sexta-feira, 11 de abril de 2008


Claridade Clara Claridade:
a alegria das cores
em
Pierella Bedoyan
[ cf. Eu Faço Arte e Lavo Panelas ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2282
Rio, 11 de abril de 2008


CORAÇÃO EM FUGA
Iara Maria Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

se quero precipícios
é porque de chuva
me visto
me ouso
me abuso

quero no vôo da vertigem
descobrir-me virgem e abismo
pedra e absinto

porque não me dói
o enigma da esfinge


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS:
LIVROS & AUTORES

Cantadores [1921], de Leonardo Mota. Capa & ilust. Aldemir Martins. Fortaleza : Imprensa Universitária do Ceará /1960/, 304p. [] Um livro definitivo, ou quase, sobre a poesia popular brasileira, a partir de suas raízes nordestinas, considerando-se o rico mapeamento de nomes & poemas, como o incrível Luís Dantas Quesado, paraibano-cearense, que glosou o mote ‘Nem todo pau é esteio’ (p.115-6) com exemplar vivacidade, assim como nos sensibilizou e ainda nos sensibiliza com o inspirado Beijo (p.116), de autoria às vezes questionada, é verdade. No final, há dois capítulos deliciosos: o primeiro, de “causos sertanejos” (p.327-77); o segundo, de vocábulos e expressões regionais da época, anos 10 do século passado (p.279-302). Trata-se de um elucidário verdadeiramente porreta: brochote (= rapaz atrevido, pessoa sem importância); cabra da rede rasgada (= indivíduo desabusado); desmastreio (= contratempo); dormir chiquerado (= dormir separado da mulher); entusiasmado (= orgulhoso, atrevido); entrançar (= vagabundar); farrambamba (= gabolice, fanfarronada); felpa (= qualidade); grungunzar (= remexer); lambugem (= vantagem que se propõe numa aposta); mandureba (= cachaça); na rosca da venta (= face a face); pilóia (= cachaça); quengo (= cabeça, ineligência). [Já quenga, como se sabe, é rapariga, puta, meretriz.] Etc. e tal, etc. e tal.

Velhos costumes do meu sertão, de Juvenal Lamartine de Faria [1954 (1963)]. Natal : Sebo Vermelho; Mossoró : Fundação Guimarães Duque, 3ª ed., 2006, 127p. [] Importante documento antropológico, que é substancioso "depoimento de um sertanejo sobre o sertão do seu tempo" (JLF, setembro de 1963). Um dos livros capitais para que possamos compreender, em toda a sua plenitude social e cultural, o nosso Rio Grande: o Rio Grande do Norte de todas as paixões e de todos os alumbramentos, de todos os seridós, de todos os sonhos, de todas as aventuras e de todas as descobertas – o Rio Grande de todos nós, potengíacos ou não, agrestinos ou não, mossoroenses ou não, seridoenses ou não. Seus temas, variados, recobrem a casa-grande, as indumentárias, a alimentação, a escola, as relações de parentesco, a hospitalidade sertaneja, as festas de casamento, as festas populares e religiosas, os vaqueiros e as vaquejadas, os cangaceiros, os matadores de onça. E mais. E mais. Os velhos costumes do nosso sertão, apesar da globalização, estão mais vivos do que nunca. E quem nunca tomou um banho de chuva, ou viu um açude sangrar, no inverno, não sabe o que é o sertão com cheiro de terra molhada. Claro, há também o sertão da seca, há o sertão da fome, o sertão da miséria..

quinta-feira, 10 de abril de 2008


Symbiosis,
de
Ruth Bernhard

in
Weston Gallery
a partir do
Falares


BALAIO PORRETA EXTRA
n° 2281
Rio, 10 de abril de 2008


Para o público natalense
MANIFESTO

A sala estava escura, mas notamos a sua falta!

A magia da sala escura tem início bem antes do apagar das luzes. Na realidade, começa com a compra criteriosa das "baganas", a escolha do lugar mais estratégico e que ofereça um ângulo perfeito de visão, a procura da posição mais confortável na poltrona. Quem curte cinema sabe muito bem o quanto esse ritual é gostoso.

Mas existe uma coisa mais gostosa do que isso: observar a platéia deslumbrada e envolvida com as nuances de cada trama, com as peripécias de cada personagem, com a atuação da estrela preferida. Um prazer que o Cineclube Natal faz questão de proporcionar ao público desde maio de 2005.

Mas o questionamento que nós fazemos hoje é o seguinte: onde está o público do Cineclube? Afinal, nós sabemos que ele existe. Estaria subjugado ao controle da TV? Possuído por uma preguiça tão descomunal, a ponto de não poder se locomover até a sessão mais próxima? Ocupado com uma agenda interminável de compromissos sociais? Preso aos grandes atrativos das salas de cinema dos Shoppings Centers?

Diante dessa inexplicável fuga de espectadores, de todas as sessões, não restou ao Cineclube outra alternativa a não ser REDUZIR o número de sessões. Por isso, a partir do mês de abril a programação cai de sete para quatro exibições mensais, se mantendo apenas uma de cada projeto de exibição: “Cine Vanguarda”, no Teatro de Cultura Popular ‘Chico Daniel’; “Cine Café”, no Nalva Melo Café Salão; “Cine Assembléia”, na Assembléia Legislativa; e “Cine Curumim”, a nova sessão de cinema infanto-juvenil, em parceria com o SESC/RN, no Cine SESC, da avenida Rio Branco.

Mais do que um esclarecimento, este manifesto também é um grito de alerta, um desabafo provocativo. Uma forma de dizer: "A sua cidade tem opções culturais, sim. Programas baratos, gratuitos e de qualidade. Talvez o que falte em você é coragem de levantar desse sofá, meu amigo".

Portanto, que fique bem claro: o Cineclube não é só entretenimento. Você que quer somente ver o filme, será muito bem-vindo. Mas o espaço é também de interação, socialização e debate. Aonde o contemporâneo e o clássico se complementam, a paixão pelo cinema e o trabalho voluntário se encontram, a troca de idéias e visões de mundo sem intelectualismo exagerado, convivem lado a lado.

Portanto, SUA AUSÊNCIA é o único motivo de estarmos reduzindo o número de sessões, indo, a contragosto, no sentido oposto ao desenvolvimento cultural. Nossas atividades só têm sentido se VOCÊ estiver presente. Caso contrário, seremos obrigados a encerrar nossas atividades. E você, meu amigo, continuará fazendo parte da legião de espectadores acostumados a repetir aquele velho e gasto discurso: "Não há nada de bom para ver nesta cidade”.

Cineclube Natal, 08.04.08

Foto de
Henri Cartier-Bresson,
num café de Paris,
em 1969,
o ano de
Othon (Straub & Huillet)
A cor da romã (Paradjanov)
Sons britânicos (Godard)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)
O Lobo Solitário (Koike & Kojima)
Bianca (Crepax)
A mão esquerda da escuridão (LeGuin)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2280
Rio, 10 de abril de 2008


GOZO
Carlos Pessoa Rosa
[ in Germina ]

se deixo nos lábios o poema
é para morder de leve a rigidez de seus seios
se acrescento sabores ao poema
é para agitar com mel a chama de seu gozo


POEMA DE BOSCO LOPES (RN)

ESTÁ ACONTECENDO

estão vendendo
o amor
empacotado
engarrafado
tabelado
num armazém
de secos & molhados
a felicidade
tem preço marcado
e pelas ruas
encontramos
os vendedores ambulantes
do ar que respiramos
e no artigo do dia
a ternura tem abatimento
o carinho está pelo preço da vida
e o sexo é mercadoria de alta rotação

[ in Corpo de pedra. Natal: Clima, 1987 ]


O HUMOR SEGUNDO MAX NUNES
[ in Uma pulga na camisola, de Ruy Castro ]

[] O sonho de todo homem de 85 anos
é ser assassinado por um marido ciumento.
[] Jornalista independente é aquele
que tem a mesma opinião do dono do jornal.
[] Copacabana é uma extensa faixa de terra banhada
de um lado pelo oceano Atlântico e,
do outro, pelo uísque falsificado.
[] Lugar de bígamo não é na cadeia. É no hospício.
[] Era um sujeito muito calmo.
Mesmo depois de morto conservou o sangue-frio.
[] Não era uma mulher; era uma guilhotina:
cinco homens perderam a cabeça por sua causa.

Manchetes que abalaram o mundo:

*** TARADO COME MAÇÃ E ATACA DONZELA NO PARAÍSO.
*** DESFALCADA A SELEÇÃO DA GRÉCIA.
ACERTARAM O CALCANHAR DE AQUILES.
*** AINDA NÃO FORAM ENCONTRADOS OS RESTOS MORTAIS
DO CHINÊS QUE INVENTOU A PÓLVORA.
*** IMPERADOR INCENDEIA ROMA.
BOMBEIROS CHEGARAM A TEMPO MAS FALTOU ÁGUA.
*** NAVEGADOR PORTUGUÊS SEM RADAR DESCOBRE O BRASIL.
*** PAGARAM UM MILHÃO PELA PERUCA QUE
MARIA ANTONIETA PERDEU NA GUILHOTINA.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Uma das ilustrações
a bico de pena, de um total de 100, do brasileiro
Henrique Alvim Corrêa
(1876-1910) para a edição belga de A guerra dos mundos (Wells), em 1905, o ano de Little Nemo in Slumberland (McCay), obra-prima dos quadrinhos e da arte narrativa do século XX











BALAIO PORRETA 1986
n° 2279

Rio, 9 de abril de 2008



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
A guerra dos mundos [1898], de H.G. Wells. Trad. Raul de Sá Barbosa. Ilust. Alvim Corrêa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, 248p. [] Ficção científica antes da ficção científica (enquanto gênero formalmente constituído), este é um livro antenado com seu tempo, tempo esse que acreditava em suas descobertas, em seus avanços tecnológicos, em sua racionalidade quase religiosa. Mas que, para alguns, como Wells, terminou sendo um tempo apropriado para se pensar o pessimismo de modo abrasador, cujas incertezas filosóficas (que não se inscreviam no âmbito do materialismo dialético) entravam em choque com as certezas políticas voltadas para o sonho e para a utopia. Aliás, a ficção científica formou-se a partir de três vertentes básicas, ora literárias, ora filosóficas: o sentido do maravilhoso, o espírito de aventura e a possibilidade da utopia. De qualquer maneira, este é um livro que coloca a imaginação em primeiro plano, cujo tecido textual se constrói a serviço da boa literatura. Até mesmo uma suposta invasão de marcianos não se resumia à invasão em si: o seu simbolismo refletia uma nova maneira de olhar o mundo. Sem dúvida, estamos diante de um belo livro, aqui, como álbum, enriquecido pelas ilustrações do brasileiro Alvim Corrêa, que datam do início do século XX, fazendo com que essa seja uma edição preciosa. Bela e preciosa. Há que registrar que Alvim Corrêa fez mais pela visualização onírico-especulativa do livro de H.G. Wells do que todo o cinema que o adaptou até agora. Mesmo em relação aos quadrinhos, não conhecemos nada tão poético e fascinante, em sendo penumbroso, quanto os desenhos de Alvim Corrêa.

terça-feira, 8 de abril de 2008


A fúria das águas
na sangria da
Barragem Armando Ribeiro Gonçalves,
em Açu, região central do Rio Grande do Norte

Foto de
Canindé Soares


BALAIO PORRETA 1986
nº 2278
Rio, 8 de abril de 2008



POEMAS DE
SÉRGIO DE CASTRO PINTO
(PB)

escrever/não escrever

escrever é um suicídio branco.
um consumir-se
no fogo brando das palavras.

não escrever, um suicídio em branco.
um consumar-se sem metáforas.


recado a pound

pound, eu não sou
nenhuma antena.

eu sou a pane e a interferência
dos meus fantasmas

no tubo de imagens dos poemas.

[in O cerco da memória. João Pessoa, 1993 ]


POEMA DE
MAX MARTINS (PA)

O amor ardendo em mel

Morder! morder o
hímem adocicado
-- frêmito de lâmina
entre duas coxas
do polo ao pólem.
E o apolo laminar morder
Morder os bicos dos figos
antes que murchos
antes dos dentes
sempre morder
e jamais sugar
da lua a sua ferrugem.
Morder somente a sua semente
antes de agora
antes da aurora
morder
e arder em mel
o amor.

[ in Anti-retrato /1960/,
republicado em Não para consolar /1992/ ]


CONTOS DE
ROSA AMANDA STRAUSZ (RJ)

Quase erótico

Tinha dedos ásperos e mãos enormes, pacientes. Eram capazes de rastejar entre vestidos e lençóis infinitas vezes até se enroscarem em torno de um seio ou dentro de uma cavidade escorregadia. Não importava quais. Sempre encontrou o caminho. Jamais o sentido.

A pedra

É preciso remover montanhas. Digo mais: é preciso fazê-lo sem fé. Arrojar-se com o pavor maravilhado de um ocidental que morda peixes crus.
Ele fazia isto a cada dia. Só pela urgência, tão maior que uma montanha sem religiosidade alguma. Por isso eu o amava. Embora também eu não passasse de um pedaço de cordilheira, à espera da imobilidade no eterno abraço da remoção.

Conto colorido

Quando lhe perguntaram o que queria ser quando crescesse, não vacilou: televisão.

[ in Mínimo múltiplo comum. Rio: José Olympio, 1990 ]


Repeteco / Memória 2000

BALAIO 1323 [ Ano XV ]
Folha Porreta / Moacy Cirne
Rio, 4 de outubro de 2000


O XIBIU ELÉTRICO
por Ricardo Nunes (Aracaju, SE)

Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens menos ainda. Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado. Orgasmo masculino, não; é aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa. Diante desse mistério as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto.

Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema. Vi outro dia no programa do Jô Soares uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Walita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica.

Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela piriquita na hora do orgasmo, e chegou à conclusão de que, na hora H, a piriquita dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco pererecas juntas ligadas na hora do "aimeudeus" seria suficiente para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num fusca com a bateria arriada. Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tcham, carregou.

É preciso ter cuidado porque isso não é mais xibiu, é torradeira elétrica. E se der um curto circuito na hora de "virá o zoinho", além de vesgo a gente sai com mal de Parkinson. Pensei: camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora H não tire o pênis nem pise no chão molhado... pode ser pior! É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o biscoito lá na canequinha de sua namorada, perguntar: é 110 ou 220 volts? Senão, depois do que essa mulher falou lá no Jô, pode dar ovo frito no café da manhã... com calabresa.

segunda-feira, 7 de abril de 2008


Sangria do
Açude do Riacho do Meio,
em Jardim do Seridó.
Embora pequeno,
com seu sangradouro
formando cachoeiras,
é bastante belo.

Foto:
Jardim do Seridó Me Faz crescer


BALAIO PORRETA 1986
nº 2277
Rio, 6 de abril de 2008



Memória / Repeteco
OS DEZ MELHORES POEMAS BRASILEIROS

No dia 2 de janeiro de 2000, o suplemento Mais da Folha de S.Paulo, consultados Alcir Pécora, Aleksandar Jovanovic, Augusto Masi, Décio Pignatari, Irlemar Chiampi, Ivo Barroso, José Lino Grunewald, Leonardo Fróes, Nelson Ascher e Sebastião Uchoa Leite, apresentava os melhores poemas brasileiros de todos os tempos, sendo os mais votados os que seguem:

1. A máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
2. O inferno de Wall Street, de Joaquim de Sousândrade (1833-1902)
3. Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810?)
4. Cântico dos cânticos para flauta e violão, de Oswald de Andrade (1890-1954)
5. Procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade
6. O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
7. Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira (1886-1968)
8. Tecendo a manhã, de João Cabral de Melo Neto
9. Cobra Norato, de Raul Bopp (1898-1984)
10. O cacto, de Manuel Bandeira


RIO PATAXÓ / RIO ANGICOS
JARBAS MARTINS
A Chico Pereira, meu amigo, poeta serranegrense

quem quiser cante o seu rio
é destino ou obrigação
que o meu trago represado
nas barragens da canção

rio Pataxó rio Angicos
um nome que em dois se arvora
um nome em outro guardado
na cacimba da memória

sem memória geografias
história e revelação
rio esquecido magoado
no chão seco do sertão

Angicos - RN, 7 de março de 2005


10 FOLHETOS DE CORDEL com títulos curiosos:

[] A menina que morreu em Caicó e depois de 20 horas enviveceu - falou contra o comunismo e o protestantismo,
de José Gomes da Silva
[] A mulher que o diabo surrou ou A espera da vingança,
de Hermes Gomes de Oliveira
[] A discussão da gripe asiática com o atum,
de Cuíca de Sto. Amaro
[] História em versos de um jegue que matou um homem, a porca comeu a criança e a mulher morreu de choque, no Município de Santana de Ipanema, Estado de Alagoas,
de José Honório Oliveira
[] História da menina, ou seja, o Padre Cícero Romão,
de Genário Vieira Barreto
[] A moça que mordeu o travesseiro pensando que fosse Vicente Celestino, de Cuíca de Sto. Amaro
[] O barbeiro que fez a barba do jegue, de Aristeu Guerra Moreira
[] Como Antonio Silvino fez o diabo chocar, de Leandro Gomes de Barros
[] História do burro que matou seu próprio dono de faca e o homem que matou a vaca e a vaca matou o homem com a mesma faca, de Moisés Matias de Moura
[] História do casamento do Tigre ou O cavalo do Mestre Coelho, de Luís da Costa Pinheiro

domingo, 6 de abril de 2008


O Rio Seridó,
de barreira a barreira,
em Caicó,
antes de receber as águas da sangria do Itans
(que alimentam o Rio Barra Nova)


Foto:
Paulo Júnior / Correio do Seridó
in Sem Opção


BALAIO PORRETA 1986
n° 2276
Rio, 6 de abril de 2008


EIS
o seridó de barreira a barreira poemáguas que me lambem amorosamente pamonhas e canjicas do meu sertão caicós sabugis acaris eis o seridó de barreira a barreira morenáguas que me sonham docemente cruvianas e virações da minha infância jardins cruzetas parelhas eis o seridó de barreira a barreira ternuráguas que me auroram magicamente arribaçãs e acauãs da minha solidão jucurutus carnaúbas currais novos eis o seridó barroco imprevisível do cinema pax na praça da liberdade mangas e crepúsculos de ouro branco a são josé do seridó num poema de moacy cirne:
depois da chuva
depois das borboletas
o cheiro da terra molhada
e a vontade de abraçar crepúsculos
e trovoadas
depois dos cajus
depois dos cajás
a festa de sant'ana e as romãs
guardam poentes escandalosos
de vermelhos
e carnavais

sábado, 5 de abril de 2008


Não são apenas os açudes seridoenses que estão sangrando
no Rio Grande do Norte: vejam aqui
a sangria da Barragem Santa Cruz, em Apodi,
região oeste do Estado, ao lado do Ceará

(in Suerda Medeiros)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2275
Rio, 5 de abril de 2008



POEMAS DE ZÉ LIMEIRA (PB)

Zé Limeira quando canta
Estremece o Cariri
As estrela trinca os dentes,
Leão chupa abacaxi
Com trinta dias depois
Estora a guerra civi!

O meu nome é Zé Limeira
De Lima, Limão, Limansa
As estrada de São Bento
Bezerro de vaca mansa,
Vala-me, Nossa Senhora,
Ai que eu me lembrei agora:
Tão bombardeando a França!

Um dia o Rei Salomão
Dormiu de noite e de dia,
Convidou Napoleão
Pra cantar pilogamia,
Viva a Princesa Isabé
Que já morou em Sumé
No tempo da Monarquia.

Jesus nasceu em Belém,
Conseguiu sair dali,
Passou por Tamataí,
Por Guarabira também,
Nessa viagem de trem
Foi parar no Entroncamento,
Não encontrou aposento
Dormiu na casa do cabo,
Jantou cuscus com quiabo,
Diz o Novo Testamento.

Pedro Álvares Cabral,
Inventor do telefone,
Começou a tocar trombone
Na volta de Zé Leal,
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumentos...
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três,
Quem tem razão é o freguês,
Diz o Novo Testamento.

Quando Jesus veio ao mundo
Foi só pra fazer justiça:
Com treze ano de idade
Discutiu com a doutoriça,
Com trinta ano depois
Sentou praça na puliça.

[ Fonte: Zé Limeira, poeta do absurdo,
de Orlando Tejo ]


FEIRA DE PROVÉRBIOS ESPORRENTOS

Ele me prometeu brincos, mas apenas furou minhas orelhas.
(Árabe)
Os homens são como tapetes: às vezes precisam ser sacudidos.
(Árabe)
Se os filhos da puta voassem, nunca veríamos o sol.
(Argentino)
Aqueles que não sonham estão perdidos.
(Australiano)
A língua suave é a árvore da vida, a língua perversa quebra o coração.
(Bíblico)
A tinta mais fraca é melhor que a melhor memória.
(Chinês)
Falar sem pensar é atirar sem mirar.
(Espanhol)
Três espanhóis, quatro opiniões.
(Espanhol)
A partir de uma certa idade, o único afrodisíaco é a variedade.
(Francês)
Dinheiro público é como água benta: todos põem a mão.
(Italiano)

[ Fonte: Duailibi das citações, de Roberto Duailibi ]



sexta-feira, 4 de abril de 2008


O Açude Boqueirão, em Parelhas,
o maior do Seridó,
também já está sangrando.

Foto:
Hugo Macedo
[ in Grande Ponto ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2274
Rio, 4 de abril de 2008


O RIO & O BARREIRO

[ in Sopão do Tião, de Brasília/Parelhas ]

Entre a imensidão do Itans e a humildade do barreiro, corria a perenidade provisória do rio. Era ele que fazia a nossa festa, que nos alegrava a infância quando dele se dizia que "o rio chegou com água". Com o reforço linguístico que o tempo subtraiu do discurso sertanejo, "de barreira a barreira". Quando a temporada de chuvas se estabelecia e o rio perenizava-se, instituições naturais irmãs do açude, do barreiro e do rio vinham se somar, no leito desse ou em torno dele, à galeria de diversões que tinham data para acabar. Era o poço onde se atirava o valentão da hora, era o redemoinho temido, era a correnteza translúcida, eram as piabas inquietas e presas fáceis dos mesmos meninos, como era a brancura fina da areia da nossa praia interior e o domingo predestinado a fazer moradia na memória. O rio era tudo isso e antes de tudo era um muxoxo que todas as crianças ribeirinhas dirigiam às suas mães: o "snif, snif", aquele fungado fingido do nariz para provar que não se estava gripado e, portanto, se estava sim em plenas condições de ser liberado para "tomar banho no rio", essa outra expressão que o português falado guarda em relicários mudos.

Se o Itans valia por um oceano, o barreiro era o pingo dele a que tínhamos direito. Na medida em que as estatísticas das chuvas passaram a compor uma linha cada vez mais descendente, essa pequena instituição da natureza do mundo rural foi sumindo do mapa. Tanto que a própria palavra - barreiro, que é bem auto-explicativa - também caiu em desuso. Alguém ainda sabe o que é um barreiro hoje em dia? Era uma pequena lagoa, geralmente situada no terreno dos fundos das casas dos sítios, em pés-de-serra ou de serrotes, com úma água bem barrenta, naquele tom amarelo-arenoso. Não chegava a ser um açude, não tinha estatura para tanto, mas devia ter sua utilidade. O que acabei de descrever, por sinal, é o barreiro que havia nos fundos da casa do sítio onde moravam meus avós maternos, na Timbaúba, em Parelhas. O barreiro - ao menos o que me ficou daquele barreiro em particular - era querido como se quer bem a uma pessoa da família. Quando se chegava ao sítio, corria-se logo para vê-lo, como se uma promessa de inverno farto estivesse contida na sua pouca e turva água.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
Livros fundamentais da literatura potiguar

Sertões do Seridó, de Oswaldo Lamartine. Brasília, 1980, 232p. [] Reunião de cinco pequenas obras de um dos maiores estilistas da literatura nordestina, reveladas amorosamente pela pesquisa etnográfica do Autor: Açudes dos sertões do Seridó (1978), Conservação de alimentos nos sertões do Seridó (1965), Algumas abelhas dos sertões (1964), ABC da pescaria de açudes no Seridó (1961) e A caça nos sertões do Seridó (1961). Por vários e vários motivos, um livro luminoso e iluminado, como o cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvas de um inverno embriagador, quando os rios, de barreira a barreira, nutrem o chão amado com esperança e vigor. Veja-se o seu estilo, poeticamente cristalino: "Espia-se a água se derramando líquida e horizontal pela terra adentro a se perder de vista. As represas esgueiram-se em margens contorcidas e embastadas onde touceiras de capim de planta ou o mandante de hastes arroxeadas debruçam-se na lodosa lama. O verde das vazantes emoldura o açude no cinzento dos chãos. Do silêncio dos descampados vem o marulhar das marolas que morrem nos rasos. ... O rio, estancado em açude, continua depois, em verde sinuoso de capinzais, copas de coqueiros ou canaviais penteados pelo vento" (p.23).

quinta-feira, 3 de abril de 2008


Foguetões estouram por todos os lados:
EXPLOSÃO DE ALEGRIA EM CAICÓ

O ITANS ESTÁ SANGRANDO!


BALAIO PORRETA EXTRA
n° 2272
Rio, 3 de abril de 2008


A arte de Marc Chagall:
A dança e o circo,
de 1950,
o ano de
Diário de um pároco de aldeia (Bresson),
Rashomon (Kurosawa),
Crepúsculo dos deuses (Wilder),
O rio sagrado (Renoir),
No silêncio da noite (Ray),
A malvada (Mankiewicz),
O segredo das jóias (Huston),
O cão sem plumas (João Cabral)
Crônicas marcianas (Bradbury),
Peanuts (Schulz).


BALAIO PORRETA 1986
n° 2271
Rio, 3 de abril de 2008



ALGUNS PAPÉIS
Henrique Augusto Chaudon
[ in Poemas. Niterói, 2005 ]

Na terceira gaveta
a contar de cima
à esquerda da escrivaninha
guardo esperançoso alguns papéis.
Há também uma caixa de fotografias
quase antigas:
ensolaradas, cheias de vento, cheias de mar.
Nos papéis
escrevi poemas que penso um dia publicar
se eu for capaz de alguns reparos.
Quanto às fotografias
às vezes sinto que me chamam na noite
e já nada mais posso fazer.


FALTA POUCO PARA O ITANS SANGRAR

Informa-nos Robson Pires que o Itans poderá sangrar ainda hoje, possivelmente à tarde, o mesmo acontecendo com o Boqueirão, de Parelhas. Às 8:28h faltavam apenas 37 centímetros para que o açude-símbolo de Caicó sangrasse (através de seus sangradouros, que desemborcam no Rio Barra Nova, e não por cima de sua parede, como nos casos do Gargalheiras e da Passagem das Traíras). Construído em 1932-36, com uma capacidade de 80 milhões de metros cúbicos de água - e cuja primeira sangria deu-se no inverno de 1940; a mais recente, no de 2004 -, o Itans é mais do que um açude: é uma referência sentimental para toda a cidade, assim como simbólico é o Poço de Santana. Quando ele começa a pegar água pra valer, como agora, os caicoenses entram em delírio, entre o sagrado e o profano. E a cidade se transforma na Caicó de Todos os Sonhos.

quarta-feira, 2 de abril de 2008



Os açudes seridoenses e o espetáculo das sangrias:
na primeira foto (de Hugo Macedo),
outro ângulo do Gargalheiras, em Acari;
na foto inferior (de Gustavo Nóbrega),
a Passagem das Traíras,
entre Caicó, Jardim e São José do Seridó.
Segundo as últimas notícias,
o Itans poderá sangrar a qualquer momento.
Os açudes de
Currais Novos, Cruzeta, São João do Sabugi
e Jardim do Seridó
já estão sangrando.

BALAIO PORRETA EXTRA
n° 2270
Rio, 2 de abril de 2008


O açude Itans, um dos símbolos de Caicó

Foto in
Suerda Medeiros


BALAIO PORRETA 1986
n° 2269
Rio, 2 de abril de 2008



POEMA
Moacy Cirne

manoel dantas ciço doido rui mariz
- será que o itans sangrará?

seu clóvis aiá aladim walfredo gurgel
- será que o itans sangrará?

josé ezelino bolo-bolo janúncio nóbrega
- será que o itans sangrará?

padre guerra mãe quininha olegário vale
- será que o itans sangrará?

prosas
trovas
glosas
- será que o itans shangri-lá?


DE VOLTA AO RIO

Hoje é dia de Maracanã.
Hoje é dia de Fluminense.

terça-feira, 1 de abril de 2008


O açude Gargalheiras, um pouco antes de sua atual sangria
Imagem:
BALAIO PORRETA 1986
nº 2268
Natal, 1 de abril de 2008
MORADA 1
Maria Maria
Mora em mim
um todo de toda água,
um galho de algaroba
(que navega na enxurrada),
um pingo de orvalho,
Gargalheira em gargalhada.