segunda-feira, 14 de julho de 2008


A beleza da mulher potiguar:
Fernanda Tavares,
modelo
(Foto de agência)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2368
Natal, 14 de julho de 2008


Nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora:
esbanja o que é mais precioso, o espírito.
(Friedrich Nietzsche. Aurora, 1881)


POEMA de
Pablo Capistrano
[ in Substantivo Plural ]

minha fome
desperta a fera
que teu olar
revela


MARATONA
José Bezerra Gomes
(Currais Novos, RN)

Um menino
corredor
corria
correndo
para a sombra
para a sombra
de um pássaro


EXERCÍCIO DA CRUELDADE
Zémaria Pinto
[ in Fragmentos de silêncio. Manaus, 1995 ]

palavras são serpentes, são navalhas
são balas que explodem dentro do peito
de quem ouve e de quem fala!


Memória 1996
OS MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS
segundo Franklin Capistrano, poeta, psiquiatra
e político natalense
[ in Balaio, n° 853, de 4/7/1996 ]

1. O encouraçado Potemkin (Eisenstein); 2. Em busca do ouro (Chaplin); 3. Os brutos também amam (Stevens); 4. Rocco e seus irmãos (Visconti); 5. Hiroshima, meu amor (Resnais); 6. Ladrões de bicicleta (De Sica); 7. Blow-up (Antonioni); 8. Acossado (Godard); 9. Por ternura também se mata (Clair); 10. Amor, sublime amor (Wise & Robbins); 11. Morangos silvestres (Bergman); 12. 2001: uma odisséia no espaço (Kubrick); 13. M, o vampiro de Dusseldorf (Lang); 14. Janela indiscreta (Hitchcock); 15. Contos da lua vaga (Mizoguchi); 16. Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha); 17. Meu tio (Tati); 18. Sindicato de ladrões (Kazan); 19. E la nave va (Fellini); 20. Um condenado à morte escapou (Bresson).

domingo, 13 de julho de 2008


Cidades potiguares:
Mossoró
(Igreja São Vicente)
Foto:
autoria não-identificada


BALAIO PORRETA 1986
n° 2367
Natal, 13 de julho de 2008

... sonhar é tão necessário quanto viver. Mesmo que os navegantes fenícios digam que viver não é preciso
e que só é preciso navegar.

(François Silvestre de Alencar. As alças de agave, 2008)


POEMA DE
CHICO DOIDO DE CAICÓ

Rio de Janeiro! Rio de Janeiro!
Só de pensar no meu Botafogo
Me dá uma vontade danada
De fazer poesia.
Rio de Janeiro! Rio de Janeiro!
Só de pensar em suas mulheres
Me dá uma vontade danada
De ficar com a língua dura.


A RADICALIDADE NECESSÁRIA
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 894, 15/10/1996 ]

A mesmice - em arte, literatura, política, relações humanas -não nos interessa. A mesmice - lugar privilegiado para os videotários e patriotários [cf. José Paulo Paes] - corrói qualquer visão de mundo mais criativa, qualquer visão de mundo voltada para a pulsação da própria vida. E viver é saber ousar, é saber amar, é saber criar, é saber lutar. É saber experimentar. É saber sonhar. A mesmice só interessa àqueles que aceitam, religiosa e/ou politicamente, a ditadura da mídia, as facilidades do computador, a ideologia da esperteza, as mentiras do neoliberalismo. A mesmice só interessa àqueles que não apostam na dimensão cósmica do ser humano. Por isso defendemos o saber militante: o saber que se constrói a partir de uma radicalidade necessária - a radicalidade dos que procuram sonhar, procuram experimentar, procuram lutar, procuram criar, procuram experimentar, procuram amar, procuram ousar. Criticamente.

sábado, 12 de julho de 2008


A atriz potiguar
Rejane Medeiros,
nascida em Acari,
estrela dos filmes
Sangue quente em tarde fria
(Fernando Campos & Renato Newman, 1970)
e A noite do espantalho (Sérgio Ricardo, 1974),
entre outros


BALAIO PORRETA 1986
n° 2366
Natal, 12 de julho de 2008


O segredo da vida está no entendimento.
Se você não entende a vida, torna-se desajustado.

(Luís da Câmara Cascudo, 1983, in
Osair Vasconcelos, 2008)


DOIS POEMAS DE
Ada Lima
[ in Menina gauche. Natal, 2008 ]

Uma ninfa e um marujo
habitam em mim.

Sinto fome
de algo
que não tem nome.

Tenho sede
de coisas inexistentes
que vivem nas pontas dos meus dedos
palpitantes
e suados

como alguém em derradeira agonia.

Não sei falar, por isso escrevo.
Mas estou desaprendendo a escrever.


OS OLHOS DA RUA
Gerimaldo Nunes
[ in Correio das Artes. João Pessoa, 1996 ]

meu pai espiava a rua
de uma forma diferente
colhia cada pedra
cada paralepípedo

olhos abertos
fixos.
desvendava assim mundos
que muitas vezes nem existia

roubei do meu pai seus olhos
e seu olhar.
devoro a rua
com a mesma fome,
o mesmo medo.
e crio monstros invisíveis
pra me distrair.


TRÊS PEQUENOS LIVROS,
TRÊS PEQUENAS JÓIAS

Há uma nova editora em Natal, com o sugestivo nome de Flor do Sal (emeio: flordosal@uol.com.br), "um pequeno atrevimento editorial, na contramão do lugar e do tempo". E que acaba de lançar seus primeiros livros, em formato de bolso: Menina gauche (poesia, 52p.), de Ada Lima; O poema do caminhão (auto/opereta, 128p.), de Sebastião Vicente; O pastoreio do boi (poesia, 56p.), de Márcio Simões. A rigor, são três pequenas jóias da literatura potiguar: três obras que nos enriquecem como leitores e criadores.

sexta-feira, 11 de julho de 2008


Natal dos velhos tempos
(anos 50 do século passado)
Foto de
Jaeci Emerenciano


BALAIO PORRETA 1986
n° 2365
Natal, 11 de julho de 2008


Existem cinco elementos: o ar, a terra, a água, o fogo
e a pessoa amada.

(Murilo Mendes. O discípulo de Emaús, 1945)


ELEGIA PARA ZILA MAMEDE
Luís Carlos Guimarães
[ in O fruto maduro. Natal, 1996 ]

Sabias que morrerias no mar.
Assim seria, disseste sem medo
em canção e elegia. Acreditar
só acreditamos quando tão cedo

partiste: a morte - como anunciada -
boiava à deriva no corpo morto
e pela luz da manhã revelada
lançou a âncora no último porto.


DUAS QUADRINHAS POPULARES
DO RIO GRANDE DO SUL
[ Fonte: Sílvio Romero, 1883 ]

Não te encostes na parede,
Que a parede larga pó;
Encosta-te nos meus braços,
Que esta noite dormi só.
Menina dos olhos grandes,
Olhos grandes como o mar,
Não me olhes com teus olhos
Para eu não me afogar.


ENCONTROS PASSAGEIROS
COM PESSOAS PERMANENTES

Alberi (o "Deus da Frasqueira" abecedista), Blackout e Câmara Cascudo. Chico Antonio (que tanta admiração causou a Mário de Andrade nos idos de 1929), Danilo Menezes e Felinto Lúcio. Miguel Cirilo (o sensível poeta de São José do Seridó), Henfil e Malu. Zé Avelino (o artista caicoense que, à maneira de Mário Quintana, virou passarinho), Zé das Canoas e Sérgio Dieb. São muitas as pessoas permanentes que povoam o imaginário literário do jornalista e cronista Osair Vasconcelos, do Diário de Natal. Que o digam seus leitores. Que o digam seus admiradores. E que ontem foram à Capitania das Artes prestigiar o lançamento do livro Encontros passageiros com pessoas permanentes.

quinta-feira, 10 de julho de 2008


Baía Formosa,
no Rio Grande do Norte
Foto de
Alex Uchoa


BALAIO PORRETA 1986
n° 2364
Natal, 10 de julho de 2008

A tradição de todas as gerações mortas oprime
como um pesadelo o cérebro dos vivos.

(Karl Marx. O 18 Brumário, 1852)


CINCO AGORAS DE SÍTIO
Wescley J. Gama
[ in A Taberna ]

I

lagartixas metidas entre pedras
se entregam à lenta missão
de afagar a tarde quente.

II

bois pousados à beira de barreiros sangrando
vencem todos os relógios de parede da fazenda.

III

pés de pitomba
com grandes cachos de meninos
trocam seus frutos por amor.

IV

trabalhadores a passos largos para o roçado
discutem a seriedade
de se enterrar umbigo de menino novo
ao pé da porteira.

V

burros com cargas d’água
passam sede no caminho seco.

quarta-feira, 9 de julho de 2008


Praia de Botafogo
nos idos do Rio Colonial:
concepção gráfica de
Camões


BALAIO PORRETA 1986
n° 2363
Rio, 9 de julho de 2008


O espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação. A expansão econômica é sobretudo a expansão dessa produção industrial específica. O que cresce com a economia que se move por si mesma só pode ser a alienação que estava em seu núcleo original.
(Guy Debord. A sociedade do espetáculo, 1967)


Memória
MEU PRIMEIRO POEMA
Publicado na Folha Estudantil, de Jardim do Seridó (RN),
no segundo semestre de 1962

P O E M A
de Moacy Cirne


Contrariando John Donne
sou
uma ilha deserta.
Será que os sinos dobrarão
por mim?


POEMA DE NEL MEIRELLES

girassóis

o amor apascenta
as pequenas
gotas de beijos
que descansam
nos teus olhos

( os girassóis quase sempre
sonham horizontes azuis )

[ in Fala Poética ]

LEITURAS & RELEITURAS
DO MOMENTO

Visões do Rio de Janeiro Colonial
Antologia de textos (1531-1800),
de Jean Marcel Carvalho França.
Rio de Janeiro: EdUERJ ; José Olympio, 1999, 262p.

"Seus habitantes são limpos e de uma circunspeção comum aos de sua nação. Em geral, são possuidores de numerosos escravos e de famílas inteiras de índios, mantidas a contragosto nos engenhos. Os escravos ocupam-se da quase totalidade dos trabalhos da casa, o que torna os habitantes moles e afeminados, ao ponto de serem incapazes de se abaixar para apanhar um alfinete." (François Froger, 1695, p.52)
"Estes senhores que governam as colônias só têm em conta seus interesses. ... Creio que o dinheiro tem aqui o mesmo poder de persuasão que tinha em Roma, nos tempos de Juvenal." (Journal d'un voyage, autoria anônima, 1703, p.59)
"Devo dizer que há belas brasileiras. Uma delas, nossa vizinha, é de uma beleza incomparável. Ela tem alguma coisa de tão tocante e surpreendente que, a primeira vez que a vi, fiquei meio aturdido." (idem, 1703, p.60) [Em tempo: apesar de muito insistir, o francês em questão 'nada conseguiu' com a jovem brasileira.]
"A maioria desses homens [os portugueses no Brasil] é totalmente avessa ao trabalho, preguiçosa e muito inclinada à volúpia. Nem mesmo os padres e os monges estão isentos desses vícios. A luxúria, especialmente, tornou-se tão familiar entre eles que sequer se dão ao trabalho de ocultá-la." (idem, 1703, p;64)
"Creio que todos estarão de acordo em admitir que as mulheres das colônias espanholas e portuguesas da América meridional concedem seus favores mais facilmente do que aquelas dos países civilizados. No que se refere ao Rio de Janeiro, algumas pessoas chegam a afirmar que na cidade não há uma única mulher honesta." (James Cook, 1768, p.134)
"Essas damas [as mulheres locais] são todas muito morenas, seus belos cabelos são negligentemente penteados - o que lhes confere uma charmosa simplicidade - e seus grandes e voluptuosos olhos negros revelam um caráter naturalmente inclinado para o amor." (Evariste Parny, 1773, p.144)
"A população é composta por portugueses, negros e mulatos, sendo a proporção entre brancos e negros de um para 14. Os escravos, na sua maioria, andam quase nus, cobrindo somente a vergonha." (Friedrich Ludwig Langstedt, 1782, p.172)
"Pela dimensão da cidade do Rio de Janeiro, estima-se que nela habitem cerca de 60 mil almas, entre homens livres e escravos. Contudo, os visitantes que passam por essa urbe não podem contar com albergues, hotéis ou qualquer outro tipo de alojamento. Tampouco podem dispor de algum tipo de divertimento, a não ser uma espécie de taverna situada no lado direito da praça principal." [Atual Praça XV.] (George Barrington, 1791, p.217)

terça-feira, 8 de julho de 2008


Suiça? Áustria? Alemanha?
Não tenho a menor idéia.
Só sei que a foto é de
Jovino Batista
in
Olhares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2362
Rio, 8 de julho de 2008


O futuro é a única transcendência dos homens sem Deus.
(Albert Camus. O homem revoltado, 1951)


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Música clássica - Os grandes compositores
e as suas obras-primas,
de John Stanley. Pref. Georg Solti.
Livros e Livros, 1994, 272p.
Uma boa introdução ao universo da música erudita: sua história, seus instrumentos, seus períodos (da música medieval ao final do século XX), seus principais compositores, suas obras mais representativas, com algumas das gravações recomendadas (eventualmente discutíveis) pela conceituada Gramophone. Vejamos algumas delas, com nossas cotações (de *** /excelente/ a * /especialmente bom/):
Messe de Notre Dame (Machaut, por Andrew Parrot)
EMI ***

Missa Papae Marcelli (Palestrina, por Simon Preston)
Archiv *

Vésperas da Virgem (Monteverdi, por Philip Pickkett)
L'Oiseau-Lyre *

Harpsichord works (Couperin, por Kenneth Gilbert)
Harmonia Mundi ***

As quatro estações (Vivaldi, por Nigel Kennedy)
EMI *

Concertos de Brandenburgo (Bach, por Trevor Pinnock)
Archiv ***

Messias (Händel, por Christiopheer Hogwood)
L'Oiseau-Lyre **

Sinfonias n°s 94 & 104 (Haydn, por Colin Davis)
Philips **

Sinfonia n° 41 (Mozart, por Frans Brügen)
Philips ***

Viagem de inverno (Schubert, por Fischer-Dieskau & Gerald Moore)
Decca ***
Sinfonia n° 9 (Beethoven, por Kurt Masur)
Philips ***

Sinfonia n° 9 (Mahler, por Herbert von Karajan)
DG **
A sagração da primavera
(Stravinsky, por Charles Mackerras)
EMI *
Sinfonia
(Berio, por Pierre Boulez)
Erato ***

domingo, 6 de julho de 2008



Vídeo do Maracanã Tricolor


BALAIO PORRETA 1986
n° 2361
Rio, 06/07/08

... nada pode ser maior que nossa paixão.
Nenhum título, nenhuma competição.
Nada pode ser maior que nosso amor.
(Marianna Impagliazzo)


ETERNO TRICOLOR
Moacy Cirne

para
os tios
Silvino (in memoriam)
Walfredo, Raimundo e Waldemar
Gérson, Toinho e Josebel
e para
Castilho, Didi e Telê (in memoriam)

Aprendi com os meus tios
e os meus heróis de infância
que uma paixão
não se constrói
sem sal, suor e sol,
poesia, potengis e epopéias:
uma paixão se constrói
grená que te quero grená e garra
garra que te quero grená e granito
seja nas esperanças mais delirantes
seja na paz de guerreiros alucinantes.
Aprendi
com meus tios e heróis
que existe uma paixão
moldada como um vendaval
de alumbramentos
tecidos com engenho, arte e ambrosias.
E se
os Deuses não souberam
contemplar o tempo templo
de um Maracanã
abençoado
por
homens e mulheres
crianças e velhos
em êxtase dionisíaco,
pior para Eles,
mil vezes Malditos
mil vezes Insensíveis
diante da vibração mágica
diante da emoção trágica
que terminaria por se desenhar
na geometria das tempestades
e auroras enlouquecidas.
Mal sabem Eles,
pobres Deuses sem brilho e sem humor,
que na alma de cada tricolor
existe um eterno amor.

Imagens/Vídeo:
1. De autoria desconhecida.

2. Extraída do sítio do Fluminense.
3. A partir de uma indicação do FluSócio.

sábado, 5 de julho de 2008


Cartaz de
Garrincha, alegria do povo,
de
Joaquim Pedro de Andrade,
lançado em 1962,
o ano do bicampeonato da
seleção brasileira, no Chile,
e, entre outros,
dos seguintes campeões e
staduais:
ABC (RN) e Botafogo (RJ),
Sport (PE) e Santos (SP),
Bahia (BA) e Ceará (CE),
Campinense (PB) e Atlético (MG),
River (PI) e Londrina (PR),
Rio Negro (AM) e Rio Branco (ES),
Sampaio Corrêa (MA) e Grêmio (RS).
É também o ano dos seguintes campeões nacionais:
Colônia (Alem) e Boca Juniors (Arg),
Real Madrid (Esp) e Ipswich Town (Ing),
Milan (It) e Sporting (Port).


BALAIO PORRETA 1986
n° 2360
Rio, 5 de julho de 2008


Já vi muita festa bonita na vida, mas quase nada se compara àquele Maracanã lotado, com fogos de artíficio e uma torcida em polvorosa. Só senti falta de outra torcida igualmente vibrante e, sobretudo, de um resultado mais justo.
(Cora Rónai, rubro-negra)


Cinema
EM CARTAZ NO RIO
Recomendamos


O sol **
(Sokúrov, 2005)
Estômago **
(Marcos Jorge, 2007)
Santiago **
(João Moreira Sales, 2007)
A banda *
(Kolirin, 2007)
Antes que o diabo saiba que você está morto *
(Lumet, 2007)
A culpa é do Fidel *
(Gavras, 2006)
1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil *
(José Carlos Asberg, 2008)
Pretendemos ver:
A última amante
(Breillat, 2007)

Cotações:
***
Excelente
**
Ótimo
* Especialmente bom


NA SAÍDA DO MARACANÃ

Silenciosa, sem atropelos, a multidão descia uma das rampas do Maracanã, depois do jogo da última quarta. De repente, a minha filha Ana ouviu, em tom de desabafo, um adolescente exclamar para o NADA: "Definitivamente, Deus não existe!".


UMA NOITE NA CECÍLIA MEIRELES

Ontem a Sala Cecília Meireles (Lapa, Rio) viveu uma de suas grandes noites, com a apresentação do excepcional Quarteto Alban Berg (Günter Pichler e Gerhard Schulz, violinos; Isabel Charisius, viola; Valentin Erben, violoncelo). Claro, Beethoven não poderia ter faltado ao refinado encontro da mais pura magia musical. Registre-se que o Quarteto Alban Berg, cuja formação original incluía Thomas Kaluska, subtituído em 2005 por Isabel Charisius, foi criado em Viena em 1971. Extremamente requintado, com vários discos premiados, o Quarteto Alban Berg encerra suas atividades na presente temporada. Daí porque, com emoção, a platéia da Sala Cecília Meireles o ouviu e o aplaudiu pela última vez, ao vivo, na noite de ontem.

sexta-feira, 4 de julho de 2008


Mais do que nunca,
TRICOLOR ATÉ MORRER

Imagem:
FlickrCom


BALAIO PORRETA 1986
n° 2359
Rio, 4 de julho de 2008

Com quase 50 anos de freqüência aos estádios, jamais tinha visto, antes de um jogo, festa tão bonita como a que fez a torcida do Flu ontem no Maracanã. Coisa assim digna de abertura de Jogos Olímpicos.
(Juca Kfouri)


O LIBERTADOR
Luciana Gondim
[ in O Caroço ]


Enquanto a multidão tricolor se equilibrava sobre os braços das cadeiras, maldizendo o pescoço pequeno demais para alcançar o gramado, ele permanecia sentado, cabisbaixo, com as mãos espalmadas sobre o chão. Sentiu o cheiro da fumaça dos fogos de artifício, brincou com o vapor de pó de arroz que envolveu sua nuca, segurou o peito ao ouvir o forte apito inicial. As cadeiras todas rangiam ao mesmo tempo, com o incansável trotar de 160 mil pés. Se agarrava como podia ao chão já lavado de suor e cerveja, rei absoluto da área do Maracanã que se via desde abaixo do joelho. Apesar de extasiada com o espetáculo tricolor, uma força maior, quase mágica, atraía meus olhos em direção a ele. Trinta segundos antes do gol adversário ser anunciado, ele soltou um urro de desespero. Logo em seguida, a multidão o acompanhou. Na tentativa de driblar a dor pela inesperada ameaça de derrota, afastei os olhos do gramado e comecei a assistir ao espetáculo pelos olhos dele. E vibrei, em insana euforia, trinta segundos antes do primeiro gol tricolor e outros trinta antes do segundo. Emocionada, lancei-me também ao chão, que se movia tal qual mar revolto. Esperava com a ansiedade da criança que aguarda o presente de Natal o celebrar precipitado daquele humilde profeta, coberto por uma bandeira rasgada e quase incolor. Trinta segundos antes do terceiro, chorei de felicidade, abraçada aos meus, pedindo a Deus um último vibrar profético daquele santo libertador. Mas trinta segundos antes da partida terminar, ele tirou os óculos escuros e exibiu duas pupilas encharcadas e tão brancas quanto a sigla do Fluminense estampada na velha bandeira.

quinta-feira, 3 de julho de 2008


Pin-up
de
Zoe Mozert
(1907-1993)
em calendário para 1950,
o ano da
tragédia do Maracanã


BALAIO PORRETA 1986
n° 2358
Rio, 3 de julho de 2008


Perdemos sem o gosto da derrota
e vencemos sem o gosto da vitória.
(Cleber Melllo)


E TROPEÇOU NO CÉU COMO SE FOSSE UM BÊBADO
(Chico Buarque)
Há derrotas e derrotas. Há derrotas que humilham; há derrotas que dignificam. Depois de uma festa absolutamente incrível - a mais emocionante que já vi em 40 anos de Maracanã, de uma beleza ímpar -, vencemos o jogo, mas perdemos o título. Terá faltado ousadia ao FLUMINENSE depois dos 3a1? Terá faltado a necessária frieza (ou simplesmente técnica) aos jogadores na hora dos amaldiçoados penâltis? Terá faltado coração a Dodô? Inspiração (ou apenas habilidade) a Washington? O mínimo de competência futebolística a Ygor? Ganhamos e perdemos. Eis o fato que se abateu sobre todos nós. Inexorável. Duro. Terrível para aqueles que aprenderam a amar o FLUMINENSE durante anos e anos, séculos e séculos, milênios e milênios. Nas vitórias e nas derrotas. A mais bela campanha da Libertadores se dissolveu em poucos minutos, embora, a rigor, sua tragédia tenha se desenhado no primeiro tempo do jogo em Quito. Se ontem "vencemos sem o gosto da vitória", perdemos o título com dignidade. Nossos cantos iluminavam o céu, mas, no final, nele tropeçamos como se estivéssemos bêbados. E a embriaguez da empolgação "acabou no chão como um pacote flácido" (Chico Buarque). Só que, embalados por um amor eterno, resistiremos
à fúria dos Deuses e às tempestades do Além.
A vida continua. Para todos nós.

quarta-feira, 2 de julho de 2008


Porque hoje é quarta,
a magia embriagadora
dos
tricolores no Maracanã

Fotos:
Legião Tricolor


BALAIO PORRETA 1986
n° 2357
Rio, 2 de julho de 2008


Bebo horizontes de amor
na curva do último abraço
(Marly de Oliveira)


POEMA
Ronaldo Santos

um lance de dados jamais abolirá os doidos
um lance de doidos jamais abolirá os dados

[ Releitura de Mallarmé:
"Um lance de dados jamais abolirá o acaso" ]


RECUPERAÇÃO DA ADOLESCÊNCIA
Ana Cristina César

é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço


RENASCER
Pedro Galvão
[ in Bissexto, 2007 ]

Esta mulher aconteceu em minha vida
quase um quasar reacendendo um sol sem sol.
Esta mulher me deu o fio do labirinto
me ergueu do mar em sua concha de coral.
Esta mulher raiou num beco sem saída
me carregou me deu seu leite seu lençol
sua aspereza seu veludo seu instinto
e me despiu depois me amou e me deu sal.
Agora ela me lambe e pensa-me as feridas.
Então me agarra me sacode monta em mim
e me incitando a decantar solta-me as bridas.
Esta mulher raia nos raios do meu dia
ela é o começo em que renasço do meu fim.
Esta mulher, viva em meu braços, é poesia.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

À sombra das chuteiras imortais,
de Nelson Rodrigues.
Sel. & notas: Ruy Castro.
São Paulo: Companhia das Letras, 1993, 198p.
"Daqui a duzentos anos a cidade dirá, mordida de nostalgia: 'Aquele Fla-Flu!' [Flu 3x2, em 15/6/1969, decisão do Campeonato Carioca, com mais de 180 mil torcedores no maior do mundo.] Ah, quem não esteve no Estádio Mário Filho não viveu" (p.145). Eu vivi: eu estava no Maraca naquela tarde memorável. Assim como estive, agora, nas vitórias épicas sobre o São Paulo e o Boca Juniors. Como estarei presente, logo mais, contra a LDU. Seremos campeões? Não sei. Talvez sim. Talvez não. Otimismo? Pessimismo? Nem uma coisa, nem outra - só a expectativa diante de um jogo decisivo. Para mim e para os tricolores, mais importante do que qualquer final de Copa do Mundo.

terça-feira, 1 de julho de 2008


A arte do norte-rio-grandense
Newton Navarro
(1928-1991)
in
Alma do Beco


BALAIO PORRETA 1986
n° 2356
Rio, 1 de julho de 2008

Deus fez apenas a água, mas o homem fez o vinho.
(Victor Hugo)


TEMOS VAGA
José Correia Torres Neto
[ in Potiguarando ]

Acordou às cinco e trinta como sempre fez nos últimos vinte anos. A pequena janela permitia a entrada dos primeiros raios de sol como também – quando chovia – os primeiros pingos. Sentou-se na cama e ficou olhando para a pequena janela. Passou as mãos nos cabelos desgrenhados e sentiu nos pés a frieza do chão de cimento queimado. O cheiro insuportável de urina e de mofo parecia que não mais a incomodava. O amanhecer estava tão belo como nunca. Não ouviu nenhuma voz, apenas um balouçar de folhas de uma árvore que ficava bem próxima da sua janela. Todos dormiam.O prato e a caneca de plásticos estavam debaixo da cama misturados como algumas pequenas baratas. Ainda sentada recolheu o pequeno lençol que já não mais servia para as suas madrugadas e o rasgou em tiras. Quando chegou o café da manhã, a encontraram dependurada em uma das grades da janela com as tiras do lençol atadas ao pescoço. Seria o seu último dia naquele pavilhão. Amanhã seria uma mulher livre. Abria-se mais uma vaga...

FEIRA DE PROVÉRBIOS ESPORRENTOS

Ele me prometeu brincos, mas apenas furou minhas orelhas.
(Árabe)
Os homens são como tapetes: às vezes precisam ser sacudidos.
(Árabe)
Se os filhos da puta voassem, nunca veríamos o sol.
(Argentino)
Aqueles que não sonham estão perdidos.
(Australiano)
A língua suave é a árvore da vida,
a língua perversa quebra o coração.

(Bíblico)
A tinta mais fraca é melhor que a melhor memória.
(Chinês)
Falar sem pensar é atirar sem mirar.
(Espanhol)
Três espanhóis, quatro opiniões.
(Espanhol)
A partir de uma certa idade, o único afrodisíaco é a variedade.
(Francês)
Dinheiro público é como água benta: todos põem a mão.
(Italiano)

segunda-feira, 30 de junho de 2008



1.
Caatinga
Foto de
Hugo Macedo
2.
Caatinga
Pintura de
Sandra Bianchi


BALAIO PORRETA 1986
n° 2355
Rio, 30 de junho de 2008

Se um homem necessita variar,
sua mulher pode oferecer-lhe infinitas opções.
(Honoré de Balzac)


CAATINGA
Suely Magna Nobre
[ in Substantivo Plural ]

Uma mulher desnuda
Exposta ao sol
Fértil feito terra agreste
Uma mulher frondosa
Feito árvore bisavó
Vestida de plumagens raras
Verdejante prenúncio
De noite sem luar
Intocada no meio da mata
Vivenciando as agruras
Destinadas à aridez
De um solo infértil
Suavizada apenas
Pelo olhar do poeta
Observador astuto
De belezas raras
Soprada em versos
Filigranas de uma
Réstia selvagem
Caatinga enegrecida
Trocando de vestes
Colorindo-se de esperança
Ao gotejo do primeiro
Ensaio de ano bom
Ricas pastagens
Lavouras e aves
De arribação
Coroaram o seu reinado
Embalada pelo som
De um único canário
Anunciando um reisado divino
E à sombra da mata
Da Serra da Cajarana
A mulher desnuda
Banha-se de prazer
Exalando aroma
De terra molhada!


POR ACASO, O OCASO
Alyne Costa
[ in Bragas e Poesia ]

A tarde que cai tem, assim, uma cor de incerteza. Uma chuva de dúvidas desaba e o coração da gente fica quietinho como se houvesse um espinho ou um caquinho de vidro moendo por dentro.
Dá vontade de ouvir canto de lavadeira voltando da bica. Trouxa alva na cabeça, no bolso um pedacinho de anil e na alma uma amendoeira frondosa que faz sombra sobre suas dores.
O menino sobe as escadas e acorda a mãe do devaneio num grito:
"- Mãe! Ô, mãe, vem ver Deus!"
"- Que Deus, menino?"
"- Deus, nosso Deus..."
Os olhos da mãe espreitam para ver melhor o sol a se deitar em róseos tons. O horizonte não tem mar. Ao longe um morro que não sabe o nome. Batiza de "Morro de Nosso Deus". E o morro, o sol, o horizonte, a cor do rosa que reveste o céu são inundados dos sonhos de mãe e filho. Na caatinga é assim. Cor-de-rosa é a cor do sol se pondo. Como se jatos de esperança varressem com anjos as dores que só se sabe de ouvir falar. A caatinga não sai no jornal da capital. A flor da caatinga não sai no jornal da capital. A dor da caatinga não sai no jornal. A fibra do povo da caatinga não sai em jornal. A caatinga não sai. E uma nuvem alva rasga o ocaso como se a miragem do menino desanuviasse a melancolia da mãe que cisma sobre sabedoria e imaginação, terreno fértil em terras de coração inocente. A mãe volta a seu novelo de poesia, querendo dar-se por conta do que perdeu. Entre cética e orgulhosa pensa na cria e julga ouvir aboios alados. Deus a livre de alma penada. O menino volta pra bola e pro jogo de botão. A meninada faz volta na sala, quase obediente. E a noite chega devorando as valas do abismo entre o que podia ter sido e o que será.
A noite galopa em açoites, angústias e medos. A noite assombra o inaudito. Uma quase volúpia da madrugada, a noite palita os dentes. Exaustos do feito e do por fazer, mãe e filho adormecem... Dos sonhos, Deus, nosso Deus toma conta. E uma procissão de candeeiros invade a lua.

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