BALAIO PORRETA 1986
n° 2669
Rio, 22 de maio de 2009
Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou caminho de salvação; na prática, porém o que se verifica é completamente diferente. ... Boa parte, inclusive, dos teólogos está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com a autoridade divina.
(Baruch de SPINOZA. Tratado teológico-político, 1670)
O LIVRO DOS LIVROS
(30)
Texto estabelecido por Moatidatotatýne, o Escriba
A conquista do Seridó
E Josué dos Santos Oberdadan, filho de Manedidim, amigo e compadre de Moysés Sesyom do Sertão, perguntou-se: "Os primitivos tapuias já foram exterminados; será necessário eliminar a população nativa para que tenhamos apenas seridoenses puros?" E o próprio Josué dos Santos Oberdadan respondeu-se: "Acredito que não, há lugar para todos, e todos viveremos em paz, e o Senhor das Alturas há de concordar comigo". Assim é. Assim foi. Assim será. E tudo começou a acontecer. E começou a acontecer tudo e póstudo, na vastidão do Seridó(¹).
E lá se estabeleceram - sob as bênçãos de Josué dos Santos Oberdadan - Teodósio Leite de Oliveira, Teodósia dos Prazeres, Manuel Gonçalves Diniz, Pedro de Albuquerque da Câmara e mais os membros das mais variadas famílias: os Araújos, os Medeiros, os Dantas, os Batistas, os Costas, os Azevedos, os Pereiras, os Britos, com seus 12, 15, 20 ou 26 filhos e filhas. E foi construída a Casa Forte do Cuó(²). E foi fundada a Irmandade do Santíssimo Sacramento. E foi criada a Irmandade dos Negros de Nossa Senhora do Rosário. E foi construído o templo denominado Castelo de Engady, para guardar para todo o sempre os originais dos Dez Mandamentos. E foi erguido, em Queicuó, o Cinema Pax, para que fossem glorificadas as imagens em movimento de Tarzan, Durango Kid, Humphrey Bogart e Ava Gardner.
E em sonho o Senhor das Alturas disse para Josué dos Santos Oberdadan: "O Seridó é uma terra mística; é preciso honrá-la como se honrará a veneração à Nossa Senhora de Sant'Ana, à lembrança do Cinema Pax, à Serra de Samanaú, à sangria do Gargalheiras, à Serra de Mulungu, à Passagem das Traíras, à poesia feita em Currais Novos, à beleza de Maria Félix, Teresinha Morango e Ava Gardner". E disse mais, no mesmo sonho: "O Seridó é uma terra mágica; é preciso amá-la como se amará a coragem de seus desbravadores, a personalidade de suas mulheres, a inteligência de seus anciãos, a musicalidade de sua gente e a beleza de Rejane Medeiros, Joana d'Arc de Caicó e Ava Gardner(³)".
E a fé do povo aumentou. E o consumo de carne de sol, queijo de coalho, macaxeira e arroz da terra duplicou. E a Festa de Sant'Ana carnavalizou-se. E o seridoense mais e mais tornou-se trabalhador, hospitaleiro e acolhedor. E o Itans passou a pegar água(ª¹) cada vez mais, provocando sangrias místicas, etílicas e cabalísticas. E a cultura do algodão triplicou. E as auroras se tornaram mais barrocas. E as cruvianas(ª²), mais suaves. E as lendas e os mistérios contribuíram para a formação do seridoísmo. Como a lenda da Moça Bonita(ª³):
"Sua pele era aveludada e tinha a cor, os mistérios e a quentura de uma noite estrelada do Seridó. Era uma jovem bonita, bonita de arrepiar, a mais bela da região, a mais bela a povoar os sonhos de vaqueiros, pescadores e caçadores de onças. Os pássaros da quase-manhã, quando o sol, solene e solitário, desenhava mais uma aurora sertaneja com cheiro de capim molhado, cantavam em sua homenagem. As cores alegres do dia pintavam de azul e negrume aquela beleza nascida do inesperado vento barroco da saudade. Sim, sim. Era uma bela e candente mulher. E tinha um hábito salutar: gostava de se banhar nua, sozinha, nas primeiras horas da manhã, no poço do rio que ela tanto amava, quando o inverno chegava: o rio de suas esperanças, o rio de suas mais doces alegrias. O rio de seu santo protetor - São José por nome, São José por devoção.
Mas um dia aconteceu o que não estava escrito no firmamento, o que não estava escrito nas cantorias do sertão, o que não estava escrito nem mesmo no Lunário Perpétuo: a nossa jovem, nua como sempre nas águas do poço encantado, sentiu-se observada por olhos grávidos de volúpia e macheza. Tentou cobrir suas vergonhas, inutilmente. Tentou cobrir suas belezuras. Inutilmente. Os olhos eram maiores do que a sua inocência. Maiores do que a sua seridolência. Era um domingo e Domingas era o seu nome. Desesperada, sentindo-se desonrada, correu para um matagal e lá se encantou: tornou-se um pássaro mais azul do que o azul mais brilhante, que voou para o horizonte em busca de seus sonhos. Nunca mais foi vista, nunca mais foi visto. Os moradores da região, deslumbrados com a história, nomearam o lugar de Poço da Moça Bonita.
Mais tarde, bem mais tarde, inícios do século XX da Era Comum, surgiria a povoação, hoje cidade, de São José do Seridó. Ou, simplesmente, São José da (Moça) Bonita. E todos os pássaros da região ainda cantam em homenagem àquela bela e misteriosa mulher.
Que se encantou para sempre".
Próximos capítulos:
31. O livro de Jó
32. Cântico dos Cânticos
33. Sabedorias eclesiásticas
n° 2669
Rio, 22 de maio de 2009
Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou caminho de salvação; na prática, porém o que se verifica é completamente diferente. ... Boa parte, inclusive, dos teólogos está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com a autoridade divina.
(Baruch de SPINOZA. Tratado teológico-político, 1670)
O LIVRO DOS LIVROS
(30)
Texto estabelecido por Moatidatotatýne, o Escriba
A conquista do Seridó
E Josué dos Santos Oberdadan, filho de Manedidim, amigo e compadre de Moysés Sesyom do Sertão, perguntou-se: "Os primitivos tapuias já foram exterminados; será necessário eliminar a população nativa para que tenhamos apenas seridoenses puros?" E o próprio Josué dos Santos Oberdadan respondeu-se: "Acredito que não, há lugar para todos, e todos viveremos em paz, e o Senhor das Alturas há de concordar comigo". Assim é. Assim foi. Assim será. E tudo começou a acontecer. E começou a acontecer tudo e póstudo, na vastidão do Seridó(¹).
E lá se estabeleceram - sob as bênçãos de Josué dos Santos Oberdadan - Teodósio Leite de Oliveira, Teodósia dos Prazeres, Manuel Gonçalves Diniz, Pedro de Albuquerque da Câmara e mais os membros das mais variadas famílias: os Araújos, os Medeiros, os Dantas, os Batistas, os Costas, os Azevedos, os Pereiras, os Britos, com seus 12, 15, 20 ou 26 filhos e filhas. E foi construída a Casa Forte do Cuó(²). E foi fundada a Irmandade do Santíssimo Sacramento. E foi criada a Irmandade dos Negros de Nossa Senhora do Rosário. E foi construído o templo denominado Castelo de Engady, para guardar para todo o sempre os originais dos Dez Mandamentos. E foi erguido, em Queicuó, o Cinema Pax, para que fossem glorificadas as imagens em movimento de Tarzan, Durango Kid, Humphrey Bogart e Ava Gardner.
E em sonho o Senhor das Alturas disse para Josué dos Santos Oberdadan: "O Seridó é uma terra mística; é preciso honrá-la como se honrará a veneração à Nossa Senhora de Sant'Ana, à lembrança do Cinema Pax, à Serra de Samanaú, à sangria do Gargalheiras, à Serra de Mulungu, à Passagem das Traíras, à poesia feita em Currais Novos, à beleza de Maria Félix, Teresinha Morango e Ava Gardner". E disse mais, no mesmo sonho: "O Seridó é uma terra mágica; é preciso amá-la como se amará a coragem de seus desbravadores, a personalidade de suas mulheres, a inteligência de seus anciãos, a musicalidade de sua gente e a beleza de Rejane Medeiros, Joana d'Arc de Caicó e Ava Gardner(³)".
E a fé do povo aumentou. E o consumo de carne de sol, queijo de coalho, macaxeira e arroz da terra duplicou. E a Festa de Sant'Ana carnavalizou-se. E o seridoense mais e mais tornou-se trabalhador, hospitaleiro e acolhedor. E o Itans passou a pegar água(ª¹) cada vez mais, provocando sangrias místicas, etílicas e cabalísticas. E a cultura do algodão triplicou. E as auroras se tornaram mais barrocas. E as cruvianas(ª²), mais suaves. E as lendas e os mistérios contribuíram para a formação do seridoísmo. Como a lenda da Moça Bonita(ª³):
"Sua pele era aveludada e tinha a cor, os mistérios e a quentura de uma noite estrelada do Seridó. Era uma jovem bonita, bonita de arrepiar, a mais bela da região, a mais bela a povoar os sonhos de vaqueiros, pescadores e caçadores de onças. Os pássaros da quase-manhã, quando o sol, solene e solitário, desenhava mais uma aurora sertaneja com cheiro de capim molhado, cantavam em sua homenagem. As cores alegres do dia pintavam de azul e negrume aquela beleza nascida do inesperado vento barroco da saudade. Sim, sim. Era uma bela e candente mulher. E tinha um hábito salutar: gostava de se banhar nua, sozinha, nas primeiras horas da manhã, no poço do rio que ela tanto amava, quando o inverno chegava: o rio de suas esperanças, o rio de suas mais doces alegrias. O rio de seu santo protetor - São José por nome, São José por devoção.
Mas um dia aconteceu o que não estava escrito no firmamento, o que não estava escrito nas cantorias do sertão, o que não estava escrito nem mesmo no Lunário Perpétuo: a nossa jovem, nua como sempre nas águas do poço encantado, sentiu-se observada por olhos grávidos de volúpia e macheza. Tentou cobrir suas vergonhas, inutilmente. Tentou cobrir suas belezuras. Inutilmente. Os olhos eram maiores do que a sua inocência. Maiores do que a sua seridolência. Era um domingo e Domingas era o seu nome. Desesperada, sentindo-se desonrada, correu para um matagal e lá se encantou: tornou-se um pássaro mais azul do que o azul mais brilhante, que voou para o horizonte em busca de seus sonhos. Nunca mais foi vista, nunca mais foi visto. Os moradores da região, deslumbrados com a história, nomearam o lugar de Poço da Moça Bonita.
Mais tarde, bem mais tarde, inícios do século XX da Era Comum, surgiria a povoação, hoje cidade, de São José do Seridó. Ou, simplesmente, São José da (Moça) Bonita. E todos os pássaros da região ainda cantam em homenagem àquela bela e misteriosa mulher.
Que se encantou para sempre".
Próximos capítulos:
31. O livro de Jó
32. Cântico dos Cânticos
33. Sabedorias eclesiásticas
Notas:
(¹) A extensão territorial do Seridó, na Capitania do Ryo Grande, segundo alguns dados estatisticos, atinge 9.332 km².
(²) Origem do Povoado de Queicuó [atual Caicó], em cujas ruínas se encontram, em suas galerias subterrâneas, os originais da Odisseia, d'Os lusíadas, d'A divina Comédia e do Pentateuco hebraico. Contudo - é o que revela o teólogo Muirakytan Macedo -, somente aqueles que mergulharem, no espaço de sete horas e sete minutos, nos pocos de Santana [em Caicó], da Bonita [em São José], da Moça [em Jardim] e no açude Itans [em Caicó] terão acesso aos referidos originais. Sabe-se que o escritor James Joyce conseguiu fazê-lo, quando em Caicó esteve; só depois, então, escreveria Ulysses.
(³) O entusiasmo masculino do Senhor das Alturas por Ava Gardner, manifestado aqui e em outras passagens d'O Livro dos Livros, será amplamente debatido no Concílio Caicó 1748 EC, a partir de uma epístola do monge Sanderson Negreiros.
(ª¹) Pegar água : Tomar água, receber água [dos rios e riachos; no caso do Itans, do Rio Barra Nova].
(ª²) Cruviana : Friagem da madrugada.
(ª³) O Concílio Caicó 1748 EC debateu se a lenda em questão não seria - ou não - um relato apócrifo, já que seu estilo difere, em grande parte, do texto concebido pelo Senhor das Alturas para O Livro dos Livros. Entretanto, os bispos Romário Gomes e Sinval Costa, presentes, sustentaram sua evidência histórico-bíblico-marciano-textual, o que depois seria objeto de estudo metafísico da historiadora Edith Medeiros.
(¹) A extensão territorial do Seridó, na Capitania do Ryo Grande, segundo alguns dados estatisticos, atinge 9.332 km².
(²) Origem do Povoado de Queicuó [atual Caicó], em cujas ruínas se encontram, em suas galerias subterrâneas, os originais da Odisseia, d'Os lusíadas, d'A divina Comédia e do Pentateuco hebraico. Contudo - é o que revela o teólogo Muirakytan Macedo -, somente aqueles que mergulharem, no espaço de sete horas e sete minutos, nos pocos de Santana [em Caicó], da Bonita [em São José], da Moça [em Jardim] e no açude Itans [em Caicó] terão acesso aos referidos originais. Sabe-se que o escritor James Joyce conseguiu fazê-lo, quando em Caicó esteve; só depois, então, escreveria Ulysses.
(³) O entusiasmo masculino do Senhor das Alturas por Ava Gardner, manifestado aqui e em outras passagens d'O Livro dos Livros, será amplamente debatido no Concílio Caicó 1748 EC, a partir de uma epístola do monge Sanderson Negreiros.
(ª¹) Pegar água : Tomar água, receber água [dos rios e riachos; no caso do Itans, do Rio Barra Nova].
(ª²) Cruviana : Friagem da madrugada.
(ª³) O Concílio Caicó 1748 EC debateu se a lenda em questão não seria - ou não - um relato apócrifo, já que seu estilo difere, em grande parte, do texto concebido pelo Senhor das Alturas para O Livro dos Livros. Entretanto, os bispos Romário Gomes e Sinval Costa, presentes, sustentaram sua evidência histórico-bíblico-marciano-textual, o que depois seria objeto de estudo metafísico da historiadora Edith Medeiros.











