira e mundial" que se consumia no Estado. Acrescente-se, contudo, que boa parte desse hipotético "museu" foi modelado por sua larga vivência no Recife e, particularmente, no Rio de Janeiro. Mas, não importa; aqui, como em outros textos, o amor intelectual à terra e à cultura potiguares é mais do que evidente, a partir de um filtro proustiano de recordações & relembranças. Haja vista o seu final, reportando-se a uma infância/juventude "cheia de brinquedos típicos, de pretextos folclóricos e de costumes locais, e afetivo campo de experiência de minhas primeiras miudezas literárias, filosóficas e artísticas, através dos livros dos outros" (p.268): "Eis porque os verdadeiros personagens de Província submersa são a Memória, a Terra, os Episódios, as Idéias, os Escritores e os Livros" (p.268). Além do mais, nada mais exemplar do que a epígrafe da presente obra: "Un paradis perdu est toujours, quand on veut, un paradis reconquis" (Renan, Souvenirs), uma epígrafe que, por sinal, poderia ter a assinatura do mestre Proust. Enfim, estamos diante de um livro capital para a história das formações literárias do Rio Grande do Norte, dentro da vertente memorialística.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Av. Deodoro (e a Rua Açu), em Natal,
com destaque para o prédio rosado
do Cinema Rio Grande, inaugurado
no final dos anos 40 e hoje,
infelizmente, desativado.
A Rua Mossoró (cf. texto de Carito)
é paralela à Rua Açu.
Ambas começam na Dedoro e
terminam na "Rua da Pista".

Foto:
Julião Thadeu


BALAIO PORRETA 1986
nº 2323
Rio, 23 de maio de 2008


A poesia é a teoria os homens e a prática dos deuses.
(Murilo Mendes)


MINHA RUA
Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

Quando sinto falta das manhãs vou até minha antiga rua. Na rua da minha infância as manhãs estão bem guardadas e são para sempre. Há algo mágico no ar que vai mais além das novas casas agora comerciais ou das velhas casas residenciais agora reformadas com muros altos e grades.

Minha rua é ainda para mim sem grades e com a mangueira da casa de Dona Zefinha, o jambeiro da casa de Dona Geralda, a palmeira na casa de Seu Manel, a goiabeira na casa de Dona Sílvia, o pé de cajá-manga na casa de Seu Zé Lima. Todas essas árvores continuam lá, mesmo que algumas dessas árvores tenham sido cortadas. Os personagens continuam vivos. Mesmo os que já se foram.

Há um vento na minha rua que continua soprando do mesmo jeito. Levantando as folhas das árvores no chão. Há sombra na minha rua. Há o sol das manhãs. Há a siesta da tarde na quietude da rua escondida, oásis perdido por entre avenidas ao redor. Há a chuva nas bicas e gostosos banhos cinematográficos. Para mim a Rua Mossoró ao lado continua de terra e quando alaga ainda espero com meus irmãos e nossos amiguinhos os carros passarem para que criem ondas para nossas pranchas.

Estou louco que chegue julho quando entrarei de férias e poderei sentir melhor as manhãs. Meus pais irão viajar e receberei cartões postais. Eunice vai cuidar da gente. Vamos fazer cooper bem cedo com nosso avô na praia do Forte. Estou louco também que eu chegue logo na adolescência porque poderei ir a pé até a praia dos Artistas para ver a galera pegar onda. Milton Nascimento pode estar lá. É só estalar. E eu estou de novo na minha rua, esquina de tantas lembranças, pensamentos cheios de tanta luz. "Vale mais a força do pensamento". Continuo lá. Continuo indo para a casa de Délio pegar discos emprestados todos os dias e ler suas poesias. Luís Emílio continua tomando caldo de cana em cima do muro com sua namorada. Seu Zé Lima continua com seu admirável Simca Esplanada entrando na rua buzinando com as suas calças lá em cima.

Amanhã é feriado e vou passar o dia na minha rua adormecendo o tempo. Vou logo cedo, bem cedinho, para aproveitar a manhã, "pois na força da manhã posso ser muito valente, pra vencer o espaço e me achar"...


Frasqueirão, em Natal
Foto de Ronaldo Vieira

ABC x CORÍNTHIANS

Ainda em estado de graça, depois da épica vitória tricolor no Maraca,
viajarei para Natal, hoje à noite (mas voltarei para ver Flu x Boca!).
E já amanhã, mais uma vez, ao lado da torcida abecedista,
marcarei presença no simpático e charmoso Frasqueirão.
Torcendo pelo ABC, na segundona, contra o Corínthians.


RECOMENDAMOS

a leitura da crônica Um senhor jogo, do rubro-negro Eduardo Goldenberg, no Buteco do Edu, um dos mais cariocas entre os nossos blogues tipicamente cariocas. Lá pra tantas, escreve Edu: "Vi um Fluminense rodrigueano, ontem, definitivamente. Um Fluminense trágico, um Fluminense mágico ... um Fluminense fadado à vitória mais doída, condenado à vitória que mata ...". Aliás, o Buteco do Edu merece ser lido sempre, por todos aqueles que amam um bom papo de butequim.

quinta-feira, 22 de maio de 2008


Ontem, no Maracanã,
a homenagem da torcida do Fluminense
ao mestre Cartola,
um dos patrimônios históricos da nação tricolor.
Como patrimônio é Nelson Rodrigues,
é Barbosa Lima Sobrinho,
é Sérgio Porto,
é Mário Lago,
é Tom Jobim.
Entre outros.
Entre muitos outros.

Foto:
O Dia


BALAIO PORRETA 1986
n° 2322
Rio, 22 de maio 2008


O gol é o orgasmo do futebol.
(Torcedor das arquibancdas em todo o Brasil).

A festa da torcida tricolor,
ontem à noite

Foto:
Yahoo


UMA SANTA E DOCE VITÓRIA

Santa, doce e heróica vitória. Ao lado de milhares de tricolores, no Maracanã, vibrei como nunca. Vibrei, vibramos. Jogo findo, nas arquibancadas, durante quase 20 minutos, abraçávamo-nos, cantávamos, dançávamos, gritávamos, pulávamos, chorávamos de felicidade - verdadeiramente enlouquecidos. Não era a comemoração de um título. Não sei sequer se seremos campeões. Mas estava escrito que era a comemoração de um triunfo que muitos - sobretudo boa parte da imprensa esportiva - consideravam impossível. Não foi uma vitória qualquer; foi uma vitória da força da torcida e da determinação do time. Santa, doce e heróica vitória, como poderia dizer Nelson Rodrigues, acrescentando: "Estava escrito, há seis mil anos, que, numa noite de maio de 2008, o Fluminense venceria o São Paulo por 3 a 1". Diante de uma emoção ímpar, ou quase, o Balaio abre espaço para a minha alegria. Uma alegria contagiante. Quem ama o futebol e freqüenta os estádios - mesmo que não seja tricolor - sabe o significado de uma vitória épica.

quarta-feira, 21 de maio de 2008



Lisboa que te quero Lisboa
em fotos
de
Luís Rodrigues
e
Talavan


BALAIO PORRETA 1986
nº 2321
Rio, 21 de maio de 2008


O que fascina no futebol é o jogo de paixões. Ninguém é lúcido, ninguém é sóbrio. O sentimento clubístico sobe à cabeça na mais generosa embriaguez.
(Nelson Rodrigues)


DOIS POEMAS
de
Adília Lopes,
poeta portuguesa nascida em Lisboa, em 1960
[ in Alguma Poesia ]

METEOROLÓGICA
para o José Bernardino

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

[NÃO GOSTO TANTO]

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.

[Do livro Florbela Espanca espanca, 1999]


MARACA MARACANÃ

Hoje à noite estarei ao lado de 80 mil torcedores apaixonados.
Vencendo ou perdendo, unidos pelo mesmo amor eterno.

terça-feira, 20 de maio de 2008


Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho
(Tijuca, Rio),
construída em 1625
Foto de
Reynaldo Monteiro
in Olhares


RECOLHIMENTO
Lisbeth Lima
[ in Flor de Craibeira ]

Quando entro numa igreja,
uma igreja entra em mim.
[Originalmente publicado in Dormência, 2002]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2320
Rio, 20 de maio de 2008


Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter;
ter deve ser a pior maneira de gostar.
(José Saramago)


DOIS SENTIDOS
Vais
[ in Uma Conta Um Conto ]

minhas mãos se ocupam de outros afazeres
e os olhos continuam vendo e lendo


POEMA de
Moacy Cirne

os segredos da tua alegria
poderão ser lambidos
em poemas
de muitas noites
e ventanias?
os mistérios de teu olhar
serão intangíveis
como pássaros
embriagados de abismos
e oceanos?
na viagem
que se faz vida
e linguagem
não há respostas possíveis

só distâncias impossíveis.

(2001)


RECOMENDAMOS
a leitura do poema Ananás,
de Carlos Gurgel (Natal, RN),
in On The É,
cujos versos iniciais são:
n'algum lugar
entre
novilhos e matilhas
reside o desdém

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Metaplagiando Milton Ribeiro
PORQUE HOJE É SEGUNDA,
a beleza de
Scarlett Johansson

Imagens extraídas de
E Deus Criou a Mulher


BALAIO PORRETA 1986
n° 2319
Rio, 19 de maio de 2008


As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro
e as mulheres que têm passado.
(Oscar Wilde)


SAGRAÇÃO DO VERÃO
Luís Carlos Guimarães
[ in A lua no espelho. Natal, 1993 ]

De repente a mulher desabrochou nua
saindo do mar, pois a água não a vestia,
antes a desnudava, fazendo a sua
nudez mais nua à dura luz que afia
seu gume no sol da manhã que inaugura
o verão. Dezembro só luz reverbera
em seu corpo, doura-lhe as coxas, fulgura
nas ancas, no dorso ondulado de fera.
Fera que guarda no ventre uma colmeia
com a flor em brasa do sexo que ateia
fogo ao meu desejo e tanto me consome
a vulva, gruta, rosa de pêlos - que nome
tenha - que desfaleço como se em sangue
me esvaísse morrendo de amor. Exangue.


UFF: Memória Departamental 1985
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Niterói, GCO, em 18.11.85

JE VOUS SALUE, LIBERTÉ

Os professores e alunos de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense e de seu Curso de Cinema, em Reunião Departamental, resolvem denunciar a postura reacionária de certas pessoas da área religiosa que têm estimulado o veto, em território nacional, do filme Je vous salue, Marie, do cineasta francês Jean-Luc Godard.

Nós, do Departamento de Comunicação Social e do Curso de Cinema, repudiamos o fato em si pelo que ele encerra de censura e obscurantismo. E outra não poderia ser a nossa posição, comunicadores sociais que somos.

Não queremos discutir aqui a importância de Godard para a história do cinema europeu e/ou mundial. Para muitos, estamos diante de uma obra da maior significação e da maior dimensão, gostemos ou não de seus filmes, gostemos ou não de suas propostas.

Queremos discutir - e questionar - o primado da censura sobre a arte, que se manifesta de maneira tão retrógrada no presente episódio. Sabemos o que vem a ser para um país a censura à imprensa, à música, ao teatro, às artes, ao cinema, e assim por diante. Pois, em última instância, a censura é um atentado contra a dignidade e a inteligência do Homem.

Queremos também questionar o poder da Igreja Católica, ou de seus representantes legais, que se arvora de Censora-Mor da sociedade brasileira. Que poder é este, que não leva em consideração a diversidade de opiniões religiosas, morais e estéticas? Que poder é este, que pretende assumir a censura de forma tão descarada? Que poder é este, que se revela tão insensível à liberdade de expressão?

Não, não podemos ficar calados. Não, não podemos aceitar que um Governo [o de José Sarney] que pretende ser democrático e soberano possa compactuar com tal absurdo, próprio dos fascismos e das intolerâncias.

O possível veto ao filme de Godard - ou a qualquer outra manifestação artística, nacional ou estrangeira -, se se concretizar, será o veto da ignorância. E do terror cultural.

Moacy Cirne
Chefia GCO [IACS]

Nota 2008:
Infelizmente, o veto se concretizou, como sabemos. Em 1986, numa sessão-protesto, promovemos no pátio do IACS uma exibição pública, em vídeo, do filme de Jean-Luc Godard.

domingo, 18 de maio de 2008


Meu caro desconhecido da Copacabana boliviana,
o que afinal fizestes com a doce María?
Aliás, quem é María?
Conheço virtualmente uma
Maria Maria curraisnovense,
mas, decerto, trata-se de outra.
Também será uma bela Maria poeta?
Ou será uma cangaceira como Maria Bonita?
Ou, então, simplesmente, será uma Maria Joana?
Mas, sejas homem, não te escondas!
[ Clique aqui para ver de onde "pesquei" a foto ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2318
Rio, 18 de maio de 2008


Percebe-se a solidão que tem as pequenas cidades.
E nesses dias em que os mortos andam pelas ruas,
com trépidas conversas, o reencontro
com alguns fantasmas é inevitável.
(Jeanne Araújo)


A OUTRA FACE
Márcia Maia
[ in Tábua de Marés ]

se o fogo fere o amor
a alma e o corpo

o corpo ainda assim vez
por outra regozija

a mágoa ata

e o ódio nada é que o amor
visto do avesso do espelho


MEU CORAÇÃO ESCONDE
Carmen Vasconcelos
[ in Chuva ácida. Natal, 2000 ]

Meu coração esconde,
a palavra escapa,
a palavra que preciso cuspir.

Mas não é porque me cobre
a túnica do silêncio,
que estarei despida de poesia
ou perecerá,
sobre o branco impecável desta página,
o meu reflexo.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

A cultura brasileira [1943], de Fernando Azevedo. São Paulo : Melhoramentos, 1964, 804p. [Livro adquirido em Natal, na Universitária, em 64-65] Sim, é verdade, Fernando Azevedo é um conservador. Mas o seu panorama da realidade cultural brasileira, sob o Estado Novo, é no mínimo interessante. "O tom geral da obra é otimista, equilibrado, incorporando em sua concepção de cultura as manifestações dos vários campos do saber e, nesses campos, as diversas tendências. Não há antagonismos aparentes entre as várias 'escolas' apresentadas. A plasticidade do conceito de cultura empregado garante a harmonia entre as diferentes posições" (Carlos Guilherme Mota, in Ideologia da cultura brasileira, p.75). Como, de resto, em outros dois grandes e brilhantes conservadores: Gilberto Freyre e Luís da Câmara Cascudo. O painel ensaístico-historiográfico compreendido por F. de Azevedo abrange o trabalho urbano, as formações urbanas, a vida intelectual, as profissões liberais, a cultura científica, a cultura artística, e assim por diante. Pode causar estranheza (conceitual, ideológica, histórica) em alguns momentos, mas, sem dúvida, é um livro importante. Mesmo quando dele discordamos.


RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE

A chinesa (1967), de Godard, amanhã na Maison, às 18hs.
Em homenagem ao Maio Francês.

sábado, 17 de maio de 2008


Cenas cômicas, músicas carnavalescas:
assim era a chanchada.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2317
Rio, 17 de maio de 2008


Há quem diga que a escultura já existe,
adormecida, na pedra bruta.

Será que com os sentimentos é assim?
(Sheyla Azevedo)


CADA PALMO DESSE CHÃO
Beth Almeida
[ in Ponto Gê ]

aqui começa o caminho

das 14 estações

dessa mina profunda

do diabo que me carrega


a agonia de um gigante

a falta de atitude

dos anjos que me adormecem

e não sabem de cor e de dor


a mesma mão que padece

desenha entre cochilos e grafites

as sucatas e armadilhas

da minha província interna


em retinas náufragas de vodca

há o mesmo negro da sede

a gritar que o preço da liberdade

é a ressaca de desejos remotos




DIVAGAÇÕES & PROVOCAÇÕES


Cinema, literatura, teatro e quadrinhos - artes narrativas por excelência - têm seus códigos próprios a partir de materiais e procedimentos semióticos diferentes. Uma frase como "grande literatura raramente é traduzida em grande cinema" (Amir Labaki, in FSP, cf. Substantivo Plural), para mim, não quer dizer nada; é mais vazia do que um livro de Jô Soares. Aliás, em se tratando do tema e do citado Substantivo Plural, vale a pena ler o artigo de seu editor Tácito Costa: Cinema e literatura - Diálogo de vozes e sombras [em Artigos].


Nos 50 e 60, em maior ou menor grau, todos nós condenávamos a chanchada. A partir dos 80, basicamente, começou um necessário - e justo - processo de revisão histórica. Desde então, a situação mudou: não seria a chanchada uma das principais matrizes temáticas e formais do cinema brasileiro? É preciso rever com atenção filmes como Nem Sansão, nem Dalila ou O homem do Sputinik. Ou, por exemplo, Aviso ao navegantes. Ou, ainda, Carnaval Atlântida e Matar ou correr. Oscarito, Grande Otelo, Carlos Manga e os estúdios da Atlântida são nomes que, entre outros, não podem ser esquecidos. Uma boa chanchada vale mais do que Os dez mandamentos (lembram-se de Charlton Heston?), O cangaceiro ou Titanic, juntos. Uma questão, contudo, se impõe: o que fazer com as revisões que podem incomodar muita gente boa? A rigor, nada, já que elas - com o tempo - se tornam imperiosas, mesmo quando contrariam nossos canônes estéticos.



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Livros que me marcaram nos anos 70

- e ainda me marcam (2)


A psicanálise do fogo [1938], de Gaston Bachelard. Trad. Maria Isabel Braga. Lisboa ; Estúdios Cor, 194p.


"O fogo é íntimo e universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e oferece-se como o amor. Volta a tornar-se matéria e oculta-se, latente, contido, como o ódio e a vingança" (p.21).


"O sonho caminha linearmente, esquecendo o percurso na corrida. O devaneio expande-se em estrela" (p.34).


"O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade" (p.36-37).

"O sonho é mais forte do que a experiência" (p.43).

"Só se pode estudar aquilo que se sonhou primeiro. A ciência começa mais com um devaneio do que com uma experiência, e são /necessárias/ muitas experiências para afastar todas as brumas do sonho" (p.48).

"O amor não é mais do que um fogo que se transmite. O fogo é um amor que se descobre" (p.52).

"O calor é um bem, uma possessão. Deve guardar-se ciosamente e só o conceder a um ser eleito que mereça uma comunhão, uma fusão recíproca" (p.75).

"Depois do desejo, é preciso que a forma se concretize, é preciso que o fogo acabe e se cumpram os destinos. Neste sentido, o alquimista e o poeta interrompem e apagam o jogo ardente da luz" (p.99).

"Com o fogo tudo se modifica. Quando queremos que tudo se modifique apelamos para o fogo" (p.103).

"... as idéias antigas desafiam as idades; regressam sempre em devaneios mais ou menos científicos com a sua parte de ingenuidade primitiva" (p.119).

"... um espírito poético é pura e simplesmente uma sintaxe das metáforas" (p.187).

sexta-feira, 16 de maio de 2008


Pelos caminhos da Paraíba:
Bananeiras

Foto de
Joca Soares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2316
Rio, 16 de maio de 2008


Pobre México, tão longe de Deus
e tão perto dos Estados Unidos.

(Porfírio Diaz)


VAMOS BEBER À TARDE?
José Nêumanne Pinto (PB)
[ in Jornal de Poesia ]

Nada como uma sinfonia de Beethoven,
um lápis, um papel, um copo, uma tarde.
Beije nos lábios o sonho
e deixe-o passar assim dormente.

Sopre no ouvido o espanto
e deixe-o viver assim dolente.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
Livros que me marcaram nos anos 70
- e ainda me marcam (1)

Para uma teoria da produção literária [1966], de Pierre Macherey. Trad. Ana Maria Alves. Lisboa : Estampa, 1971, 296p.

"Conhecer não é ... encontrar ou reconstituir um sentido latente, esquecido ou oculto. É constituir um conhecimento novo, ou seja, um conhecimento que acrescenta à realidade de que parte e de que fala algo de diferente" (p.11).

"A linguagem do escritor é uma linguagem nova, não pela sua forma material de existência, mas pela sua utilização" (p.57).

"... em última análise, todas as literaturas são de inspiração barroca" (p.63).

"A necessidade da obra baseia-se na multiplicidade dos seus sentidos ..." (p.77).

"... estudar uma obra literária é procurar relacioná-la com duas realidades: o momento histórico e a ideologia desse momento" (p.112).

"Criticar é ainda escrever, visto que, no fundo, escrever é ler" (p.136).

[Sobre Jules Verne:] "O imaginário é o real tal como o futuro é o presente" (p.167).

"Borges preocupa-se, essencialmente, com os problemas da narração: ... Propõe-nos, assim, uma teoria fictícia da narrativa" (p.239),


RECOMENDAMOS
a leitura do artigo Recado à morena Marina,
in Sopão do Tião.


No blogue do POEMA/PROCESSO:
Mulheres Mulheres Mulheres.

quinta-feira, 15 de maio de 2008


Praça Tetê Salustino,
em Currais Novos,
no Seridó Potiguar

Foto de
Franco Mathson


BALAIO PORRETA 1986
n° 2315
Rio, 15 de maio de 2008


Currais Novos! Quê mais dizer?! Queimava-me a língua em meu ócio da cidade, de interior jardim entre boninas e os lírios que sopram o perfume de uma alma íntima.
(Francisco Ivan)


UMA PALAVRA/ PEDRA
Theo G. Alves (Currais Novos, RN)
[ in Museu de Tudo ]

despida
entre aspas
a bruteza
de sua anatomia
me comove

crua
e pétrea
sua musculatura
e espinha
me enternecem

grossa
tessitura de pele
densa
pluma metálica
me toca

seu/ meu
o corpo rígido
o ventre mineral
da palavra
pedra


PONTO FINAL
Maria Maria (Currais Novos, RN)
[ in Espartilho de Eme ]

Hoje não me interessa pensar,
nem mesmo pescar algum boto.

Não me interessam as suas agruras,
os seus desconsolos ou soluços
roucos.

Chega de tanta mentira,
o meu choro já me basta.
Eu já me basto.


POEMA de
Wescley J. Gama (Currais Novos, RN)
[ in A Taberna ]

beberemos da água desse barreiro
com mechas de lua e sargaços
e sairemos, à noite,
entre as árvores, a cantar

(com a força das folhas que estiverem vivas)

quarta-feira, 14 de maio de 2008


Cidades potiguares:
Carnaúba dos Dantas,
na região do Seridó,
em foto de
Iran Medeiros
in
blogue de João Quintino


BALAIO PORRETA 1986
n° 2314
Rio, 14 de maio de 2008


Quem vive sem loucura
não é tão sensato quanto imagina.
(La Rochefoucauld)


TEXTOPOEMA
de Mario Cezar
[ in Tramela ]

adiante-se. nenhum orvalho atrapalha.


CONFISSÃO
Volonté
[ in Proemas. Natal, 2004 ]

Há alguns anos atrás
achava-me um dândi
hoje sou o começo da
metáfora


Repeteco
UM DIÁLOGO

por GEORGES BOURDUKAN

Dois burros conversavam quando um perguntou ao outro:
- Imagina você que quando um humano quer ofender outro humano o acusa de burro. Por que será?
- Não tenho a mínima idéia.
- Quando será que isso começou?
- E quem sabe?
- Realmente é estranho isso... Humano chamar outro de burro como ofensa.
- Talvez porque chamá-lo de humano fosse ofensa maior.
- Você acha?
- Claro! Você já viu algum burro explorar outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro oprimindo outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro abandonar a cria?
- Não.
- Você já viu algum burro sem teto?
- Não.
- Você já viu algum burro sem terra?
- Não.
- Você já viu algum burro torturando outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro declarando guerra a outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro invadindo o país de outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro matando ou morrendo em nome de Deus?
- Não.
- Então, qual ofensa é maior, chamar de burro ou de humano?

[ in Caros Amigos. São Paulo, nº 106, janeiro 2006, p.33 ]


RELENDO A LITERATURA POTIGUAR

As quatro margens do rio,
de Giovanni Sérgio & Angeles Laporta.
Natal: PROFINC, 1997, 152p.

Potengi que te quero Potengi, poemas que se fazem poesia, devaneio e imagem, fotos que nos fazem sonhar e sonhar: a plasticidade que, lírica e amorosamente, envolve a imaginação delirante de leitores & leitoras sensíveis. Potengi (dos meus amores) que se cristaliza como um Rio Grande, o nosso Rio Grande do Norte, o nosso Rio Grande do Nordeste, ao som de Carlos Zens, ao som de Mirabô Dantas, ao som de K-Ximbinho, ao som de Urbano Medeiros, ao som do pernambucano Luiz Gonzaga, um dos gênios maiores da música brasileira. Potengi (dos meus pecados) que se abisma diante dos versos de Luís Carlos Guimarães: "O rio se nutre/ de nuvens. Da/ nascente à foz/ sulca o pulso da// terra, semovente". Ou que se encontra com a magia de Newton Navarro: "A noite caminha com pés de/ água, sobre o dorso do rio". Ou, ainda, que se revela por inteiro na poesia de Diva Cunha: "Esse rio/ que atravessa séculos/ não é Grande, nem Pequeno/ apenas potengi no nome/ que lhe tiraram/ das águas os índios". Enfim, as quatro margens da fotografia e dos iluminamentos poéticos. Que revelam as várias margens do Potengi (dos meus alumbramentos), com sua história e seus mistérios. E seus encantolamentos.

terça-feira, 13 de maio de 2008



O Viaduto do Chá e o
centro comercial de
São Paulo
na segunda metade dos anos 30

Fotos de Claude Lévi-Strauss

(in Saudades do Brasil, cf. Via Política)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2313
Rio, 13 de maio de 2008


"Mulher não tem idade. A idade da mulher é moldada pelo carinho do homem"
(Luís da Câmara Cascudo)


AS PEDRAS TAMBÉM CANTAM
Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

Sou pedra bruta
que se machuca
nas arrebentações
das líquidas paixões

Sou pedra dura
que perdura,
quebra-mar
que de tanto a(mar)
aprendeu a cantar


POEMA
Romário Gomes
[ in Cacos ]

O Seridó
é verdecinza
geografia
do meu poema
um nome
um sertão particular


QUANDO ME DEITAS
Jeanne Araújo

Quando me deitas
vais abrindo meus caminhos lentamente
tocando os vãos, desvãos inacabados,
cheios de silêncios mórbidos.
Teu olhar me suga, vertiginosamente,
enquanto murmuras águas marinhas,
algas e um tanto de sal.
Pareces pequeno.
No entanto, consegues envolver-me
despojada e extrema
no teu peito vasto.

Quando me deitas
e percorres lentamente meus caminhos,
minhas flores se entregam nesse claustro
de anseios e sussurros.
E as tuas palavras, as mais doces,
vão queimando os muros,
lençóis e o pequeno quarto.
Pareces pequeno.
No entanto, abranges inocente,
todos os meus cantos e recantos.
E tudo é gozo de tanto tempo.
E tudo é cio e umidade.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Anthropologie structurale, de Claude Lévi-Strauss. Paris : Plon, 1958, 452p. [Exemplar adquirido na Leonardo Da Vinci, Rio, em 1967. Há edição brasileira] Uma das "bíblias" da antropologia contemporânea, leitura obrigatória para aqueles que pensavam o mundo - e suas representações mitológicas - nos anos 60, a partir de fenômenos culturais moldados pela história e pela etnologia. O Autor de Tristes trópicos (1955) e O pensamento selvagem (1962), obras igualmente fundamentais, ao estudar, por exemplo, a relação magia/religião (p.183-266), marcou época no interior de uma biblioteca básica que inclui nomes como Franz Boas, A. M. Hocart, A. L. Kroeber, B. Malinowski, M. Mauss, A. R. Radcliffe-Brown e outros.

segunda-feira, 12 de maio de 2008


MulherPoema
a partir
de
foto
de
Amanda Com
in
Olhares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2312
Rio, 12 de maio de 2008



A MULHER LIBERTA
Nei Leandro de Castro

A mulher liberta se deixa prender na cama
E se faz escrava do homem a quem ama.
Pés e mãos atados, ela é livre, leve, louca
E usa como nunca o sexo, as mãos, a boca
Para prender o macho no seu corpo nu.
A mulher liberta libera tudo, mesmo o cu
- Não importa se seja virgem, apertadinho -
Para ser penetrado com doçura
, com carinho,
Para o gozo e o prazer, gozo do amante

Que não lhe dá sossego um só instante.

A mulher liberta goza de todo jeito:

Pela frente, por trás, na boca, nos peitos,

Desde que o sexo, a pica do seu amor

Faça o que ela quiser, seja onde for.


PÊSSEGO A 40º
por
Fugu F
[ in Fruit de la Passion, desativado ]

Daqui a pouco chega o tempo quente dos figos e pêssegos, das frutas que se abrem e oferecem. Com os figos é fácil. Só de olhar e tocar com a ponta dos dedos, já sei se estão bons, já adivinho o que prometem - e cumprem.

Mas os pêssegos são maliciosos. Expostos nas barracas, sob 35º de sol, me chamam de longe, pelo cheiro. Arrepiam a penugem quando os toco. Exibem rosados promissores sob a luz forte da rua. No entanto, só ao cravar-lhe os dentes posso saber se cumprem o que insinuam.

Minha boceta tem alma de pêssego, mas Fugu tem o condão de transformá-la em figo bíblico. Quando, depois de me abrir em gozo tantas vezes, atendo a seu olhar insistente e mergulho meus dedos entre as pernas, o que encontro me surpreende.
Um calor de feira livre, um defazer-se de lábios em gomos firmes, uma profusão de sumos e cheiros, o grelo como uma semente nova, pronta para germinar.

Fugu faz brotar em mim uma nova fruta. Alegre, devoradora, oferecida, engole meus dedos, explode contra o indicador como uma tempestade tropical. Pernas ainda abertas, olhos ainda fechados, sinto quando ele retoma seu território.

A fruta engole o tronco de onde brota o paraíso.

E inaugura mais um verão.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Les erotiques de l'art, de Ruth Westheimer. New York ; Paris : Abbeville, 1993, 180p. [] Um belo álbum, com texto preciso, levemente amoroso, e reproduções preciosas. Uma história não-cronológica da arte através do erotismo: os gregos, os romanos, Caravaggio, Velázquez, Goya, Manet, Renoir, Degas, Courbet, Cézanne, Bonnard, Picasso, Magritte, Haring, Kosloff. E tantos outros & outras tantas, entre pinturas, esculturas, gravuras - antigas, clássicas, modernas, contemporâneas. "O plano [da obra] obedece à progressão da relação amorosa, do primeiro olhar ao repouso após o ato sexual" (os editores).

domingo, 11 de maio de 2008


Anoitecer no Potengi, em Natal,
in
Grande Ponto


BALAIO PORRETA 1986
n° 2311
Rio, 11 de maio de 2008



CONSTRUÇÃO DE MIRAGEM
Antonio Mariano (PB)
[ in Guarda-chuvas esquecidos ]

para Alfredo Bosi

Vi,
na outra margem
do rio,
uma garça
rindo
pra mim.

Em tempo,
confirmo:
menti.

Entrevi
o que sei dessa imagem
desgarçada
no imaginário,
rindo
de mim.


RETRATO
Adelaide Amorim (RJ)
[ in Inscrições ]

o dia passou veloz
trouxe a janela de maio
e uma voz antiga como a brisa

guardei o dia
no álbum dos retratos mais amados


FEIRA DE CITAÇÕES BOROGODOSAS

[] O assombro é a causa de todo descobrimento.
(Cesare Pavese, 1908-1950)

[] A vida só pode ser compreendida olhando para trás:
mas só pode ser vivida olhando para a frente.
(Soren Kierkgaard, 1813-1855)

[] O desejo é a própria essência do homem.
(Baruch de Spinoza, 1632-1677)

[] Jamais sofri uma mágoa que uma hora de leitura não tenha curado.
(Montesquieu, 1689-1755)

[] A verdade é sempe mais importante que o dogma.
(Henry Lefebvre, 1905-1991)

[] A vida necessita de pausas.
(Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987)

[] Maravilhar-se é o primero passo para o descobrimento.
(Louis Pasteur, 1822-1895)

Fonte: Palavras que iluminam, pesquisa de Leandro Sarmatz.
São Paulo: Superinteressante, s/d.

sábado, 10 de maio de 2008


Cartaz de
Era uma vez no Oeste,
de Sergio Leone


BALAIO PORRETA 1986
nº 2310
Rio, 10 de maio de 2008


DIVAGAÇÕES & PROVOCAÇÕES

No mundo do cinema, com seus mitos e suas fantasias, há faroestes que crescem com o tempo, de forma acentuada, consagrando-se como verdadeiras obras-primas. Segundo as minhas leituras crítico-afetivo-libertinárias, há que apontar, neste sentido, por ordem cronológica, os filmes My darling Clementine (Ford, 1946), Johnny Guitar (Ray, 1954), Rastros de ódio (Ford, 1956), Rio Bravo (Hawks, 1959) e Era uma vez no Oeste (Leone, 1968). Outros tendem a crescer, como Por uns dólares a mais (Leone, 1965) e Três homens em conflito (Leone, 1966). Há também aqueles clássicos que continuam clássicos inesquecíveis: No tempo das diligências (Ford, 1939), Rio Vermelho (Hawks, 1948), Matar ou morrer (Zinnemann, 1952) e O homem que matou o facínora (Ford, 1962). E há, ainda, aqueles que, a cada nova revisão, mais e mais decepcionam: Shane / Os brutos também amam (Stevens, 1953) é um deles.

Embora Charles Chaplin seja, sem dúvida, um clássico da tragicomédia - e filmes como Em busca do ouro (1925), Luzes da cidade (1931) e Tempos modernos (1936) sejam obras-primas praticamente indiscutíveis -, para mim, nos últimos 16 ou 18 anos, o nome que, nos anos 20, em se tratando de comédia, deve ser saudado como "o" grande gênio é o de Buster Keaton. Por um motivo muito simples: enquanto Chaplin investia mais no Humanismo através de suas propostas temáticas (com resultados ótimos, acrescente-se), Keaton investia mais no Cinema enquanto linguagem (haja vista Sherlock Jr. [1924], Sete amores [1925] e A General [1927], além de O homem das novidades [1928], onde teve participação decisiva como verdadeiro e "oculto" co-diretor).

Não se fazem mais críticos de cinema como José Lino Grünewald (Rio, cf. Um filme é um filme, pela Companhia das Letras, 2001), Francisco Luiz de Almeida Salles (SP, cf. Cinema e verdade, pela Companhia das Letras, 1988) e Paulo Emilio Salles Gomes (SP), ou mesmo, em tom menor, como Moniz Vianna (Rio). Vez por outra aparece um crítico interessante, claro. Mas eles são cada vez mais raros. E o que seria um bom crítico de cinema? Aquele capaz de relacionar o con/texto fílmico com a História, a Filosofia, a Poesia, a Literatura, o Social e a Estética das formas cinematográficas. Hoje, os críticos cedem lugar aos teóricos, e os temos com boa envergadura intelectual. É o caso de Ismail Xavier, em São Paulo.

Não, não vi, nem me interessei por Tropa de elite (José Padilha, 2007), embora tenha apreciado o seu filme anterior (Ônibus 174). Em compensação, vi e gostei muitíssimo de Estômago (Marcos Jorge, 2007), com João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana e Paulo Miklos. Preparo-me para ver Condor (Roberto Mader, 2007), um documentário sobre a terrível Operação Condor, quando policiais e torturadores do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Chile, nos anos 70, uniram-se contra a esquerda e a democracia da América Latina. Enquanto isso, o melhor lançamento cinematográfico do ano, até a presente data, é o emocionante Serra da Desordem (André Tonacci, 2006).


A DOR NO MUNDO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE

O Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos, situado em Copacabana - Rio, Rua Barão de Ipanema, 56 (fone: [21]2257-9454; emeio: ebep@dh.com.br), promoverá nos próximos dias 16 e 17 a Jornada A Dor no Mundo. Em discussão (16/5), as Estéticas da dor, com Lia Rodrigues e outros; os Refúgios da dor, com Eliana Schueler Reis e outros; as Escritas da dor, com Antonio Torres, Andrea Menezes Masagão e Nelma de Mello Cabral. No dia seguinte: mais debates, mais informações, mais reflexões. Como dizem seus promotores: "A dor, física ou psíquica, sempre emerge como um limite: seja o limite impreciso entre o corpo e a psique, seja entre o eu e o outro, seja entre o apaziguamento e o desamparo". Vale a pena conferir.


RECOMENDAMOS
a leitura do artigo Os caninos do vampiro
(sobre o senador José Agripino Maia, do DEMo - RN, e a ministra Dilma Rousseff),
por Fávio Aguiar, em CartaMaior.