quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Mulher africana
Foto de
Uwe Ommer
[ in Black ladies ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2840
Natal, 12 de novembro de 2009

Na tradução deve ir-se até ao intraduzível:
só então nos daremos conta da nação estrangeira
e da língua estranha.
(GOETHE. Máximas e reflexões, trad. 1987)


APRENDIZAGENS
Carmen Vasconcelos
[ in Preá n° 12, Natal, FJA, 2005 ]

"Não há nada de novo debaixo do sol"
(Eclesiastes, 1,9)


Chego ao sol, meu pasmo é imenso!
Quero enfeitiçar o amanhecer.

Tranço cabelos, destranco roupas,
fico tramando proximidades.

Guardo nesgas da noite nos poros,
trago cartas, cristais, oráculos
e pulsares varados de vidência.

Não me seguro em pensamentos,
o mundo é coisa de sentir.

Abro janelas em mim, e portas,
mas conservo cortinas, transparências,
para reter os avisos do vento.

Todos os dias teço aprendizagens,
todos os dias renasço de assombro.
O sol é um deus que sabe doar-se.

O MORTO
Newton Navarro
[ in Subúrbio do silêncio. Natal, 1953 ]

Despido de azul e de paisagem
O morto está.
Silenciosa semente de carne
Aguardando as raízes.

Sem pai, sem mãe,
Sem casa,
Sem sono.
Até sem mortos
O morto está.

Não lhe resta lembrança alguma,
Ignora a tarde e as flores
Que o cobrem
E a escura casaca
Com que o vestiram um dia.

Não tem pranto nos olhos.
Não tem olhos,
Nem saudade,
Nem lembrança.

Nem ele mesmo se possui
Nem mesmo alma.

Apodrecida semente
Que espera raízes,
Assim o morto está:
Incompleto, inconseqüente
E só.

Sem presença
Sem confiança de que será terra,
Infinito,
Assim o morto está.

Os sinos da cidade
Não o despertarão nunca.
Por que, então, o vosso pranto, Senhora?


POEMA
Luma Carvalho
[ in Tamborete. Currais Novos, dez./2oo3 ]

O pior (ou melhor, sei lá...)
de te amar
é essa eterna e imensa
Saudade
que sinto de você
mesmo quando estamos abraçados...


INFELIZES
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

o que foi feito de amália
a bela de olhos lânguidos
e de tristeza entranhada
cujos passos a levaram
para a sombra de antônio
um homem de gestos rentes
e sorriso ácido?

o que foi feito de amélia
aquela mulher desverdade
que passava suas tardes
sem dizer uma palavra
e que durante o trabalho
deixava em tudo o rastro
da sua poeira amarga?

o que foi feito de emília
da sua pálida pele
quando foi abandonada
tão quieta tão sem ânimo
até que veio um pássaro
e levou-a para o céu
para a suíte dos santos?

o que foi feito de ordália
adélia odília odete
ana

o que foi feito de ângela?

QUENTE OU FRIO
Marcelo Novaes
[ in Prosas Poéticas ]

Terrores quentes, barbáries geladas [nem adianta andar por sobre as águas]. Nas cortes dos reis, nas peças dramáticas, nas línguas içadas aos céus [nas pipas, nos fios enroscados], sentenças de morte. [No chão, jaz um homem eletrocutado.] Por ter com isso sonhado, queda-se, louca, a noiva. Na hipótese de prever, dor e frenesi. [Não adianta colher doze cestos de restos de pães multiplicados.] Há um que de arrogância nos céticos. Há um que de arrogância nas Escrituras Sagradas [ninguém lhe soube ouvir...]. Guardar, só para si, a morte antecipada. Depois, enlouquecer.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sorriso de mulher angolana
em foto de
Ailton Cruz
No Dia da Dipanda (Independência),
um kandandu mwangolé (abraço angolano) para todos
a partir de Namibiano Ferreira


BALAIO PORRETA 1986
n° 2839
Natal, 11 de novembro de 2009

Escrever não é apenas uma operação da inteligência.
É uma necessidade do coração.
(Hildeberto BARBOSA Filho. O escritor e seus intervalos, 2008)



VÔO
Carlos Gurgel

há pouco
trilhei
cactus e estrelas

outrora
como um retorno
vigio o meu olho
que não se acostuma
com nada

tudo
é tão raso

me anoiteço
de sonhos e espartilhos

e o riso de anjo
que ontem vesti
respira ofegante
como o rio
que amanhece
sobre os meus pés.



O CÉU DO CINEMA
Fernando Monteiro
[ in Substantivo Plural ]

A mais hilária das definições de um Orson Welles nada entusiasmado com o grande Michelangelo Antonioni, foi esta: “trata-se de um solene amontoador de caixas vazias”…

É impossível não achar graça, pero también é impossible (diria Collor, imortal mestre de pontunhol) não ver o que havia de simplesmente invejoso na frase disparada contra o autor da “Trilogia da Incomunicabilidade” e de Blow-up.

Welles sofria de um certo ostracismo (injustíssimo, é claro), sendo obrigado a aparecer, como ator secundário, em filmecos tipo Estrela do Sul e até em comerciais de lâminas de barbear etc, quando lapidou essa “pérola” venenosa de ressentimento a respeito do então cultuado Antonioni (como ainda hoje, merecidamente).

Michelangelo poderia ter respondido – mas não o fez – lembrando que havia algo de “charlatanesco”, digamos, na personalidade artística de Orson, assim como alguma coisa um tanto desonesta no jovem diretor genial que nunca reconheceu ser o roteiro de Cidadão Kane muito menos dele do que de Herman J. Mankiewicz, com colaboração também de John Houseman (este, Welles nem aceitava que fosse citado, depois que brigaram na fase pós-”Mercury Theatre on the Air”).

Passados os anos, eles estão mortos, o céu do cinema tem muitas moradas e Orson e Michelangelo ocupam seus lugares, com justiça, no panteão cinematográfico, onde igualmente se dá o crédito devido ao talento de Mankiewicz e à capacidade inspiradora de Houseman.


GITANA
Adrianna Coelho
[ in Metamorfraseando ]

meus passos não te serão
leves
nem meus saltos
nem mesmo quando levito,
ou ergo as mãos, danço e canto
sem acompanhamento

pelo ângulo certo, porém,
verás meu coração nos abetos,
os pássaros rasgarem azuis
e amanhecerem os meus beijos
vermelhos


Repeteco
AUTOBIOGRAFIA COM FARINHA E RAPADURA
Moacy Cirne
(17 de julho de 2004)

Segundo o horóscopo chinês, sou caba da peste, parente de Lampião e Maria Bonita: nasci em São José da Jardinense Bonita, ao lado de Caicó, Campina Grande, Olinda, Currais Novos, Galinhos e Martins, antes do descobrimento da Terra de Santa Cruz, pelo poeta Bocage, companheiro de Manuel Bandeira nos cabarés da velha Ribeira, em Natal, deslumbramento potengíaco. Compadre de vários gentios tapuias, lutei contra os bandeirantes do Sul Maravilha que nos invadiram em 1600 e lá vai fumaça. Mergulhei no Poço de Santana e fui sair no Rio Amazonas, entre uma talagada e outra de Malhada Vermelha, a cachaça preferida de Celso Japiassu, Nei Leandro de Castro e Luis da Câmara Cascudo. Conheci Marte, Júpiter e São Saruê nos anos 10 do século passado. Escrevi Os lusíadas, falsamente atribuído a um tal de Luiz Vaz de Camões, em apenas 10 dias e 10 noites. Depois, tornei-me pescador de auroras azuis e palavras seridolentes. Hoje, pai de duas filhas e casado com uma natalense, não sou amigo do rei, mas sou amigo de muita gente boa.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cidades do Mundo que eu gostaria de conhecer (7)
Luanda - Angola
[ Foto: Marko Serbia ]
Refundada pelos portugueses em 1576,

com o nome de São Paulo da Assunção de Loanda,

sua população atual atinge 4.500.000 habitantes



BALAIO PORRETA 1986
n° 2838
Natal, 10 de novembro de 2009

Nada é impossível se ousamos com ousadia.
(in Balaio, n° 347, 11 fevereiro 1992)


POEMA PARA A MINHA AMADA
Namibiano Ferreira
[ in Ondjira Sul ]

Como se fosse uma geografia
quântica
o teu corpo é o porto
tempo onde floresço
açucenas
loiras acetinadas brandas
no templo da raiz dos teus lábios
carne
desejo carmim a sorrir.


FUNDO DO MAR
António Cardoso
[ in Angola: os Poetas ]

deitei-me ao teu olhar
e logo fui ao fundo...
é no fundo do mar
que o embalo é mais profundo...

andam gaivotas no ar,
tontas de luz e espaço,
e eu no fundo do mar
não sinto nem cansaço...

... nem quero salvação:
deixai-me naufragar
nessa doce prisão
do mar do teu olhar...


E OS HOMENS DA TERRA...
Décio Bettencourt Mateus
[ in Mulembeira ]

E os homens da terra
Sentaram-se! Frutos silvestres
Emprestaram sabedoria e sombra
Poeiras campestres
Abençoaram papeladas
E acordos nos matos das picadas!

Um vento a soprar agreste
As terras do leste
Falou-me d’homens sentados
Em troncos e pedras
A falarem acordos e palavras
E obuses de canhões silenciados!

A taça do sangue das armas
Entornou-se! Batuques e lágrimas
Das gentes magricelas
A espreitar homens da terra
Sentados, a falarem paz em palavra
E sonhos e acordos d’estrelas!

A tumba dos homens apagados
Em camuflados e botas
Aplaudiram palmas
Kazumbis e almas
Dançaram alegria nas matas
E homens sentaram pedras d’acordos!

E as patentes da terra
Conversaram! Calaram-se ruídos
E fuzis d’homens fardados
A barulhar palavras e guerras
Conversam os homens nas pedras
E nos troncos dos acordos!

E os homens da terra conversaram!


SIMILARES DAS MARGENS
Romério Rômulo

éramos dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos
de mundo, tudo. alargado coração em corpo.


POEMA
Amanda Bigonha Salomão
[ in Fotografias, poesias e um tantinho de prosa ]

Já tentei croché
Já tentei tricô
Já fiz pão e teatro.
Entrei pra esquerda,
cutuquei o partido.
Fiz bolo e artesanato.
Tentei de tudo, tentei de nada.
Fui Zé Ninguém e dona-de-casa.
Já dormi sonhando reis
Já dormi sonhando putas,
amantes de Sol, amantes de Lua.
Mas não me encaixei em nada
E fui ser coringa no meio da rua.


AMANHECENDO
Ana de Santana
[ in Em nome da pele, 2008 ]

Não conto o tempo quando demoro
os dedos sobre teus cardeais
Tudo que preciso amanhece no teu corpo
Criado pela infância das almas
Tudo é minguado
Se não sou vizinha do teu rosto
Se não sou eu mesma a manhã
Que te desperta o afã
de morar em mim


DRÁCULA
Mauro Gama
[ in Zoozona, 2008 ]

Abre. Retira as trancas as réstias de
alho ou de luz os olhos a cruz e
abre abre-te toda a mim e ao mundo
da noite. Quero-te a polpa bem nua
trago-te os lírios da lua e os dentes os
meus carentes caninos : sou o vampiro - já
sabes - moro na gruta do luto vôo em
meu manto de encanto e chego cego de
amor. Ou dor? Estou morto há séculos e
séculos só do teu sangue ainda vivo
teu doce sangue de seda teu
sangue que hoje me seda no
negro vôo no crivo da minha
sede noturna. Tens de só ser para
mim na força que ora te enfurna
nas minhas ganas nas minhas
membranas na minha urna sem
nada teu que não seja entrega
sem nada em troca exigir : só
prazer meu do teu deus que só em
ouvir tem seu rumo que só em
ferir tem seu sumo. Mas isso não por
favor : não te assumas Ah! Não amor
desamor por que me atacas assim? Não
tens piedade ou preceito? Que fazes com
a claridade? E com essa estaca em meu peito?


POEMA
de Moacy Cirne

o cheiro suculento da pinha
infância que se memória
abre-se para o canto das pedras
sob as chuvas de fevereiro e caicó.
fruticorpo orgasmo,
a pinha
se oferece à boca lenta e atenta
com seu aroma raro
seu aroma claro
e um branco de auroras arrependidas,
assim: a pinha.

[ in Balaio Incomun, n° 1178,
7 agosto 1999 ]

POEMA
de Hildeberto Barbosa Filho

Odisséia

Só um poeta
é capaz de atravessar
desertos
em busca de um oásis
de palavras.

[ in Eros no Aquário. João Pessoa, 2002 ]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Imagem:
RetroAtelier


BALAIO PORRETA 1986
n° 2837
Natal, 9 de novembro de 2009

Existem cinco elementos: o ar, a terra, a água, o fogo
e a pessoa amada.

(Murilo Mendes. O discípulo de Emaús, 1945)


ELEGIA PARA ZILA MAMEDE
Luís Carlos Guimarães
[ in O fruto maduro. Natal, 1996 ]

Sabias que morrerias no mar.
Assim seria, disseste sem medo
em canção e elegia. Acreditar
só acreditamos quando tão cedo

partiste: a morte - como anunciada -
boiava à deriva no corpo morto
e pela luz da manhã revelada
lançou a âncora no último porto.


DUAS QUADRINHAS POPULARES
DO RIO GRANDE DO SUL
[ Fonte: Sílvio Romero, 1883 ]

Não te encostes na parede,
Que a parede larga pó;
Encosta-te nos meus braços,
Que esta noite dormi só.

Menina dos olhos grandes,
Olhos grandes como o mar,
Não me olhes com teus olhos
Para eu não me afogar.


POEMA de
Pablo Capistrano
[ in Substantivo Plural ]

minha fome
desperta a fera
que teu olhar
revela


MARATONA
José Bezerra Gomes
(Currais Novos, RN)

Um menino
corredor
corria
correndo
para a sombra
para a sombra
de um pássaro


EXERCÍCIO DA CRUELDADE
Zémaria Pinto
[ in Fragmentos de silêncio. Manaus, 1995 ]

palavras são serpentes, são navalhas
são balas que explodem dentro do peito
de quem ouve e de quem fala!


ESTRANHOS SEMELHANTES
/ fragmentos /
Moacy Cirne

Comunicação apresentada, em maio de 2007,
no seminário Segregações,
do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos,
no Rio de Janeiro

Dezembro de 1959: pela primeira vez, em meus 16 anos, ou um pouco mais, à beira dos 17, encontrava-me longe da minha região. Encontrava-me em São Paulo, passando as férias escolares de dezembro/janeiro na casa de uma tia - a tia Geralda. E não entendia como seus amigos e vizinhos me chamavam de "baiano", se eu sequer conhecia a Bahia. Ou, então, por que me apelidavam de "nortista", quando o Rio Grande do Norte, apesar do nome, era seguramente um Estado nordestino. E se eu os chamasse de "paranaenses" ou de "gaúchos"? Qual seria a reação deles?
(...)
Mais e mais, a possível ignorância paulistana em relação ao Nordeste não me parecia propriamente preconceito - de resto, uma idéia que, à época, me era estranha. E só uma vez fiquei irritado com aquela situação: quando uma senhora me perguntou, com a cara mais inocente do mundo, se na "Bahia" a gente tinha emissoras de rádio. (Ela não ousara perguntar se tínhamos canais de televisão; registre-se que não os tínhamos, na ocasião.) Respondi-lhe, com ironia: "Emissoras de rádio? Nunca ouvi falar! Aliás, também nunca ouvira falar em cinema, só agora conheci um: que coisa mais estranha, não? Aquelas pessoas todas se agarrando, se beijando, ou então brigando umas com as outras, ou correndo feito loucas, nunca vão ao banheiro, não almoçam direito, não sabem dançar xaxado, não conhecem o valor do silêncio. Que coisa mais estrambótica. Na minha terra não tem dessas esquisitices não". Até hoje não sei o que ela achou da minha resposta, se a levou a sério ou não, se me considerou doido varrido ou não.
(...)
Algumas indagações se fazem necessárias, neste espaço e neste agora: terei sentido na pele o famoso "choque cultural" que nos dividia? Em algum momento, deixei de ser "baiano" para me tornar "paraibano", em tom preconceituoso? Ora, todos sabem da minha admiração pela Paraíba e por Pernambuco, sobretudo, entre os vários Estados nordestinos. Temos semelhanças, mas igualmente diferenças profundas. A nossa maneira de sentir, de olhar, de falar, de amar, tem nuanças particulares. No próprio Rio Grande do Norte há consideráveis diferenças entre o homem do litoral, na região da Grande Natal, e o sertanejo do Seridó, sem contar com as outras regiões. ... Como, então, não vivenciar as diferenças entre o Sul Maravilha e o Nordeste Glorioso? Não seriam vivências que se existencializam com o tempo? Como lidar, pois, a partir de nossas memórias afetivas, com essa imponderável existencialidade que nos arrebata e nos faz sonhar?
(...)
Talvez eu fosse um bicho-do-mato, arredio que só a mulesta, mas, decididamente, se eu era um estranho, era um estranho entre estranhos: doces e inquietos estranhos que ficávamos horas nas filas do Paissandu para ver o último Godard, ou o último Bergman, ou o último Buñuel; deslumbrados e inquietos estranhos que pesquisávamos as histórias-em-quadrinhos e suas manifestações gráficas e culturais; loucos e inquietos estranhos que ousávamos enfrentar a fúria dos militares encastelados no Planalto Central; apaixonados e inquietos estranhos que, tricolores, vibrávamos, no Maracanã, com as vitórias do time de Cartola, Chico Buarque, Tom Jobim, Mário Lago, Sérgio Porto, Tio Silvino, Tio Walfredo e Nelson Rodrigues; libertários e inquietos estranhos que fundávamos o poema/processo, contra o poder literário constituído, espantando pela radicalidade. E se é verdade que a solidão e a timidez dos primeiros anos no Rio doíam um bocado, e se a saudade do cheiro da terra molhada do sertão e o ardor distante das mulheres amadas de Caicó e Natal pesavam como navios flamejantes e nuvens grávidas de crepúsculos, também é verdade que as diferenças aqui vividas e sentidas abriam espaços para a liberdade intelectual e criadora que me interessava.

E nelas mergulhei.
E nelas me encontrei.
E nelas me tornei mais e mais nordestino.
Mais e mais norte-rio-grandense.
Mais e mais seridoense.
E mais brasileiro.

domingo, 8 de novembro de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
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Minha noite com ela
(Erich Rohmer, 1969)
Godard, Renoir, Bresson, Resnais e Rohmer constituem, para mim, o quinteto mágico do cinema francês, assim como Antonioni, Rossellini, Visconti, Leone e Pasolini, dependendo do nosso momento crítico-afetivo, formam, em minha particular visão, o quinteto mágico do cinema italiano. E aqui temos Rohmer em um de seus "contos morais", um cinema que dialoga com a reflexão e o sentimento. Leiamos Luiz Carlos Merten: "Seus contos tratam, basicamente, de relações amorosas, de encontros e desencontros, de personagens ‘lost in translation’, muito antes que Sofia Coppola se apropriasse da expressão. Boy meets girl, mas este encontro é sempre complicado, porque a relação do casal coloca a questão da fidelidade e Rohmer foi sempre atraído pela transgressão amorosa. A grama do vizinho é mais verde, sempre, mas existem imperativos morais que travam o desejo no seu cinema. Em Ma Nuit Chez Maud, Minha Noite com Ela, Jean-Louis Trintignant passa a noite com a sublime Françoise Fabian, viúva de Jacques Becker, arranjando 1001 razões para não ter sexo com a mulher que está a fim dele e mais tarde descobrimos que sua noiva, na mesma hora, estava na cama com outro. Há sempre uma sutil ironia, uma vontade de refletir sobre o que se ganha e o que se perde com a virtude. E é um cinema falado, construído mais por meio do diálogo do que da ação."


BALAIO PORRETA 1986
n° 2836
Natal, 8 de novembro de 2009

Outros grandes filmes de 1969:
Othon (Straub & Huillet)
A cor da romã (Paradjanov)
Diaries, notes and sketches (Mekas)
Kes (Loach)
Sons britânicos (Godard)
69 primaveras (Alvarez), curta
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)



A UM POETA
Nina Rizzi
[ in Ellenismos ]

eu vou te lendo e pouco a pouco
meus olhos verdes, beijo lento, alcançam
o azul das melancolias de picasso;

meu corpo renascentista, fremente, vai
braillando, incendiando como um poema.


ENCONTRO
de Lisbeth Lima
[ in Flor de Craibeira ]

Trouxe-me a chuva
e, depois dela,
céu aberto, anil.

Trouxe-me a noite
e, dentro dela seu corpo chuviscado,
amanhecido junto ao meu.
Dia claro, céu aberto, abril.

sábado, 7 de novembro de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
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A rua do Delfim Verde

(Victor Saville, 1947)
Exibido na cidade seridoense por volta de 1951, trata-se de um melodrama de aventuras (tomando como referência inicial a paixão de duas irmãs pelo mesmo homem) que conquistou, sobretudo, o coração e a mente das mulheres de Caicó. Curiosamente, em se tratando de um filme dirigido por Saville, lembro-me mais de Aloma, a virgem proibida (1941), com Dorothy Lamour: o primeiro longa que vi em toda a minha vida, provavelmente em 1948 ou 49, se a memória não me falha.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2835
Natal, 7 de novembro de 2009

alvoreceu em líquido presságio
a intermitente face desse amor
(Assis FREITAS. Deslizante assimetria,

in
Mil e Um Poemas)
MEU CORAÇÃO ESCONDE
Carmen Vasconcelos
[ in Chuva ácida, 2000 ]

Meu coração esconde,
a palavra escapa,
a palavra que preciso cuspir.

Mas não é porque me cobre
a túnica do silêncio,
que estarei despida de poesia
ou perecerá,
sobre o branco impecável desta página,
o meu reflexo.



MAIS UM LANÇAMENTO DE PRIMEIRA

Depois de Marize Castro, mais um lançamento literário agita o meio literário de Natal: Simples filosofia, de Pablo Capistrano. Será hoje à noite, a partir de 19h, na Siciliano do xópim MidiVaiMal, nas proximidades do antigo cabaré de Rita Loura. Pablo Capistrano é um dos mais valorosos nomes da nova literatura do Estado. Vale a pena conferir, claro.


PONTO FINAL
Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Hoje não me interessa pensar,
nem mesmo pescar algum boto.

Não me interessam as suas agruras,
os seus desconsolos ou soluços
roucos.

Chega de tanta mentira,
o meu choro já me basta.
Eu já me basto.


AS PEDRAS TAMBÉM CANTAM
Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

Sou pedra bruta
que se machuca
nas arrebentações
das líquidas paixões

Sou pedra dura
que perdura,
quebra-mar
que de tanto a(mar)
aprendeu a cantar


QUANDO ME DEITAS
Jeanne Araújo

Quando me deitas
vais abrindo meus caminhos lentamente
tocando os vãos, desvãos inacabados,
cheios de silêncios mórbidos.
Teu olhar me suga, vertiginosamente,
enquanto murmuras águas marinhas,
algas e um tanto de sal.
Pareces pequeno.
No entanto, consegues envolver-me
despojada e extrema
no teu peito vasto.

Quando me deitas
e percorres lentamente meus caminhos,
minhas flores se entregam nesse claustro
de anseios e sussurros.
E as tuas palavras, as mais doces,
vão queimando os muros,
lençóis e o pequeno quarto.
Pareces pequeno.
No entanto, abranges inocente,
todos os meus cantos e recantos.
E tudo é gozo de tanto tempo.
E tudo é cio e umidade.


POEMA
Romário Gomes
[ in Cacos, desativado]

O Seridó
é verdecinza
geografia
do meu poema
um nome
um sertão particular


Memória
E O MUNDO COMEÇOU EM CAICÓ...

in Balaio n° 1339, de 13/11/2000

Apesar do ceticismo de alguns, muitas são as evidências arqueológicas, antropológicas, metafísicas e futebolísticas de que o mundo (inteligente) no planeta Terra teria nascido na Cidade do Caicó, sertão seridoense do Rio Grande do Norte, nas proximidades da mitológica São Saruê.

Há, inclusive, fortes indícios de que em torno do Poço de Santana, ao nordeste da cidade potiguar, em pleno Rio Seridó, moradia sagrada de uma serpente milenar, tribos nômades por lá já viviam há 69 mil anos. Essas tribos seriam dotadas de inteligência superior para os padrões da época, sendo, segundo o historiador Clifford Dantas Simak, portadores de atributos mercadológicos os mais diversos e mesmo os mais avançados, considerando a vida em nosso planeta há 69 mil anos.

Mas quais são, afinal, os indícios que nos levam a acreditar que o mundo começou em Caicó? Ei-los, seguindo a linha epistemológica esboçada pelo arqueólogo Raimundo Bradbury:

1. O Poço de Santana é o centro geodésico e metafísico do mundo. Segundo todos os registros históricos, culinários e biológicos existentes, inclusive aqueles anotados pelo astrofísico Arthur Cordeiro Clarke, em secando o poço o mundo simplesmente acabará. Tanto é que, em 69 milhões de anos, nunca secou. Mesmo no grande desastre ecológico ocorrido há 65 milhões de anos, quando os dinossauros desapareceram, o Poço de Santana não sofreu maiores danos físicos e morais;

2. Seres extraterrestres que por lá passaram, em nosso século [séc. XX], em 1943, deixaram marcas da Historicidade/Singularidade no leito do açude Itans, marcas essas que antecipam as ruínas de Nova York no século XXI e prenunciam uma nova espiritualidade camongeana para a Cidade;

3. Em Caicó, a torcida de futebol mais fanática não é a do Flamengo - é a do Botafogo, cujo fundador, o lendário Marujo Asimov, mantinha contatos telepáticos com Mané Garrincha nos anos 50, confirmando a previsão dos índios tapuias que habitavam as cercanias do Poço de Santana;

4. Em 13 serrotes ao sul da cidade, nas proximidades do Rio Barra Nova, há inscrições rupestres sublinhadas por escrita sânscrito-aramaico-jupiteriana, que só podem indicar o seguinte (na opinião do egiptólogo Fausto Cunha de Medeiros): os primitivos caicoenses há 69 mil anos emigraram para a África e, do continente africano, se espalharam pela Europa e Ásia.

Assim sendo, não temos a menor dúvida: o mundo começou mesmo em Caicó...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cidades do Mundo que eu gostaria de conhecer (8)
Florença - Itália
Ponte Vecchio, erguida em 1345
[ Imagem: R.o.b.e.r.t.o. ]
Firenze/Florença, berço do Renascimento,
teve origem num antigo povoado etrusco, em 59aC
População atual: cerca de 380.000 habitantes


BALAIO PORRETA 1986
n° 2834
Natal, 6 de novembro

Troca-se um crepúsculo azul, devaneio caicoense dos anos 50, por um sonho barroco, ligeiramente escandaloso, de qualquer época, de qualquer lugar, de qualquer tudo. Tratar com Moacy Cirne, poeta e cangaceiro da anticultura, no Balaio Incomun, em São Saruê dos Delírios Nordestinos.
(Moacy Cirne. Classificado amoroso, in Balaio, n° 328, de 31/10/1991)


SE NÃO ESCREVO
Marize Castro
[ in Lábios-espelhos, 2009 ]

Se não escrevo, ela me engole.
Come meu útero.
Meu cérebro.
Minha alma.
Meu sexo.
Se não escrevo, ela entristece.

Solta urros no meio do dia.
Despedaça-se.

Se não escrevo, ela abandona-me longe de casa,
do sol diário, do Amor, dos latidos amados.
Se não escrevo, torno-me surda,
ascética, manca, cética.
Se não escrevo, ela bem sabe, destruo-me.
Incendeio-me.
Murcho.
Cego-me.


SAGRAÇÃO DO VERÃO
Luís Carlos Guimarães
[ in A lua no espelho, 1993 ]

De repente a mulher desabrochou nua
saindo do mar, pois a água não a vestia,
antes a desnudava, fazendo a sua
nudez mais nua à dura luz que afia
seu gume no sol da manhã que inaugura
o verão. Dezembro só luz reverbera
em seu corpo, doura-lhe as coxas, fulgura
nas ancas, no dorso ondulado de fera.
Fera que guarda no ventre uma colmeia
com a flor em brasa do sexo que ateia
fogo ao meu desejo e tanto me consome
a vulva, gruta, rosa de pêlos - que nome
tenha - que desfaleço como se em sangue
me esvaísse morrendo de amor. Exangue.


HÁ ALGO DE TRÁGICO NO REINO DA CAPITANIA

Quer politicamente, quer culturalmente, há algo de trágico - lamentavelmente trágico - no reino da Capitania das Artes, em Natal. Seja pela incompetência administrativa do sr. César Revoredo, seja pela boçalidade do atual presidente (como é mesmo o nome dele?), seja pela ignorância total e absoluta de dona Micarla de Souza, prefeita da cidade, em questões de arte & literatura, a Capitania, é preciso dizê-lo, hoje representa o máximo em atraso cultural e social. O que estão fazendo com a proposta da revista Ginga, por exemplo, é inqualificável; todo um trabalho editorial jogado fora. Ou quase. Será que a revista morreu antes mesmo de nascer? E pior: a experiência bem sucedida da Brouhaha, da gestão anterior, foi totalmente ignorada já pelo sr. Revoredo, decerto a partir de (mesquinhas) ordens superiores. Seria cômico se não fosse trágico, como já se disse por aí. Há que se temer também pelo Auto de Natal. Aliás, até agora a Capitania não justificou porque ignorou, sem maiores explicações, o concurso - que teve três concorrentes - que ela mesmo criara para, de forma louvável, registre-se, apontar o autor do espetáculo natalino. O fato concreto é que, com dona Micarla de Souza (e o politicamente deplorável José Agripino Maia), tudo vai mal na cultura do município. De certo modo, o mesmo se aplica à Fundação José Augusto, só que em outro nível de agenciamento político; a governadora, aparentemente, não sabe o que é política cultural. Ou, então, tem outras prioridades. Nos dois casos, perde a cidade, perde o Estado.


UFF: Memória Departamental 1985
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Niterói, GCO, em 18.11.85

JE VOUS SALUE, LIBERTÉ

Os professores e alunos de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense e de seu Curso de Cinema, em Reunião Departamental, resolvem denunciar a postura reacionária de certas pessoas da área religiosa que têm estimulado o veto, em território nacional, do filme Je vous salue, Marie, do cineasta francês Jean-Luc Godard.

Nós, do Departamento de Comunicação Social e do Curso de Cinema, repudiamos o fato em si pelo que ele encerra de censura e obscurantismo. E outra não poderia ser a nossa posição, comunicadores sociais que somos.

Não queremos discutir aqui a importância de Godard para a história do cinema europeu e/ou mundial. Para muitos, estamos diante de uma obra da maior significação e da maior dimensão, gostemos ou não de seus filmes, gostemos ou não de suas propostas.

Queremos discutir - e questionar - o primado da censura sobre a arte, que se manifesta de maneira tão retrógrada no presente episódio. Sabemos o que vem a ser para um país a censura à imprensa, à música, ao teatro, às artes, ao cinema, e assim por diante. Pois, em última instância, a censura é um atentado contra a dignidade e a inteligência do Homem.

Queremos também questionar o poder da Igreja Católica, ou de seus representantes legais, que se arvora de Censora-Mor da sociedade brasileira. Que poder é este, que não leva em consideração a diversidade de opiniões religiosas, morais e estéticas? Que poder é este, que pretende assumir a censura de forma tão descarada? Que poder é este, que se revela tão insensível à liberdade de expressão?

Não, não podemos ficar calados. Não, não podemos aceitar que um Governo [o de José Sarney] que pretende ser democrático e soberano possa compactuar com tal absurdo, próprio dos fascismos e das intolerâncias.

O possível veto ao filme de Godard - ou a qualquer outra manifestação artística, nacional ou estrangeira -, se se concretizar, será o veto da ignorância. E do terror cultural.

Moacy Cirne
Chefia GCO [IACS]

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cidades do Mundo que eu gostaria de conhecer (9)
Maputo - Moçambique
[ Foto: Rosino ]
Maputo nasceu em 1781 como a portuguesa
Lourenço Marques.
População atual: 1.200.000 habitantes.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2833
Natal, 5 de novembro de 2009

Não escrevo todos os dias, mas escrevo sempre. Preciso de silêncio, muito silêncio. Não consigo escrever com barulho. Ouço música quando o poema está finalizado. Depois leio – várias vezes – o poema em voz alta. É neste momento que percebo problemas na estrutura, se falta harmonia, se o ritmo está frágil, entre outras coisas. Observo que esse processo pode durar meses.
(Marize CASTRO, in Entrevista para Michelle Ferret)


LÁBIOS-ESPELHOS LÁBIOS-ESPELHOS
MARIZE CASTRO MARIZE CASTRO
LANÇAMENTO LANÇAMENTO
HOJE 18 E TRINTA HOJE
NO MIDI VAI MAL
SICILIANO


AFORISMO
José Craveirinha

(Moçambique)


Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam por-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

CONFISSÃO DO LATIFÚNDIO
D. Pedro Casaldáliga
[ cf. Barbaridades críticas, de Marcius Cortez ]

Tudo é relativo
menos Deus e a fome.
(Noemas 34)

Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.
Por onde passei,
plantei
a morte matada.
Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...
Por onde passei,
tenfo tudo em lei,
eu plantei o nada.


POEMA
Líria Porto
[ in Putas Resolutas ]

não queiras ser o único
o último
o primeiro
sê aquele de quem eu me lembre
todas as noites


DO SONHO
Henrique Pimenta
[ in Bar do Bardo ]

Dormindo nos seus olhos, sob efeito,
Acabo repentino numa queda,
Vou certo do mistério que me seda
Direto para os braços do seu leito.

Eu caio direitinho, pois, perfeito.
Eu caibo perfeitinho no que enreda.
As tramas cordiais são uma seda
De laços e de nós que há no seu peito.

Em rede me deserdo do deserto.
Há limo, leite, lótus no seu colo,
Há lírio, lodo, ludo onde me evolo...

Que venha ao meu encontro o não desperto.
Que o sonho seja à lente inconsciente
Efêmero e, portanto, permanente.


VERSÍCULO
Carlos Gurgel


permita-me
que o silêncio
e seus últimos avisos
declarem:

a terra com suas enormes serpentes
e com suas feridas e girassois
será alvo de cobiça
prlo escuro
que dos olhos do desconhecido
palpitam

assim sendo
o que se aconselha
é fruto de muito sono
e perdição.


O NOME DO SOL
Jairo Lima
[ in Bar & Cachaçaria Papo Furado ]

árvores, silêncio, montes, ventos
mastigam lentos os alvos panos da luz
como se, de incriados tempos,
a mesma canção, em renovado alento,
deitasse um verde imenso sob imenso azul

a canção da sexta te diz apenas um nome
que de tão exato, tão manso, tão sereno
só hoje o terás
pois este nome se colou com tal ardor às sílabas do tempo
que este dia não precisa de outro sol

só hoje, no mapa do teu corpo, se desenhou este fulgor intenso
e não são doces brisas, mas vândalos incêndios
que anunciam o teu és na aurora deste tempo
que terá um dia só

(estrela concebida entre uma e outra madrugada
a tua memória terá para sempre em suas retinas ofuscadas
este clamor tremendo
este teu nome de hoje
estas migalhas incandescentes
consubstanciando para sempre
o nome do teu nome
com o nome do mesmo sol).


Diretamente do Bar de Ferreirinha
Estudo mostra relação entre consumo e ataques cardíacos
SOBRE GORDURA, VINHO E SEXO


O Malmstain Institute, uma das mais importantes organizações europeias de estudos e pesquisas, acaba de divulgar o resultado de uma pesquisa, feita em vários países do mundo, que aferiu os hábitos alimentares, etílicos e sexuais das pessoas, e relacionou-os com a ocorrência de ataques cardíacos.

O estudo reuniu três temas que despertam grande interesse: gordura, vinho e sexo.

Com exclusividade pelo Bar de Ferreirinha, as conclusões seguem abaixo:

GORDURA
No Japão o povo consome pouca gordura e o índice de ataques cardíacos é menor do que na Inglaterra e nos EUA. Na França o consumo de gorduras é alto e, ainda assim, o índice de ataques cardíacos é menor do que na Inglaterra e nos EUA.

VINHO
Na Índia, bebe-se pouco vinho tinto, mas o índice de ataques cardíacos é menor do que na Inglaterra e nos EUA. Já na Espanha se bebe muito vinho tinto e o índice de ataques cardíacos é infinitamente menor do que na Inglaterra e nos EUA.

SEXO
Na Argélia, namora-se muito pouco e o índice de ataques cardíacos é menor do que na Inglaterra e nos EUA. Em compensação, no Brasil se transa muuuuuito e o índice de ataques cardíacos é menor do que na Inglaterra e nos EUA.

Depois de cruzados todos os dados, o estudo chegou à seguinte

CONCLUSÃO:
Beba, coma e trepe sem culpa, pois o que mata mesmo é falar inglês!


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ferreirinha e Nina Rizzi:
o Comendador & a Poeta
na festa de lançamento em Caicó do livro
organizado por
Roberto & Pituleira
e editado por Abimael Silva
para o Sebo Vermelho.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2832
Edição Especial

Natal, 4 de novembro de 2009

O fato é um aspecto secundário da realidade.
(Mario QUINTANA, in Caderno H)


VIAGEM À VILA NOVA DO PRÍNCIPE
Cinquenta anos depois
João da Mata Costa
(Prof. de Física da UFRN)

para Moacy e Edjane


Da Festa do Rosário, Bar do Ferreirinha, Personalidades, Amigos
e outras matérias

"Da Mata é o Físico João / Faz do Mister o Amor"
(Lula Pneus)

BAR DO FERREIRINHA 50

Em cinquenta anos a volta. Saí de Caicó com um ano de idade numa Festa do Rosário e volto cinquenta anos depois. Uma volta para a mãe-terra. Para o útero. Tudo é envolto num mar de significados para além do que posso escrever.

Encontro sem combinar com o meu querido tio José Paulino – Zé Baixinho, irmão da minha querida mãe. Encontro Zé Romão nos seus mais de oitenta anos. Chapeleiro antigo e amigo íntimo de papai morto precocemente.

Logo ao chegar ao Bar do Zeca Barrão encontro o famoso Bibica. Nosso candidato a governador. Quem não for babaca vota Bibica. Bibica acompanhado de um bode vende a rifa (mais uma) que sortearia o famoso animal-símbolo do sertão nordestino.

Bibica é querido de todos e está em toda parte. No outro dia Bibica está de paletó para cumprimentar seus eleitores e tirar fotos com os seus muitos admiradores.

O filho de Dinarte Mariz, o ex-reitor da UFRN Geraldo Queiroz, políticos e vereadores, professores e populares estão presentes na festa de lançamento do livro.

Outra grande figura que tive o prazer de conhecer foi o comediante Silva – cover do Chico Anysio. Artista que esteve entre os 10 melhores do Faustão. Simpático, sempre fazendo muganga com a boca e a língua.

O lançamento foi um sucesso. Livro-homenagem aos 50 anos do Bar do Ferreirinha, o mais tradicional de Caicó. Um livro-álbum de fotografias numa justa homenagem ao bar e seu proprietário, para ciúmes do Zeca Barrão, cujo bar vizinho-esquina faz encontro de cadeiras com o bar do Ferreirinha.

Estão de parabéns os autores do livro Roberto & Pituleira e o editor Abimael. São vendidos mais de uma centena de livros numa festa que durou o dia inteiro. Só interrompida para a passagem da procissão do Rosário. Animou a festa a Banda de Música Recreio Caicoense, seguida por uma animada roda de samba. Dei uma canja e dancei acompanhado da grande musa da festa, a bela atriz Nina Rizzi.

Ferreirinha e Anchieta, o primeiro cliente do bar, também autografaram o livro. Não faltou quase ninguém no lançamento-festa. Muito sentida foi a ausência do Moacy, prefaciador do livro.

Um grande abraço para o amigo Lula Pneus, com quem tive o privilégio de conversar pessoalmente, e recebi de presente um lindo poema cujo mote é a epígrafe desse artigo.

Parabéns ao Souza por nos mostrar seu acervo de fotos antigas de Caicó e seus habitantes ilustres.

O mestre de cerimônias da festa foi o grande comunicador Pituleira.

Para completar o dia-banquete de emoção e resgate, encontro na noite caicoense, a grande cantora Dodora e a amiga Edjane. É demais para o meu coração.

Em cada habitante um rastro. Na aspereza do ar, a rispidez da fala e o orgulho do seridoense. O presente grávido do passado nutre uma grande alegria de poder estar vivendo esse momento de grande riqueza biográfica em meio século de existência.

OUTRAS PERSONALIDADES

A casa do Passarinho Avelino

Avelino é um amigo de sempre. Fico em sua casa, que é como um coração – atelier- floresta – gaiola aberta de sonhos. Em cada canto uma obra de arte da Ave-Linho.

Um quadro abstrato é uma das últimas obras do artista. Quadro inspirado nas cercas de pedras caicoenses recebeu o título de "Priquito atravessado”.

Ali adiante, duas caixas de ovos pintados pelo artista-passarinho. São seixos rolados de um rio que flutua feito uma rosácea-cera, ou seria Papai Noel?

Maurílio – O guardador das Horas

Na sua casa-museu guarda o tempo o agrimensor Maurílio. São dezenas e dezenas de relógios antigos que adornavam as casas antigas e marcavam as horas sertanejas de um tempo que parece mais lento. Mecanismos acionados por cordas e emoldurados por belas esculturas em madeira. Na parede da casa já não cabe tantos relógios maravilhosos. Ali um outro relógio raro que acompanha um calendário. Um outro belo relógio funciona com pilhas e os dias são marcados por lâminas de aço que se sucedem.

Completa a Mauriliana uma bela coleção de imagens sacras e outros objetos religiosos. Vitrolas antigas que ainda tocam discos 78 rpm. Teodolitos. Espingardas. Baús. Lanternas antigas a gás e muito mais objetos fazem parte de uma belíssima coleção de um grande gentleman e cultor das artes Um homem que vive o presente cultuando o passado e as horas das Aves- Maria.

Agradeço a generosidade do Maurílio e sua querida esposa, irmã do nosso querido amigo Avelino, pela bela oportunidade de conhecer um pouco mais a rica cultura sertaneja.

Para completar, somos servidos de um bom café acompanhado do verdadeiro e único queijo de manteiga de Caicó.

Souza - O guardião da memória fotográfica

O ex-soldado Souza é colecionador de um rico acervo de fotografias de personalidades e outras pessoas da sociedade caicoense. São muitas fotos organizadas em pastas de sacos plásticos que precisam ser melhores organizadas e arquivadas.

Grande parcela da história de Caicó e seus protagonistas fazem parte do rico acervo coletados com muito amor pelo colecionador amador. Políticos, times de futebol e pessoas do povo figuram no acervo do Souza, que tive o privilégio de conhecer.

Tudo começou quando Souza, ausente de sua cidade por longos anos, presenciou num lixo algumas fotos suas. Esse fato triste levou Souza a recuperar essas fotos e iniciar a sua prestigiosa coleção, que resgata boa parte da história de Caicó desde o princípio do século XX. Muitas fotos foram copiadas de originais emprestados e outras foram resgatadas dos desvãos do tempo.

Sugeri ao simpático Souza que organizasse essas fotos numa publicação para a posteridade. O seu acervo daria um belo livro-álbum de fotografias de uma Caicó que precisa ser lembrada. Fotografias que contam uma belíssima história da grande civilização seridoense.

A Festa da Irmandade dos Negros do Rosário

No domingo 01 de Novembro de 2009 sai pelas ruas o cortejo da Rainha e Rei do Rosário acompanhado do seu séquito de damas e corte. Um negro segura um toldo para abrigar os reis do congo. A rainha desse ano é uma senhora de pele clara que deve estar pagando promessa.

Os negros vestidos de calças e camisas azul e branco acompanham o casal real. Em seguida a banda galantemente vestida toca para alegria dos moradores e apreciadores. Emocionado sigo o cortejo até a Igreja do Rosário, que espera a chegada dos reis para a grande celebração da missa das 10h. Fogos celebram o grande acontecimento. As primeiras cadeiras da bela Igrejinha do Rosário são reservadas para os negros que entram na igreja sob aplausos. Os negros portam lanças e dançam alegremente. A missa solene acontece acompanhada do belo hino da irmandade dos negros do Rosário.

No final da tarde toda a cidade aguarda para acompanhar ou saudar á grande procissão que segue novamente para a Igreja do Rosário onde será celebrada uma segunda missa, após a qual novo reinado será escolhido e o rei e rainha receberão as coroas e cetros, numa tradição que remonta ao século XVIII.

Nos dias que antecedem à grande festa dos Negros dos Rosário, eles saem pelas ruas e feira livre para angariar dinheiro e mantimentos.

Converso com seu Bonifácio, que participa da festa há 60 anos. O historiador Muirakytan Macedo, da UFRN/CERES de Caicó, registra tudo em sua câmera fotográfica. Esqueci a minha máquina e registro o que a emoção permite numa bela e grande manifestação da cultura popular brasileira.

Essa festa é uma das mais saudosas recordações da minha mãe. Em cinquenta anos volto à terra onde nasci e me batizei como quem volta pra casa. E fosse só por isso já merecia esse reencontro carregado da dor e alegria de poder estar vivendo um grande dia na história de minha vida.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cidades do Mundo que eu gostaria de conhecer (10):
Quito - Equador
El Panecillo e a Catedral
[ Foto: autoria desconhecida ]
Quito foi fundada em 6 de dezembro de 1534
por Sebastian Benalcázer
com o nome de San Francisco de Quito.
Desde 1978, Patrimônio Cultural da Humanidade.
- População estimada, hoje: 1.800.00 habitantes -


BALAIO PORRETA 1986
n° 2831
Natal, 3 de novembro de 2009

Calor, calor, calor. Quando o ar fica mais quente do que a pele, ganhamos uma nova sensibilidade para carícias invisíveis, como uma brisa fresca ou uma bebida gelada. // No alto verão, adoro a ambiguidade das caipirinhas e capiroskas. A fruta refresca, a bebida queima, a temperatura acalma.
(FUGU, in Fruit-de-la-Passion, desativado)


RITUAL
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

mais cedo
que de costume

acordo

e entre ciprestes
cumpro

o ritual da saudade

o pássaro
leva nas asas

o abraço e a prece

LABIRINTOS - II
Lou Vilela
[ in Nudez Poética ]


Entre um devaneio e outro enveredo por um labirinto de sensações. Percebo a proximidade do monstro fabuloso! Desesperadamente, tento encontrar o caminho, mas a cada passo o temido monstro se materializa. Sinto a sua respiração ofegante cada vez mais próxima... Em um lampejo de lucidez surge, no espelho, o reflexo. Enfim, a saída!


A JORGE GUINLE FILHO
Tanussi Cardoso
em memória
[ in Viagem em torno de, 2000 ]

O que acontecerá aos céus
quando se morre um artista?
Que silêncios, que gritos
Que deuses riscam os ventos
quando se morre um artista?
O que dizer aos filhos
Aos pássaros, ao poema
quando se morre um artista?
Que pintura tão linda
Que natureza tão vil
Que fala tão amarga
quando se morre um artista?
Noiteluzsomdiapasãoharmoniavendavalfuracão?
O que sobra da vida
quando se morre um artista?


POEMA de
Jovino Machado

[ in A Cigarra, nº 35. Santo André, junho 2000 ]

minhas mulheres não são amélias
são orquídeas
não são camélias

meus homens são coração
maiakovski torquato neto
itamar assumpção

minhas mulheres são fortes
virginia woolf clarice
thereza portes

meus homens são ilusão
drummond matisse joão
cores poesia e violão


À FRANCESA
Simão Pessoa
[ in Matou Bashô e foi ao cinema, 1992 ]

Vai ser só a cabecinha
explicou à Antonieta
ajeitando a guilhotina


DEFINIÇÕES ALOPRADAS

Clássico no Maraca
Grande jogo disputado no Pacaembu, em Belo Horizonte, por clubes do Pará e/ou do Piauí. No final de cada clássico, os 80 mil torcedores presentes costumam torcer pelo Íbis, de Pernambuco, que, em 2001, foi goleado pelo Jardim do Seridó Esporte Clube Social por 27 a zero.

Filme de Spielberg
Filme dos anos 20 do século passado, estrelado por Rodolfo Valentino e Marilyn Monroe, com a participação especial de José Lewgoy, cuja ação se passa em Caicó, RN, às margens do Rio Amazonas. Já a ação metafórica se passa em Olinda, na Paraíba do Norte, em 1930-1931.

Carnaval da Mangueira
Bloco de frevo, cujos componentes vibram com a Portela e a Mocidade Independente, quando desfilam em Cuiabá, capital da Califórnia, na Inglaterra do Sul. Seus ritmistas são ótimos dançarinos de rock. E costumam bailar ao som do xaxado-surreal Royal Cinema.

[ in Balaio n° 1463, 15 de janeiro de 2002 /revisado/ ]


[][][]

POSTAGEM 900
a partir do Balaio n° 1942
em 28 de janeiro de 2007

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Clique na imagem
para verouvir o trêiler de

Suplício de uma saudade

(Henry King, 1955)
Exibido nas principais cidades nordestinas já em 1956-57, o correto dramalhão Love is a many splendored thing fez o maior sucesso de público: tratava-se, ou melhor, trata-se de um verdadeiro representante do "cinema americano de lágrimas", com a morte do mocinho (William Holden) no fim. Em Natal, a partir de 1960, invariavelmente no Rio Grande, passou a ser reapresentado pelo menos uma vez por ano - e sempre no dia 2 de novembro. Explicação singela do sr. Oldemar, gerente da sala exibidora: "Hoje não é o Dia de Finados? De manhã, o pessoal vai chorar nos cemitérios; à tarde, ou à noite, aproveitando o embalo, vem chorar no cinema".


BALAIO PORRETA 1986
n° 2830
Natal, 2 de novembro de 2009

o pássaro afoito foi parar entre as patas (traseiras) da gata.
a gata ansiosa engoliu o pássaro afoito
: com pena e tudo.
(Mariza Lourenço, in Gatas, II)


POEMA
Nina Rizzi
[ in Ellenismos ]


podia cantar um parabéns ao contrário.
rejuvenescer o dia ido,
assoprar balões,
recolher e recolocar anéis.


não deixava a vela cair e acabar com a festa.

até olhava cordial menino lambuzar minha boca

com seu dedo de creme branco.


e como nada me deixasse feliz,

fosse qual o tempo verbal,


pego uma mochila de políticas pra mulheres,
uns sacos de vestidos, papéis, canetas
e vou dançar em caicó!


DOIS POEMAS de
Mercedes Lorenzo
[ in Cosmunicando ]

Memória

extrela
a luz
ainda viaja
inexorável.


Litterae

sacio
poemas
in éditos
em noites
impublicáveis.


TRÊS POEMAS de
Marco Justo

Me lambe amor.
Me lambe inteiro
em tua boca:
até não restar
nada mais
que um Homem.

***

É uma devassa
tua palavra quando queima
em minha língua.

***

Todos os
silêncios
são gatos.

[ in Opus. Rio, 1993 ]

ALMANAQUE

Raimundo Nonato, em Figuras e tradições do Nordeste (1958, p.18), em carta para o natalense Veríssimo de Melo, relaciona alguns remédios caseiros que merecem ser lembrados, seja por simples curiosidade, seja porque são frutos da mais pura sabedoria popular, como, por exemplo:


[]
Chá de lagartixa, para dor de garganta;
[]
Banha de urubu, para erisipela;
[]
Água de chocalho, para menino aprender a falar;
[]
Mistura de vinagre, cachaça e goma, para dor de barriga;
[]
Garapa de açúcar preto, para estancar o sangue;
[]
Pó de caroço de pião, para dor de cabeça;
[]
Café com pimenta malagueta, contra gripe;
[]
Chá de grilo, para menino ficar falador.

LANÇAMENTO NOTA MIL

Segundo as primeiras notícias do dia, o lançamento do livro sobre o Bar de Ferreirinha, ontem em Caicó, em plena Festa do Rosário, foi um sucesso total e absoluto.

domingo, 1 de novembro de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
Clique na imagem
para verouvir uma das sequências de
Contos da lua vaga
(Kenji Mizoguchi, 1953)
Entre a fábula, a poesia e a sensibilidade plástica, com apurado sentido narrativo, Mizoguchi constrói um verdadeiro canto cinematográfico. "Sua visão humanista do rude Japão feudal foca, sobretudo, o sofrimento feminino. Usa planos longos e curtos, e movimentos suaves de câmera, evitando com elegância os cortes por meio de dissoluções e poucos closes. Nos momentos de crise ou violência, os planos médios e os grandes planos criam empatia pelos personagens" (Ronald Bergan, in Guia ilustrado do Cinema). A ação dramática do filme se dá em pleno século XVI, durante a guerra civil no Japão, quando o artesão Genjuro e seu cunhado Tobei viajam com suas esposas para a capital da povíncia e lá vendem sua produção de cerâmica. O que vem a seguir torna o filme mais fascinante e misterioso. Uma jóia rara.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2829
Natal, 1 de novembro de 2009

Grandes filmes produzidos e/ou lançados em 1953:
1. Contos da lua vaga (Mizoguchi)
2. As férias do Sr. Hulot (Tati)
3. Viagem à Itália (Rossellini)
4. A roda da fortuna (Minnelli)
5. Era uma vez em Tóquio (Ozu)
6. Os boas vidas (Fellini)
7. Noites de circo (Bergman)
8. Velhas lendas tchecas (Trnka), animação
9. Os corruptos (Lang)
10. O diabo riu por último (Huston)
11. Os homens preferem as louras (Hawks)
12. O alucinado (Buñuel)


POEMA de
Chico Doido de Caicó

A bunda de Filomena
Com suas europas e reentrâncias
É a Paris de meus espantos fluviais
Gostosa, difícil e boa demais.


JÁ COMEÇOU, EM CAICÓ, A FESTA
do lançamento do livro sobre o Bar de Ferreirinha.
Clique aqui para acompanhar o evento.
Atualizações:
Bibica já se encontra no Bar de Ferreirinha (11:25h).
O Bloco do Magão, na festa, esquenta os metais (11:57h).
O blogue de Roberto & Pituleira informa que em Caicó
o calor está de torrar o quengo (12:56h).
Nina Rizzi, neste momento, encontra-se no
Bar do Ferreirinha, "causando furor" (14:36h).
Informação de última hora:
mais de 100 exemplares do livro
sobre o buteco do Ferreirinha já foram vendidos (15:15h).


Diretamente do Além
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM
CHICO DOIDO DE CAICÓ

E aí, Chico véio de guerra, você continua antenado espiritualmente com as coisas e a gente do Seridó?

Demais, seu minino, demais. Fico todo arripiado só de pensar em suas mulheres... Cumaéquiéisso? Sei explicar não. Nem mesmo o meu amigo, o santo Chiquim de Assis, sabe explicar com todas as letras de sua filosofia paidégua. Mas, às vezes, as coisas se misturam. Nem me lembro direito quando bati os ossos. Sabe, o tempo aqui é - como direi? - atemporal. Isso... atemporal. Sabe, a Maria Antonieta Pons?, será que a champrei de verdade ou apenas em pensamento? Lembro-me de ter champrado, como se ainda estivesse vivo, uma bela moreninha do Cai Pedaço, além de várias outras. Mas aquela moreninha, ah! Pense numa dona gostosa. Com ela fiz até tulipa roxa, viu? Foi demais, demais.

Mais tarde, questão de minutos, quero saber tudo sobre o que é essa tal de "tulipa roxa". Mas antes me fale sobre a atual política do nosso Rio Grande. É possível? Você conhece ou conheceu Bibica, assíduo frequentador do Bar de Ferreirinha, que hoje, por sinal está em festa com o lançamento do livro-álbum organizado por Pituleira e Roberto Guarda?

Pois é, seu minino, mesmo desmaterializado acompanho, na medida de minhas possibilidades neblunosas, a política e a politicagem do meu Estado. E o único nome caralhudo que surgiu nos últimos anos é o de Bibica, rifista [Nota: empresário de rifas] juramentado, um nome que é gente da gente, caba dos bons, que não se mete em mentiraiadas, que não tem rabo preso com ninguém, que não é rabo de palha imposto pelos ditadores de antigamente, e que não fica borboleteando por aí feito dondoca que se mete a besta. É o que posso sentir daqui do meu Plano Astral 6969/69. Se vivo fosse - pode acreditar -apoiaria com a força da minha ideia a campanha de BIBICA PARA GOVERNADOR do Estado. Do Além, tô com ele POR UM VOTO SEM PUDOR, POR UM VOTO COM PRAZER. Ele não é desses políticos que não passam de passarinhos que, ao se aproximarem de morcegos, terminam dormindo de cabeça para baixo. Bibica é forte, é sinônimo de sorte, sim senhor: jamais dormirá feito morcego. Tô com ele e não abro de jeito nenhum, nem que a vaca vire pelo avesso. BIBICA, AGORA E SEMPRE!

Mudando de assunto - e esclarecido seu apoio sobrenatural a Bibica -, o que vem a ser exatamente "tulipa roxa"?

Seu minino, é uma história de muitas léguas... mas não é nenhum bicho de treze cabeças. Imagine a posição 69 do cama-sutra. Maginou? Pois é diferente, viu? Pra começo de conversa, convém um bom banho de cacimba, mas pode ser de pote mesmo. Fica-se um tempão com a parceira, olho no olho, de olho na alma dela, de olho nos sentimentos dela, com uma musiquinha suave ao fundo. Depois, derrama-se lentamente um litro de vinho tinto na pessoa amada. E lambe-se. E bebe-se. E lambe-se. E bebe-se. E lambe-se. É um lambe-lambe pra nenhum retratista botar defeito. Em seguida, com sofreguidão, encaixa-se na companheira de acordo com a posição 96 do Código Erótico da Gestualidade Tapuio-Seridoense Trepidante. O quê? Não conhece essa posição? É uma mistura das posições 69 e 33 do cama-sutra, só que com mais delicaza, e também com mais firmeza, viu? Depois vem o bate-rebate, o bole-rebola, o tudo-estudo. Enfim, neste momento, você não sabe se você é ela, ou se ela é você: o gozo é total. Convém, por parte dos dois, sussurrar palavras docemente escandalosas, docemente pornográficas. Uma "tulipa roxa" bem feita dura cerca de 69 minutos. Ai, que saudades do meu tempo de chumbreguezas... E, agora, por favor, preciso voltar a "conversar" com Chiquim de Assis.

sábado, 31 de outubro de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50

Clique na imagem de
Ava Gardner
para verouvir o trêiler de
As neves de Kilimandjaro
(Henry King, 1952)
Quando o vi em Caicó, em 1955, a África já não era mais a África de Tarzan, mas ainda era um continente moldado pelas lentes equivocadas de Hollywood, mesmo que baseadas em Ernst Hemingway, mesmo que me revelassem a música de Cole Porter e a técnica pianística de Benny Carter, ou mesmo que me mostrassem - mais uma vez - a beleza de Ava Gardner. Claro, tudo aquilo, para mim e para os caicoenses em geral, era muito exótico, a começar pelo drama do escritor interpretado por Gregory Peck. A África é a África: riquíssima, multicultural, plurissocial, bela, contagiante, terra-mãe da humanidade. E Hollywood é Hollywood. Com filtro ou sem filtro.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2828
Natal, 31 de outubro de 2009

Caicó não é uma cidade, é uma pátria.
(François Silvestre de Alencar)


POEMA de
Chico Doido de Caicó

Muitos são doutores em astrologia
Alguns são doutores em politicagem
Outros são doutores em teologia
Vários são doutores em viadagem
Chico Doido é doutor em bucetologia
Os demais são doutores em sacanagem.

Nota:
Amanhã, dia do lançamento do livro-álbum sobre
os 50 anos do Bar de Ferreirinha,

entrevista exclusica com Chico Doido de Caicó,
diretamente do Além
.


EXTREMOS
Nina Rizzi
[ in Putas Resolutas, em 10/07/2008 ]

I- o machista

ela, que é tão sensível,
não sabe do terrível odor de suas entranhas,
que não suporto chupá-la
e odeio ser de companhia?

é como todas
: basta um tapa
uma estocada mais fundo
pra impregnar feito carrapato

II- a femista

ele, que é tão sabichão,
não sabe do seu grotesco suor,
do bafo, do pinto mole,
e que não quero sua companhia?

é como todos
: basta um olhar,
uma língua nos lábios ou mais fundo
pra achar que já sou sua


CANTARES X
Jeanne Araújo


No canto do mundo
Há um doce estranhamento.
Minha pouca vestimenta
É uma grande ameaça
Para quem não fala
Minha estranha língua.
Quem ousa entrar
Na casa dos meus ontens
Sem nojo do meu grito?
Estou à beira de uma palavra
E nada salva
Esta última chama acesa.



AMOR AMORA
Nei Leandro de Castro
[ in Era uma vez Eros, 1993 ]

Me lembro que trazias na boca
o gosto e a cor de uma fruta selvagem:
amor? amora?
Me lembro de tua calcinha
suavemente encharcada
que deixava teu leite
nos meus dedos.
Me lembro do teu beijo
com o exato gosto da amora
e me lembro que eu dizia aos teus ouvidos
todas as palavras que os deuses
permitem a um amante dizer a outro amante
na manchada planície de uma cama.
Me lembro que te lambia,
te mordia, te feria. E não cedias.


LÁBIOS-ESPELHOS LÁBIOS-ESPELHOS
MARIZE CASTRO MARIZE CASTRO
LANÇAMENTO LANÇAMENTO
DIA 5 SICILIANO DIA 5
NO MIDI VAI MAL
18 E TRINTA


PELEJA
Hercília Fernandes
[ in HF Diante do Espelho ]

estou farta de tanta peleja
de tanta manobra à fria mesa
de tanta sobra em falta de gentileza
de tanta humanidade...


ESFINGE
Marcelo Novaes
[ in Prosas Poéticas ]

Desde quando é ouvinte, nem sei. Nem sei desde quando. Mas ouve. E nem é mais o córrego que corre. Os homens vão ao bar quebrar os cascos. Não bebem mais. Você, com seu copo e seu espaço, continua a ouvi-los. Nem sei por que. Mas ouve. E não desiste. Teu ouvido é tato: o mundo, Esfinge.


O BALAIO ADVERTE:
José Agripino Maia, Micarla de Souza e Rosalba Ciarlini
fazem mal à saúde política do Rio Grande do Norte.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mulher de Cabo Verde
Foto:
JMFontecha


BALAIO PORRETA 1986
n° 2827
Natal, 30 de outubro de 2009

Faz-me um favor:
desliga a música
hoje
quero escutar os meus sonhos!
(Valda COLARES, in Canto da Boca)


VOCÊ: BRASIL
Jorge Barbosa
(Cabo Verde, 1902-1971)

Eu gosto de você, Brasil,

porque você é parecido com a minha terra.

Eu bem sei que você é um mundão

e que a minha terra são

dez ilhas perdidas no Atlântico,

sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:

A maravilha do Rio de Janeiro,

São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.

Ao passo que as daqui

Não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,

mas Você é parecido com a minha terra.


E o seu povo que se parece com o meu,

que todos eles vieram de escravos

com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.

E o seu falar português que se parece com o nosso falar,

ambos cheios de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflete

A alma da sua gente simples,


Ambas cristãs e supersticiosas,

sortindo ainda saudades antigas

dos sertões africanos,

compreendendo uma poesia natural,

que ninguém lhes disse,

e sabendo uma filosofia sem erudição,

que ninguém lhes ensinou.

[ Clique aqui para ler o poema na íntegra, e outros poemas do Autor ]



OUTROS APELIDOS DE CAICOENSES
lembrados por Pituleira

Cu de Zé Gomes, Zeca Barrão, Pintei e Jurumbeiro,
Priquito de Jia, Tabaco Leso e Passassebo de Resguarde,
Nego Pica, Maria Lavanca, Nega Chia , Coruja e Bico de Luz,
Labougeiro, Zé do Óleo, Tigre Negro, Atestado, Cabeça de Alho,
Gata Maga, Boca de Vaca, Cavalo 13, Jumenta de Badalo, Carrossel.
E Airton Prikitim.

Lembramos, de igual modo, que domingo, 1° de novembro, é dia de festa no Bar de Ferreirinha, com o lançamento do livro organizado por Roberto Fontes & Pituleira em homenagem aos 50 anos do badalado buteco caicoense. No próprio bar, a partir de 10h. A blogueira Nina Rizzi garantiu presença. Vai ser festão.
Para completar, sob o sol de outubro, como parte integrante da Festa do Rosário, ocorre uma Feira do Livro do Seridó.