terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Podemos avaliar o sentido histórico que possui uma época pela maneira com que essa época faz as traduções e procura assimilar os tempos passados e os livros antigos. (Friedrich NIETZSCHE. A gaia ciência. Trad. Márcio Pugliesi & outros. São Paulo: Hemus, 1981, p.97)

BALAIO PORRETA 1986
n° 1954
Rio, 13 de fevereiro de 2007

Poema/Processo, 40 anos

Contato: balaio86@oi.com.br


CONSIDERAÇÕES PENÚLTIMAS
Sei da tragédia. Sei da violência. Sei do horror, da morte, do medo, da perplexidade. Sei da dor, da incrível dor. Ao mesmo tempo, nada sei, nada sei. Não sei dos crepúsculos ensangüentados. Não sei das auroras angustiadas. Não sei das paixões furiosas. Mas sei da tragédia, da violência, do terror. Se não bastasse a degradação ambiental, provocada pelo próprio Homem, há a degradação individual, inserida no social, inserida na vida urbana mais e mais desumana. Nada é relativo. Nada é absoluto. Tudo é mais, tudo é menos. Talvez sim, talvez ficção. Deixemos a literatura de lado. Não, não deixemos a literatura de lado. Apesar de. Da miséria humana. Da miséria social. Da miséria pela miséria. Sei, sabemos. É verdade, é verdade. Há violências que extrapolam o sentido da existência humana. Exemplos não faltam. Infelizmente. Infelizmente. A violência do capitalismo global contra o Planeta Terra. A violência dos poderosos contra as nações periféricas. Ou a violência dos brutos contra crianças indefesas. Mas, apesar de tudo, nada justifica a pena de morte. Nada justifica o horror contra o horror.

POEMA DE
BOSCO SOBREIRA
(CE)
Noite Brasileira II
[ in Politicamente Incorreto ]

o medo germina
em cada esquina
em cada canto
e
fede

( o medo
é o de não ter
medo )

e
crianças
mulheres
homens
bichos
e
plantas
sonham pesadelos pelos quatro cantos do país


UM DISCO PORRETA
João
,
de João Gilberto
[ Philips 848 188-2 ]

7 comentários:

Theo G. Alves disse...

moacy,
de tudo que li e ouvi estes dias, nada me disse tanto e melhor do que as tuas breves palavras.

me sinto encontrado em sua opinião...

um abraço, meu amigo, um abraço.

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Moacy,
Obrigado pelo privilégio de participar de seu Balaio, principalmente quando meu texto é antecedido por suas brilhantes Considerações.
Obrigado, mestre.
Forte abraço.

Mary disse...

Ficaria muito feliz, Moacy! Fique à vontade para fazê-lo. :)


Sobre tuas considerações, sei da violência, mas não sei se a pena de morte seria uma solução também... É tudo muito complicado.
Esse crime do menino no Rio foi algo chocante e de difícil ingestão... E as coisas vão se deixando passar...


Muito bom o poema do Bosco. O conheci através de seu Balaio. Assim como os lindos versos de Iara.

Parabéns pelo blog e pelas palavras!

Beijos

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Boas e (impossível) mais oportunas as suas "Considerações". Quanto à aplicação da pena de morte, fico numa dúvida muito grande quando acontece um ato de selvageria elevada ao grau máximo, como no caso daquele garoto de 6 anos. Porque se esses caras forem condenados, em pouco tempo estarão livres. Pelo menos é assim neste pobre e triste país. Um abraço.

Jens disse...

Moacy: excelente as Considerações. Em momentos de sentimentos exacerbados como o que estamos vivendo nos últimos dias é difícil manter a serenidade e a racionalidade que você conseguiu expressar com raro brilho.
O fato de você assumir sua posição públicamente num momento em que muitos preferem ficar calados é uma atitude de coragem intelectual que merece minha admiração e respeito.
Um abraço.

sandra camurça disse...

Também sou contra a pena de morte, sempre fui. Ótimo texto, Moacy. E pra completar, o disco do João pra ver se o Brasil recupera a delicadeza perdida: Perfeito! Mas confesso que ainda estou abalada com esse crime hediondo...

Um beijo.

Mulher na Janela disse...

Moacy, sua postagem está perfeita! A começar por Nietzsche, que tenho lido vorazmente nos últimos tempos, e que tão bem traduz as nossas inquietações diante de um via-a-ser que não será, quem sabe?
As suas considerações penúltimas (extremamente lírico-agressivas, e fantásticas por isso e mais...) dialogam divinamente com a constatação de que o Nada nos espera, esse Nada absoluto que talvez não haja Super-Homem que o supere. O poema de Bosco, mais uma vez, (in)salubre tempero ao cotidiano amorfo com que nos presenteia o progresso e sua teia reificadora de gestos, sonhos e pesadelos.
Perfeita postagem, embora tristes constatações.
Um grande abraço!