quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A luxúria
litografia de
Jean-Baptiste Valadié


BALAIO PORRETA 1986
nº 2928
Rio, 10 de fevereiro de 2010

A luxúria é o pecado da carne e do espírito da carne. O Demônio da Luxúria é bem diverso do Demônio da Fornicação, embora muitas vezes ambos se fundem num só. ... O homem para pecar através da fornicação necessita, na pior das hipóteses, de um parceiro. Para pecar pela Luxúria, o homem se basta, não precisa de nada.
(Ieronimus Mosis, provincial na Toscana do séc. XII,
citado por Carlos Heitor CONY,
in Grandeza e decadência de um caçador de rolinhas,
cf. Os sete pecados capitais: Luxúria, 1964)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 46 / 50 )

Os sete pecados capitais (C.H. Cony & outros, 1964)
Abaixo as verdades sagradas (Bloom, 1987)
Código nacional de trânsito (Affonso Ávila, 1972)
Violão de rua: Caminhos para a liberdade (Vários, 1962)
Teoria da literatura (Todorov, 1965)
Chaves para o cinema (Amengual, 1971)
O prazer do texto (Barthes, 1973)
O écran demoníaco (Eisner, 1952)
Cinema e história (Ferro, 1977)
Linguagem e cinema (Metz, 1971)

Nota:
Os sete pecados capitais,
editados pela Civilização Brasileira,
foram escritos por
Guimarães Rosa (Soberba),
Otto Lara Resende (Avareza),
Carlos Heitor Cony (Luxúria),
Mário Donato (Ira),
Guilherme Figueiredo (Gula),
José Condé (Inveja) e
Lygia Fagundes Telles (Inveja).

( 47 / 50 )

A cidade e as serras (Eça de Queiroz, 1901)
Krazy Kat (Herriman, 1911)
A terra desolada (Eliot, 1922)
História do olho (Bataille, 1928)
Tarzan (Foster, 1929)
Crítica impura (Astrojildo Pereira, 1963)
Contos: Os norte-americanos (Vinicius de Morais, org., 1945)
Contos: Os ingleses (Rubem Braga, org., 1944)
Contos da velha e da nova Rússia (Vários, 1954)
Antologia cósmica (Fausto Cunha, org., 1981)


O CARNAVAL DA MINHA DOR
Cefas Carvalho

O carnaval da minha dor começou em uma sexta-feira ensolarada como têm início os carnavais - sejam dolorosos ou não - em um ano qualquer e em uma cidade igualmente qualquer (o carnaval é igual em qualquer cidade quando o objetivo é sofrer, e não se alegrar. Parafraseando Tolstói, todos os carnavais infelizes se parecem, os carnavais alegres é que são diferentes...).

Mas voltemos à minha dor... toda ela gerada pela Colombina, posto que eu era, novamente, o Pierrô. Há quantos carnavais vivíamos esta história insana, excitante, mal contada?... Havia uma década, suponho. Eu não sabia nada sobre ela, apenas seu nome - Miriam -, que ela revelou por um deslize enquanto fazíamos amor embaixo do palco das autoridades que assistiam ao desfile das escolas de samba na cidade de... deixemos para lá. E chamemos minha amada de Colombina, que é como sempre a chamei e como ela gosta de ser chamada (isso a excita, presumo).

O fato era que o que havia começado como uma fantasia (em todos os sentidos) passara a ser – pelo menos para mim – uma obsessão. Primeiro nos conhecemos, entre o confete, a serpentina, o álcool e o loló, como todos se conhecem durante a folia, entre a superficialidade e o desejo... depois o beijo, o desencontro e por fim o reencontro na noite de terça-feira e terminar a noite – e aquele carnaval – entre lençóis no meu quarto de hotel. Trocamos telefone, mas para quê?

Jamais nos telefonamos. A não ser na véspera do carnaval do ano seguinte, quando ela avisou que novamente se fantasiaria de Colombina e que queria me ver outra vez de Pierrô. Passamos o carnaval entre encontros e desencontros, ela com Arlequins, eu com Odaliscas... tentei brigar, mas ela só queria se divertir. Jurei que no carnaval seguinte não passaria mais por aquilo. Tolice. Uma semana antes da festa momesca, a Colombina me ligou dizendo em que cidade passaria o carnaval e lá fui eu atrás dela, rumo a prazeres carnais rápidos e uma dose considerável de sofrimento. Identifiquei-me com a música... "Um Pierrô apaixonado, que vivia só chorando, por causa de uma Colombina acabou chorando, acabou chorando...” (Pierrô Apaixonado, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres).

Lá pelo quatro ou quinto carnaval que passávamos da mesma maneira, encontrando e desencontrando entre ladeiras, becos e multidões, tomei coragem e a pedi em casamento. Ela riu, argumentando que eu sequer a conhecia e continuou sua caminhada de Colombina desvairada, à procura de outras bocas, outros braços, outros pierrôs... Mas, na quarta-feira de cinzas lá estava ela em meus braços... E eu tentando fazer com que nos víssemos em outro período que não no carnaval. Inútil. “Eu gosto das coisas assim...”, enfatizou, despindo suas roupas de Colombina. Enquanto ela pegava um táxi rumo ao aeroporto (já morávamos em cidades diferentes) "O Pierrô apaixonado chora pelo amor da Colombina..." (Pierrot, de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos).

Passam os meses e fevereiro se aproximou, como sempre, trazendo consigo o Carnaval. Não telefonei para a Colombina e tampouco ela me ligou. Fiquei em minha cidade, e vesti-me de Pierrô – pela última vez – para pular sozinho meu carnaval. Eis que então, entre lágrimas e cervejas, vi a Colombina – sim, só podia ser ela, era seu andar, seu jeito de mover os braços, de balançar os cabelos, de rir ao vento... - aos beijos com um Arlequim. Olhei fixamente para ela. Ela me viu e não esboçou qualquer reação. Era uma Colombina, mas, seria a minha Colombina? Que importava? Que mais havia a fazer? Comprei outra latinha de Skol e me entreguei à multidão que entoava uma marchinha qualquer, que aos meus ouvidos soava como a marcha fúnebre: eu estava condenado a ficar apaixonado pela imagem (literal e simbólica) da Colombina até o fim dos carnavais, ainda que toda Colombina que cruzasse meu infeliz caminho não fosse a minha... “Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão... O Pierrô está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão...”.


BODEGA DO CHICO DOIDO DE CAICÓ

Bebes & comes:

* Guaraná Doidão:
Guaraná em pó batido durante 83 segundos com 200ml de cachaça (Topázio ou Samanaú, preferencialmente), uma barra de chocolate amargo, uma colher de sopa de gengibre, dois cálices de licor de amendoim e o leite da mulher amada, à vontade.
Parede: Ovo de codorna. Cru. Com casca e tudo o mais.

* Manga manhosa:
Suco de manga batido durante 69 segundos com dois cálices de licor da pessoa amada e uma bola de sorvete de creme afrodisíaco, além de uma taça de vinho espumante.
Parede: Auroras e crepúsculos ao som de Vivaldi.

* Açaí Porreta:
Suco de açaí batido durante 55 segundos com três cálices de licor de chocolate, um pouco de mel e uma colher de sopa de proteinato, temperado com o sorriso do ser amado.
Parede: Queijo de coalho. Assado.

* Goiaba Escandalosa:
Uma taça de vinho do porto, sorvete de chocolate (duas bolas caprichadas) e uma goiaba. Mistura para ser batida durante 43 segundos. Sob o olhar do/a amado/a.
Parede: Queijo do sertão. Derretido.

* Caju Diabólico.
300ml de cachaça. Da boa. Topázio, Seleta, Samanaú, Rainha, Ferreira, Germana, tanto faz. Não precisa bater. Pode-se beber aos poucos, em três ou quatro talagadas.
Parede
: Caju. Bastante caju.

E na entrada principal da Bodega,
um poema de Chico Doido de Caicó:

Reconheço: sou mentiroso dos bons
Mas uma coisa é tiro e queda
Queda e tiro sem talvez
Mulher comigo sempre terá vez.


DESERTO
Bosco Sobreira
[ in A Pedra e a Fala ]

afora o cheiro desta
voz
o corpo desta
voz
o transe desta
voz
tudo tão antigo
tudo tão eterno
tudo tão igual
(nada)
nada novo
há de nascer
sob o sol
afora esse deserto
(nada)
tudo
tão
nada

UMA FORMIGUINHA
Henrique Pimenta
[ in Poivre ]

Uma formiga que se encontra à cama
Passeia nervosinha no xadrez,
Concentra-se ao lençol e é pela trama
Da mancha bem de pouco que se fez.

Distingue que há nas gotas uma gama
De mel e de salsuge e de acidez,
Que gosto!, delicia-se e se inflama
Com os restos de quem mama de uma vez,

À fome dos sentidos em ascenso,
À sede do sem senso muito tenso,
Que o leite foi batido pela enferma

No leito doidivanas, tão materna...
Sorvendo-o dissolvente se prosterna,
Formiga se vicia com esperma.

DO TEU CHEIRO
Ademir Antonio Bacca
[ in Poesia Erótica ]

O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...




terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

São Jorge
litografia de
Salvador Dali
(1983)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2927
Rio, 9 de fevereiro de 2010

Pior do que um marxista ortodoxo - em geral, um sujeito chato e equivocado - é um ex-marxólogo - em geral, um sujeito que abandona a esquerda (a "sua" esquerda) para abraçar as causas da direita raivosa.
(Moacy Cirne, in Balaio n° 2298, em 28 / 4 / 2008 )


A RELEITURA DA SEMANA
Carta a D. - História de um amor,
de André Gorz.
Trad. Celso Azzan Jr.
(São Paulo : Annablume ; CosacNaify, 2008)

"Tive muitas dificuldades com o amor (ao qual Sartre dedicou umas trinta páginas de O ser e o Nada), pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras" (p.25).

"É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia" (p.26).

"O principal objetivo do escritor não é o que ele escreve. Sua necessidade primeira é escrever. Escrever, isto é, ausentar-se do mundo e de si mesmo para, eventualmente, fazer disso a matéria de elaborações literárias" (p.28)

"Eu necessitava de teoria para estruturar meu pensamento, e argumentava com você que um pensamento não estruturado sempre ameaça naufragar no empirismo e na insignificância. Você respondia que a teoria sempre ameaça se tornar um constrangimento que nos impede de perceber a complexidade movediça da realidade" (p.41).

"Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher" (p.70).


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 45 / 50 )

Carta a D. - História de um amor (Gorz, ed. bras. 2008)
As afinidades eletivas (Goethe, 1809)
Por que ler os clássicos (Calvino, 1991)
Passagens (Benjamin, ed. bras. 2006)
Mito e realidade (Eliade, 1963)
O Estado em crise (Poulantzas, org., ed. bras. 1977)
Estado e cultura no Brasil (Sergio Miceli, org., 1984)
O cinema da crueldade (Bazin, 1987)
Écrits corsaires (Pasolini, 1975)
O cerco da memória (Sérgio de Castro Pinto, 1993)


RECADO A POUND
Sérgio de Castro Pinto
[ in O cerco da memória, 1993 ]

pound, eu não sou
nenhuma antena.

eu sou a pane
e a interferência
dos meus fantasmas

no tubo de imagens dos poemas.


Humor
AS NOTÍCIAS... MAIS OU MENOS
Sílvio Fernando
[ in Via Política ]

Com as manchetes cada vez mais escabrosas que correm aqui e no mundo, às vezes dá vontade de largar o jornal e se encerrar no mundo mágico da fantasia. Por sorte os personagens da ficção moram bem longe de nós, em Metrópolis ou Gotham City, a salvo do mundo sórdido da realidade. Ainda bem que é assim. Mas já pensou se não fosse? Talvez um dia a gente abrisse o jornal e lesse o seguinte:

Tragédia no mundo dos quadrinhos! A morte do Pato Donald!
Encontrado ontem à noite o corpo carbonizado do famoso personagem dos gibis envolto em rodelas de limão dentro do fogão da própria casa. Suspeita-se de suicídio. Huguinho, Zezinho e Luisinho permanecem inconsoláveis.

Branca de neve exibe novo bronzeado e perde o emprego!

Paz na Floresta!
Chapeuzinho vermelho e vovó respiram aliviadas. Lobo Mau adere à dieta macrobiótica e declara-se vegetariano!

Especial – Cidade de Gotham City
Coringa abandona Batman e funda dupla sertaneja com o palhaço Bozo!

[ Leia o texto na íntegra clicando aqui ]


CUBOS
Marcelo Novaes
[ in Prosas Poéticas ]

Mas que casa escura... A mãe, magérrima [de olhos da dor mais aguda], segura, com dificuldade, a criança por entre as mãos miúdas. La fora, o bloco que passa sob calor ["Imaginô?! Então amassa..."], diante das arquibancadas de areia. Tudo respira fôlego & cansaço. No céu, única nuvem: clara. Os olhos fundos da mulher e seus gemidos pintarão mundo de cinza. A não ser que ele equacione os cubos, em equações precisas: o homem do jaleco branco. Cubos mágicos com faces coloridas. A não ser que ele erija outra construção mais sólida do que a areia e os blocos que desfilam por arquibancadas. Os cálculos são rápidos: a mente e as mãos denotam destreza. Densa cortina chove. A água passa. Também os movimentos. Mas não a equação que derrota a morte, em cubos empilhados. Não há mais medo. Só lucidez, na hora do translado.


AVISOS PAROQUIAIS
divulgados pelo
Bar de Ferreirinha

* Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam os seus maridos!

* Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.


ESPELHO DAS PEDRAS
Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Deixava-me ver
pelas pedras-mosaicos
que serviam de palco
para os pirilampos.

Ali, fiz-me ninfa:

desenhei na areia
o teu corpo,
fazendo-te perfeito e humano
como um semideus desencantado.


AFÔNICA
Adrianna Coelho
[ in Metamorfraseando ]

escrevo no ato
solidário à garganta

escrevo sobre ocasos
inflamados e pungentes
em desacato
ao grito que não veio

escrevo ao acaso
até o fim da linha
até o ponto
em que me encontro
febril


A MORTE DO PIERRÔ
Bené Chaves
[ in O Teorema da Feira ]

Na fria e molhada madrugada o Arlequim chorou. De saudades também de sua Colombina. Chorou depois na aurora de cinzas, da recordação de frevos e marchinhas de outrora. E na melancolia das ruas desertas, no encantamento e ilusão de épocas idas... Voltou a chorar. Era um choro amargo e, ao mesmo tempo, alegre. Na paradoxal vida de todos nós. Das despedidas do que jamais teria retorno. De uma fantasia que somente mostrava o invólucro do que já fora.

Lembrou os amores perdidos. Imaginou de quando na sua cidade existia ainda a salutar união e uma folia que se impregnava do que seria belo e autêntico. Hoje ele já não observava e nem mesmo poderia supor os cantos e encantos de um passado. Os clubes onde alargava sua alegria no miolo do salão. As danças com passos verdadeiros e bonitas composições. E o seu lamento foi tão enorme que ele não acreditava no que via. E por isso, o Pierrô chorou.

Das delícias e de brincadeiras inocentes, de confetes, de serpentinas, do lança-perfume. Das meninas de shortezinhos com o umbigo à mostra. Dos cabelos envoltos nos rostos pueris. De como o objeto retangular e de cor dourada servia apenas para jogar o líquido friozinho nas pernas e coxas das mesmas. Lembrou de como era a meiguice da retribuição ao gesto singular. De como as garotas ficavam felizes com um afago. Com um beijo na face. E do que dali poderia sair também um namoro ou algo similar.

O Pierrô chorou, chorou muito. Lembrou-se de sua meninice. Dançou, então, um frevo, jogou confete e atirou serpentina para uma avenida deserta. Derramou o lança-perfume na rua fria e solitária. Apenas ele ali sozinho, sem mais a sua companheira. Sem mais os seus amigos e sem mais ninguém. E ele voltou a chorar e a cantar e a sorrir e a soluçar de um lado para o outro na sua solidão. E saiu a pular entre os paradoxos de uma existência e desengano.

Na sua memória ficaram os momentos bons de uma época de ouro, de um tempo inocente e sem violência e corrupção e rancor. E a brutal transformação de um mundo e o progresso feroz que destrói o que o próprio ser que se dizia humano construiu. E entre as razões de um universo abjeto, o Arlequim não parou de chorar. Suas lágrimas inundaram um ilusório corredor da folia. E seus olhos incharam.

Na larga avenida de postes iluminados não vi mais nada. As luzes apagaram. Fiquei a lamentar a solitária figura de um pobre homem com seu disfarce a esconder o rosto de uma outrora alegria. Hoje apenas mesclada com a tristeza de um crepúsculo onde se baralhavam cinzas de uma quarta-feira de completa escuridão.

E o Pierrô tirou a máscara e a jogou fora. Desfez-se também de sua falsa indumentária e voltou a chorar. Neste exato instante os soluços aumentavam e faziam eco entre as pálidas cinzas de uma sumida esperança. Ele já na sua casa a olhar no espelho para um rosto nu e sem o sorriso e a alegria de viver.


PAPO SOLTO NO PAPO FURADO

de Jairo Lima

Beyoncé quase cai
Durante o show em Florianópolis, a diva escorregou e quase caiu.

Tu pode? Uma merda desta ser notícia na imprensa mundial? Acho que o mundo vai acabar mesmo em 2012, mas vai ser com uma chuva de cangalhas. E não ficará um jumento vivo sobre a face da terra para assistir aos shows da "diva".

O que me lembra um edificante provérbio dos meus matos: merda é bosta, você come porque gosta.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A arte de
Militão dos Santos:
Carnaval de rua
em Olinda.
Mas não nos esqueçamos:
o carnaval de Caicó,
sob o comando da Troça do Ferreirinha
e do Bloco do Magão,
promete ser animadíssimo.
Que o digam Pituleira e Roberto Guarda.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2926
Rio, 8 de fevereiro de 2010

De teus olhos retirei a tristeza,
bebi as lágrimas salgadas;
lambi o abandono.
(Márcia LEITE, in Cantiga mundana.
cf. Poesia Erótica)


MILK SHAKESPEARE
Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

Sorver-te
Ou não sorvete
Eis o Milk Shakespeare!


CELESTE
Patrícia Gomes
[ in SensualizArte ]

Em meu céu
Jorrou teu gozo
E, louca, saboreei
O mel...


POEMAS de
Lúcia Nobre
[ in O bom trepador. Rio, 2000 ]

Bom trepador
menage à trois
quatro cinco seis seis sete oito nove dez

Bom trepador
sexo oral vaginal anal
tudo é carnaval

Bom trepador
segreda coisas obscenas
como poemas


POEMA de
Chico Doido de Caicó

Gosto de mulher de tudo que é jeito
Até das muito bonitas
Que não sabem foder muito bem
E até mesmo daquelas
Que nunca deram o xibiu
Para o meu consumo


HORÓSCOPO DA SEMANA

Áries
No carnaval, não vá com muita sede ao pote.
Cabeça sem juízo, corpo no prejuízo.
Mais vale um sexo na mão do que dois na imaginação.
Um frevo para cair no frevo: 'Vassourinhas'.


Touro
Cachaça não é água, nem lavando a égua.
Água silenciosa, paixão escandalosa.
Brincar na lama, deitar na cama.
Uma marchinha para sassaricar: 'Sassaricando'.


Gêmeos
Antes um tarado com emoção a um sarado sem tesão.
Infeliz daquele que só conhece um buraco.
De verdade em verdade busca-se a felicidade.
Um frevo para ferver: 'Duas épocas'.


Câncer
Dançou, brincou, bebeu, o pau comeu.
No Rio de janeiro, fevereiro e março é que a porca torce o rabo.
No carnaval, o Diabo é o melhor amigo do homem e da mulher.
Uma marchinha para saracotear: 'Pirata da perna-de-pau'.


Leão
Amar um, amar dois, amar três: tudo é carnaval.
Quem com trio elétrico fere, com trio elétrico será ferido.
Não se esqueça: foba de bebum não tem dono.
Um frevo para escandalizar: 'Gostosão'.


Virgem
Virgem que é virgem, geme mais do que a bixiga lixa.
Ver, ouvir e sambar: não é preciso calar.
Carnaval, sexo, camisinha e anarquia: tudo é alegria.
Uma marchinha para apimentar: 'Chiquita Bacana'.


Libra
Entre Recife e Caicó, prefira o carnaval das duas.
A água corre para o mar, a gala para o amor.
A alegria vem das tripas e do carnaval de Olinda.
Um frevo para arrebentar: 'Evocação n.° 1'


Escorpião
Quem com bundaxé fere, com bundaxé será ferido.
Faça seu sermão com batida de limão.
Champrar sem pensar é chumbregar sem gozar.
Uma marchinha para o que der e vier: 'Linda morena'.


Sagitário
No carnaval ou não, o ser amado sempre será amado.
Nada como um carnaval depois de outro.
Nos pequenos gestos estão as grandes virtudes.
Um frevo para se emocionar: 'De chapéu-de-sol aberto'.


Capricórnio
Quem semeia sambas, colhe sambistas.
Por um dia de prazer, um carnaval para viver.
No mundo voga quem bebe, trepa e joga.
Uma marchinha para arrasar: 'Touradas em Madri'.


Aquário
Língua comprida, mão boba, o que cai na rede é peixe.
No carnaval até Deus é capaz de pecar.
A bom entendedor, qualquer cantada basta.
Um frevo para enlouquecer: 'Frevo rasgado'.


Peixes
De carnaval em carnaval busca-se o deus da alegria.
Contou vantagem, adeus viagem.
O carnaval é que faz a ocasião.
Uma marchinha para sonhar: 'A jardineira'.


Serpente
Macaxeira mocotó, vamos embora pra Caicó.
Cachaça não é água não, viu bixim, viu bixinha.
Não há beijo sem cheiro, não há cheiro sem beijo.
Frevos e marchinhas até o mundo se acabar.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 44 / 50 )

Panorama da música popular brasileira
(Ary Vasconcelos, 1964)
História social da música popular brasileira
(José Ramos Tinhorão, 1998)
Romancero gitano (Lorca, 1924-27)
La raison baroque (Buci-Glucksman, 1984)
A angústia da influência (Bloom, 1973)
Paideia (Jaeger, ed. bras. 1986)
Abstracionismo ... (F. Cocchiarale & A. B. Geiger, 1987)
Teoria da cultura de massa (Luiz Costa Lima, org., 1969)
Lênin e a filosofia (Althusser, 1969)
Los congresos obreros internacionales en el siglo XIX
(Rosal, 1975)


CLASSIFICADO AMOROSO
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 328, em 31/10/1991 ]

Troca-se um crepúsculo azul, devaneio caicoense dos anos 50, por um sonho barroco, ligeiramente escandaloso, de qualquer época, de qualquer lugar, de qualquer tudo. Tratar com Moacy Cirne, poeta e cangaceiro da anticultura, no Balaio Incomun, em São Saruê dos Delírios Nordestinos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Clique na imagem
para verouvir o trêiler de
My darling Clementine / Paixão dos fortes
(John Ford, 1946)
Mais do que um faroeste inesquecível, mais do que um dos grandes filmes dos anos 40, My darling Clementine, magistralmente fotografado por Joseph MacDonald, é puro John Ford, cristalino e vibrante, épico e envolvente, ou seja, é Cinema em toda a sua plenitude estética e alumbratória. Uma obra-prima, simplesmente.
Das mais preciosas.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2925
Rio, 7 de janeiro de 2010

Ford estabelece todo o filme segundo o ritmo determinado de [Henry] Fonda. Paixão dos fortes é um western dos westerns - lacônico. simples, brioso e eternamente moderno no seu ambiente calmo e contemplativo e tendência sombria. ... Desde os céus de El Greco da cena inicial (...) Ford centra-se nas pessoas.
(S. EYMAN & P. DUNCAN. John Ford, aquele que procura, 2005)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 43 / 50 )

John Ford, aquele que pocura (Eyman & Duncan, 2005)
A significação do cinema (Metz, 1968)
O teatro e seu duplo (Artaud, 1964)
Diário póstumo (Montale, ed. bras. 2000)
Pão e fonema (Corsino Fortes, 1974)
Os últimos dias de Paupéria (Torquato Neto, 1973)
A memória, a história, o esquecimento (Ricoeur, 2000)
História da linguagem (Kristeva, 1969)
Complô contra a América (Roth, 2004)
Digo e não peço segredo (Patativa do Assaré, 2001)


FORDIANA
Moacy Cirne
[ in Cinema Pax, 1983 ]

banguebanguelafumenglória
de mocinhos e bandidos
no sertão marciano

longelonge do meu seridó


FILMES FUNDAMENTAIS
dos anos 40
Moacy Cirne

[ 1 ]

1. Cidadão Kane (Welles, 1941)
2.
Dia de ira (Dreyer, 1943)
3.
My Darling Clementine (Ford, 1946)
4. O boulevard do crime (Carné, 1945)
5. Brief encounter / Desencanto (Lean, 1945)
6.
O tesouro de Sierra Madre (Huston, 1948)
7.
O terceiro homem (Reed, 1949)
8.
The magnificent Ambersons / Soberba (Welles, 1942)
9.
Rio Vermelho (Hawks, 1948)
10.
A terra treme (Visconti, 1948)
11.
Alemanha, ano zero (Rossellini, 1947)
12.
Roma, cidade aberta (Rossellini, 1945)

[ 2 ]


As vinhas da ira (Ford, 1940)

O grande ditador (Chaplin, 1940)

Núpcias de escândalo (Cukor, 1940)

Ser ou não Ser (Lubitsch, 1942)

Laura (Preminger, 1944)
Double indemnity / Pacto de sangue (Wilder, 1945)

The big sleep / À beira do abismo (Hawks, 1946)

Le diable au corps / Adúltera (C.-Jaque, 1947)

Motion painting n. 1 (Fischinger, 1947), curta/abstração
Carta de uma desconhecida (Ophuls, 1948)

Fort Apache / Sangue de herói (Ford, 1948)

Key Largo / Paixões em fúria (Huston, 1948)

Pai e filha (Ozu, 1949)

Legião invencível (Ford, 1949)
As oito vítimas (Hamer, 1949)

A costela de Adão (Cukor, 1949)


[ 3 ]

O turbulento (Fields/Cline, 1940)
Dois palermas em Oxford (Goulding, 1940)

High Sierra / O último refúgio (Walsh, 1941)

The Maltese Falcon / Relíquia macabra (Huston, 1941)

Como era verde o meu vale (Ford, 1941)
Consciências mortas (Wellman, 1942)

Contrastes humanos (Sturges, 1942)

Obsessão (Visconti, 1942)

Tudo é verdade (Welles, 1942-)

Os visitantes da noite (Carné, 1942)

Casablanca (Curtiz, 1942)

Ter ou não ter (Lubitsch, 1942)

Mrs. Minniver / Rosa de esperança (Wyler, 1942)

Sangue de pantera (Tourneur, 1942)

O diabo disse não (Lubitsch, 1943)

O tempo é uma ilusão (Clair, 1943)

Meshes of the afternonn (Daren, 1943), curta

Gente del Pò (Antonioni, 1943-47), curta

Ivan, o terrível – 1 (Eisenstein, 1944)

Maria Candelária (Fernández, 1944)

Este mundo é um hospício (Capra, 1944)

Gaslight / À meia-luz (Cukor, 1944)

Ivan, o terrível – 2 (Eisenstein, 1946)

A felicidade não se compra (Capra, 1946)

Gilda (Vidor, 1946)

Os melhores anos de nossas vidas (Wyler, 1946)

A mulher desejada (Renoir, 1946)

A dama de Shangai (Welles, 1947)

Brutalidade (Dassin, 1947)
Jour de fête / Carrossel da esperança (Ta
ti, 1947-49)
Fireworks (Anger, 1947), curta

Macbeth (Welles, 1948)

O sangue das bestas (Franju, 1948), curta

Begone dull care (McLaren, 1948), curta/animação

Cidade nua (Dassin, 1948)

Louisiana story (Flaherty, 1948)

Ladrões de bicicletas (De Sica, 1948)

Hamlet (Olivier, 1948)
The set-up / Punhos de campeão (Wise, 1949)

Pacific 231 (Mitry, 1949), curta

[ No primeiro domingo depois do carnaval: Os filmes dos anos 50 ]

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Clique na imagem
para verouvir o trêiler de
Ano passado em Marienbad
(Alain Resnais, 1961)
Um filme hipnótico, para ser visto, sentido e contemplado como se fora uma escultura cinética, através das imagens sensíveis (de Sacha Vierny) e de um texto intrigante (de Robbe-Grillet), que, indiretamente, nos remete a uma das obras-primas da literatura fantástica do século passado: A invenção de Morel (Casares, 1940). Não há resposta possível para a questão que percorre o "tecido conteudístico" da obra, entre a sedução e a persuação, com sua estranheza narrativa: afinal os dois (supostos futuros amantes) encontraram-se ou não em Marienbad há um ano atrás? A questão assim colocada implica uma nova pergunta: ela, a mulher, partirá ou não com o suposto novo amante, deixando para trás, naquele luxuoso hotel de matriz barroca, o primeiro amante? Para Robbe-Grillet, o autor do argumento, posssivelmente sim; para Alain Resnais, o diretor, possivelmente não. A rigor, a questão é secundária: o que interessa, em primeira instância, é a fascinante experiência físico-emocional proporcionada pelo filme.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2924
Rio, 6 de janeiro de 2010

Na história do cinema, a bem da "verdade", são poucos os filmes que podem ser considerados estruturalmente "inaugurais". Citemos alguns deles, sem qualquer pretensão crítica (não se trata, evidente, de um "problema" a ser pensado de forma absoluta e/ou irretocável): Intolerância (Griffith, 1916), Nosferatu, o vampiro (Murnau, 1922), Sherlock Jr. (Keaton, 1924), Greed (Stroheim, 1924), Aurora (Murnau, 1927), A paixão de Joana d'Arc (Dreyer, 1928), Um cão andaluz (Buñuel, 1928), O homem da câmera (Vertov, 1929), M, o vampiro de Dusseldorf (Lang, 1931), Um dia no campo (Renoir, 1936), No tempo das diligências (Ford, 1939), Cidadão Kane (Welles, 1941), Laura (Preminger, 1944), Roma, cidade aberta (Rossellini, 1945), La terra trema (Visconti, 1948), Cantando na chuva (Kelly & Donen, 1952), Hiroshima meu amor (Resnais, 1959), Acossado (Godard, 1959), A aventura (Antonioni, 1960), Sombras (Cassavetes, 1960), Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961), Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964), Pierrot le fou (Godard, 1965), Andrei Rublev (Tarkóvski, 1966), Crônica de Anna Madalena Bach (Straub & Huillet, 1967), Era uma vez no Oeste (Leone, 1968), 2001: uma odisseia no espaço (Kubrick, 1968). Não são necessariamente os melhores, mas seguramente são alguns dos mais importantes e/ou dos mais emblemáticos.
(Moacy Cirne, 2010)



PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 42 / 43 )
.
Coronelismo, enxada e voto (Vitor Nunes Leal, 1949)
A revolução burguesa no Brasil (Florestan Fernandes, 1974)
Capítulos de história colonial (J. Capistrano de Abreu, 1907)
O abolicionismo (Joaquim Nabuco, 1883)
Sobrados e mucambos (Gilberto Freyre, 1936)
A formação das almas (José Murilo de Carvalho, 1990)
O negro no futebol brasileiro (Mário Filho, 1947)
O escravismo colonial (Jacob Gorender, 1977)
Estética e política (Oswald de Andrade, ed. 1991)
Matéria bruta (Romério Rômulo, 2006)


/ POEMA \
Romério Rômulo
[ in Matéria bruta, 2006 ]

a poesia em seu instante de pedra.
barracos desmontam uma memória do ferro.

quando, amplamente, falamos da vida
murmúrios regaçam nossas almas malditas.

somos a face de querer ser noite.


SALMO
Bosco Sobreira
[ in A pedra e a fala ]

Sonhar auroras e debulhar serenos
em cada viga desse deserto de concreto
que me espia
atônito
é minha fortaleza
meu refúgio
minha sina

Madrugo pelos dias
como uma ave sem pena
como uma pena sem dor

(Doer é para os que sabem de verbos)


Blogues do Além
BLOG DO CONFÚCIO
[ in CartaCapital, 21 janeiro 2009 ]

Frases feitas refeitas

Em época de crise, o consumo em geral cai, mas para as minhas frases é época de prosperidade. Sou o mais citado em palestras, em treinamentos motivacionais, em apresentações em PowerPoint de encorajamento.

Confesso que sinto certo orgulho de ver meus pensamentos divulgados em tão diferentes suportes. Eu mesmo sustentei que a sabedoria não tem lugar definido para ser encontrada. Mas vejo que já é hora de atualizar alguns provérbios que cunhei. Nem todos os meus ensinamentos resistiram bem ao tempo. Nem toda frase nasceu para Vera Fischer (essa é nova, pode anotar). O problema não é só meu. Nada resiste por muito tempo: dieta, tratamento de doenças, sistema solar, jogador bom em time brasileiro, blue chip. A lista é grande. Por isso, pare de ficar confúcio (esse trocadilho continua muito bom). O seu velho e bom guia espiritual, seu menu de frases feitas para todas as ocasiões, ganhou mais mil anos de sobrevida.

A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros. Ajuda muito se a felicidade dos outros puder ser cobrada. Mesmo que os outros nem estejam tão felizes assim como você prometeu. A indústria do entretenimento é basicamente isso.

Ouvir ou ler sem refletir é uma ocupação inútil. Salvo se você for crítico de caderno de cultura de um grande jornal.

Onde quer que você vá, vá com todo o coração. Agora, se você tem pressão alta, não leve tão a sério essas frases de efeito.

A natureza humana é boa, e a maldade é essencialmente antinatural. Mas atente-se para o fato de que a corrupção é antinatural, mas orgânica.

Um homem sem virtude não pode morar muito tempo na adversidade, nem também na felicidade; mas o homem virtuoso descansa na virtude, e o homem sábio a ambiciona. Porém, se o homem sem virtude for muito poderoso ou rico (ou os dois), poderá mudar os conceitos do que é ser virtuoso de tal maneira que ele próprio vire o modelo de retidão.

A arte de liderar: seguir à frente da multidão e ensiná-la a trabalhar. Pagando um salário abaixo do valor de mercado e chamando isso, polidamente, de programa de trainee.

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha. Mas se você quiser fazer uma cordilheira, é só constituir uma mineradora, abrir o capital e pegar um punhado de cada um de uma montanha de gente.

Algum dinheiro evita preocupações; muito, as atrai. Atenção: o muito é muito mesmo. Não vá ficar contente com a merreca que você tem no banco.

O sábio sabe que ignora. Isso não vale para o caso de você saber que sua mulher anda aprontando e fazer olho branco. Aí é burrice mesmo.

Pergunta-me por que compro arroz e flores? Compro arroz para viver e flores para ter algo pelo que viver. Já o Lula diria: “Não pergunte nada. Compre arroz, flores, carros. Isso é bom para a economia”.

Escolha um trabalho que você ame e não terás de trabalhar um único dia em sua vida. Mas verifique se você tem o biótipo adequado para ser ator de filme pornô.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

UMA EDIÇÃO EM HOMENAGEM AO
BAR DE FERREIRINHA
Foto dos anos 30
de autoria desconhecida


BALAIO PORRETA 1986
n° 2923
Rio, 5 de fevereiro de 2010

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
(Carlos Drummond de ANDRADE, in A bunda,
cf. O amor natural, 1992)


INFORMAÇÕES ÚTEIS
SOBRE O CHOPE
[ in Vip, SP, dezembro de 2007 ]

O chope foi criado na Mesopotâmia (região do Iraque, hoje) há 6 mil anos. A cerveja precisou esperar até a pasteurização, em 1876.

Um barril fechado de chope dura dez dias. Depois de aberto, é melhor beber em 24 horas. Atenção: o chope não é mais leve que a cerveja. Como é mais fresco e tem menos gás, dá essa impressão. Mas o porre é o mesmo.

O chope tomado no Brasil teve origem na cidade de Pilsen, atual República Tcheca, em 1842. Tem teor alcoólico de 5% e é feito com lúpulo amargo, o que causa sensação de boca seca - e aí você toma mais, toma mais, toma mais. E mais.


NÃO ERA DOIDO
Barão de Itararé
[ in Almanhaque para 1949 ]

No consultório de um psiquiatra houve o seguinte diálogo entre o médico e um novo cliente:

- O que faz o senhor, com respeito a sua vida social?

- Quase nada...

- Não costuma passear acompanhado de uma ou outra garota?

- Nunca.

- Não sente ao menos um desejo de passear com garotas?

- Bem... às vezes...

- E por que não o faz?

- Porque minha mulher não deixa!


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 41 / 43 )

Poesia erótica e satírica (Bernardo Guimarães, ed. 1992)
Miradouro e outros poemas (Henriqueta Lisboa, 1976)
As alegres comadres de Windsor (Shakespeare, 1602)
A megera domada (Shakespeare & outros, 1596-97)
Desbragada (Edgard Braga, 1984)
50 poemas escolhidos pelo autor (Emílio Moura, 1961)
Expresso na noite (Mauro Gama, 1982)
ABC da literatura (Pound, 1934)
Violeiros do Norte (Leonardo Mota, 1925)
No tempo de Lampião (Leonardo Mota, 1930)


APELIDOS SERTANEJOS
[ in No tempo de Lampião, 1930 ]

Barata descacada : Menino muito alvo
Boca de biquara : Mulher de lábios muito pintados
Caga-raiva : Caba irascível
Cambito de sabiá : Caba de pernas finas
Cara de milagre : Caba muito feio
Come-longe : Caba anêmico
Papangu de quaresma : Caba abestado metido a espirituoso
Prego dourado : Menino louro


PORRE
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

tropeçou na vida cedo
entornou a sua taça
então bebeu no gargalo
a cachaça de primeira
de segunda de terceira
sorveu álcool gasolina
bagaceira calibrina
e por um triz não tomava
a dose de estricnina


POEMA VERMELHO PRA SER LIDO
EM VERDE QUE TE QUERO VER-TE
Nina Rizzi
[ in Ellenismos ]

no dia de hoje, um dia como todos os outros,
não desejo um poema melancólico como eu, limpa.

quero que meu poema viciado
traga aquele sujo pra mim.


Diretamente do Bar de Ferreirinha, em Caicó
CONCORRÊNCIA PÚBLICA INTERNACIONAL

Um prefeito queria construir uma ponte e chamou três empreiteiros: um japonês, um americano e um brasileiro.

- Faço por US$ 3 milhões - disse o japonês, acrescentando: - Um pela mão-de-obra, um pelo material e um para o meu lucro.

O americano propôs: - Faço por US$ 6 milhões: dois pela mão-de-obra, dois pelo material e dois para o meu lucro... mas o serviço é de primeira!

Já o brasileiro botou pra ver as bandas: - Faço por US$ 9 milhões.

O prefeito ficou espantado: - Nove paus? É demais! Por quê?

- Três para mim, três para você e três para o japonês fazer a obra.

E ganhou a concorrência.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Yellow
Foto:
Andriete Le Secq
(São Paulo)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2922
Rio, 4 de fevereiro de 2010

Não me pergunte por que escrevo.
Escrevo para acalmar as horas,
Para aplacar as distâncias,
Para inundar a agonia da ausência.
Escrevo por um reles desconforto:
A minha alma quer fugir.


POEMA CONCRETO
José Lino Grunewald
1957
Versão balaiográfica

1
2 2
3 3 3
4 4 4 4
c i n c o

Metatradução:
Moacy Cirne

1
2 2
3 3 3
f o u r

55 5 55


TRADUÇÃO, TRADUTOR, TRADUZIDO
Marcos Silva
[ in Bar Papo Furado ]

Jairo [Lima]:

O tem que vc sugere para nosso diálogo é excelente: o que se lê numa tradução (o tradutor ou o traduzido)?

Minha primeira resposta é: lemos, antes de mais nada, o traduzido; mas essa leitura é feita através do tradutor; nesse sentido, lemos sempre os dois.

Tendo a pensar que quem traduz declara amor pelo original e apresenta aos outros seu entendimento daquele original. Nenhuma tradução abolirá o original - no caso de um grande escritor como Baudelaire, que traduziu outro grande escritor como Allan Poe, o resultado final deu lugar a um novo belo texto em francês, mas ninguém deixará de poder ler a primeira versão em inglês.

Traduzir poemas é dar conta de vocabulário, ritmos, rimas (quando existem), figuras de linguagem...

Costumo fazer um paralelo entre uma tradução e as versões no poema/processo: nunca chegaremos à tradução definitiva, cada uma é uma aproximação marcada pelo presente do tradutor.

Traduzo poemas que eu amo, sempre de forma humilde e convidando o leitor a ler o original, inclusive a fazer sua tradução pessoal - que findamos fazendo mentalmente quando lemos noutra língua.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 40 / 43 )

Antologia da nova poesia americana
(Jorge Wanderley, org. & trad., 1992)
Poetas norte-americanos
(Paulo Vizioli, org. & trad., 1976)
Poetas franceses do século XIX
(José Lino Grunewald, 1991)
Gaveta de tradutor
(José Paulo Paes, org. & trad., 1996)
Panaroma do Finnegans Wake
(Augusto & Haroldo de Campos, 1962)
Transblanco
(Octavio Paz / Haroldo de Campos, 1986)
Poemas
(Maiakóvski, trad. H. Campos & outros, 1982)
Antologia do conto húngaro
(Paulo Rónai, trad. & org., 1957)
Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses
(Nelson Patriota, org., 2008)
Tradução intersemiótica
(Plaza, 1987)


THE SOUL SELECTS HER OWN SOCIETY
Emily Dickinson

The soul selects her own society
Then shuts the door;
On her divine majority
Obtrude no more.

Unmoved, she notes the chariot's pausing
At her low gate;
Unmoved, an emperor is kneeling
Upon her mat.

I've known her from an ample nation
Choose one;
The close the valves of her attention
Like stone.

A ALMA ESCOLHE
Tradução:
Jorge Wanderley
(1992)

A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.

Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.

Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.

A ALMA ESCOLHE SUA PRÓPRIA SOCIEDADE
Tradução:
Paulo Vizioli
(1976)

A alma escolhe sua própria sociedade,
E fecha a porta;
Depois, com a divina maioria
Não mais se importa.

Imóvel, nota as bigas se detendo
Ao portão baixo;
Imóvel, vê um monarca de joelhos
Em seu capacho.

Elege apenas um de ampla nação:
Aquele medra;
E fecha as válvulas de sua atenção
Igual a pedra.

/ Sem título /
Tradução:
Aíla de Oliveira Gomes
(1985)

A alma escolha a sua Sociedade
E fecha a porta.
A sua sacrossanta Maioria
Nem um mais comporta.

Indiferente, vê carros parando
No seu portão;
Indiferente, se um rei se ajoelha
ali no chão.

Sabe-se que ela, de uma ampla nação
Escolheu Um -
Depois - como pedra - fechou as valvas
de Sua atenção.

Nota do Balaio:
No original inglês reproduzido entre nós,
há diferença no 4º verso
das edições organizadas por
Vizioli e Oliveira Gomes
("Present no more" no lugar de "Obtrude no more");
os travessões usados por Oliveira Gomes
constam do original por ela apresentada,
além de outros.


UM POEMA, O ORIGINAL E UMA TRADUÇÃO

ÉPIGRAMME
La Fontaine

Aimons, foutons, ce sont plaisirs
Qu'il ne faut pas que l'on sépare;
La jouissance et les désirs
Sont ce que l'âme a de plus rare.
D'un vit, d'un con, et de deux coeurs,
Naît un accord plein de douceurs,
Que les dévots blâment sans cause.
Amarillis, pensez-y bien:
Aimer sas foutre est peu de chose
Foutre sans aimer ce n'est rien.

EPIGRAMA
Trad.
José Paulo Paes

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada.
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

[ in Poesia erótica em tradução.
São Paulo : Companhia das Letras, 1990, p. 98-99 ]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A arte de
Arlete Marques
Angola
[ in Ondjira Sul ]



BALAIO PORRETA 1986
n° 2921
Rio, 3 de fevereiro de 2010

Vestias diante do espelho
o vestido de viagem,
e o espelho partiu-se ao meio
querendo prender-te a imagem.
(Mauro MOTA. Canto ao meio, 1964)


MAR-AHU
Max Martins
[ in Caminho de Marahu. Belém, 1983 ]

Não
é a ilha

Não
é a praia

E o mar
(de nos fazermos ao)
é só um nome
sem

a outra margem


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 39 / 43 )

Teoria da história do Brasil (José Honório Rodrigues, 1949)
Cangaceiros e fanáticos (Rui Facó, 1963)
A cidade na história (Mumford, 1961)
Obra aberta (Eco, 1962)
Luuanda (Luandino Vieira, 1963)
Grandes esperanças (Dickens, 1860-61)
Moll Flanders (Defoe, 1722)
Germinal (Zola, 1885)
Canto ao meio (Mauro Mota, 1964)
Caminho de Marahu (Max Martins, 1983)


Fragmento inicial
DEFENESTRAÇÃO
Luís Fernando Veríssimo
[ in O analista de Bagé, 1981 ]

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.

Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.

- Os hermeneutas estão chegando!

- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo parecia ter um sentido oculto.

- Alo...

- O que é que você quer dizer com isso?

Traquinagem devia ser uma peça mecânica.

- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.

Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.


A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurar no ouvido das mulheres:

- Defenestras?

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.

(...)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010


Rio que te quero Rio:
eis o meu mundo carioca,
em Laranjeiras
(Gen. Glicério/Gen. Cristóvão Barcelos;
aqui tem de tudo, até orelhões.
)
Fotos:
Osmar Carioca


BALAIO PORRETA 1986
n° 2920
Rio, 2 de fevereiro de 2010

não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho
(Matsuo BASHÔ, cf. Suave Coisa)


RESTOS
Ildásio Tavares
[ cf. Leitora crítica ]

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.

Há um resto de mim em toda parte
Que nunca pude ser inteiramente.

PQNA PLÊIADE
Pedro Ramúcio


Com a palavra, Guimarães Rosa.
Com a ideia, Nelson Rodrigues.

Com o sentimento, Drummond.

Com a ficção, Fernando Pessoa.


Comigo a poesia ficou rouca...


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 37 / 43 )

Hoje sou um; e amanhã outro (Qorpo Santo, séc. XIX)
Eles não usam black-tie (Gianfrancesco Guarnieri, 1958)
A visita da velha senhora (Dürrenmatt, 1955)
Bodas de sangue (Lorca, 1933)
Um bonde chamado desejo (Williams, 1947)
A morte do caixeiro-viajante (Miller, 1949)
Mãe coragem e seus filhos (Brecht, 1939/1941)
Galileo Galilei (Brecht, 1939/1943)
Romeu e Julieta (Shakespeare, 1597)
Ricardo III (Shakespeare, 1602)


ESTÁTUAS
Suzana Vargas
[ in Germina Literatura ]

Teses de estética e
vestidos justos na noite calígola.

A América em minissaias
mais revela que esconde suas

colunas romanas. Existe um mapa:
é preciso ser paciente até

que algum desavisado
nos descubra

ALÉM das coxas.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 38 / 43 )

O Capital, 1 (Marx, 1867)
O anti-Dühring (Engels, 1878)
Matéria e memória (Bergson, 1896)
O declínio do Ocidente (Spengler, 1922)
O nascimento da tragédia (Nietzsche, 1872)
Psicopatologia da vida cotidiana (Freud, 1904)
Ensaio sobre o entendimento humano (Locke, 1690)
Dicionário filosófico (Voltaire, 1764)
A capacidade política das classes operárias (Proudhon, 1865)
A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (Engels, 1845)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Zodíaco
(1896)
Alphonse Mucha


BALAIO PORRETA 1986
n° 2919
Rio, 1 de fevereiro de 2010


O olhar do poeta é vastíssimo: só ele percebe
os inumeráveis crimes contra a Poesia.
(Murilo MENDES. O discípulo de Emaús, 1945)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 36 / 43 )

José e seus irmãos (Mann, 1933-43)
Doutor Fausto (Mann, 1947)
A morte de Virgílio (Broch, 1945)
Um longo adeus (Chandler, 1953)
O Senhor das Moscas (Golding, 1954)
Almoço nu (Burroughs, 1959)
Solaris (Lem, 1961)
Um estranho numa terra estranha (Heinlein, 1961)
Convergência (Murilo Mendes, 1966)
O discípulo de Emaús (Murilo Mendes, 1945)


HORÓSCOPO DA SEMANA


Áries
Plante sete árvores, uma para cada dia da semana.
Plante uma semente na mulher amada.
Radicalize: torne-se vegetariano e ambientalista.
Murilo Mendes: "Só não existe o que não pode ser imaginado".


Touro
Aprenda a gostar de música renascentista.
Aprenda a admirar os quadrinhos de Hugo Pratt.
Acredite nos deuses: Bach, Monteverdi, Shakespeare.
Releia Murilo Mendes: "Prefiro a nuvem ao ônibus".


Gêmeos
Sonhe com o ser amado numa praia deserta.
Colecione desejos azuis e tempestades bêbadas.
Se mulher, continue atrevida: faça arte com vida.
Mergulhe em Murilo Mendes: "O amor recolhe tudo".


Câncer
Vá ao trabalho de bicicleta. Ou na primeira nuvem do dia.
Visite Recife, para um papo sobre ópera com Jairo Lima.
Lute pra valer contra qualquer tipo de preconceito.
Reflita com Murilo Mendes: "Somos indignos do mistério".


Leão
É preciso sonhar. Como em Lênin e outros revolucionários.
Conheça o Poço da Bonita, em São José do Seridó.
Tome um porre no Bar de Ferreirinha, em Caicó.
Seja Murilo Mendes: "Tocar é conhecer".


Virgem
Leia a poesia erótica de Aretino. E a de Moysés Sesyom.
Confesse: gostaria de ser um(a) grande devasso(a).
Prepare-se para um carnaval sob as bênçãos da Anarquia.
Repense MM: "Só se aprende o que se pecisa saber".


Libra
Que tal sonhar com o carnaval de Olinda? Ou o de Búzios?
Que tal uma viagem para Londres? Ou para Caicó?
Que tal uma cachaça mineira? Ou um vinho francês?
Releia MM: "O conhecimento é um instrumental da vida".


Escorpião
Trabalhe a favor do social; não seja individualista.
Ouça Jackson do Pandeiro. E as sinfonias de Beethoven.
Reveja Rohmer. Reveja Resnais. Reveja Renoir.
Reflita com MM: "O nazismo é a crueldade organizada".


Sagitário
Viva uma noite de amor ao som de John Coltrane.
Conheça Teresina. Experimente cajuína.
No Rio, refresque-se nas cachoeiras de Mauá.
Releia Murilo: "A erudição é a capitalização do supérfluo".


Capricórnio
Deixe a tristeza de lado; leia Stanislaw Ponte Preta.
Cumprimente os seus vizinhos. Sonhe com Pasárgada.
Evite o forró reeira e os trios elétricos da Bahia.
Que tal Murilo Mendes?: "O lobo é também oprimido".


Aquário
O carnaval se aproxima: ouça frevos e marchinhas.
Mergulhe nos sonhos dourados da pessoa amada.
Seja bem informado(a): não leia a Veja, nem a Folha.
MM: "A poesia é a realidade; a imaginação, seu vestíbulo".


Peixes
Embriague-se loucamente com o perfume do ser amado.
Vá ao cinema. Vá ao circo. Vá ao teatro. Vá aos bares.
Seja radical - seja um leitor de Franz Kafka. E de Borges.
Sim, Murilo: "É muito difícil saber pecar com profundidade"


Serpente
Enlouqueça em Barcelona. Ou em Jardim do Seridó.
Respeite todas as religiões, todos os deuses.
Seja homem, seja mulher, seja o carnaval de Olinda.
Murilo Mendes: "Uma coisa é ter visões, outra coisa é ver".

Nota:
Todas as citações do poeta mineiro
são do livro O discípulo de Emaús.



Mais Murilo Mendes
Fragmentos de
CONVERSA PORTÁTIL
1931-1974

"O estrume sonha que é perfume."
"Deus nunca lê teologia."
"O vento liberta-se ventando."
"Os deuses cheiram a diabos."
"Quantas palavras nos ignoram."
"Lenine escreveu: 'Iremos aos astros'."
"O fascismo se nutre do excremento dos deuses".
"Se Deus fosse à escola aprenderia somente matemática."
"A mulher foi criada quando o homem dormia. Deus é surrealista."

domingo, 31 de janeiro de 2010

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
Clique na imagem
para verouvir os dez minutos iniciais
do filme alemão
M, o vampiro de Dusseldorf
(Fritz Lang, 1931)
"Embora tenha feito filmes importantes, inclusive em Hollywood, não resta dúvidas que M... é o maior de todos. E dos maiores do cinema. Na enquete que Moacy Cirne promoveu recentemente no seu Balaio Vermelho, consultando mais de 60 cinéfilos sobre os 20 maiores filmes de todos os tempos, o de Lang figurou entre eles, recebendo, inclusive, o voto do cineasta Luiz Rosemberg Filho (Assuntina das América). É o seu primeiro filme falado. Ele levou quatro anos para aderir ao som, e, nesse período, realizou dois filmes mudos. Esse fato, contudo, não indica uma atitude misoneísta de Lang em relação à inovação técnica; inclusive, não se sabe de nenhuma opinião dele desfavorável ao emprego do som. Ao contrário de René Clair e, principalmente, de Chaplin, Lang viu certamente no som mais um recurso à disposição para os fins pretendidos; e se não o experimentou na primeira hora é porque, talvez, tivesse preferido antes avaliar as suas potencialidades para, então, usá-lo como um elemento que servisse à linguagem. E de fato em M... o som foi utilizado de uma forma não apenas criativa, mas, para a época, revolucionária."
(Francisco SOBREIRA, in Luzes da Cidade)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2918
Rio, 31 de janeiro de 2010

Penso que quando se tem uma teoria sobre qualquer coisa já se está morto. Não tenho tempo para pensar em teorias. Devem-se criar emoções, não criar a partir de regras.
(Fritz LANG, in Entrevista para o Cahiers, setembro 1959,
cf. A política dos autores, ed. port. 1976)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 35 / 43 )

A política dos autores (Entrevistas com cineastas, ed. port. 1976)
Enquanto agonizo (Faulkner, 1930)
Uma centena de poemas (Dickinson, ed. bras. 1985)
Poema sujo (Ferreira Gullar, 1975)
Cândido ou O otimismo (Voltaire, 1759)
A vida e as opiniões de Tristram Shandy (Sterne, 1759-67)
Os frutos da terra (Gide, 1947)
Sidarta (Hesse, 1922)
O homem sem qualidades (Musil, 1933)
Desonra (Coetzee, 1999)


NINFOMANÍACA
Sandra Terra
[ in Antolorgia, 1984 ]

trepo com tudo
e com todos
tarada por opção
gozo gozo gozo
e nunca perco o tesão


FILMES FUNDAMENTAIS
dos anos 30
segundo a leitura crítico-afetivo-libertinária de
Moacy Cirne

[ 1 ]

1. Um dia no campo (Renoir, 1936)
2. A regra do jogo (Renoir, 1939)
3. Entusiasmo (Vertov, 1930)
4. A grande ilusão (Renoir, 1937)
5. M, o vampiro de Dusseldorf (Lang, 1931)
6. No tempo das diligências (Ford, 1939)
7. A mocidade de Lincoln (Ford, 1939)
8. Luzes da cidade (Chaplin, 1931)
9. A terra (Dovjenko, 1930)
10. Levada da breca (Hawks, 1938)
11. O homem de Aran (Flaherty, 1934)
12. Atalante (Vigo, 1934)

[ 2 ]

O Anjo Azul (Sternberg, 1930)
Sangue de um poeta (Cocteau, 1930)
Tabu (Murnau, 1931)
A cadela (Renoir, 1931)
Limite (Mário Peixoto, 1931)
Que viva México! (Eisenstein, 1932)
Boudou salvo das águas (Renoir, 1932)
Toni (Renoir, 1934)
Quermesse heróica (Feyder, 1935)
Tempos modernos (Chaplin, 1936)
Pépé, le Moko / O demônio da Argélia (Duvivier, 1937)
Do mundo nada se leva (Capra, 1938)
An optical poem (Fischenger, 1938), curta/abstração
O mágico de Oz (Fleming, 1939)

[ 3 ]

A idade de ouro (Buñuel, 1930)
Sem novidades no front (Milestone, 1930)
Viva a liberdade (Clair, 1931)
Frankenstein (Whale, 1931)
Drácula (Browning, 1931)
Scarface, a vergonha de uma nação (Hawks, 1932)
O fugitivo (LeRoy, 1932)
Vampiro (Dreyer, 1932)
Ganga bruta (Humberto Mauro, 1932)
Monstros (Browning, 1932)
Terra sem pão (Buñuel, 1932), curta
Zero em comportamento (Vigo, 1932), curta
Duck soup / O diabo a quatro (McCarey, 1933)
Êxtase (Machaty, 1933)
Três cantos sobre Lênin (Vertov, 1934)
O delator (Ford, 1935)
Fúria (Lang, 1936)
Alexander Nevsky (Eisenstein, 1937)
As aventuras de Robin Hood (Curtiz & Keighley, 1938)
Anjos de cara suja (Curtiz, 1938)
A besta humana (Renoir, 1938)
Paraíso infernal (Hawks, 1939)
O morro dos ventos uivantes (Wyler, 1939)
Trágico amanhecer (Carné, 1939)
Ninotchka (Lubitsch, 1939)
Filhos do deserto (Seiter, 1939)


[ No próximo domingo: Os filmes fundamentais dos anos 40 ]

sábado, 30 de janeiro de 2010

Clique na imagem
para verouvir o trêiler de
A costela de Adão

(George Cukor, 1949)
Spencer Tracy e Katharine Hepburn estão ótimos nesta deliciosa comédia romântica dos anos 40: um casal de advogados (ela, defendendo uma esposa traída que tentara matar o marido [Judy Holliday, na foto acima]; ele, atacando-a no processo jurídico estabelecido por lei) em atrito permanente, ou quase. A canção 'Farewell, Amanda', que fez bastante sucesso na época, foi escrita pelo famoso Cole Porter especialmente para o filme.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2917
Rio, 30 de janeiro de 2010

... no tempo do cinema mudo, a montagem evocava o que o realizador queria dizer; em 1938, a decupagem descrevia; hoje [1950], enfim, podemos dizer que o diretor escreve diretamente em cinema. A imagem - sua estrutura plástica, sua organização no tempo -, apoiando-se num maior realismo, dispõe assim de muito mais meios para infletir, modificar de dentro a realidade. O cineasta não é somente o concorrente do pintor e do dramaturgo, mas se iguala enfim ao romancista.
(André BAZIN. O cinema, ed. bras. 1991)


OS MELHORES FILMES VISTOS EM JANEIRO
( Cotações: de * [Bom] a *** [Excelente] )

Satantango *** (Tarr, 2006), em casa
A tomada do poder por Luís XIV *** (Rossellini, 1966), em casa
Muito cedo, muito tarde *** (Straub & Huillet, 1982), em casa
Decálogo, 2 ** (Kieslówski, 1988), no CCBB
Decálogo, 3 ** (Kieslówski, 1988), no CCBB
Ervas daninhas ** (Resnais, 2009), no Arteplex
Legião invencível ** (Ford, 1949), em casa
Diário de Sintra ** (Paula Gaitán, 2007), no Arteplex
Abraços partidos * (Almodóvar, 2009), no Espaço de Cinema

Revisões mais importantes

As férias do Sr. Hulot *** (Tati, 1953), em casa
Acossado *** (Godard, 1959), na Caixa
O desprezo *** (Godard, 1963), na Caixa
Conto de outuno *** (Rohmer, 1998), em casa
Conto de inverno *** (Rohmer, 1992), em casa
Pauline na praia *** (Rohmer, 1983), em casa
A inglesa e o duque *** (Rohmer, 2001), em casa
Conto de verão *** (Rohmer, 1996), em casa
A marquesa d'O *** (Rohmer, 1976), em casa
O raio verde *** (Rohmer, 1986), em casa
Menilmontant *** (Kirsanoff, 1926), em casa
Amor à tarde ** (Rohmer, 1972), em casa
O joelho de Claire ** (Rohmer, 1970), em casa
Os homens preferem as louras ** (Hawks, 1953), em casa


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 33 / 43 )

O cinema (Bazin, ed. bras. 1991)
A rampa; Cahiers du Cinéma (Daney, ed. bras. 2007)
Bloodstar (Corben, 1976)
Um contrato com Deus (Eisner, 1978)
A cidade antiga (Coulanges, 1864)
O ramo de ouro (Frazer, 1890)
História da Antropologia (Boas, 1904)
A linguagem e o pensamento (Piaget, 1923)
Os 100 melhores contos de humor da literatura universal
(Flávio Moreira da Costa, 2001)
Almanhaque, 1, 2 e 3
(Aparício Torelly, o Barão de Itararé, 1949-55)


RECORDANDO O BARÃO DE ITARARÉ
[ in Almanhaque, 3, 2° semestre 1955 ]

O golpe
(Texto sob cartum: um cinquentão, careca,
e uma jovem aparentando 19-20 anos, ambos numa praia:)
- Senhorita, além de arquimilionário, ainda sou portador de um bruto distúrbio cardiovascular. Proponho-lhe, agora, solenemente, ser minha viúva, mas tudo dentro dos princípios constitucionais...

O dilúvio
A história é mais ou menos conhecida. Choveu quarenta dias e quarenta noites sem parar, sem uma folga. As águas subiram tanto que toda a terra ficou alagada e, como consequência lógica da tremenda inundação, morreram, mais ou menos afogados, todos os homens e todos os animais que não conseguiram tomar passagem na arca de Noé.
Agora, que já se passaram tantos séculos depois do terrível cataclisma, parece que ninguém poderá leval a mal esta pergunta:
- Que foi feito dos peixes?

Ladrões de automóveis
Um jornal americano publicou uma queixa levada a
uma delegacia de polícia:
- "Efetuando algumas compras, deixei meu auto na rua. Na minha volta, verifiquei que os ladrões levaram uma guitarra, 2 quilos de carne, 10 maços de cigarros e 8 pares de meias.
P.S. - Meu marido, que estava no carro, igualmente desapareceu".

Máximas
(ao pé da página)

Juramento é a mais solene e grave das mentiras
Boate é uma gafieira metida a besta
Nem tudo mel nem tudo fel
Cada um dança com as pernas que tem
Quem tem saúde de ferro pode um dia enferrujar
Para este mundo ficar bom, é preciso fazer outro
Não há amor sem beijo nem goiabada sem queijo
Há mulheres que amam um só homem. Um só de cada vez
- e mais, muito mais -
(Clique aqui para ver Máximas dos outros Almanhaques)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 34 / 43 )

História da Filosofia (Châtelet, org., 1973)
A galáxia de Gutemberg (McLuhan, 1962)
Moisés e o monoteísmo (Freud, 1939)
A invenção de Deus (Armstrong, 1991)
Cantos (Pound, 1919-70)
Folhas de relva (Whitman, 1855)
A sangue frio (Capote, 1966)
Trópico de câncer (Miller, 1934)
Fogo morto (José Lins do Rego, 1943)
Bordel Brasilírico Bordel (Jomard Muniz de Britto, 1992)


Fragmento inicial d'
O BURACO SOMOS NÓS
Jomard Muniz de Britto
[ in Bordel Brasilírico Bordel, 1992 ]

o buraco é veroz como a vida severina
e outras anônimas, te re si nas.
o buraco é o vazio mais pleno,
zen e sem.
o buraco sugere e supera todas as contradições
do homem brasileiro, latinoamericano, terceiro
mundista e outras menos famosas e fesceninas.
o buraco incomoda como o cão sem plumas,
o poema sujo, o olhar santiago, a maçã no escuro,
vampiro vampirizado pelo im-próprio talento.
o buraco é o processo mais experimental
de todos os bruxos e brinquedos de morte.
o buraco é o nosso teto, texto, terremoto
como projétil de vida, pornochanchadeiro,
tal e qual pre-vista patética dos pregressos,
frevo e merengue na beira dos mangues,
maracatu de mariaparecida no cume dos morros,
anjo avesso pelas avenidas do mundo.
...

A FOTO DA SEMANA
Haiti, depois do terremoto:
mulher, desesperada, implora por ajuda alimentícia
Foto:
Ramon Espinosa / AP

[ Clique na imagem para ampliá-la ]

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Uma Olímpia moderna
(1872-73)
Paul Cézanne


BALAIO PORRETA 1986
n° 2916
Rio, 29 de janeiro de 2010

Esse quadro [Uma Olímpia moderna] guarda ainda uma forma romântica, mas a visão impressionista se revela através do jogo de cores luminosas e vibrantes. A obra traduz uma certa intenção irônica, não para com Manet, em quem Cézanne se inspirou, mas para com o próprio romantismo, que limitou seus passos durante anos. O homem representado em frente a Olímpia é, provavelmente, o próprio autor.
(Nina RIZZI, in Ellenismos, em 9 de novembro de 2009)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 29 / 43 )

Cartas sobre Cézanne (Rilke, 1907)
O paraíso de Cézanne (Sollers, 1995)
Uma temporada no inferno (Rimbaud, 1873)
Iluminações (Rimbaud, 1874)
Para ser caluniado (Verlaine, trad. bras. 1985)
Festas galantes (Verlaine, 1869)
Rimbaud livre (Augusto de Campos, 1992)
El problema de la legua poética (Tinianov, trad. esp. 1972)
Um lance de dados (Mallarmé, 1897)
Poesias (Mallarmé, 1899)

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres.
(Stéphane MALLARMÉ, in Brisa marinha, cf.
Poesias, trad. A. de Campos)


IMPROVÁVEL
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

outra vez estendo meus braços
e tento
tento tento tento tocar

- não posso

cada vez mais tudo se distancia

- e a vida

que sempre me pareceu
intangível
agora - me parece improvável


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 30 / 43 )

Belo Belo (Manuel Bandeira, 1948)
Vaga música (Cecília Meireles, 1942)
Jeremias sem chorar (Cassiano Ricardo, 1964)
Pauliceia desvairada (Mário de Andrade, 1922)
Paulisseia ilhada - Sonetos tópicos (Glauco Mattoso, 1999)
Antologia poética (Castro Alves, org. 1975)
Palavra (Armando Freitas Filho, 1963)
Anatomias (José Paulo Paes, 1967)
Obras em dobras (Sebastião Uchoa Leite, 1988)
O livro da agonia (Hildeberto Barbosa Filho, 1991)


TOCATA EM FUGA
Hildeberto Barbosa Filho
[ in O livro da agonia, PB, 1991 ]

Minhas mãos
não alcançam o silêncio
das manhãs.

O dia escorre,
torto,
pelos meus dedos.

O mundo,
matéria prima,
não me é dado retê-lo

e vai e se esvai
pelo meu olho adentro
como a agonia de um camelo.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 31 / 43 )

O apanhador no campo de centeio (Salinger, 1951)
Nove histórias (Salinger, 1953)
Curso de linguística geral (Saussure, 1915)
Totem e tabu (Freud, 1913)
A função do orgasmo (Reich, 1926)
Ideologia e utopia (Mannheim, 1929)
O novo espírito científico (Bachelard, 1934)
Os princípios da psicologia das formas (Koffka, 1935)
Coleção da Revista da Antropofagia (SP, 1928)
Coleção da revista Senhor (RJ, 1959-64)


BRANCO
Dade Amorim
[ in Inscrições ]

sete palmos de silêncio
nas planícies da memória

histórias nuvens ao vento

sem nome nem endereço
começos em andamento
perdidos num chão sem rastros
no mastro sem documentos
a palma da mão sem traços

uma canção que não canta
sem letra nem partitura
dói como uma cicatriz


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 32 / 43 )

Insônia (Graciliano Ramos, 1947)
Em liberdade (Silviano Santiago, 1981)
Desabrigo (Antônio Fraga, 1945)
Pour Marx (Althusser, 1965)
A arqueologia do saber (Foucault, 1969)
Tristes trópicos (Lévi-Strauss, 1955)
Eros e civilização (Marcuse, 1955)
História do marxismo, 9 (Hobsbawn, org., ed. bras. 1987)
Índios do Açu e Seridó (Olavo de Medeiros Filho, 1984)
Antologia da alimentação no Brasil (Câmara Cascudo, 1977)


LUAS
Iara Maria Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

põe-me no ventre
coisas miúdas
e castanhas

que te absolvo
do linho rasgado.


CORTE RECORTE ATALHO RETALHO
Betina Moraes
[ in Sensytiva ]

Costura a boca
Tecido de pele
Sobre as veias
A língua agulha.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Enchente em São Paulo
Foto:
Sérgio Neves / AE


BALAIO PORRETA ESPECIAL
n° 2915
Rio, 28 de janeiro


LÁGRIMAS DE SÃO PAULO
Marcius Cortez
[ Escritor, RN / SP ]

Aqui perto de onde moro, no bairro da Consolação, em S. Paulo, há uma vila de sobrados geminados e, na garagem de um deles, o proprietário abrigou uma família que perdeu tudo por causa das chuvas que castigam a maior capital do país. Contei: uma mulher, três crianças e dois homens dormindo no chão, às seis da manhã do dia 25 de janeiro. Mais tarde, por volta das nove horas, passei outra vez por lá. As crianças me pediram dinheiro e então as convidei para um lanche na padaria. O menorzinho deles perguntou se podia chamar a mãe: Pode, disse eu. No balcão da Bela Pão, falei para o Reginaldo atender os pedidos daquela família.

Com exceção do caçula que puxava conversa comigo, ninguém mais queria papo e era visível um certo nervosismo entre eles. Reginaldo e o Gordo foram trazendo as vitaminas, os sanduíches, os sucos, as médias de café com leite, os iogurtes, o pão com manteiga. Comemos em silêncio. Quando levantei o rosto, observei que a mulher tinha lágrimas nos olhos. Tomei coragem e não desviei meu olhar. Fiz questão que aquela senhora visse que eu estava espiando ela chorar. Dona Célia me dirigiu a palavra, pela primeira vez: O senhor pegou a confusão?

Dei de ombros: Que confusão, minha senhora? Acabando de mastigar um pedaço de pão de queijo, a mãe dos meninos aumentou a voz: Os moradores da vila fizeram um abaixo-assinado pra gente ir embora. Indaguei a ela: E o dono da casa aceitou? Emocionada, Célia declarou que os moradores podem chamar a Polícia, mas que na casa dele quem manda é ele e que ninguém vai embora não. Injetando esperança no pessoal, comentei: Tenho certeza que vocês vão sair dessa para uma melhor. A criança mais velha abriu um discreto sorriso. Pedi a conta, enfiei uma nota de dez no bolso do pixote e nos despedimos.

À noite, por volta das 22 horas, retornei à vila e verifiquei que a família permanecia acampada na garagem da mesma casa. Os desabrigados talvez não estivessem dormindo, talvez estivessem apenas deitados, pescando o sono.

Quando fui saindo da vila, vi um carro da Polícia entrando na ruazinha. O motorista diminuiu a marcha, parou o automóvel e os soldados ficaram olhando para o pessoal, olhando, olhando... Não falaram nada e partiram. Começou a intimidação, pensei.

No caminho até o prédio onde moro, encontrei o Pernambuco, o segurança que faz a ronda noturna em nosso quarteirão. Ele me confirmou que a Polícia tá passando direto lá. Por curiosidade, quis saber quem era o cidadão que acolhera os novos sem teto da nossa cidade: O senhor conhece, seu Márcio, é aquele cabeludão, só um maluco mesmo, aquele pessoal, seu Márcio, é tudo invasor. O cara vai se dar mal, quero ver ele se livrar desse bando de vagabundo... Fitei o Pernambuco bem dentro dos seus olhos, desejei-lhe uma boa noite e me retirei.

Naquele momento senti toda a ciência social que aprendera com meus mestres Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Ruy Coelho na velha Faculdade da rua Maria Antônia, sumir do meu cérebro. Acalentei essa sensação. Pouco importava entender aquilo pelo viés da sociologia, da dialética, do estruturalismo, de que diabo fosse.

Óbvio, tive uma noite de cão. Foi um tormento atravessar aquela cordilheira de dor.

Não consegui pensar em mais nada. Logo a água subiu e eu me vi em cima do telhado da minha casa, ilhado, náufrago como toda a minha cidade. A São Paulo onde outrora fui feliz fora tragada pela vingança da natureza. Não acredito que meus netos, paulistanos, viverão numa metrópole civilizada. Com o Tietê limpo, com espaço para o rio se infiltrar quando chegar a época das enchentes, com o transporte coletivo no lugar do transporte individual, com um trânsito que anda, com a população consciente de como deve tratar o lixo, com políticos responsáveis que tenham um projeto para a cidade e que descartem obras eleitoreiras, faraônicas e apressadas, com ar puro, árvores e flores. Não acredito que essa sociedade tão desigual e tão mal informada possa se unir em torno de uma mudança radical que coloque o progresso a serviço de todos e não apenas das classes sociais mais privilegiadas.

À mercê de uma insônia sufocante, fiquei de pé, no meio da sala do meu apartamento a olhar para a cesta de alimentos que deixara perto da porta, cesta que no dia seguinte iria levar para aqueles adultos e para aquelas crianças. Isso era a única coisa que me acalmava, me acalmava pensar que ouviria de novo, o menor de todos me dizer com a sua voz de esperança: Muito obrigado por tudo que o senhor está fazendo por nós.