
La Magie Noire
(1935)
de
René Magritte
BALAIO PORRETA 1986
n° 2213
Rio, 23 de janeiro de 2008
POETAS, POEMAS & POESIA
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 1470. Rio, 3/2/2002 ]
1. A partir do modernismo, são múltiplos os caminhos da poesia brasileira e todos podem ser válidos, desde que explorados com a devida competência, a devida sensibilidade, a devida honestidade literária. A partir do modernismo, tudo se tornou possível. Embora não possamos ignorar a poesia anterior, evidentemente. Como ignorar a poesia de um Gregório de Matos?
2. "Tudo vale a pena,/ se a alma não é pequena" (Fernando Pessoa). Eis uma citação que, na história literária brasileira do século XX, abre-se para a imaginação do leitor, como essa, de Oswald: "Ver com olhos livres".
3. Decerto, podemos gostar mais desse ou daquele poema, dessa ou daquela tendência, desse ou daquele poeta. Admirar em larga escala um Murilo Mendes, um João Cabral, ou um Manuel Bandeira, não quer dizer que não nos sensibilizemos diante de um Carlos Pena Filho, de um Ronaldo Werneck, de um Lau Siqueira, de um Celso Japiassu, de uma Iracema Macedo, de uma Cecília Meireles, por exemplo.
4. Gostar de poesia verbal, versificada ou não, não quer dizer que não sejamos capazes de admirar a poesia gráfica e/ou visual. Ou vice-versa. Todos os caminhos podem ser válidos, repetimos. Assim como, para um poeta oriundo da classe trabalhadora, em sendo nordestino, o cordel será um caminho natural, tão importante quanto qualquer outro.
5. Um crítico também tem as suas preferências, e como tal precisa ser respeitado. Como qualquer um de nós, eventualmente comete injustiças, ou equívocos. Se for um crítico sério, mais cedo ou mais tarde saberá reconhecê-las, saberá reconhecê-los. Se excessivamente formalista, se excessivamente acadêmico-universitário, seus possíveis erros de avaliação, em acontecendo, serão lamentáveis, mas a boa poesia a eles resistirá. Com bravura. Com tenacidade. Dependendo da situação, haverá dificuldades em se resistir, claro.
6. Contudo, não façamos da vaidade e do ressentimento os pilares de nosso quase sempre justo descontentamento com a política literária vigente entre poetas, críticos e professores de letras do país. Não caiamos na fórmula fácil do ataque gratuito, sem maior fundamentação crítica e/ou teórica.
7. Há equívocos e equívocos, certamente. Por exemplo: não podemos confundir a política literária do Grupo Noigandres da poesia concreta, danosa para o próprio poema experimental brasileiro pós-64, com a produção literária de Décio Pignatari e Augusto de Campos, que, em sendo de boa qualidade, merece ser respeitada.
8. Em poesia - conjunto de soluções formais e estruturais -, há poetas revolucionários e poetas que são mestres (cf. Ezra Pound: inventores, mestres, diluidores etc.). Mas há, sobretudo, poetas que são bons, que são significativos e há poetas que são ruins, pouco expressivos.
9. Para uns e outros, aprendamos com Gaston Bachelard: sejamos leitores felizes.
10. Aprendamos também com o filho de Oswald de Andrade: "poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi". Afinal, poesia é vida.
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 1470. Rio, 3/2/2002 ]
1. A partir do modernismo, são múltiplos os caminhos da poesia brasileira e todos podem ser válidos, desde que explorados com a devida competência, a devida sensibilidade, a devida honestidade literária. A partir do modernismo, tudo se tornou possível. Embora não possamos ignorar a poesia anterior, evidentemente. Como ignorar a poesia de um Gregório de Matos?
2. "Tudo vale a pena,/ se a alma não é pequena" (Fernando Pessoa). Eis uma citação que, na história literária brasileira do século XX, abre-se para a imaginação do leitor, como essa, de Oswald: "Ver com olhos livres".
3. Decerto, podemos gostar mais desse ou daquele poema, dessa ou daquela tendência, desse ou daquele poeta. Admirar em larga escala um Murilo Mendes, um João Cabral, ou um Manuel Bandeira, não quer dizer que não nos sensibilizemos diante de um Carlos Pena Filho, de um Ronaldo Werneck, de um Lau Siqueira, de um Celso Japiassu, de uma Iracema Macedo, de uma Cecília Meireles, por exemplo.
4. Gostar de poesia verbal, versificada ou não, não quer dizer que não sejamos capazes de admirar a poesia gráfica e/ou visual. Ou vice-versa. Todos os caminhos podem ser válidos, repetimos. Assim como, para um poeta oriundo da classe trabalhadora, em sendo nordestino, o cordel será um caminho natural, tão importante quanto qualquer outro.
5. Um crítico também tem as suas preferências, e como tal precisa ser respeitado. Como qualquer um de nós, eventualmente comete injustiças, ou equívocos. Se for um crítico sério, mais cedo ou mais tarde saberá reconhecê-las, saberá reconhecê-los. Se excessivamente formalista, se excessivamente acadêmico-universitário, seus possíveis erros de avaliação, em acontecendo, serão lamentáveis, mas a boa poesia a eles resistirá. Com bravura. Com tenacidade. Dependendo da situação, haverá dificuldades em se resistir, claro.
6. Contudo, não façamos da vaidade e do ressentimento os pilares de nosso quase sempre justo descontentamento com a política literária vigente entre poetas, críticos e professores de letras do país. Não caiamos na fórmula fácil do ataque gratuito, sem maior fundamentação crítica e/ou teórica.
7. Há equívocos e equívocos, certamente. Por exemplo: não podemos confundir a política literária do Grupo Noigandres da poesia concreta, danosa para o próprio poema experimental brasileiro pós-64, com a produção literária de Décio Pignatari e Augusto de Campos, que, em sendo de boa qualidade, merece ser respeitada.
8. Em poesia - conjunto de soluções formais e estruturais -, há poetas revolucionários e poetas que são mestres (cf. Ezra Pound: inventores, mestres, diluidores etc.). Mas há, sobretudo, poetas que são bons, que são significativos e há poetas que são ruins, pouco expressivos.
9. Para uns e outros, aprendamos com Gaston Bachelard: sejamos leitores felizes.
10. Aprendamos também com o filho de Oswald de Andrade: "poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi". Afinal, poesia é vida.













