sexta-feira, 22 de maio de 2009

A caridade
(c1556)
Francesco Salviati


BALAIO PORRETA 1986
n° 2669
Rio, 22 de maio de 2009

Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou caminho de salvação; na prática, porém o que se verifica é completamente diferente. ... Boa parte, inclusive, dos teólogos está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com a autoridade divina.
(Baruch de SPINOZA. Tratado teológico-político, 1670)


O LIVRO DOS LIVROS
(30)

Texto estabelecido por Moatidatotatýne, o Escriba

A conquista do Seridó

E Josué dos Santos Oberdadan, filho de Manedidim, amigo e compadre de Moysés Sesyom do Sertão, perguntou-se: "Os primitivos tapuias já foram exterminados; será necessário eliminar a população nativa para que tenhamos apenas seridoenses puros?" E o próprio Josué dos Santos Oberdadan respondeu-se: "Acredito que não, há lugar para todos, e todos viveremos em paz, e o Senhor das Alturas há de concordar comigo". Assim é. Assim foi. Assim será. E tudo começou a acontecer. E começou a acontecer tudo e póstudo, na vastidão do Seridó(¹).

E lá se estabeleceram - sob as bênçãos de Josué dos Santos Oberdadan - Teodósio Leite de Oliveira, Teodósia dos Prazeres, Manuel Gonçalves Diniz, Pedro de Albuquerque da Câmara e mais os membros das mais variadas famílias: os Araújos, os Medeiros, os Dantas, os Batistas, os Costas, os Azevedos, os Pereiras, os Britos, com seus 12, 15, 20 ou 26 filhos e filhas. E foi construída a Casa Forte do Cuó(²). E foi fundada a Irmandade do Santíssimo Sacramento. E foi criada a Irmandade dos Negros de Nossa Senhora do Rosário. E foi construído o templo denominado Castelo de Engady, para guardar para todo o sempre os originais dos Dez Mandamentos. E foi erguido, em Queicuó, o Cinema Pax, para que fossem glorificadas as imagens em movimento de Tarzan, Durango Kid, Humphrey Bogart e Ava Gardner.

E em sonho o Senhor das Alturas disse para Josué dos Santos Oberdadan: "O Seridó é uma terra mística; é preciso honrá-la como se honrará a veneração à Nossa Senhora de Sant'Ana, à lembrança do Cinema Pax, à Serra de Samanaú, à sangria do Gargalheiras, à Serra de Mulungu, à Passagem das Traíras, à poesia feita em Currais Novos, à beleza de Maria Félix, Teresinha Morango e Ava Gardner". E disse mais, no mesmo sonho: "O Seridó é uma terra mágica; é preciso amá-la como se amará a coragem de seus desbravadores, a personalidade de suas mulheres, a inteligência de seus anciãos, a musicalidade de sua gente e a beleza de Rejane Medeiros, Joana d'Arc de Caicó e Ava Gardner(³)".

E a fé do povo aumentou. E o consumo de carne de sol, queijo de coalho, macaxeira e arroz da terra duplicou. E a Festa de Sant'Ana carnavalizou-se. E o seridoense mais e mais tornou-se trabalhador, hospitaleiro e acolhedor. E o Itans passou a pegar água(ª¹) cada vez mais, provocando sangrias místicas, etílicas e cabalísticas. E a cultura do algodão triplicou. E as auroras se tornaram mais barrocas. E as cruvianas(ª²), mais suaves. E as lendas e os mistérios contribuíram para a formação do seridoísmo. Como a lenda da Moça Bonita(ª³):

"Sua pele era aveludada e tinha a cor, os mistérios e a quentura de uma noite estrelada do Seridó. Era uma jovem bonita, bonita de arrepiar, a mais bela da região, a mais bela a povoar os sonhos de vaqueiros, pescadores e caçadores de onças. Os pássaros da quase-manhã, quando o sol, solene e solitário, desenhava mais uma aurora sertaneja com cheiro de capim molhado, cantavam em sua homenagem. As cores alegres do dia pintavam de azul e negrume aquela beleza nascida do inesperado vento barroco da saudade. Sim, sim. Era uma bela e candente mulher. E tinha um hábito salutar: gostava de se banhar nua, sozinha, nas primeiras horas da manhã, no poço do rio que ela tanto amava, quando o inverno chegava: o rio de suas esperanças, o rio de suas mais doces alegrias. O rio de seu santo protetor - São José por nome, São José por devoção.

Mas um dia aconteceu o que não estava escrito no firmamento, o que não estava escrito nas cantorias do sertão, o que não estava escrito nem mesmo no Lunário Perpétuo: a nossa jovem, nua como sempre nas águas do poço encantado, sentiu-se observada por olhos grávidos de volúpia e macheza. Tentou cobrir suas vergonhas, inutilmente. Tentou cobrir suas belezuras. Inutilmente. Os olhos eram maiores do que a sua inocência. Maiores do que a sua seridolência. Era um domingo e Domingas era o seu nome. Desesperada, sentindo-se desonrada, correu para um matagal e lá se encantou: tornou-se um pássaro mais azul do que o azul mais brilhante, que voou para o horizonte em busca de seus sonhos. Nunca mais foi vista, nunca mais foi visto. Os moradores da região, deslumbrados com a história, nomearam o lugar de Poço da Moça Bonita.

Mais tarde, bem mais tarde, inícios do século XX da Era Comum, surgiria a povoação, hoje cidade, de São José do Seridó. Ou, simplesmente, São José da (Moça) Bonita. E todos os pássaros da região ainda cantam em homenagem àquela bela e misteriosa mulher.
Que se encantou para sempre".


Próximos capítulos:
31. O livro de Jó
32. Cântico dos Cânticos
33. Sabedorias eclesiásticas

Notas:

(¹) A extensão territorial do Seridó, na Capitania do Ryo Grande, segundo alguns dados estatisticos, atinge 9.332 km².
(²) Origem do Povoado de Queicuó [atual Caicó], em cujas ruínas se encontram, em suas galerias subterrâneas, os originais da Odisseia, d'Os lusíadas, d'A divina Comédia e do Pentateuco hebraico. Contudo - é o que revela o teólogo Muirakytan Macedo -, somente aqueles que mergulharem, no espaço de sete horas e sete minutos, nos pocos de Santana [em Caicó], da Bonita [em São José], da Moça [em Jardim] e no açude Itans [em Caicó] terão acesso aos referidos originais. Sabe-se que o escritor James Joyce conseguiu fazê-lo, quando em Caicó esteve; só depois, então, escreveria Ulysses.
(³) O entusiasmo masculino do Senhor das Alturas por Ava Gardner, manifestado aqui e em outras passagens d'O Livro dos Livros, será amplamente debatido no Concílio Caicó 1748 EC, a partir de uma epístola do monge Sanderson Negreiros.
(ª¹) Pegar água : Tomar água, receber água [dos rios e riachos; no caso do Itans, do Rio Barra Nova].
(ª²) Cruviana : Friagem da madrugada.
(ª³) O Concílio Caicó 1748 EC debateu se a lenda em questão não seria - ou não - um relato apócrifo, já que seu estilo difere, em grande parte, do texto concebido pelo Senhor das Alturas para O Livro dos Livros. Entretanto, os bispos Romário Gomes e Sinval Costa, presentes, sustentaram sua evidência histórico-bíblico-marciano-textual, o que depois seria objeto de estudo metafísico da historiadora Edith Medeiros.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Foto de
Otto Stupakoff
(1935-2009)

Ninguém vai se chatear com a foto da coluna de hoje. Numa cidade (num país) onde as mulheres se confundem às melancias pela protuberância das nádegas, onde crianças dançam a boquinha da garrafa, onde se ouvem canções que afirmam e reafirmam a opção preferencial pela raparigagem, pelo beber-cair-e-levantar, que mal há em três mulheres lindas, simples, anônimas, tomarem banho de sol peladas à beira de um mar onde as duas ilhotas ao longe comungam com seus montes de vênus?
Mal nenhum.
A não ser, claro, o fato de serem anônimas.
Reparem bem na foto: duas sorriem, a terceira, misteriosa, não revela nem mesmo a direção do olhar. A mais próxima de nós tem os olhos fechados. Disse algo e achou esse algo engraçado. Ou foi a segunda quem falou. Não. Ela, a do meio, parece mais estar prestando atenção às palavras que a outra falou, o sol na cara alegrando os dentes. Sol pálido, de inverno, insinua a paisagem e o preto & branco da imagem.
Reparem, também, na marca de biquíni da que está de costas, mostrando – não exibindo – uma bunda bem normal no país das hipérboles calipígias: a marca, suficientemente branca, revela que seu biquíni não é dos menores. Não que a moça não pudesse usar um fio-dental, pela caridade!, mas a marca mostra que não é uma nudista contumaz, mas alguém que aproveitou o solzinho acolhedor para reexperimentar a sensação de voltar ao mundo. Como veio. Viemos.
De quem é a foto? De Otto Stupakoff. Morto final do mês passado e que o sobrescrito nunca mais tinha ouvido falar derna que em 2005, mais ou menos, a CartaCapital publicou uma bela matéria sobre seu retorno ao Brazil – salvo engano assinada por Maurício Stycer.
Stupakoff viveu uma dessas vidas de cinema: se mandou pros States bem novo ainda, e fotografou um mundão de gente, celebridades, inclusive. Clicou Nixon com a filha, um juveníssimo Jack Nicholson, um obcecado Truman Capote. E milhares, centenas, dezenas de modelos, especialmente sua mulher, uma miss universo made in sweden.
Voltou pro Brazil pobre, disse. Meio amargo, talvez. Não lembro os detalhes da matéria e é difícil localizar a edição entre as pilhas de revistas que se amontoam pelo apartamento. Pouco importa. Era o retrato de um homem envelhecido, cansado, que freqüentou as páginas e os ambientes da Vogue, da Harper’s Bazaar, Elle, Life. Alguém que chegou ao Everest e ainda não tinha se acostumado aos ares da planície.
(Mario Ivo Cavalcanti, in Embrulhando o peixe, de 11/05)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2668
Rio, 21 de maio de 2009


As palavras se agrupam em torno da imagem como os homens em torno de uma mesa ou de uma fogueira.
(Edmond JABÈS/Max MARTINS, in Não para consolar, 1992)


BAGAGEM
Romério Rômulo

trago
uma secura no meu lado direito
que me proíbe de vender bananas.
trago
um martelo, tonel de badalos
que me safira e empresa os olhos.

quando milhos, tenho tantos
que me encarrego do tombo.

a sutil faca me faz anacoreta.


A CASA
Lenilde Freitas
[ in Espaço neutro, 1991,
via A Meus Amigos ]

Da porta principal à derradeira,
um corredor. Só o piso de madeira.

As portas laterais, trancadas.
Todas elas.

Pelas janelas,
fogem os fantasmas gerados na cumeeira.

Que mais?
Que mais?

Ah, sim: uma goteira, sangrando... sangrando...
sujando a casa inteira.


OUTROS PASSÁROS
Lau Siqueira
[ in Poesia Sim ]

quando nas manhãs de sol
os bem-te-vis revelam seus
cantos como os olhos
de um segredo

e em suas asas habitam os
duendes que não suprem
suas sedes com as sobras
do jardim

um violino distante
invade a noite fria

e a solidão mostra seus dentes
amarelo-manga como um
filme que não tem fim


quarta-feira, 20 de maio de 2009

Foto de
Raul Alexandre
in
Olhares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2667
Rio, 20 de maio de 2009

foda-se o destino e o amanhã
hoje tem fluminense no maracanã.
(Afonso Henriques Neto, in Hoje tem espetáculo)


SEDE
Acantha
[ in La Vie Bohème ]

Me abro
e me deixo
e me entrego
e me esvaio,
enquanto teus dedos falam coisas
no meu corpo,
com urgência e desordem,
exaurindo em mim o gozo e a voz...
incisiva-mente.


DECÁLOGO DE NÓS
Henrique Pimenta
[ in Bar do Bardo ]

- para a sensibilidade de Betina Moraes

1. Boa parte da infância eu adorava me maquiar com as coisas da mamãe na frente do espelho. E colocava as roupas mais bonitas que ela possuía. E desfilava sorrindo. Eu tinha uma verdadeira adoração pela imagem feminina. Sempre preferi as mulheres aos homens. Amava mais a minha mãe, era como se ela fosse Deus: o único Deus possível.
2. Minha mãe plantou a semente do bem no meu coração. Mais tarde, floresci um homem estranho...
3. O espelho nos convida ao jogo de esconde-esconde.
4. Por meio da alquimia, nunca revelarei a fórmula que transforma ouro em virtude.
5. Aprendi com a ciranda que todos podemos cirandar e sermos felizes.
6. Com a válvula queimada da televisão, eu fiz viagens e mais viagens interplanetárias no fundo do meu quintal. Astronauta da NASA? Ou apenas um herói para o universo das formigas, das lesmas e das minhocas?
7. Ruptura é a revelação do outro!
8. A criança de ontem hidrata a fantasia da terceira idade.
9. Quando as mulheres entram em conjunção com a natureza, até um grânulo de pó adquire o contorno de Deus.
10. Fênix possui sempre um aroma de cinza-bebê.


INCONCLUSIVA
Adrianna Coelho
[ in Metamorfraseando ]

nem sempre é sobre o olhar
que me atropela e não vê
as viagens e os trens
em minha cabeça
[ou o chão que falta
sob meus tremores]

nem sempre é sobre um par
de tênis preso nos fios elétricos
de onde pombos voam

nem sempre é sobre o que sei



(DES)ENGANOS
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

erro quanto erro
enquanto acerto
sempre que tento
intento berro
erro nesse verso
naquele inverso
erro quando peço
careço devo
e nada ofereço

erro por teima
cisma queima
erro pelo avesso
poros pelos
erro ao não sê-lo
ao desconhecê-lo
descolar um selo
deslocar um medo
ao não decolar


NADA É... SE ME PARECE
Mirse
[ in Meu Lampejo ]

Nem sempre o carinho
afaga quem precisa.

Nem toda luz ilumina
minha vida.

Nem todo amor

enaltece.

Nem toda alma saboreia
a prece.

Talvez amanhã
eu possa ver

aquilo que hoje
me foi negado.


PREDESTINAÇÃO
Ascenso Ferreira
[ in Xenhenhém, 1951 ]

- Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!

E ela:
- Deus te ouça, minha mãe...
Deus te ouça...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

mulher posta
partilha de peixe
em posta
EXPOSTA
com um coração que por pouco
é só uma hóstia
profana
prolixa
profusa
sou esta mulher: posta
vivo fluente de torpor
com um coração
à porta
um coração
impostor
(CIVONE MEDEIROS)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2666
Rio, 19 de maio de 2009

Os homens são mais importantes do que as pedras.
(Roberto ROSSELLINI. Fragmentos de uma autobiografia, 1977)


Cinema
Primeira leitura
O MESSIAS, de Rossellini

Sem maiores arroubos formais e sem as pretensões estruturais do "grande espetáculo cinematográfico", O Messias (Rossellini, 1976), com sua limpidez franciscana, com sua crueza fílmica, é uma obra-prima. Como em Pasolini (O evangelho segundo Mateus, 1964), o que interessa, em primeiro lugar, é uma certa ontologia humanística que determina a historicidade do Cristo, num distanciamento crítico modelar: nada de efeitos especiais ou de "milagres arrebatadores", nada de "grandes interpretações" ou de cenas (melo)dramáticas. Sua limpeza sígnica - quase antinarracional em alguns momentos -, paradoxalmente, é impura, possível herança do neo-realismo que o marcou nos anos 40 e que, aqui - em sua fase cinetelevisiva, a incluir outras obras-primas, como o extraordinário Santo Agostinho (1972) -, aparece redimensionado. Dentro do cinema italiano, Roberto Rossellini, em nossa opinião, figura na galeria dos criadores fundamentais. Ao lado de Michelangelo Antonioni e Luchino Visconti. Cotação: *** (excelente). [Cópia disponível em dvd: Paulinas.]


FLANELINHA
Marconi Leal
[ in Culturando ]

- Pronto. Deixa solto. Quatro estrofes de Drummond, chefia.
- Como é que é?
- Pra parar o carro aqui, quatro estrofes.
- Tá louco, ô, moleque? Semana passada, eu parei nesse mesmo lugar e só tive que recitar cinco versos de Bandeira!
- O preço é tabelado, chefia. A gente temos sindicato e tudo. Se fizero esse preço pro senhor, esse sujeito deve de ser denunciado. Tá vilipendiando a arte.
- Três estrofes e não se fala mais nisso, ok?
- De João Cabral?
- Peraí, não era de Drummond?
- Quatro de Drummond, três de João Cabral. Sabe como é, o homem concorreu ao Nobel…
- Tá, tudo bem, eu recito Cabral, mas…
- Recitar, não. Dizer. Cabral não gostava que recitassem.
- Ótimo. Eu digo os três versos de Cabral…
- Estrofes.
- Tá, tá, as três estrofes. Mas só quando voltar.
- Aí, não. A última vez que confiei num sujeito que disse isso, na volta, ele só me recitou um Décio Pignatari ou um Campos desses aí… Sem falar em outro que quis me fazer engolir um Arnaldo Antunes. É pagamento na hora.
- Meu filho, eu tô atrasado, não tô com nenhum verso trocado, só lembro de poesia inteira. Quando voltar, lhe recito.
- O senhor é que sabe. Agora, não me responsabilizo se aparecer uma pintura pós-modernista na lataria do seu carro…
- Tá me ameaçando, moleque?
- Eu? Eu, não, nem de arte pós-moderna eu gosto, prefiro o traço clássico, sabe? Pintura figurativa… Mas o senhor sabe como esse pessoal é. Outro dia mesmo deixaram um fusca aqui sem eu ver. Quando o dono chegou, tinham feito uma instalação em cima, colocado uns guarda-chuva no teto, uma televisão velha no lugar do capô, essas coisas. O carro não prestou pra mais nada. Foi recolhido pelo Masp.
- Essa é boa! Esse povo podia assistir televisão, tocar pagode, jogar bola, mas não, vem pra rua esmolar literatura. Nem se divertir em paz a pessoa pode mais. Aposto que eu vou te dizer esses versos, tu vai se inspirar e fazer poesia pra vender em bar.
- Vou não, chefia. É só pra minha necessidade mesmo.
- Pensa que eu não sei? Tu vai vender poesia em bar, moleque.
- É não, é só pra meu consumo mesmo, eu juro.
- Tá, na volta. Já disse, na volta eu recito.
- Então, vai ter que ser Baudelaire.
- Baudelaire? Por conta de uma ou duas horas a mais?
- Ou Rimbaud, o senhor escolhe.
- Ah, não! Que absurdo! Só porque tem carro, esse pessoal pensa que a gente é rico, que decora uma Ilíada por ano! Fique sabendo que eu mal sei de cor o Inferno da Divina Comédia, meu filho! Mas, tudo bem, a culpa não é sua. Acordo fechado. Na volta, te recito Rimbaud.
- Em francês, tá, chefia?


LITERATURA, MÚSICA E FUTEBOL
Paulo Mendes Campos

"Miguel Ângelo é botafogo, Leonardo é flamengo, Rafael é fluminense; Stendhal é botafogo, Balzac é flamengo, Flaubert é fluminense; Bach é botafogo, Beethoven é flamengo, Mozart é fluminense. Sem desfazer dos outros, é com eles que eu fico, Miguel, Henrique, João Sebastião. Dostoiévski é botafogo, Tolstoi é flamengo (na literatura russa não há fluminense); Baudelaire é fluminense, Verlaine é flamengo, Rimbaud é botafogo; Camões não é vasco, é flamengo, Garrett é fluminense, Fernando Pessoa é botafogo. Sim, Machado de Assis é fluminense, mas no fundo, no fundo, debaixo da capa ética, Machado, um bairrista, morava onde? Laranjeiras!"

[ in O Rio de Janeiro em prosa e verso,
de Manuel Bandeira & Carlos Drummond de Andrade.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1965, p.219 ]

Nota do BALAIO: Parafraseando Paulo Mendes Campos, diremos: Antonioni é fluminense, Welles é flamengo, Godard é botafogo, Buñuel é vasco; Bergman é fluminense, Fellini é flamengo, Visconti é botafogo, Eisenstein é vasco; McCay é fluminense, Eisner é flamengo, Crepax é botafogo, Raymond é vasco; Tom Jobim é fluminense, Ari Barroso é flamengo, Noel Rosa é botafogo, Pixinguinha é vasco; Van Gogh é fluminense, Goya é flamengo, Picasso é botafogo, Gauguin é vasco. E, para contrariar parcialmente Paulo Mendes, Bach é fluminense, Beethoven é flamengo, Mozart é botafogo, Händel é vasco; Garrett não é fluminense, é vasco; em compensação Eça é fluminense; Camões é vasco, sim, assim como é flamengo. E Dostoiévski é fluminense e é flamengo, Maiakóvski é botafogo, Tolstoi é vasco. Por último, em Natal: Newton Navarro é ABC, Nei Leandro de Castro é América; Carlos Zens é ABC, Paulo Jorge Dumaresq é América; Sartre é ABC, Camus é América. E em Recife? Arrisquemos: Di Cavalcanti é santa cruz, Portinari é sport, Volpi é náutico. Não nos arriscaremos em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, João Pessoa, Campina Grande, Fortaleza, Salvador. Ou mesmo em Caicó. E São Saruê.

Imagem gráfico-digital do Universo:
autoria desconhecida


BALAIO PORRETA 1986
n° 2665
Rio, 18 de maio de 2009

O que há de mais perturbador sobre Javé é a atitude bastante ambivalente que ele demonstra diante da sua própria criação. Para um Deus todo-poderoso - ao contrário de Zeus e Odin -, Javé mostra-se perpétua e supreendentemente aflito. Todo leitor da Bíblia compreende logo que os atos de Deus
não são previsíveis.

(Harold BLOOM. Jesus e Javé - Os nomes divinos, 2005)


O LIVRO DOS LIVROS
(29)

Texto estabelecido por Moatidatotatýne, o Escriba

A tristeza do Senhor das Alturas

E deu-se que o Senhor das Alturas, o Galalau(¹), o Sem Fim(²), o Cabra Macho, chorou amargamente por seu amigo Moysés Sesyom do Sertão. E errou pelas matas e roçados como um caçador desesperado e vagueou pelas planícies sem horizontes, da Serra de Samanaú à Serra de Mulungu. Quando apareceu, então, o Senhor das Sombras, que lhes disse: "Compreendo a tua tristeza, de proporções místicas, mas o teu Escriba, decerto com a tua permissão, não precisa copiar para a posteridade a epopéia de Gilgamesh(³)".

E o Senhor das Alturas, ainda choroso, respondeu, dando-lhe o maior esporro: "O que entendes por plágio? Nada! Será que não compreendes que tudo o que já foi escrito e escrito será passou, passa e passará pela minha concretude intangível enquanto Ser Superior? O meu Eu Serei o que Eu Sou inspirará Cervantes e o Dom Quixote, Dante e A divina Comédia, Shakespeare e o Hamlet, Câmara Cascudo e o Canto de muro. Moysés foi um dos meus mais queridos amigos e nada mais terrível do que uma solidão eterna".

"Mas o Moysés Sesyom do Sertão, morto, morto-mortinho-da-silva, morto e bem enterrado, de qualquer modo não estará, como espírito e essência, ao teu lado, hem, hem?", indagou-lhe o Senhor das Sombras, com um sorriso deveras zombeteiro. E o Senhor das Alturas, ainda acabrunhado, disse: "Não me venhas com miolo-de-quartinha(ª¹). Sabes muito bem que a questão é muito mais séria e complexa do que possamos imaginar. Como dirá um antropólogo do futuro, trata-se de uma faca de dois legumes(ª²)".

Dito isso, e seguindo os passos da epopéia de Gilgamesh, o Senhor das Alturas correu o mundo selvagem, assustando onças, cangaceiros, quengas(ª³) e lobisomens, urrando de dor e tristeza; e vagou pelos campos e pastos em busca de paz interior. E a encontrou, já no Monte do Galo, em Carnaúba, a dos Dantas. E de lá, mais calmo, voltou para a Serra do Mulungu: a serra que, como em Gilgamesh, guardava - e guarda - o alvorecer e o entardecer de todo o Seridó. Já o Senhor das Sombras, entediado, resolveu partir para o Beco da Lama(ªª¹).

E o Senhor das Alturas, do alto da Serra de Mulungu, meditou. E meditou. E meditou. E concluiu que chegara a hora de prestigiar o reinado de Josué dos Santos Oberdadan. E também concluiu que, para afastar de todo a tristeza, era preciso sacudir o esqueleto no primeiro rela-pimba(ªª²) que encontrasse. E assim o fez. E o Senhor das Alturas foi espiar, animado que só vendo, o Forró da Lua, lá pros lados da capital. E lá o Senhor das Alturas encontrou a bailarina Civone Medeiros. E os dois dançaram a noite inteira, até o sol raiar.

E mais O Livro não dirá. E mais não diremos. E mais não será dito.

Próximo capítulo:
A conquista do Seridó

Notas:

(¹) Galalau : Sujeito muito alto, sujeito altíssimo. Um exemplo: o "Anão" de Jardim do Seridó, em pleno séc. XX da Era Comum, com mais de 2m de altura (204cm, mais precisamente).
(²) Haveria aqui alguma referência mística à Cabala? Alguns, a partir da leitura de Os elementos do caos (Miguel Cirilo, séc. XX da Era Comum), acham que sim; outros, a partir da leitura de As cores do dia (Luís Carlos Guimarães, igualmente séc. XX da Era Comum), acham que não. De qualquer modo, o tema será amplamente discutido no Concílio Caicó 1748 EC.
(³) Epopéia de Gilgamesh : Narrativas lendárias anteriores ao própri'O Livro dos Livros.
(ª¹) Miolo-de-quartinha : Conversa mole, conversa sem futuro, conversa sem sustança.
(ª²) Filósofos, esportistas, catimbozeiros e teólogos discutiram - e ainda discutem - amplamente o significado de tais palavras: 1. A expressão "faca de dois legumes" teria conteúdo esotérico e somente aqueles que mergulhassem no Poço de Santana, em Caicó, alcançariam o seu significado mitológico e forrozeiro; 2. A expressão seria uma referência não-explícita ao Cai Pedaço, famosa zona de baixo meretrício na citada Caicó; 3. A expressão teria conteúdo político de alcance bipolar paradigmático/paradogmático, cuja materialidade ontológica passaria pela compreensão dos cordões encarnado e azul em festas de cidades do interior.
(ª³) Quenga : Prostituta reeira, prostituta de quinta categoria; o pior dos insultos dirigido a uma mulher, seja ela meretriz ou não.
(ªª¹) Não está n'O Livro, mas se supõe que, no Beco da Lama, em plena Cidade dos Reys, o Senhor das Sombras, ao lado de Alexandro Gurgel e outros, divertiu-se pra valer.
(ªª²) Rela-pimba : Rela-bucho, forró.

domingo, 17 de maio de 2009


Clique na imagem
[ foto: autoria não-identificada ]
para verouvir
um vídeo do tricolor
Edu Rocha
em homenagem às
torcidas do
Vasco, Flamengo e Botafogo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2664
Rio, 17 de maio de 2009


Um clássico decisivo no Maracanã é um espetáculo inesquecível, gloriosamente inesquecível. Eu ousaria até mesmo dizer: em termos de emoção e criatividade coletivas, não conheço nada parecido. Neste sentido, as torcidas dos quatro grandes clubes do Rio merecem os parabéns de todos aqueles que amam o futebol como uma festa dionisíaca - mesmo levando em conta as possíveis frustrações, as possíveis tristezas. Afinal, amar um clube de futebol aponta para uma paixão eterna, para uma paixão sem fim.
Nas vitórias e nas derrotas.



SECRET LIFE OF PLANTS
Mário Ivo
[ in Cidade dos Reis, em 21/92008 ]

Beba-me, e eu andarei sobre estrelas.

Beba-me, e engoliremos a noite.

Beba-me, e as nuvens deixarão fiapos soltos entre dentes nossos.

Beba-me, enquanto minha boca busca tua mordida. Enquanto tua boca ronda meu pescoço.

Enquanto tua mão colhe plantas e flores no calor do meu sexo. Transplantados ao teu. Haste úmida, respiro aquático.

Beba-me, enquanto dançamos à beira do abismo, princípio nosso de cada fuga que fazemos antes do amanhecer.

Beba-me, mate-me.

Beba-me enquanto me comes.

Só não me abandones.

Poema de
Mercedes Lorenzo
[ in Cosmunicando, em 21/32009 ]

A MAIS PERFEITA TRADUÇÃO

subtraída

de versos que nunca escreverei

daquilo que não nasceu de mim

sinto ao ler esses poetas

artífices de vãos que me habitam

tradutores do meu indizível

imaginando se todo o jogo enfim

é nas entranhas co-autoria

e sob nosso olhar comum

furtivamente me aposso [ ladra

de uma fração de intimidade

que nunca me foi tirada


POEMA
Nivaldete Ferreira
[ in Lápis Virtual ]

não a vida alugada à vida.
sim esta mágica
dada
a dourar
o pano simples das coisas

soltar os talheres do medo:
a carne da vida
toma-se à mão
-nuas uma e outra,

ou mais real será
o espantalho que a lavoura.

(publicado originalmente em
Trapézio e outros movimentos, 1994)



ETERNO TRICOLOR
Moacy Cirne
[ in Balaio 2361, de 06/07/08 ]

para
os tios
Silvino e Gérson (in memoriam)
Walfredo, Raimundo e Waldemar
Toinho e Josebel
e para
Castilho, Didi e Telê (in memoriam)


Aprendi com os meus tios
e os meus heróis de infância
que uma paixão
não se constrói
sem sal, suor e sol,
poesia, potengis e epopéias:
uma paixão se constrói
grená que te quero grená e garra
garra que te quero grená e granito
seja nas esperanças mais delirantes
seja na paz de guerreiros alucinantes.
Aprendi
com meus tios e heróis
que existe uma paixão
moldada como um vendaval
de alumbramentos
tecidos com engenho, arte e ambrosias.
E se
os Deuses não souberam
contemplar o tempo templo
de um Maracanã
abençoado
por
homens e mulheres
velhos e crianças
em êxtase dionisíaco,
pior para Eles,
mil vezes Malditos
mil vezes Insensíveis
diante da vibração mágica
diante da emoção trágica
que terminaria por se desenhar
na geometria das tempestades
e auroras enlouquecidas.
Mal sabem Eles,
pobres Deuses sem brilho e sem humor,
que na alma de cada tricolor
existe um eterno amor.

sábado, 16 de maio de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
Clique na imagem
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cenas de
Fabíola
(Alessandro Blasetti, 1948)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2663
Rio, 16 de maio de 2009


Exibido na "Vila do Príncipe" seridoense por volta de 1952, Fabíola chamou a atenção da população de Caicó por um motivo bastante simples: o "marírio dos cristãos" durante o Império Romano, com suas implicações bíblicas e historicizantes, apresentava-se repleto de ingredientes comoventes - e imagens que impressionavam -, com lances de igual modo amorosos, a partir, claro, de "romanceamentos" discutíveis. Na verdade, para além do "drama bíblico" estava um "drama sentimental". Como resistir, pois, a seu impacto conteudísitico-cinematográfico, sobretudo numa cidade que respirava religiosidade e sensualidade, mesmo considerando os limites morais da época? E Caicó não era uma cidade qualquer. Caicó era (e talvez ainda seja) Caicó.


Repeteco
OS ÍCONES CINEMATOGRÁFICOS
(Moacy Cirne, em 20/10/2007)

A idéia de ícone implica emblematização. Não significa necessariamente qualidade, embora possa figurar, no caso da arte, num determinado patamar estético capaz de resistir ao tempo. Quando pensamos no cinema, por exemplo, alguns ícones são evidentes. Outros são discutíveis. Sim, também aqui, é possível estabelecer divergências. Às vezes, um certo neblinamento pode sublinhar nossas opiniões. Mas fiquemos nos ícones mais claros.

Tomemos os musicais de Hollywood. Decerto, Cantando na chuva (Kelly & Donen, 1952) será lembrado pela maioria como o ícone por excelência. Seria o melhor musical realizado até hoje? Possivelmente, sim. Contudo alguns poderão preferir A roda da fortuna (Minnelli, 1953) em termos qualitativos. Ou Sinfonia de Paris (Minnelli, 1951). Ou Amor, sublime amor (Wise & Robbins, 1961). Por que não? Afinal, são quatro grandes filmes.

E no caso do bangue-bangue? Aqui, apontaríamos nomes: John Ford como diretor e John Wayne como ator. A reunião dos dois resulta em obras-primas como No tempo das diligências (1939) e Rastros de ódio (1956). Mas não há como esquecer Howard Hawks, igualmente com John Wayne em Rio Vermelho (1948) e Rio Bravo (1959). Ultimamente, a partir de várias revisões, Sergio Leone, sobretudo com Era uma vez no oeste (1968), tem-se destacado. Acreditamos que ele é mais do que um ícone do faroestespaguete.

Na comédia, claro, há que apontar Charlie Chaplin (Em busca do ouro, 1925; Luzes da cidade, 1931; Tempos modernos, 1936). Como realizador, preferimos Buster Keaton (Sherlock Jr., 1924; Seven chances, 1925; A General, 1927). Porém não devemos confundir as coisas. Não se trata de optar por um por outro; há espaço para os dois entre os "gênios do cinema". Além do mais, há outros grandes nomes no solo fértil da comicidade cinematográfica: O Gordo e O Magro, Jacques Tati, Billy Wilder (na comédia romântica).

E se falamos em comédia romântica, falemos em drama romântico. O grande ícone será Casablanca (Curtiz, 1942). Quem ousará discordar de? Todavia, segundo a nossa leitura crítico-afetivo-libertinária (com suas implicações ora semiológicas, ora seridoenses), Desencanto (Lean, 1945) continua sendo um filme insuperável. Um dos maiores da história do cinema. Ou, pelo menos, um dos maiores dos anos 40.

Um dos maiores ícones do cinema? E o maior de todos os filmes? Seria ele o ícone dos ícones em se tratando de estética cinematográfica? Talvez sim. Embora não seja o maior título da "sétima arte" - capaz de problematizar questões produtivas e culturais -, só um filme conseguirá se impor neste quesito: Cidadão Kane (Welles, 1941). Mas, afinal, qual seria o maior filme da história do cinema? Impossível apontar um título. De nossa parte, há muito que indicamos A aventura (Antonioni, 1960) como o melhor entre os melhores. E daí? Trata-se de uma escolha bastante pessoal, carregada, em nosso caso particular, de substância estética à beira da existencialidade e de um verdadeiro desnudamento ontológico. Afinal, "cada cabeça, uma sentença". Ou melhor: cada cabeça, uma emoção.

Outros ícones? O do cinema político (Eisenstein, Vertov, Godard, Glauber Rocha)? O do film noir (Preminger, Hawks, Wilder)? Do cinema documentário (Flaherty, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho)? Há mais ícones: Mário Carneiro, símbolo da fotografia em nosso cinema. Visconti e Rossellini, emblemas do neo-realismo italiano; 2001: uma odisséia no espaço (Kubrick, 1968), o representante mais completo da ficção científica; Oscarito, símbolo da chanchada carioca. E o que dizer de um Fellini? Ícone de um cinema-bailarino (reportando-nos a Welles, em A ricota, curta de Pasolini)? E o que dizer do cinema Boca-do-Lixo - qual o seu ícone? Qual o seu nome mais legítimo?

A verdade é que sempre haverá discussões a respeito. Como assinalar, por exemplo, o ícone da beleza/sensualidade feminina nas telas do cinema mundial. Ingrid Bergman? Rita Hayworth? Maria Félix? Sophia Loren? Marilyn Monroe? Brigitte Bardot? Ava Gardner? Atrizes mais recentes? Brasileiras? Argentinas? Chilenas? De qualquer maneira, mais vale a mulher amada do nosso lado, olhando para os nossos olhos, do que duas ou três na imaginação a mais delirante. Mesmo que sejam belíssimas. Afinal, de forma concreta, e próxima, a mulher amada também será belíssima. Ou mais.

Não nos esqueçamos que, fora do campo cinematográfico, são muitos os ícones do século XX: Einstein, em ciência; Picasso, em pintura; Che Guevera, em rebeldia revolucionária; Gaudí, em arquitetura; Sartre, em existencialismo; Bachelard, em epistemologia; Fla-Flu (e/ou Pelé, e/ou o Maracanã), em futebol; Cartier-Bresson, em fotografia; Brecht, em teatro; Maiakóvski (e/ou Fernando Pessoa), em poesia; Guimarães Rosa (e/ou Joyce, e/ou Kafka), em literatura ficcional; Stravinsky, em música; Câmara Cascudo, em folclore; Freud, em psicanálise; Joãozinho XXIII, em religiosidade católica; Lênin, em política revolucionária. E há aqueles símbolos alimentados pela indústria capitalista: a Parker 51, o cadilaque, a coca-cola (essa última não nos interessa, a bem da verdade). Seriam símbolos inúteis? Não, não existem símbolos inúteis ou, mais precisamente, leituras inocentes (cf. Louis Althusser).

Há, ainda, uma pergunta final a ser formulada: o ser humano necessita de ícones? Quer nos parecer que sim. Assim como necessita de mitos religiosos que requerem a criação histórico-ficcional de um Deus judaico-cristão-muçulmano.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

O encontro do sertão com o mar,
na Praia de (São) Cristóvão,
em Areia Branca,
litoral norte do Rio Grande,
terra do poeta Deífilo Gurgel

Foto:
Alexandro Gurgel
in
Chão Potiguar


BALAIO PORRETA 1986
n° 2662
Rio, 15 de maio de 2009

Ora, sabendo que Micarla [Prefeita de Natal] é uma figura midiática, com larga experiência no manejo da própria imagem e além do mais, proprietária de uma empresa de comunicação televisiva, quem poderia esperar que sua gestão não houvesse de ser igualmente midiática, uma gestão baseada mais na aparência, do que nas ações políticas? De uma candidatura meramente midiática devemos esperar muita propaganda e pouco resultado. Então não há razão para espanto com a inoperância de sua gestão. Sua gestão é e será feita na base de efeitos especiais, um jogo de cena.
(Tetê BEZERRA, in Substantivo Plural)


Poesia potiguar
AINDA OS 10 MAIS

Só agora recebemos a lista dos "10 Mais" da poesia potiguar do pesquisador, folclorista e igualmente poeta Deífilo Gurgel. Mesmo com o final da pesquisa, resolvemos reproduzi-la. Ei-la, pois: 1) Ferreira Itajubá; 2) Auta de Sousa; 3) José Bezerra Gomes; 4) João Lins Caldas; 5) Luís Carlos Guimarães; 6) Miguel Cirilo; 7) João Gualberto; 8) Diva Cunha; 9) Sanderson Negreiros; e 10) Nei Leandro de Castro.


A PRAIA
Deífilo Gurgel
[ in Os dias e as noites, 1979 ]

Daqui partiram rudes marinheiros
para as grandes viagens e aventuras,
com suas mãos de mar, calosas, duras,
rasgando novos rumos e roteiros.

Aqui sonharam ternas criaturas,
em noites de luar, sob o luzeiro
das cúmplices estrelas, nas alturas,
e a brisa farfalhante dos coqueiros.

A praia é testemunha da passagem
dos homens, pelos séculos, na viagem
para os eternos e invisíveis portos.

E o pé que hoje a palmilha é o mesmo pé
de antigos ancestrais, mortos na fé,
mortos no amor, onipresentes mortos.

NADA
Carlos Gurgel

(p/ Anadyr)

nada
nadinha
diz mais
do que a fonte sagrada
do amor

nada absolutamente nada
é maior
do que teu sorriso
revelador

um tanto do muito do tudo do que preciso

nada
assim eu sei
que absolutamente nada
se compara
a sua infinita luz.


TRÊS POEMAS
Marco Justo
[ in Opus, 1993)

Me lambe amor.
Me lambe inteiro
em tua boca:
até não restar
nada mais
que um Homem.

***

É uma devassa
tua palavra quando queima
em minha língua.

***

Todos os
silêncios
são gatos.


REALIDADE
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

abracadabra
bracadabra
racadabra
acadabra
cadabra
adabra
dabra
abra
bra
ra
a

abracadabra
abracadabr
abracadab
abracada
abracad
abraca
abrac
abra
abr
ab
a

não tem mágica
tudo termina
na mesma
vogal

FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

[] Só conheço um afrodisíaco - a mulher.
(Millôr Fernandes)
[] O Ministério da Saúde adverte: conservadorismo e puritanismo provocam câncer.
(Balaio 985)
[] O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa.
(Hölderlin)
[] A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
(Barão de Itararé)
[] O sonho é o pensamento em férias.
(Murilo Mendes)
[] Seja um viciado em amor. Não há nenhuma contra-indicação do Ministério da Saúde.
(Dailor Varela)
[] Deus é Soda. Já dizia Fócrates.
(Boêmio da Lapa, no Rio)
[] O gol é o orgasmo do futebol.
(Anônimo, em pleno Maraca, no Rio)
[] Prefiro o paraíso pelo clima, e o inferno pela companhia.
(Marx Twain)
[] Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.
(Charles Baudelaire)
[] O caminho dos excessos leva ao palácio da sabedoria.
(William Blake)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

América pré-hispânica
- sobrecapa para um livro de Pablo Neruda -
(1950)
Diego Rivera


BALAIO PORRETA 1986
n° 2661
Rio, 14 de maio de 2009

Assim que se começa a interpretar a Bíblia literalmente, em vez de simbolicamente, a ideia de Deus torna-se impossível.
(Karen ARMSTRONG. Uma história de Deus, 1993)


O LIVRO DOS LIVROS
(28)

Texto estabelecido por Moatidatotatýne, o Escriba

O funeral de Moysés Sesyom do Sertão

E o patriarca e profeta Moysés Sesyom do Sertão faleceu na Serra de Samanaú, às 5 horas da tarde, enquanto dois pastores, que por ali passavam, recitavam versos de Garcia Lorca, poeta d'além-mar do futuro. E o sucessor Josué dos Santos Oberdadan providenciou o seu enterro, com bastante pompa, no solo sagrado da Serra.

E nunca se viu um funeral com tanto general.

E nunca se viu um sepultamento com tal alumbramento.

Da Europa distante vieram os imperadores Hugo Pratt, Astérix Obélix, Paolo Pasolini e Milo Manara. E mais as imperatrizes Anna Magnani, Claudia Cardinale, Sophia Loren e Ingrid Bergman. Dos longínquos Estados Unidos compareceram os historiadores Flash Gordon, Ray Bradbury, Mandrake Falk(¹) e John Wayne. E mais as trapezistas Barbarella Fonda(²), Marilyn Monroe, Ava Gardner e Jean Seberg.

Da América Latina amada vieram os teólogos Jorge Luis Borges, Che Guevara, Diego Rivera e Juan Rulfo. E mais as geógrafas María Felix, Maria Antonieta Pons, Mafalda Quino e Libertad Lamarque. Da amada África vieram os arquitetos Agostinho Neto, Samora Machel, Luandino Vieira e Luís Romano. E mais as cientistas Paula Tavares, Zama Magaduela, Sara Tavares e Macaela Reis. E assim foi. E assim aconteceu.

E todos, de Hugo Pratt a Micaela Reis, viajaram em seus pavões misteriosos(³), fabricados na Grécia, na Turquia e também em Campina Grande.

E mais gente veio, e veio mais gente, de todas as épocas, de todos os tempos: Homero, Ramsés II, Confucius, Santo Agostinho, São Francisco de Assis, Dante, Camões. E mais gente veio: Kim Novak, Zumbi dos Palmares, Leão Itacarambi, Jerusalém do Além(ª¹),
Helder Câmara e vários generais da banda de música de Cruzeta, a famosa Furiosa, que tocou um dobrado dos mais arretados, sob a regência de Felinto Lúcio. E a emoção tomou conta do povaréu. Foguetões(ª²) pipocaram. E assim aconteceu. E assim foi.

E Josué dos Santos Oberdadan, em seguida, pronunciou uma oração fúnebre capaz de estuporar(ª³) até mesmo um defundo daquela grandeza: "Fostes bravo, fostes cabra da peste(ªª¹), o espírito do Senhor das Alturas falou por ti, a sua palavra está sobre a minha língua. Fostes companheiro, fostes amigão, o espírito do Senhor das Alturas está na minha língua(ªª²). Cordeiro do Senhor, nada nos faltará. Cordeiro do Senhor, a Terra Prometida já se encontra sob nossos pés. Cordeiro do Senhor, inigualável é a Vossa Luz"(ªª³).

E Josué dos Santos Oberdadan afastou-se de todos com o corpo de Moysés Sesyom do Sertão e o enterrou no alto da Serra, longe da pequena multidão. Até hoje não se sabe o local exato de sua morada final. Os seridoenses - alguns voltaram para Açu e Jucurutu e São Rafael, outros preferiram ficar por ali mesmo - choraram o Patriarca por 30 dias e 30 noites. Um pouco adiante, debaixo de uma velha oiticica, ouviu-se um soluço homérico: era o choro do Senhor das Alturas.

Próximo capítulo:
A tristeza do Senhor das Alturas

Notas:

(¹) No séc. XX da Era Comum existirá um personagem das histórias-em-quadrinhos conhecido por Mandrake, criação de Lee Falk & Ray Moore. Estaríamos, por ventura, diante de uma simples coincidência bíblica?
(²) De igual modo existirá uma heroína francesa de quadrinhos conhecida por Barbarella, a ser interpretada, através de imagens em movimento, pela atriz norte-americana Jane Fonda. Estaríamos, também aqui, diante de mais uma simples coincidência bíblica?
(³) "Pavão misterioso" : Nave voadora que, séculos depois, no ano de 1932 da Era Comum, será cantada em prosa e verso por um poeta popular do cordel nordestino.
(ª¹) Os exegetas mais rigorosos não conseguiram apurar a identidade desse 'Jerusalém do Além'. Mas segundo a historiadora Adrianita Ita Ita, amiga de Carito Ivo Ivo, seria o nome de guerra de um trovador da Idade Média da Era Comum, muito popular entre os roqueiros de Oh!linda, em Pernambucália, por Raul Seixas conhecido.
(ª²) Foguetões : Rojões.
(ª³) Estuporar : Ficar repentinamente doente em função de um choque térmico mais violento. [O uso aqui é meramente metafórico.]
(ªª¹) Cabra da peste, ou simplesmente Caba da peste : Sujeito valoroso, sujeito arretado, sujeito danado de bom. Indivíduo corajoso. Poder-se-á também dizer: Cab(r)a bom da porra. Já cabra da rede rasgada é o sujeito desabusado e/ou desordeiro.
(ªª²) "Sobre a minha língua" / "Está na minha língua" : Segundo o teólogo Samuel Fulleraraújo, não se trata, neste caso, de um simples jogo de palavras, valorizado por traduções/revisões diferenciadas: trata-se, antes, de um pressuposto de hermenêutica cosmológica entre o ser-linguístico e o ser-póslinguístico, cujas conotações sexuais teriam implicações freudianas no campo do saber metafísico.
(ªª³) Ou seja: "O Arquiteto Divino tinha cada vez menos coisas a fazer no mundo. Não precisava nem mesmo conservá-lo, porquanto o mundo cada vez mais prescindia desse serviço" (Alexandre Koyré. Do mundo fechado ao universo infinito, ano 1957 da Era Comum).

quarta-feira, 13 de maio de 2009


Foto:
Scott Murdoch


BALAIO PORRETA 1986
n° 2660
Rio, 13 de maio de 2009

A Arte verdadeira tem a capacidade de nos deixar nervosos. Quando reduzimos a obra de arte ao seu conteúdo e depois interpretamos isto, domamos a obra de arte. A interpretação torna a obra de arte maleável, dócil. // Este convencionalismo da interpretação é mais evidente na literatura do que em qualquer outra arte.
(Susan SONTAG. Contra a interpretação, 1964)


MULHER
Nei Leandro de Castro

Mulher: ternura previsível, imprevisível
que vai e se esvai na planície da cama.
Colinas, colunas de marmore onde se gravam
o som, o sonho, o sono de quem ama.
Mulher: feita de beijos, calor, sombra de arminho,
belo e bravo animal, animalzinho, orgulho da raça
quando vai à luta e prende e conquista
o homem, só alumbramento e caça e caça.
Mulher, não importa a cor do seu olhar.
O que emerge é a força, a sedução, a luz
que vem dos seus olhos, seios, lábios
e tudo mais que cobre de ternura e seduz.


TRADUÇÃO-HOMENAGEM
A EDMOND JABÈS
(1912-1991)
Fragmentos
Max Martins
[ in Não para consolar, 1992 ]

Não negligencia o eco, pois é de ecos que tu vives.

Uma folha branca está cheia de caminhos.

Ele interroga as palavras que o interrogam.

O livro nos lê.

Só o leitor é real.

O humor é poesia. O cômico é prosa.

A aurora cria o galo.

A memória do poeta é sem tempo.

O sexo é sempre uma vogal.

As palavras elegem o poeta.

O louco é a vítima da rebelião das palavras.

A imagem é formada de palavras que a sonham.

Pronunciada, a palavra voa; escrita, ela nada.

As palavras têm os sons por sombra.


POEMA
Orlando Pinheiro da Silva
[ in Totex, em 18/09/2008 ]

o que vem depois das citações

o que não há surge
o que não há inventa-se
o que não há inicia-se

o que nasce quando há silêncio

terça-feira, 12 de maio de 2009

Foto:
Amanda Com
in
Olhares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2659
Rio, 12 de maio de 2009

Só as santas
se desnudam por inteiro.
(Hildeberto Barbosa Filho, in Eros no aquário, 2002)


REBOLIÇO
Renato Caldas
[ in Fulô do mato, 1940 ]

Menina me arresponda
sem se ri e sem chorá:
Pruque você se remexe
quando vê home passá?
Fica toda balançando,
remexendo, remexendo...
Pensa tarvez qui nós véio
nem tem oio e nem tá vendo?

Mas se eu fosse turidade,
se eu tivesse argum valô,
eu botava na cadeia
esse teu remexedô...
E adespois dele tá preso
num lugá, bem amarrado,
eu pedia: - Minha nega,
remexe pro delegado.


CLARICE
Márcia Maia
[ in Mudança de Ventos ]

Toda uma vida e apenas três palavras. Dissera acácia, ao adolescer e apaixonar-se por um Artur que tantos criam imaginário. E então, antúrio, ao ser por ele brutalmente violada. Anos depois, disse nenúfar. Três dias antes de afogar-se onde nunca houvera água.


FALSA CALMARIA
Vivi Fernandes
[ in Chalé da Vivi ]

Calma.
Não te escrevo
não é por desamor.
É por espanto.

Calma.
Não te escrevo
não é por rancor.
É por quebranto.

Daqui a pouco,
vem uma enxurrada
de versos diversos
repletos com a tua alma.
Daqui a pouco,
tudo vai ser inverso:
meu destino na tua palma
e você me pedindo calma.

/Poema musicado por Ivan Lins/

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O nascimento de Vênus
(1879)
William-Adolphe Bouguereau


BALAIO PORRETA 1986
n° 2658
Rio, 11 de maio de 2009

A ideia antropomórfica de Deus como Legislador e Governante não é adequada ao temperamento da pós-modernidade.
(Karen ARMSTRONG. Uma história de Deus, 1993)


O LIVRO DOS LIVROS
(27)

Texto revisado por
Eme Costa, o Ateu

Despedida e morte de Moysés Sesyom do Sertão

E Moysés Sesyom do Sertão dirigiu-se a todo o povo seridoense, velhos e crianças, homens e mulheres: "Tenho hoje 120 anos; já não danço e toco como antigamente; já não posso apreciar uma buchada com meladinha(¹), como o fazia. Já não tenho gala para embuchar(²) ninguém. Estou chegando ao fim da minha vida terrena. Além do mais, o Senhor das Alturas me revelou que eu não veria o Rio Seridó de barreira a barreira(³), nem em suas águas me banharia. E para me substituir, ouvindo o Senhor, escolhi um amigo de fé para conduzi-los à Terra Prometida. Josué dos Santos Oberdadan, médico da alma e do corpo, filho de Manedidim dos Santos, será o vosso guia".

Depois, Moysés Sesyom do Sertão chamou o amigo e lhes disse: "Sejai forte e cabra macho, pois farás entrar o nosso povo na terra que a teus pais o Senhor das Alturas prometeu. És tu que lhes darás como posse esta terra abençoada pelos santos e deuses d'África e d'Amazônia. O próprio Senhor das Alturas, mesmo invisível, marchará à tua frente". E mais disse o profeta e patriarca, esposo e companheiro de três mulheres - Zípora Brito sendo a primeira - e pai de 33 filhos e filhas, quase todos futuros torcedores do tricolor das Laranjeiras, no Rio(ª¹): "Mas antes de morrer tenho dois pedidos a fazer. Só dois, e ponto final".

E os pedidos foram feitos. E foram feitos os pedidos a Josué dos Santos Oberdadan: "Primeiro, que ordenes a construção de templos, para que neles sejam guardadas e bem guardadas cópias autenticadas dos Dez Mandamentos e dos Atos Institucionais, que representam a Aliança do Senhor das Alturas com a Humanidade. O primeiro templo será construído em Jucurutu; o segundo, em Santa Cruz do Inharé; o terceiro, em Santa Luzia, no Seridó paraibano. Um quarto templo, o principal, deverá ser construído em Caicó e receberá o nome de Castelo de Engady e nele serão guardados os originais das Leis do Senhor, já nomeadas por mim e pela história bíblica".

"O meu segundo pedido: Já que o Senhor determinou que eu não deveria entrar nas cidades seridoenses, gostaria de pelo menos ver a maior delas, mesmo levando em conta que hoje não passa de um simples vilarejo, um nadinha de nada. Leva-me, pois, à Serra de Samanaú, futura São Bernardo, para que eu possa sentir o esplendor da região mesopotâmica de Caicó(ª²), ou Queicuó segundo a denominação dos tapuias que por lá habitam. Para mim, será a glória das glórias, pois, em todo o universo, só existirão três cidades com beleza ímpar: Rio de Janeiro, Paris e Caicó, não necessariamente nesta ordem(ª³). Depois poderei morrer em paz".

E assim aconteceu. Do alto da Serra de Samanaú, Moysés Sesyom do Sertão pode contemplar a beleza das terras que verdejavam em torno de Caicó, já que era um ano de bom inverno(ªª¹). E os seus olhos se encheram de lágrimas. E logo depois, morreu de morte morrida. Ao contrário de Aijesus da Cruz, que, décadas décadas e décadas depois, morrerá de morte matada, montado num jumento, assim diz o Novo Testamento(ªª²).

Próximos capítulos:
O funeral de Moysés Sesyom do Sertão
A tristeza do Senhor das Alturas

Notas:

(¹) Buchada : comida sertaneja à base de miúdos e tripas de carneiro, ovelha, cabrito ou bode; Meladinha : cachaça com mel e limão.
(²) Embuchar : Engravidar.
(³) De barreira a barreira : Diz-se de um rio na enchente, com a correnteza de margem a margem.
(ª¹) Possível referência ao Fluminense Futebol Clube, agremição esportiva criada no início do século XX da Era Comum, ou seja, em 1902 EC.
(ª²) A cidade de Caicó, no sertão potiguar, fica situada no encontro dos rios Seridó e Barra Nova.
(ª³) Sobre este assunto, a opinião de Josué dos Santos Oberdadan será um pouco diferente: para ele, as três mais belas cidades do mundo, no futuro, seriam London London, Rio de Janeiro e Caicó. Não necessariamente nesta ordem.
(ªª¹) Há aqui uma desconcertante contradição n'O Livro dos Livros: se "era um ano de bom inverno", evidentemente do alto da Serra do Samanaú daria para ver o Seridó de barreira a barreira. O mais correto seria afirmar: "fora um ano de bom inverno". Decerto, houve falha na revisão textual de Eme Costa, o Ateu.
(ªª²) Trata-se, evidentementem, de uma licença poética usada pelo Redator do Primeiro Testamento, tomando como base os versos populares de um futuro cantador paraibano, por Zélimeira conhecido.