quarta-feira, 23 de janeiro de 2008


La Magie Noire
(1935)
de
René Magritte


BALAIO PORRETA 1986
n° 2213
Rio, 23 de janeiro de 2008


POETAS, POEMAS & POESIA
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 1470. Rio, 3/2/2002 ]

1. A partir do modernismo, são múltiplos os caminhos da poesia brasileira e todos podem ser válidos, desde que explorados com a devida competência, a devida sensibilidade, a devida honestidade literária. A partir do modernismo, tudo se tornou possível. Embora não possamos ignorar a poesia anterior, evidentemente. Como ignorar a poesia de um Gregório de Matos?

2. "Tudo vale a pena,/ se a alma não é pequena" (Fernando Pessoa). Eis uma citação que, na história literária brasileira do século XX, abre-se para a imaginação do leitor, como essa, de Oswald: "Ver com olhos livres".

3. Decerto, podemos gostar mais desse ou daquele poema, dessa ou daquela tendência, desse ou daquele poeta. Admirar em larga escala um Murilo Mendes, um João Cabral, ou um Manuel Bandeira, não quer dizer que não nos sensibilizemos diante de um Carlos Pena Filho, de um Ronaldo Werneck, de um Lau Siqueira, de um Celso Japiassu, de uma Iracema Macedo, de uma Cecília Meireles, por exemplo.

4. Gostar de poesia verbal, versificada ou não, não quer dizer que não sejamos capazes de admirar a poesia gráfica e/ou visual. Ou vice-versa. Todos os caminhos podem ser válidos, repetimos. Assim como, para um poeta oriundo da classe trabalhadora, em sendo nordestino, o cordel será um caminho natural, tão importante quanto qualquer outro.

5. Um crítico também tem as suas preferências, e como tal precisa ser respeitado. Como qualquer um de nós, eventualmente comete injustiças, ou equívocos. Se for um crítico sério, mais cedo ou mais tarde saberá reconhecê-las, saberá reconhecê-los. Se excessivamente formalista, se excessivamente acadêmico-universitário, seus possíveis erros de avaliação, em acontecendo, serão lamentáveis, mas a boa poesia a eles resistirá. Com bravura. Com tenacidade. Dependendo da situação, haverá dificuldades em se resistir, claro.

6. Contudo, não façamos da vaidade e do ressentimento os pilares de nosso quase sempre justo descontentamento com a política literária vigente entre poetas, críticos e professores de letras do país. Não caiamos na fórmula fácil do ataque gratuito, sem maior fundamentação crítica e/ou teórica.

7. Há equívocos e equívocos, certamente. Por exemplo: não podemos confundir a política literária do Grupo Noigandres da poesia concreta, danosa para o próprio poema experimental brasileiro pós-64, com a produção literária de Décio Pignatari e Augusto de Campos, que, em sendo de boa qualidade, merece ser respeitada.

8. Em poesia - conjunto de soluções formais e estruturais -, há poetas revolucionários e poetas que são mestres (cf. Ezra Pound: inventores, mestres, diluidores etc.). Mas há, sobretudo, poetas que são bons, que são significativos e há poetas que são ruins, pouco expressivos.

9. Para uns e outros, aprendamos com Gaston Bachelard: sejamos leitores felizes.

10. Aprendamos também com o filho de Oswald de Andrade: "poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi". Afinal, poesia é vida.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008


Costurando, pintando e bordando... e dançando
com
Sandra Camurça
in
O Refúgio


BALAIO PORRETA 1986
n° 2212
Rio, 22 de janeiro de 2008


POEMA
de Armando Freitas Filho
[ in 3x4. Rio, 1985 ]

Beijo
sua boca
de
baixo.
Seus bellos cabellos
molhados.
Beijo tanto e tão
com a cara toda
enfiada e cega
sem ver nada com os olhos
mas com a língua inteira.


ESTAÇÕES
Antonio Carlos de Brito / Cacaso
[ in Beijo na boca. Rio, 1975 ]

Do corpo de meu amor
exala um cheiro bem forte.

Será a primavera nascendo?


HAI-CAI
de Cássio Amaral
[ in Enten Katsudatsu ]

todo dia me suicido
lembrando que nunca envelheço
meu preço é ser inocente



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Os escritores; as históricas entrevistas da Paris Review, por Marcos Maffei (sel.). Pref. Sérgio Augusto. São Paulo : Companhia das Letras, 1988, 328p. [] Material originalmente publicado entre 1957 e 1986. Basta ver a relação dos autores entrevistadas para se ter uma idéia do livro: William Faulkner, Georges Simenon, Ezra Pound, T.S. Eliot, William Burroughs, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Gore Vidal. E outros.Vejamos algumas das respostas, ao acaso:
"Um escritor precisa de três coisas: experiência, observação e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes até mesmo uma, podem suprir a falta das outras" (Faulkner, p.46);
"Escrever não é uma profissão, mas uma vocação de infelicidade. Não penso que um artista possa jamais ser feliz" (Simenon, p.56);
"Acho tremendamente perigoso dar conselhos gerais. Creio que o melhor que se pode fazer por um jovem poeta é criticar em detalhe um determinado poema seu. Discutir com ele, se necessário; dar-lhe uma opinião, e, se houver uma generalização a fazer, que ele mesmo a faça" (Eliot, p.99);
"A maioria das pessoas não vê o que está acontecendo à sua volta. Esta é a minha principal mensagem para os escritores. Pelo amor de Deus, mantenham seus olhos abertos" (p.143);
"... a inteligência tem pouco a ver com a poesia. A poesia brota de algo mais profundo; está além da inteligência" (Borges, p.212).
E há uma confissão deliciosa do autor argentino, sobretudo para os cinéfilos que amam os musicais americanos: Borges viu muitas vezes West side story / Amor, sublime amor, de Wise & Robbins, produzido em 1961 (cf. p.201).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008


Poema de
Paulo de Toledo
in
Poesia e outras bobagens


BALAIO PORRETA 1986
n° 2211
Rio, 21 de janeiro de 2008



OLHO NAS PRATELEIRAS
de Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

Aparelho de barbear para peles sensíveis, pasta de dentes para dentes frágeis e gengivas delicadas...

Mas não há nada para corações sensíveis, frágeis, delicados...

Supermercado reeira.


REFLETIR
de Eliene Dantas
[ in ACCAS na Net ]

esquecer
para não esquecer
de me esquecer
o que esquecer
no meu esquecer


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Poesias completas
, de Joaquim Cardozo. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1971, 210p. [] Ainda há leitores para o poeta (pernambucano) de Signo estrelado, de 1960, Trivium, de 1970, e Mundos paralelos, igualmente de 1970. Eu sou um deles. Com seus eventuais grafismos paraconcretos, o que importa mesmo, no poeta-engenheiro Joaquim Cardozo, é a precisão lírica de seus versos. Alguns exemplos:
Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.
(Menina, p.25)
Cavalos ligeiros
De eriçadas crinas
Por que sobre as ondas
Passais sem parar?
(Espumas do mar, p.37)
Luzia, dos teus cabelos
Farei o vento da noite;
Farei as ondas serenas
De um mar por onde me afoite
Em busca da luz polar;
De tuas graças morenas,
Luzia, por que a ventura
A mim me queres negar?
(Fragmentos de uma conjectura dramática, p.83).
Veja-se, ainda, o lirismo erótico-amoroso que explode neste belo
Poema do amor sem exagero (p.26):
Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto Corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de
pérola
Do teu corpo de nuvem.

domingo, 20 de janeiro de 2008


Cartaz
in
All Posters


BALAIO PORRETA 1986
n° 2210
Rio, 20 de janeiro de 2008



POEMETO IRÔNICO
de Bruno Gaudêncio
[ in Mal Estar Imperfeito ]

Deus existe.
Mas está escondido
Na música de Bach.

O diabo existe.
Mas está escondido
Na música de Bar.


POEMA
de Tati F.
[ in Crânio e Gavetas ]

É com horror
e alegria
que percebo:

a menina no espelho
sou eu.


MAPEANDO UM PROJETO
de Romário Gomes
[ in ACCAS na Net ]

sou um poeta/processo
quando prefiro uma aurora a um crepúsculo
quando prefiro São José do Seridó a São José da Bonita

são josé (do seridó) em duas mil e sete versões
são josé (da bonita) em noventa e uma mil versões

São José
pintada de
verdeesperança
e
vermelhorevolução


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Ficção completa, poesia & ensaios, de Edgar Allan Poe. Trad. Oscar Mendes & Milton Amado. Rio de Janeiro : Aguilar, 1965, 1022p. [Volume adquirido em Natal, nos anos 60] Os contos policiais. E os contos de terror e mistérios. As viagens fantásticas e as aventuras fabulosas. Os ensaios e os poemas. Em síntese: um grande Autor, um grande Livro. Entre os contos, há obras-primas que nos parecem indiscutíveis: William Wilson, Eleonora, O retrato oval, O coração dennciador, O barril de amontilado. Há uma novela primorosa: Narrativa de Artur Gordon Pym. Há as várias traduções do poema O corvo. Há outros poemas. E há os ensaios. "A maior parte das viagens fantásticas escritas no século XVIII não são senão artifícios para descrever utopias sociais. A viagem imaginária de Poe tem uma tonalidade mais profunda, mais cósmica. Poe é um aventureiro da solidão" (Gaston BACHELARD. Le droit de rêver [1970]. Paris : PUF, 1973, p.138-9).

sábado, 19 de janeiro de 2008


Blogueando pelos sonhos virtuais da imaginação

Foto de
Haleh Bryan


BALAIO PORRETA 1986
n° 2209
Rio, 19 de janeiro de 2008


Cinema
ÚLTIMOS FILMES [RE]VISTOS
Principais cotações:
***
(excelente); ** (ótimo); * (especialmente bom)
Sem cotação: apenas razoável e/ou interessante

Tilaï ** (Ouedrago, 1990), no CCBB
Finyé / O vento ** (Sisé, 1982), no CCBB
Drum * (Maseko, 2004), no CCBB
Atonement / Desejo e reparação * (Wright, 2007), no São Luiz
Heremakono (Sissako, 2002), no CCBB
Em casa:
Vinyl *** (Warhol, 1965)
Velvet Underground & Nico ** (Warhol, 1967)
Sarabanda ** (Bergman, 2003)
The cut-ups ** (Balchi & Burroughs, 1966), curta
[R] A carruagem de ouro *** (Renoir, 1952)
[R] Três homens em conflito *** (Leone, 1966)


PARA UMA FILMOGRAFIA BÁSICA

A carruagem de ouro (Itália, 1952)
De Jean Renoir
Com Anna Magnani, Duncan Lamont, Paul Campbell
[] Em colorido deslumbrante, uma deliciosa homenagem à Commedia dell'Arte: em país imaginário da América espanhola, no século XVIII, uma trupe de atores ambulantes faz uma pequena revolução nos costumes conservadores da região. Anna Magnani, em interpretação antológica, é a atriz maravilhosa que a todos enfeitiça, inclusive o vice-rei com sua carruagem de "fogo". Uma jóia rara do cinema europeu dos anos 50. [Cópia disponível em DVD, pela Versátil/BetaFilm]

Vinyl (USA, 1965)
De Andy Warhol
Com Edie Sedgick, Tosh Carrillo, Gerard Malanga, J.D. McDermott
[] Em 63 minutos, uma câmera absolutamente estática (ao contrário da câmera enlouquecida de Velvet ...). Dois ou três planos, apenas. E, mesmo assim, fascinante: o cinema underground por excelência. Antes de Kubrick. em 1971, o polêmico artista plástico Warhol adaptou, exatamente com esse filme, Laranja mecânica: a violência do início e a violência do final, com toques sado-masoquistas e homossexuais, são referências fortes na adaptação do livro de Burgess. [Cópia disponível em DVD, pela Magnus Opus]


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Brasil revisitado; palavras e imagens, de Carlos Guilherme Mota & Adriana Lopez (ed.). São Paulo: Rios, 1989, 200p. [] Tudo começa com uma epígrafe de Gregório de Matos: "Que me quer o Brasil,/ que me persegues?" A partir daí, folheando com prazer a coletânea de imagens e citações, pode-se acrescentar: O Brasil me quer? Eu quero o Brasil? O Brasil me sonha? Eu sonho o Brasil? O Brasil me constrói? Eu construo o Brasil? O Brasil me desfigura? Eu desfiguro o Brasil. Pelo sim, pelo não, pelo talvez, façamos uma viagem pelas trilhas & veredas que fazem o nosso país: Pero Vaz de Caminha e Almeida Júnior, Padre Antônio Vieira e Victor Meirelles, Guiumarães Rosa e Guignard, Joaquim Felício dos Santos e Debret, Vinicius de Moraes e Rugendas, Lima Barreto e Thomas Ender, Raymundo Faoro e Victor Frond, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, Jomard Muniz de Britto e Hélio Oiticica. A palavra e a imagem. A escrita e o olhar. Os brasileiros e o Brasil. Para se lamentar: a ausência de cartunistas & quadrinhistas, com exceção de Millôr Fernandes.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008


Sertões da Paraíba

Foto de
Lisbeth Lima
in
Flor de Craibeira


BALAIO VERMELHO 1986
n° 2208
Rio, 18 de janeiro de 2008


POEMA
de Ronaldo Santos
[ in 14 Bis. Rio, 1979 ]

um lance de dados jamais abolirá os doidos

um lance de doidos jamais abolirá os dados


AOS IMIGRANDES
de Lara de Lemos
[ in Dividendos do tempo. Porto Alegre, 1995 ]

Meus mortos estão guardados
em mim mesma.
Por isso não os procuro
em sepulturas.

Encontro-os
no labirinto dos sonhos
em longas noites
escuras.


POÉTICA
de Cassiano Ricardo
[ in Jeremias Sem-Chorar. Rio, 1964 ]

1

Que é a Poesia?

uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados

2

Que é o Poeta?

um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Jeremias Sem-Chorar, de Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro : José Olympio, 1964, 160p. [Adquirido em Natal, na Universitária, em agosto de 1964] Quem ainda lê o paulista Cassiano Ricardo nos dias atuais? Talvez seja a hora de se voltar para os seus inspirados versos; aqui, em alguns textos, francamente marcados pela influência da poesia concreta, em poemas como 'Translação', 'Gagarin' e 'A máquina e seus prefixos', quando o próprio verso é abolido. Na última página, algo me chama a atenção - algum amigo natalense escreveu em letras bem acabadas, sem especificação de data: "O melhor livro da poesia moderna do Brasil!" Parece ser a letra de Nei Leandro de Castro; preciso confirmar com ele. (Mas talvez seja a letra de Luís Carlos Guimarães, não sei.) E a opinião dada, pensando na produção poética brasileira até 1964, permanece inalterada? Talvez sim, talvez não. De qualquer maneira, trata-se de um belo livro, cujo autor se revela em versos como "Manhã fêmea, manhã gêmea./ Fruto para a minha fome/ que está na tua boca; pois/ na tua é que a minha come" ('Vidro duplo', p.70).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008


Nu feminino
(c1853)
de
Eugène Durieu

in
Photo icons
[ Taschen, 1996, p.26 ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2207
Rio, 17 de janeiro de 2008


ADIVINHA
Orides Fontela
[ in Teia. São Paulo, 1996 ]

O que é impalpável
mas
pesa

o que é sem rosto
mas
fere

o que é invisível
mas
dói.


AUTO-EPITÁFIO n° 2
José Paulo Paes
[ in Socráticas. São Paulo, 2001 ]

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Photo icons; Petite histoire de la photo [1996], de Hans-Michael Koetzle. Paris; Köln; Hong Kong; Los Angeles; Madrid; Tokyo : Taschen, 2005, 352p. [] Mapeamento crítico-histórico e gráfico-visual de fotos emblemáticas, entre 1827 e 1991. As reproduções são perfeitas, como a do Nu (p.26), segundo a visão sofisticada de Eugène Durieu (1800-74), em associação com o pintor Eugène Delacroix: a fotografia, já em seu início, ou quase, começava a ser arte. Muitas vezes, arte e encantamento, como a série dedicada a Sarah Bernhardt por Nadar (1820-1910), em 1864 (p.54ss); arte e realismo, como a famosa Mulher cega, em 1916 (p.150), de Paul Strand (1890-1976); arte e experimentalismo, nos anos 20 (p.158ss), por Man Ray (1890-1976); arte e jornalismo, como Morte de um soldado republicano, de 1936 (p.178), por Robert Capa (1913-54). Há outras referências icônicas, igualmente analisadas com agudeza interpretativa: Toulouse-Lautrec em seu gabinete (1894, p.80), de Maurice Guilbert; Alemanha 1945 (1945, p.206), um dos trabalhos mais cultuados de Henri Cartier-Bresson; as últimas fotos de Marilyn Monroe (1962, p.252ss), de Bert Stern; Che (1963, p.264), de René Burri; Kwait (1991, p.332), de Sebastião Salgado. Há outros nomes, outros ícones, outras descobertas. Afinal, com a fotografia, mesmo a mais amadora, o nosso olhar faz do "congelamento" estético um espaço aberto para a memória e a emoção. Decerto, há obras com maior número de informações. Por exemplo: A concise history of photography, de Helmut & Alison Gernsheim (London : Thames and Hudson, 1965, 314p), ou, então, com aparato crítico mais fascinante. É o caso de Susan Sontag em Ensaios sobre fotografia.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008


Entardecer em Portugal:
aviões sobrevoando o Alentejo

Foto de
Eduardo Cândido
in
Olhares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2206
Rio, 16 de janeiro de 2008


FRASEPOEMA
de Vítor Freire
[ in Não consigo ir embora de mim a pé ]

Nem toda tristeza é triste.


DIonisíACO
de Mario Cezar
[ in Coivara ]

esqueci que sou completo de amarguras.


POEMA/PROCESSO: ANTIPROJETO n° 10
de Moacy Cirne
[ in Objetos verbais. Rio, 1979 ]

releia este poema com a máxima atenção.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Construtivismo - Origens e evolução [1967], de George Rickey. São Paulo : Cosac & Naify, 2002, 240p. [] O legado da produção construtivista, em arte e arquitetura: o mundo nã0-figurativo na Rússia revolucionária. A Bauhaus e o novo mundo. A ordem clássica e as novas idéias sobre o espaço: a imagem centralizada e o concretismo. Ilustrações: Tatlin, El Lissitzki, Gabo, Calder, Malevitch, Mondrian, Feitelson. E muitos e muitos e muitos e muitos e muitos outros: Poons, Riley, Gerstein, Talman, Agam, Tomasello, Graevenitz. E mais uma porrada de gente. Enquanto isso, em 1967 surgia o poema/processo: a semiotização cangaceira do imprevisível contra o monstro sagrado da poesia concreta. Novos tempos: novos conceitos, novas grafias, novas políticas culturais. E se não criamos na ocasião, criamos agora, sem qualquer vestígio construtivista, a Lanchonete dos manjares poéticos: o de manga manhosa (manga, leite, licor de pêssego e um pouco de aurora deslumbrada), o de chocolate doidão (chocolate, leite, licor de café, guaraná em pó e dois poemas de Carlos Pena Filho), o de abacaxi volúvel (abacaxi, hortelã, cupuaçu e um crepúsculo barroco). Como opção, caldo-de-cana com pão doce. Colocar-se-á à venda, de igual modo, uma discreta máquina de filmar sonhos, através de Paulo Bruscky, em Recife, às margens do Rio Amazonas, entre Caicó e São José da Bonita, pertolongeporto de Jardim do Seridó. Jomard Muniz de Britto, cadê você? Cadê você, Dailor Varela?

terça-feira, 15 de janeiro de 2008


Currais Novos, RN

Foto de
Assis Silva
in
Picasaweb.Google


BALAIO PORRETA 1986
n° 2205
Rio, 15 de janeiro de 2008


CURRAIS NOVOS (1890-1976)
Luís Carlos Guimarães
[ in Ponto de Fuga. Natal, 1979 ]

No ciclo da pastorícia,
os currais novos e bem acabados
(construídos numa elevação
pelo Coronel Cipriano Lopes Galvão,
pernambucano de Igaraçu,
no sítio de sua propriedade)
deram nome à fazenda,
depois à capela,
ao povoado,
à vila,
ao município,
à comarca
e à cidade.
Currais Novos
por sorte não teve outro nome,
numa homenagem ao que,
pelo gado,
foi depositado entre as cercas,
adubo futuro das várzeas ribeirinhas
aos rios Totoró e Maxinaré.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Sobre a prática & Sobre a contradição [1937], de Mao Tse-tung, in Mao Tse-tung - Política, org. Emir Sader. São Paulo : 1982, p.79-125 /Grandes Cientistas Sociais, v.30/ [] Sei, sei: hoje se questiona o "revolucionarismo" de Mao, mas Sobre a prática e Sobre a contradição permanecem como textos fundamentais para a compreensão filosófica do marxismo no decorrer do século XX: "O conhecimento humano depende essencialmente da atividade do homem na produção material" (p.79), dizia Mao. E mais dizia: "Se se quer conhecer o sabor de uma pera, há que transformá-la, há que comê-la. ... Se se quer conhecer a teoria e os métodos da revolução, há que participar dela. Todo conhecimento autêntico nasce da experiência direta" (p.84). E dizia mais: "Qualquer processo, natural ou social, avança e se desenvolve em razão de suas contradições e lutas internas" (p.90), o que, aliás, faria com que eu investisse mais ainda no aprofundamento prático e teórico do poema/processo - matrizes e projetos de uma luta (anti)literária e (contra)ideológica no calor das emoções políticas vividas por todos nós. Viajante de cinematecas imaginárias e de sonhos impublicáveis, no lugar de Bense, Moles, Peirce e McLuhan, endeusados pelos poetas concretos da paulicéia tresvairada, eu investia, no campo da poética, em Macherey, Badiou, Althusser, Lênin, Marx e Mao. Há, ainda, para completar, um fato de ordem pessoal que me liga visceralmente a esses dois textos: em 1968, militante do POC - Partido Operário Comunista, fui incumbido de traduzi-los para distribuição clandestina no circuito universitário do Rio. Cumpri a tarefa com entusiasmo juvenil, revelo publicamente pela primeira vez, 40 anos depois, a partir das edições francesas da Maspero. Infelizmente, depois do AI5, fui obrigado a me desfazer da cópia (mimeografada) da tradução e de vários livros da Maspero, cujos títulos, até então, eram vendidos abertamente na Leonardo Da Vinci, ponto de encontro de intelectuais de todas as tendências políticas e culturais em terras cariocas: um espaço democrático por excelência. Até hoje. Até sempre.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


Foto de
Bruno Souto
in
1000 Imagens


BALAIO PORRETA 1986
nº 2204
Rio, 14 de janeiro de 2008


POEMA
Wescley J. Gama (RN)]
[ in A Taberna ]

mulheres lavavam roupa
no olho d'água
cantando a brancura que renascia.


À LUTA, À LUTA
Moacy Cirne (RN/RJ, 1980)
[ Republicado in Balaio, n° 158, de 23/05/1989 ]

à luta, à luta,
companheiro,
que a hora é de lutar e sonhar,
de sonhar e lutar.

à luta, à luta,
doce amiga,
que a hora é de lutar e amar,
de amar e lutar.

à luta, à luta,
trabalhador,
que a hora é de lutar e avançar,
de avançar e lutar.

à luta, à luta,
caro poeta,
que a hora é de
que a hora é de
que a hora é de construir
e trans/formar.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

The great comic book heroes, compiled, introduced and annotated by Jules Feiffer. New York : Bonanza Books, 1965, 190p. [Adquirido em São Paulo, na Livraria Gibi, em 1971] As aventuras iniciais (na maioria das vezes) de alguns dos mais famosos heróis e super-heróis americanos, do período 1938-42, incluindo Super-Homem, Batman, Capitão Marvel, Tocha Humana, Flash, Lanterna Verde, Mulher Maravilha, Namor - o Príncipe Submarino, Capitão América, Homem de Borracha, The Spirit. Registre-se que Feiffer é um grande autor (cartunista e quadrinhista), cuja obra oscila entre o político e o existencial. Na verdade, o presente álbum é uma preciosidade - um dos favoritos da minha biblioteca.

domingo, 13 de janeiro de 2008


Vaqueiros seridoenses
ao pôr-do-sol,
em Parelhas, RN

Foto
de
Hugo Macedo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2204
Rio, 13 de janeiro de 2008


LEMBRETE
Carito (Natal, RN)
[ in Os Poetas Elétricos ]

o distante
existe


POEMA
Sandra Camurça (Recife, PE)
[ in O Refúgio ]

no seu olhar
o meu olhar (di)vaga-
lumes!


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Bodas em Tipasa [Bodas, 1938, e O verão, 1954], de Albert Camus. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo : Difusão Européia do Livro, 1964, 124p. [Adquirido por volta de 1964-65, na Livraria Universitária, em Natal]. Um (duplo) livro extremamente amoroso: um hino à vida, mesmo levando em conta o seu absurdo e as suas perplexidades. Parecia-me uma obra tão apaixonante, e ao mesmo tempo tão "natalense", que, na ocasião de seu lançamento entre nós, a presenteei a vários de meus amigos e amigas potiguares. Era preciso compartilhar a beleza de suas páginas com o maior número possível de pessoas. Era preciso que também saboreassem, com prazer, as palavras do autor franco-argelino, que nos daria O estrangeiro (1942) e A peste (1947): "Compreendo aqui [seja a Argélia, seja o Rio Grande do Norte] aquilo que se chama glória: o direito de amar sem medida" (p.10); "Quando fico algum tempo longe dessa terra [para ele, a Argélia; para mim, o Seridó], sonho com seus crepúsculos como promessas de felicidade" (p.26). Ou, de igual modo, palavras como: "... a esperança, ao contrário do que se imagina, equivale à resignação. E viver não é resignar-se" (p.33); "Não há mais desertos. Não há mais ilhas. Há, entretanto, necessidade de desertos e de ilhas. Para compreender o mundo, é preciso por vezes afastar-se dele; para melhor servir os homens, mantê-los durante um momento a distância" (p.51). Continuemos, continuemos: "Os mitos não têm vida por si mesmos. Aguardam que os encarnemos" (p.82). Uma cidade se mede pela leitura de seus poetas, de seus artistas, de seus professores, de seus estudiosos, pela preservação viva de sua memória e pela paixão que alimenta seus clubes de futebol, dos mais simples aos mais poderosos, dos mais fuleiros aos mais aguerridos. Aliás, é bom registrar, Albert Camus era um verdadeiro entusiasta do futebol. Chegou, inclusive, a praticá-lo.

sábado, 12 de janeiro de 2008


Fotopoema
de
Michael Campbell
in
Cor de Dentro

igualmente in
Poema/Processo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2203
Rio, 12 de janeiro de 2008


PARA UMA CINEMATECA BÁSICA (1-2/122)
Sem ordem preferencial

C'era una volta il West / Era uma vez no Oeste (USA/Itália, 1968)
De Sergio Leone
Com Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards, Claudia Cardinale
[] Um início arrasador, antológico: 10 minutos do mais puro cinema. Mas o filme todo é uma obra-prima: um dos três ou quatro maiores faroestes de todos os tempos, segundo a nossa particular leitura crítico-afetivo-libertinária. Já o vimos mais de 12 vezes. Curiosamente, na primeira vez, final dos anos 60, não nos impressionou muito.

Terra em transe (Brasil, 1967)
De Glauber Rocha
Com Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy, Paulo Gracindo
[] Um filme-impacto, um filme-populismo, um filme-Brasil: nossas lutas, nossos sonhos, nossas dúvidas, nossas esperanças. E nossos delírios. Em 1967, quando o vimos pela primeira vez, pensamos seriamente na possibilidade da luta armada como saída política contra a ditadura instalada no país. Não por acaso, um filme estruturalmente político. Produtivamente político.


CINEMA RIO 2008

Buud Yam * (Kabore, 1997), no CCBB
Autumn fire * (Weinberg, 1930-33, curta), em casa
Rhythm in light * (Bute & Nemeth, 1934, curta), em casa
[R] A aventura *** (Antonioni, 1960), em casa

Cotações: *** (excelente); ** (ótimo); * (especialmente bom).


HAICAIS
de J. Medeiros
[ in Badalo, n° 5. Natal, 2007 ]

Sobe desce maré.
A abóbada celeste.
Réstean'água.

Há lualuá, há mar.
Lua, luar. Quantos há?
Peixes a sonhar.

Canto de pássaro
Entre cortado arde.
A cor da manhã.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Viagem ao Nordeste do Brasil [Travels in Brazil, 1817], de Henry Koster. Trad., pref. e notas Luís da Câmara Cascudo. São Paulo : Nacional, 1942, 596p. /Brasiliana, vol. 221/ [Adquirido em sebo, no Rio] Seja pela obra em si, de importância histórica e cultural, seja pelo elevado e substancioso número de notas, trata-se de um livro fundamental para se compreender o nordeste brasileiro da primeira metade do século XIX. As informações sobre a fauna e a flora, e os costumes dos habitantes, mesmo sem qualquer aparato científico, são valiosas. "Henry Koster não é um viajante, caçando anedotas e filmando o pitoresco nem um naturalista, tendo a investigação anteriormente programada. Não há nele a missão unilateral de estudar um aspecto ou fixar pormenores. Não o subsidia Museu ou Instituto. É uma curiosidade ampla e livre, sem compasso, sem barras, nem limites. É uma criatura humana, vivendo humaníssima e logicamente" (Cascudo, prefácio, p. 9). Volume enriquecido com mapas e ilustrações.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008


São José do Seridó, RN:
o Poço da Bonita
in
ACCAS na Net


(Em primeiro plano, na parte inferior da foto,
a estrada em direção a Caicó)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2202
Rio, 11 de janeiro de 2008


POEMA
Claudia Perotti
[ in Cor de Dentro ]

Há no fundo
de mim
uma sombra
que me enlaça
e provoca
tempestades
no canto dos olhos


NOTURNO
Patrícia Gomes
[ in Sensualizarte ]

Quando se faz noite
Eu só quero o seu
Açoite...


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Minima moralia [1951], de Theodor Adorno. Trad. Luiz Eduardo Bicca. São Paulo : Ática, 1992, 216p. [] "Desde que abrimos mão da utopia e se exigiu a unidade da teoria e da prática, tornamo-nos demasiadamente práticos" (p.37). "Na Psicanálise nada é verdadeiro a não ser os seus exageros" (p.41). "... é no olhar para o desviante, no ódio à banalidade, na busca do que ainda não está gasto, do que ainda não foi capturado pelo esquema conceitual, que reside a derradeira chance do pensamento" (p.58). "O escritor instala-se em seu texto como em sua casa" (p.75). "Para quem não tem pátria, é bem possível que o escrever se torne sua morada" (p.75). "O poder magnético que as ideologias exercem sobre os homens, mesmo quando já dão sinais de estarem rotas, explica-se, para além da psicologia, pela decadência objetivamente determinada da evidência lógica enquanto tal. As coisas chegaram ao ponto em que a mentira soa como verdade e a verdade como mentira" (p.94). "Ao pensamento não resta nenhuma compreensão senão o horror diante do incompreensível" (p.124). "As mulheres de beleza excepcional estão condenadas à infelicidade" (p.150).

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008



Aqui nasci, nesta casa da Caatinga Grande, em São José do Seridó.
Aqui, pela primeira vez, ouvi cantos de pássaros e auroras
e senti o calor do sertão. 64 anos depois, com olhos atentos,
volto ao chão das minhas esperanças inaugurais.
E volto com emoção: uma emoção docemente mágica.
Entre nuvens e espantos. E azulências arrebatatoras.

(Fotos minhas, em 7/1/2008)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2201
Rio, 10 de janeiro de 2008


EM SÃO JOSÉ DO SERIDÓ

Eis-me (ao lado da companheira Fátima, do seu sobrinho André e de minha filha Isadora), numa segunda-feira de janeiro, em São José da Bonita, em pleno sertão potiguar. Através de Romário Gomes (poeta e blogueiro), Eliene Dantas (poeta, cantora e de igual modo responsável pelo blogue da ACCAS, assim como Carlos Felipe), Napoleão Medeiros (presidente da Câmara Municipal), Galim Silva (cantor), Aparecida Ferreira (poeta) e outros, sinto-me mais seridoense do que nunca. O sol, o sal, o chão, o grão, tudo é Vida. Vejo a cidade, uma cidade praticamente desconhecida para mim: seu casario típico, sua praça floricolorida, seus habitantes generosos. Algo me diz que sou filho de três cidades: Caicó, Jardim e São José. E a Passagem das Traíras, barragem construída nas terras dos três municípios, no encontro dos rios Seridó e Acauã, parece ser o símbolo geográfico-vivencial de minha cidadania seridoternuramentálida.

DE SÃO PAULO À CAATINGA GRANDE
E AO POÇO DA BONITA

De São José, com o sol torrando as nossas idéias e as nossas vertigens, partimos para o sítio São Paulo. Um almoço sertanejo nos aguardava. Do bom e do melhor: carneiro assado, arroz-de-leite, feijão verde, batata doce e outras iguarias. Também nos aguardava a simpatia (e o bom humor) de Bibi Medeiros, proprietário do sítio. E que nos contou uma história fantástica. Quando jovem, morador de uma fazenda em São José, por ele se apaixonou uma bela morena. Mas, por vários motivos, o namoro se tornou inviável. Só que, apaixonada, a mulher passou a sonhar e sonhar com o nosso amigo. Cada sonho mais bonito e mais enluarado do que o outro. E de tanto sonhar, e de tanto sentir as vibrações da terra amada, e de tanto pensar em Bibi, senhor de palavras bonitas e carinhosas, a doce morena engravidou: grávida de sonhos impossíveis e feiticeiros. Mas Bibi - artes & manhas do destino - com outra se casou. E, até hoje, é um homem feliz, plenamente feliz.

Como feliz mostrava-se o grupo, ao visitar a Caatinga Grande: seus espaços seridolentes, seus horizontes bordados com a luz do sertão. E ainda houve tempo, no final da tarde, a caminho de Caicó, para uma visita ao Poço da (Moça) Bonita. E uma pergunta dupla se fazia presente: quantos nele se perderam, quantos nele se encontraram? São José, quase ao lado, ao anoitecer, preferia não se revelar por inteiro, guardando os segredos de sua gente e de seus abismos existenciais. Num raio de poucos quilômetros, Cruzeta, Acari, Currais Novos, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó, Parelhas, Ouro Branco, Serra Negra do Norte, São João do Sabugi, Timbaúba dos Batista, Caicó, e mais cinco ou seis cidades, seridovivem nossas lutas, nossas emoções, nossas expectativas, nossas esperanças, nossas descobertas. E nossos segredos e abismos.