terça-feira, 4 de dezembro de 2007


Foto
in
Nude Art Blog


BALAIO PORRETA 1986
n° 2178
Rio, 4 de dezembro de 2007



NUA
de Bosco Sobreira (CE)
[ in A Pedra e a Fala ]

nua
o sol se deu
a ela
por inteiro

e o resto do mundo anoiteceu


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Palestina - Uma nação ocupada [1999], HQ de Joe Sacco. Pref. José Arbex. São Paulo : Conrad, 2002, 144p. [] Importante novela gráfica que aponta para a discussão quadrinhos/jornalismo de forma bastante criativa e ousada, em sendo arte e reportagem, a partir de um tema complexo e palpitante. Sacco, que tem outras experiências como "repórter quadrinhístico" (o conflito da Bósnia, por exemplo), conseguiu, com maestria, fazer jornalismo da melhor qualidade conteudística tendo como matéria-prima estrutural o suporte gráfico-narrativo das histórias-em-quadrinhos. Uma obra-prima, simplesmente.


UM LIVRO, UMA RECOMENDAÇÃO

Guia antiturístico do Rio de Janeiro [1960], de Marques Rebelo. Pref. Millôr Fernandes. Ilustrações Jaguar. Notas Sérgio Cabral. Rio de Janeiro : Desiderata; Batel, 2007, 118p. É verdade que os cariocas saberão apreciá-lo com mais humor, mas este livro, agora reeditado, é saboroso. São pequenos verbetes (alguns curtíssimos) que beiram a sátira e a molecagem. Publicado originalmente nas páginas da Última Hora, é um Guia maravilhoso. Em todos os sentidos. De resto, não resistimos à sugestão: que tal um Guia antiturístico da Cidade do Natal?


UMA PEQUENA AMOSTRA DO GUIA DE MARQUES REBELO

Clima
Leviano

Produção
As maiores são de paisagem e de piadas. Também produz sambas.

Tendências da população
Estão ficando perigosíssimas.

Língua
Um pouquinho sestrosa, mas bastante inventiva, chiada e cariciosa. Cantada é uma beleza!

Estádios
Possui o Maracanã, que é o maior estádio inacabado do mundo!

Pontos aprazíveis e turísticos
Há o Caminho do Céu, o Joá, a Gruta da Imprensa, o Viaduto das Canoas, a Boate do Alcibíades, o Hotel Colonial e o Hotel do Trampolim, excelentes lugares para assaltos e curras. Outros pontos de assalto: o Night and Day, o Sacha's, o Drink, o Bon Gourmet e o restaurante do Pão de Açúcar. No Night and Day, além de assaltos, servem também shows em inglês.

Futuro da cidade
Seja o que Deus quiser.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007


A Catedral e o Arco do Triunfo
na Praça da Matriz,
em Caicó.

Foto extraída do sítio
Terra Potiguar, desativado.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2177
Rio, 3 de dezembro de 2007



POEMA de
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 1178, de 7/8/1999 ]

o cheiro suculento da pinha
infância que se memória
abre-se para o canto das pedras
sob as chuvas de fevereiro e caicó.
fruticorpo orgasmo,
a pinha
se oferece à boca lenta e atenta
com seu aroma raro
seu aroma claro
e um branco de auroras arrependidas,
assim: a pinha.


POEMA de
Chico Doido de Caicó

Suave como um tanque de guerra
Delicado como um fuzil morteiro
Doce como uma bala perdida
O machão nada respeita:
Não respeita a puta
Não respeita o padre
Não respeita o coronel
Respeita apenas o seu traseiro.

O machão adora ser enrabado.


UM LIVRO, UMA RECOMENDAÇÃO

Ensaios de literatura ocidental; Filologia e crítica, de Erich Auerbach. Org. Davi Arrigucci Jr. e Samuel Titan Jr. Trad. Samuel Titan Jr. e José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo : Duas Cidades; Ed. 34, 2007, 384p. /Coleção Espírito Crítico/ Coletânea de ensaios do autor do fundamental Mimesis (1946), organizada criteriosamente entre nós, com textos escritos entre 1927 e 1954. Todos, em maior ou menor grau, são importantes, mas, entre os 15 apresentados, chamamos a atenção para Os apelos do leitor em Dante, O escritor Montaigne, A descoberta de Dante no Romantismo e Marcel Proust: o romance do tempo perdido.


|||||||||||||

Existe apenas um tipo mais americano que o próprio estadunidense: o brasileiro em férias nos Estados Unidos. (O subpensamento vivo de Marconi Leal)

domingo, 2 de dezembro de 2007


Eis-me aqui, no dia 29 de novembro,
no km 0 da BR-101
(ao fundo, a Praia de Touros),
ao norte de Natal:
eis-me aqui,
entre o sonho e a paixão.

Foto: Fátima Arruda


BALAIO PORRETA 1986
nº 2176
Rio, 2 de dezembro de 2007



(RE)LEITURAS DO MOMENTO

A Bíblia - Uma biografia
, de Karen Armstrong. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2007, 278p. /Coleção Livros que Mudaram o Mundo/

A origem das espécies de Darwin - Uma biografia, de Janet Browne. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2007, 182p. / Coleção Livros que Mudaram o Mundo/

Revendo Itajubá, de João Batista de Morais Neto. Natal : Sebo Vermelho, 2007, 42p.

Gaudí, la vida de un visionario [1999], de J. Castellar-Gassol. Barcelona : Ediciones de 1984, 2005, 142p.

A boa sorte de Solano Dominguez, HQ de Wander Antunes & Mozart Couto. Rio de Janeiro : Desiderata, 2007, 48p.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Mais provençais, de Arnaut Daniel e Raimbaut d'Aurenga. Trad., intr. e notas Augusto de Campos. Ilha de Santa Catarina : Noa Noa, 1982. [] Edição bilingüe, com apuro e elegância de ordem gráfica, incluindo 18 canções de A. Daniel e duas de R. d'Aurenga, poetas que expressam, como poucos, a arte provençal. (Há uma edição revista e ampliada pela Companhia das Letras, de 1987.) Para maior encantamento, sugerimos que a sua leitura seja efetuada ao som dos discos Troubadours/Cantigas de Santa Maria, por René Clemencic/Clemencic Consort [Harmonia Mundi 2901524.27], Trouvères, por Sequentia [Deutsche Harmonia Mundi 77155-2-RC] e/ou Cansós de Trobairitz, por Jordi Savall/Hespèrion XX [EMI Reflexe C065-30.941].


SE VEJO FOLHA E FLOR E FRUTO
/fragmento/
de Arnaut Daniel (séc. XII)
Trad. Augusto de Campos

Amor me leva ao seu reduto,
ao seu castelo mais fiel,
sem exigir renda ou tributo,
pois me faz rei em vez de réu
da fortaleza de que é o senhor,
que por fidelidade é defendida,
a fé protege e a cortesia orna.

Amor, abrigo te reputo
de altas virtudes. Teu anel
já não refugo nem refuto,
que amar me sabe como mel.
Por isso conto com o teu favor
para colher a flor mais escolhida
da aura da aurora à hora que retorna.

É tão veraz, tão absoluto
o Amor que me leva ao céu,
que erros ou males não discuto,
não temo o falso com seu fel
nem dou ouvido ao vil adulador,
pois amo e me ama a minha preferida
e maldizer algum já me transtorna.

sábado, 1 de dezembro de 2007


Foto de
Claudia Perotti
in
Olhares


BALAIO PORRETA 1986
n° 2175
Rio, 1 de dezembro de 2007


Poema de
SANDRA CAMURÇA
(PE)
[ in O Refúgio ]

Sentimento do dia
Enlouquecer para não enlouquecer


SUICÍDIO
de ADA LIMA (RN)
[ in Menina Gauche ]

Ao poeta
medroso

resta

a caneta -
lâmina

que assina

o poema -
obituário


POEMA de
ZEMARIA PINTO (AM)
[ in Fragmento do silêncio, 1995 ]

dissolve-se a tarde
no alarido das araras
e em flocos de chumbo


Cinema
UMA PEQUENA OBRA-PRIMA

Toda revolução é um lance de dados
(1977), curta de Straub & Huillet, coloca algumas questões instigantes para aqueles que pensam a relação cinema/literatura fora dos padrões poéticos e romanescos. Alguns atores/personagens, sentados num gramado, lêem estática e friamente Un coup de dés, o famoso poema de Mallarmé escrito em 1897. Há
apenas duas ou três pequenas nuanças na "textura" das vozes, quase imperceptíveis. Há poucos planos. Há poucos movimentos de câmera. Para todos os efeitos, os dados estão/foram lançados: não se trata de uma leitura/adaptação concreto-mallarmaica, nem mesmo "literária" no sentido pleno do termo; trata-se de uma leitura sígnico-materialista, absolutamente "limpa" em sua proposta audiovisual. É preciso dizer e dizer: a experimentalidade em Straub & Huillet não é gráfico-espacial, não é expressionista; é antinarracional, é antibarroca. É antidionisíaca sem ser propriamente apolínea. O que temos, então? Um Mallarmé que, em sendo anticinema, se faz antiliteratura: "Toda constelação é um lance de da(r)dos", enfim, como se fora um enigmático Marienbad resnaisiano revisitado, décadas e décadas depois, por um vigoroso Mallarmé straubiano . E o filme - este particular filme - constrói-se em estado bruto, sem maiores arroubos formais ou emocionais. Em outras palavras: sem concessões literárias ou cinematográficas. Como toda a obra de Straub & Huillet, por sinal: uma obra árida e corrosiva em seu materialismo militante. Mas ao mesmo tempo fascinante. Por sua ousadia. Por sua coragem. Por sua signagem.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007


Em 16 jogos disputados no Frasqueirão,
na Série C do Brasileiro 2007,
o ABC conquistou 15 vitórias e empatou 1 jogo.
Com isso, e apesar das derrotas fora de casa,
obteve, na última rodada, uma das vagas para a Série B
do próximo ano.
O abcedista, com razão, comemora o fato até agora.
Com capacidade para 15 mil torcedores,
o Frasqueirão, em Natal, tornou-se um símbolo da raça alvi-negra.
Aliás, o nome Frasqueirão vem de "frasqueira".
Nos anos 50 e ainda nos 60, no modesto Juvenal Lamartine,
quando ABC e América se enfrentavam, os arquibaldos americanos gritavam para os geraldinos abcedistas: "Olha a frasqueira da geraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal", que respondiam na hora - "Pega aqui no meu paaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaau".


BALAIO PORRETA 1986
n° 2174
Rio, 30 de novembro de 2007



POEMAS de
Zemaria Pinto
[ in Fragmentos de silêncio. Manaus, 1995 ]

garçom, traga-me uma navalha
e um chope espumando nuvens

[][][]

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

[][][]

paixão

a nona sinfonia explode
tua lâmina me rompe o ventre
e faz jorrar o sangue da minha carne
plantando-me tua semente

a paixão violenta - o grito
a lágrima sufocada - ah, a alegria
língua que lambe o mundo

o beijo a dentada
contigo, eu pelo espaço:
Beethoven & boleros

sou uma égua de fogo


DOIS LIVROS, DUAS RECOMENDAÇÕES

Veredas no sertão rosiano, de Antonio Carlos Secchin & outros (orgs.). Rio de Janeiro : 7Letras, 2007, 246. Com um primoroso ensaio fotográfico de Marcos Pinto (Imagens do sertão rosiano) e vários textos ótimos e/ou interessantíssimos, entre os quais: Bichos, plantas e malucos no sertão rosiano (de Benedito Nunes), Guimarães Rosa: sombra ou sol da posteridade? (de Dau Bastos), Quem tem medo de Guimarães Rosa? (de José Maurício Gomes de Almeida), Grande Ser-Tao: diálogos amorosos (de Manuel Antônio de Castro). Um belo álbum.

AlManhaque, n° 3 [1955], de Aparício Torelly /Barão de Itararé/. São Paulo : EDUSP ; Studioma, 2005, 224p. Reprodução fac-similar da edição correspondente ao 2° semestre de 1955 do mais famoso jornaleco humorístico tupiniquim, até hoje. Sátira & política na medida certa através de máximas & mínimas, piadas, crônicas, contos, anúncios, "horóscopos", cartuns. Sempre com senso crítico. Sempre irreverente. Fortaleza gráfico-semântica do humor: um modelo inigualável para os Pasquins e Cassetas que vieram depois, salve, salve!


MÁXIMAS & MÍNIMAS DO BARÃO DE ITARARÉ
[ in AlManhaque, n° 3 ]

Juramento é a mais solene e grave das mentiras.
Boate é uma gafieira metida a besta.
Quem tem saúde de ferro pode um dia enferrujar.
Este mundo não é mais mundo: é imundo!
Não há amor sem beijo nem goiabada sem queijo.
Os homens são sempre sinceros. O que acontece, porém, é que, às vezes, trocam de sinceridade.
Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer.
Para este mundo ficar bom, é preciso fazer outro.
Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e crimes que ele mesmo cometeu.
Deus dá peneira a quem não tem farinha.
Deputado come o milho, papagaio leva a fama.
A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Não há grandes papéis, mas grandes atores.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

ABC ABC ABC ABC FRASQUEIRÃO FRASQUEIRÃO
ABC ABC ABCCCCCCCCCC AAAAAAAAAAAABC 456789000000000000 2x1 2x1 2x1 2x1 ABCBABABCBABBBACCAAB
ABCCCCCCCCCCCCCCCCCCCCCCCCCC ABC ABC ABC NATAL ABC 29 ABC NOVEMBRO ABC 2007 ABC ABC ABC BC bc bc bc BC BBB
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAABC BC BC BC BC BC BC
BC BC BC AAA BBB CCC AAA BBB CCC ABC ABC ABC ABC ABC AAAAAAAAABBCCAAAAAAAAABCCCCCCCCC
ABC AAAAABC BC BALAIO 2173 AAAAAAAAAbbbbbbCCCCCC

domingo, 25 de novembro de 2007

BALAIO PORRETA 1986
nº 2172
Natal, 25 de novembro de 2007



UM FINAL MARAVILHOSO

O II Encontro Natalense de Escritores terminou de forma deslumbrante, ontem à noite, depois de mais quatro debates envolvendo, entre outros, Bartolomeu Correia de Melo, Chacal, Carlos de Souza, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, Woden Madruga e Nei Leandro de Castro. A Fundação Cultural Capitania das Artes está de parabéns, claro. Mas o nosso deslumbramento, no caso, para além das discussões e colocações feitas pelos debatedores e/ou poetas e ficcionistas, deveu-se a dois espetáculos musicais.

O primeiro deles, de corte docemente apolíneo, com Virgínia Rodrigues: uma voz que, em sendo harmonia pura, arrebata por sua cristalina "verdade sonora". O samba, nela, desponta "arredondada" de forma quase mágica, com uma textura sedosa envolvente, para dizer o mínimo. O canto, em Virgínia Rodrigues, é um brilhante raro. E o seu sorriso e a sua simpatia no palco, ao lado de seu perfeccionismo vocal, transcendem qualquer sentido cênico mais espetacular. Uma verdadeira aula de emoção, enfim.

O segundo deles, de corte furiosamente dionisíaco, com Tom Zé: a energia sonora e performática do músico é mais do que arrebatadora - é transcendental. E delirante. Tivemos, então, um espetáculo político-musical como poucos, com direito ao hino americano ao som de supostas metralhadoras e ao mais genial antibuuuuuuuuuuuuuuuuush dos últimos tempos. Tudo terminou, quando a platéia entrou literalmente na dança, com xaxados e "revisitações tropicalientes". Euforia pura, em síntese.

Nota do Balaio:

O II ENE, como sabemos, homenageou os 70 anos do Livro de poemas de Jorge Fernandes e os 40 anos de lançamento, no Rio e em Natal, do poema/processo. Por feliz coincidência, o espetáculo final de Tom Zé, ontem, como um todo, poderia ser uma "aprontação sonoro-musical" a partir dos postulados básicos do poema/processo. Ou seja, se o nosso movimento tivesse investido com mais ênfase nas possibilidades acústico-semiótico-ambientais das aprontações públicas, o caminho traçado com fúria criativa pelo baiano Tom Zé terminaria por se encontrar, muito provavelmente, com as matrizes (anti)poéticas e (anti)literárias do poema/processo.

sábado, 24 de novembro de 2007

BALAIO PORRETA 1986
nº 2171
Natal, 24 de novembro de 2007



ENCONTRO DE ESCRITORES EM NATAL

Pelo segundo ano consecutivo, a Fundação Cultural Capitania das Artes, sob a presidência do poeta Dácio Galvão, promove o ENE - Encontro Natalense de Escritores, desta vez em homenagem aos 70 anos do Livro de poemas de Jorge Fernandes e aos 40 anos do lançamento nacional do poema/processo. Como em 2006, além de autores locais, tivemos ou ainda temos entre nós, discutindo com os muitos e muitos interessados nas várias mesas-redondas instaladas, a presença de Lau Siqueira, Jorge Salomão, Helóisa Buarque de Holanda, Chacal, Ruy Guerra, Moacyr Scliar, José Nêumanne Pinto, Zuenir Ventura, Luís Fernando Veríssimo. Se houve algumas frustrações, muitos foram e ainda estão sendo os pontos positivos. Além do mais, a apresentação de grupos folclóricos e de músicos consagrados deu e dá um colorido especial ao evento.


CONTATOS PESSOAIS

Entre os vários contatos que fizemos, além de velhas e queridas amizades (Paulo de Tarso Correia de Melo, Jarbas Martins, Tácito Costa, Nei Leandro, Abimael Silva, Candinha Bezerra, Bartolomeu Correia de Melo), destacamos o gaúcho-paraibano Lau Siqueira, excelente poeta, e o natalense Mário Ivo Cavalcanti, responsável por um dos melhores blogues do Estado, o Cidade dos Reis.


LIVROS E REVISTAS

Como sempre, aproveitamos a estadia em Natal para enriquecer a nossa biblioteca. De volta para o Rio (na próxima quinta), levaremos Vozes e reflexões (os anais do I ENE), Coco Zambê (com fotografias de Candinha Bezerra e organização de Dácio Galvão), Texto sentido (de Lau Siqueira), O Menino da Paz (auto natalino de Paulo de Tarso), Um intérprete dos Tapuios (de Alfredo de Carvalho, o nº 9 da revista Brouhaha, 12 folhetos de cordel (entre os quais, curiosamente, por Antônio Queiroz de França, cearense, O Manifesto Comunista em cordel). Mas como o evento só se encerra hoje, à noite, ainda pretendemos adquirir outros títulos. Alguns deles merecem ser comentados, o que faremos na primeira oportunidade. É o caso do Auto natalino de Paulo de Tarso.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007


O Rio Potengi e a Fontaleza dos Reis Magos, em Natal,
antes da Ponte Forte/Redinha,
em foto de José Luiz Coe
para o Digzap


BALAIO PORRETA 1986
n° 2170
Rio, 22 de novembro de 2007


DOIS POEMAS de
CHICO DOIDO DE CAICÓ (RN)

A noite está mais escura
Do que os pentelhos de Dona Laura.

[][][]

Eu sou mais devasso e enjeitado
Do que o baitola Velocidade
Eu escrevo mais besteira
Do que a mulher cabaceira
Eu falo mais difícil e enfeitado
Do que o doidelo Mocidade
Eu sou mais cruel e sonso
Do que o sargentão Afonso
Eu sou mais eu sou menos sou pior
Sou tudo sou mais ou menos
Sou um doido que pensa que é
Chico Doido de Caicó.


SEGUNDA EDIÇÃO DO ENE

Começa hoje em Natal, sob o patrocínio da Fundação Cultural Capitania das Artes, o II Encontro Natalense de Escritores, a ser realizado na Ribeira. Muita gente boa (poetas, ficcionistas e outros) deverá comparecer para discutir com a platéia os avanços e desafios da literatura brasileira. E da própria literatura potiguar. O encerramento dar-se-á no próximo sábado. O Balaio acompanhará, de perto, o II ENE.


Foto de autoria não-identificada
em
ArtNude


BALAIO PORRETA 1986
n° 2169
Rio, 21 de novembro de 2007



POEMA de
MARIO CEZAR (CE)
[ in Coivara ]

o desgosto é de nascença. nenhuma dor é fugidia.


POEMA de
LUMA CARVALHO (RN)
[ in Casarão de Poesia ]

de olhos vendados
hoje
a lua
nem flagrou
minha alma nua


POEMA de
ACANTHA (SP)
[ in La Vie Bohème ]

Sede

Me abro
e me deixo
e me entrego
e me esvaio,
enquanto teus dedos falam coisas
no meu corpo,
com urgência e desordem,
exaurindo em mim o gozo e a voz...
incisiva-mente.


POEMA de
ADA LIMA (RN)
[ in Menina Gauche ]

Não sei falar, por isso escrevo.
Mas estou desaprendendo a escrever.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Dicionário do pensamento marxista, de Tom Bottomore (ed.). Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1988, 454p. [] Ótima obra de referência que conta, para essa edição brasileira, com a consultoria de Antonio Monteiro Guimarães (org.), Maria da Conceição Tavares, Miriam Limoeiro Cardoso, Yedda Botelho Sales, José Américo Motta Pessanha e Sérgio Tolipan. Verbetes claros, objetivos, e com boas indicações bibliográficas. Um exemplo: "Islã - De um modo geral, os marxistas têm mantido silêncio com relação às origens e ao papel histórico do Islã. Os comentários de Marx e de Engels sobre o Islã são tentadoramente sugestivos, mas igualmente incompletos. Numa carta a Engels em que discute a natureza das sociedades asiáticas, Marx formulou a pergunta fundamental, para a qual ainda não foi encontrada nenhuma resposta adequada: Por que a história do Oriente aparece como uma história das religiões?" (p.200). O verbete continua, discutindo, inclusive, o "êxito inicial da expansão do Islã [que] é, em parte, explicado pela fraqueza militar dos impérios vizinhos (sassânida e bizantino) e, em parte, pelo sistema protecionista que o Islã criou em relação às populações protegidas e decadentes de tribos cristãs e judias num sistema de comunidades chefiadas por um líder religioso" (p.200).

terça-feira, 20 de novembro de 2007


Dia da Consciência Negra:
A invenção do signo, I
a arte afro-brasileira
de
Gauche Marques
(Bahia)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2168
Rio, 20 de novembro de 2007



VOZ DO SANGUE
de Agostinho Neto (Angola)
[ in Na noite grávida de punhais, 1976 ]

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melódicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Na noite grávida de punhais; Antologia temática de poesia africana, de Mário de Andrade. Lisboa : Sá da Costa, 1976, 282p. [] Alguns poderão considerá-la por demais panfletária; outros, por demais romântica em sua pureza revolucionária; muitos, uma antologia talvez datada, talvez ultrapassada. Não importa; importa a força de seus versos, importa o sentimento de sua africanidade. Importa, antes de tudo e de todos, a poesia que assinala: "Ó minha África misteriosa, natural!/ minha virgem violentada" (Noémia de Sousa, moçambicana). Importa, de igual modo, de modo igual, a voz que berra: "A terra onde nascemos/ vem de longe/ com o tempo" (Kalungano, moçambicano). Importa, sim, sim, sim, a presença de Luandino Vieira, angolano: "A pergunta no ar/ no mar/ na boca de todos nós:/ - Luanda onde está?" Importa - por que não? - a presença de Agostinho Neto, líder político revolucionário de Angola. Assim como importam e se destacam os versos de Ovídio Martins, caboverdiano: "Dos olhos do poeta/ rolam lágrimas/ cor de sangue". E no mesmo poema (Emigração), um pouco antes: "E há perigos e ameaças/ na noite/ grávida de punhais".

segunda-feira, 19 de novembro de 2007


Fotografia de
Rene Asmussen
in
Photo Net


BALAIO PORRETA 1986
n° 2167
Rio, 19 de novembro de 2007



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

O negro no futebol brasileiro [1947], de Mario Filho. Pref. Gilberto Freyre. Rio de Janeiro : Mauad, 2003, 360p. [] Um dos grandes livros da sociologia tupiniquim, indispensável não apenas para aqueles que gostam do futebol e sua(s) história(s). Particularmente, a(s) história(s) do futebol carioca. "... reedição de um livro clássico sobre a formação da identidade nacional. Mario Filho [um dos grandes torcedores do Flamengo, irmão do tricolor Nelson Rofrigues], ao definir a contribuição do negro brasileiro ao futebol, completou um ciclo de obras - tais como Casa grande e senzala, Formação do Brasil contemporâneo ou Raízes do Brasil - voltadas para a interpretação do Brasil, que buscaram entender o que fazia, e faz, o Brasil ser brasileiro" (Epitácio Brunet, historiador da FAPERJ).


LIVROS, AUTORES & CREPÚSCULOS (1)

Costumo dizer que os livros são muito ciumentos. De modo que eu não posso manifestar preferência porque assim vou criar problemas internos aqui na [minha] biblioteca. Certa vez, fizemos uma exposição no Museu Lasar Segall. Você não imagina a dificuldade que tivemos para escolher 100 obras e documentos... Tive muita reclamação. Tinha que dizer aos livros preteridos: "Na próxima exposição você entra". (José MINDLIM. Os homens passam, os livros ficam [entrevista], in Brasil - Almanaque de Cultura Popular, n° 103. São Paulo, novembro de 2007, p. 16)

Decerto, a biblioteca de José Mindlin é incomparavelmente maior do que a minha, com seus escassos 6.800 volumes, entre livros, periódicos, folhetos de cordel, discos e alguns poucos dvd's. Não sou bibliófilo, bem entendido, e não são muitos os livros raros que habitam as minhas estantes e os meus sonhos de leitor e consumidor. Um ou outro Cascudo, um outro Guimarães Rosa, a coleção do Pererê, a coleção da Zap Comix, números isolados d'O Tico-Tico, alguns folhetos de cordel. Para mim, são obras especiais. Fazem parte do meu mundo, da minha história de vida, das minhas fantasias crepusculares. E fazem parte desde junho de 1958, quando ganhei de presente (oferecido por Neide Pereira Cirne, a segunda mulher de meu pai), em Caicó, a Antologia do folclore brasileiro cascudiana, marco inicial da minha biblioteca, com a seguinte dedicatória, quase epígrafe: "Faça-se dono, em relação ao zelo".

Mas a pergunta que me faço agora é bastante simples: - com licença poética, ou sem licença poética, seriam os livros de fato ciumentos? A questão que Mindlin se coloca, para além de sua poeticidade, tem uma certa aura metafísica, em última instância marcada por alguns toques simbolistas. De um simbolismo tardio, é verdade. É verdade. Em se tratando de um homem como Mindlin, quase centenário, é comprensível. Há simbolismos que são desejáveis, há metáforas que são necessárias. Há crepúsculos que são auroras camufladas. E se os livros são ciumentos o são em função de nossos próprios ciúmes, em função de nossas próprias angústias como leitores. Confesso que tenho ciúmes de certos livros; prefiro não emprestá-los. Muitas vezes, sequer mostrá-los. Sei, sei: eu passarei, eles ficarão. Bem cuidados, bem conservados, serão eternos.

Materialista assumido (mesmo levando em conta a minha particular devoção por Nossa Senhora de Sant'Ana), acredito no livro como objeto "sensualmente" material: concretude que pode se fazer essencialidade gráfica e temática. Mais do que o Velho Testamento, o Novo Testamento e o Alcorão, certos livros, para mim, são verdadeiros "templos sagrados" e assim devem ser materialmente compreendidos: Dom Quixote (Cervantes), A divina Comédia (Dante), Hamlet (Shakespeare), Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa), Ensaios (Montaigne), basicamente. Entenda-se: são "templos sagrados" e não metafísicos, e que me impressionam por sua materialidade estético-literário-informacional. Como me impressionam, na esfera musical, as Vésperas da Virgem de Monteverdi, a Paixão segundo São Mateus, as Cantatas e a Missa em Si Menor de Bach, as Lições das Trevas de Charpentier.

sábado, 17 de novembro de 2007


Foto de
Nuno Belo
in
1000 Imagens


BALAIO PORRETA 1986
n° 2166
Rio, 17-18 de novembro de 2007


Da série
ALFARRÁBIO
de Cássio Amaral (MG)
[ in Enten Katsudatsu ]

1
a palavra
sangra vogais
nas nuvens

2
a palavra brinca
com o silêncio
onde urra o ovo da fábula


TONtURA
de Mario Cezar (CE)
[ in Coivara ]

a insônia me argumenta e o poema ali. tosco. sem expectativa


Cinema 2007
OS MELHORES FILMES VISTOS (ATÉ O MOMENTO)

Nos cinemas & centros culturais:
1. Conto de outuno *** (Rohmer, 1998)
2. Moolaadé *** (Sembene, 2004)
3. Medos privados em lugares públicos ** (Resnais, 2006)
4. Romance do vaqueiro voador ** (Manfredo Caldas, 2006)
5. Jogo de cena ** (Eduardo Coutinho, 2007)
6. Santiago ** (João Moreira Salles, 2006)
7. Maria ** (Ferrara, 2005)
8. Cartas de Iwo Jima * (Eastwood, 2006)
9. Curriculum vitae * (Kieslowski, 1975), média
10. Cabeças falantes * (Kieslowski, 1980), média

Em casa:
1. A princesa Yang Kwei Fei *** (Mizoguchi, 1955)
2. Othon *** (Straub & Huillet, 1969)
3. Operários, camponeses *** (Straub & Huillet, 2001)
4. Aqui e lá *** (Godard & Miéville, 1977)
5. A mocidade de Lincoln *** (Ford, 1939)
6. Agonia e glória *** (Fuller, 1980[-2003])
7. O olhar de Michelangelo *** (Antonioni, 2004), curta
8. Prólogo *** (Tarr, 2004), curta
9. Toda revolução é um lance de dados *** (Straub & Huillet, 1977), curta
10. Mar adentro ** (Amenábar, 2004)

Principais revisões nos cinemas:
1. Uma mulher sob influência *** (Cassavetes, 1974)
2. Faces *** (Cassavetes, 1968)
3. O padre e a moça ** (Joaquim Pedro de Andrade, 1966)

Nossas principais cotações:
*** Excelente
** Ótimo
* Bom

sexta-feira, 16 de novembro de 2007


Foto de
Narkau Hom
(China)
in
Open Photo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2165
Rio, 16 de fevereiro de 2007



ÊXODOS
de Fabrício Marques (MG)
in Germina Literatura

vá para o ardor que te adense
vá para o salto que te sacuda
vá para o passado que te pertence
vá para o ruído que te restaure
vá para o frêmito que te festeje
vá para o vértice que te vasculhe
vá para o crepúsculo que te carregue


Cinema Rio
PRETENDO VER
[] Mutum, de Sandra Kogut, baseado em Guimarães Rosa.
No Espaço de Cinema/3. Ou no Estação Ipanema/1.
VALE A PENA (RE)VER
[] Jogo de cena, documentário de Eduardo Coutinho.
No Espaço de Cinema/2. Ou no Estação Laura Alvim.
[] Santiago, documentário de João Moreira Salles.
No Instituto Moreira Salles.


(RE)LEITURAS DO MOMENTO
[] Primeiro ato - Cadernos, depoimentos, entrevistas (1958-1974),
de Zé Celso Martinez Corrêa.
São Paulo : Ed. 34, 1998, 336p.
[] Às portas da Revolução - Escritos de Lênin de 1917,
de Slavoj Zizek.
São Paulo : Boitempo, 2005, 350p.
[] Sandman: Fim dos mundos [quadrinhos],
de Neil Gaiman & outros.
São Paulo : Conrad, 2007.
[] Caraíba [quadrinhos],
de Flavio Colin.
Rio de Janeiro : Desiderata, 2007, 126p.

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A revolução cultural: a destruição de um Brasil de papelão, pré-americano, o reencontro da participação coletiva, o combate ao "espectador", a procura da Outra História do Brasil, da que vinha das resistências dos escravos, dos índios, dos imigrantes, dos seus auditórios loucos para participar. (Zé Celso Martinez CORRÊA. Longe do trópico despótico [1977], in Primeiro ato, p.126]