Domingo, 5 de Julho de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
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uma das sequências de
Madre Joana dos Anjos
(Jerzy Kawalerowicz, 1961)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2713
Rio, 5 de julho de 2009

Nunca, antes ou mesmo depois, o tema da possessão histérico-demoníaca adquiriu tanta força plástica e místico-religiosa na história do cinema quanto no admirável Madre Joana dos Anjos, apaixonante adaptação de um caso histórico ocorrido na França em pleno séc. XVII, num convento de freiras. A fotografia de Jerzy Wojcik é excepcional, como excepcionais são as interpretações de Lucyna Winnicka e Mieczyslaw Voit, e a direção de Jerzy Kawalerowicz: provavelmente (em nosso entendimento), o melhor filme polonês realizado até hoje. [Há cópia disponível em dvd.]


DOMINGO
Mário Ivo Cavalcanti
[ in Cidade dos Reis ]

Me empresta um silêncio pra passear. Me empresta um ruído estereofônico. À direita do meu ombro – velocidade e asfalto. Deixa a esquerda, livre, pro ciciar de pássaros, pro latido dos cães, pro chute na bola. À minha frente deixa somente teus olhos, um lampejo cristalino bulindo, fazendo cócegas, fagulhando. Às minhas costas, às minhas costas – não, não deixa nada; deixa apenas sua sombra marcando para sempre a minha parede e as fotos ancestrais.

Sobre mim deita o silêncio, nosso silêncio, a nudez das palavras, dos corpos.

Mas, quando sair, não esquece de trancar a porta, tá? Não quero que a ilusão saia, nem que eu saia por aí, sozinho, perdido nesse domingo sem fim.



PUTAPERFUME
Erica Maria
[ in Íntimo & Poético ]

De dia sou Maria, de noite sou vadia.
De dia lavanda, de noite putaperfume.
De dia vestido, de noite roupa nenhuma.
De dia sou Maria. De noite estou de quatro.
Sem buracos, com a alma cheia de sensações.
De dia sou Maria, a vadia eu escondo.
De noite sou quem quero ser.
Maria.
Vadia.
Puta de cabelo emaranhado, com dedos de macho na nuca plantados.

De dia a Maria, vadia.
De noite a vadia, Maria.

Planto estrelas no dia, faço a noite descer.
Nela sou quem quero ser.


36 GRANDES FILMES DOS ANOS 60
Moacy Cirne

1. A aventura (Antonioni, 1960)
2. Persona (Bergman, 1966)
3. Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961)
4. Eclipse (Antonioni, 1962)
5. Crônica de Ana Madalena Bach (Straub & Huillet, 1967)
6. Andrei Rublev (Tarkóvski, 1966)
7. 2001: uma odisséia no espaço (Kubrick, 1968)
8. Viver a vida (Godard, 1962)
9. Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
10. Madre Joana dos Anjos (Kawalerowicz, 1961)
11. Vagas estrelas da Ursa (Visconti, 1963)
12. Era uma vez no Oeste (Leone, 1968)
13. Simão do Deserto (Buñuel, 1966)
14. Falstaff (Welles, 1966)
15. O leopardo (Visconti, 1963)
16. O homem que matou o facínora (Ford, 1962)
17. Othon (Straub & Huillet, 1969)
18. Pierrot le fou (Godard, 1965)
19. Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)
20. Blow-up (Antonioni, 1966)
21. Faces (Cassavetes, 1968)
22. Oito e meio (Fellini, 1963)
23. A grande testemunha (Bresson, 1966)
24. Jules et Jim (Truffaut, 1962)
25. Minha noite com ela (Rohmer, 1969)
26. O deserto vermelho (Antonioni, 1964)
27. O processo (Welles, 1962)
28. Memórias do subdesebvolvimento (Alea, 1968)
29. Três homens em conflito (Leone, 1966)
30. Amor, sublime amor (Wise & Robbins, 1961)
31. Rocco e seus irmãos (Visconti, 196o)
32. O evangelho segundo Mateus (Pasolini, 1964)
33. O processo de Joana d'Arc (Bresson, 1962)
34. O desprezo (Godard, 1963)
35. Diaries, notes and sketches (Mekas, 1969)
36. Dois destinos (Zurlini, 1962)

Atenção:
Lista sujeita a revisões,
chuvas, trovoadas e cajaranas.
A rigor, a partir do 13° ou 14°,
os filmes praticamente se equivalem
em termos qualitativos.
Dentro de duas ou três semanas,
a ordem já poderá ser outra.
Assim como, dentro de três ou quatro semanas, poderão figurar, substituindo alguns dos últimos, os filmes A Noite (Antonioni, 1960), O silêncio (Bergman, 1962), Muriel (Resnais, 1962), O anjo exterminador (Buñuel, 1962), Porto das Caixas (Paulo César Saraceni, 1962), O criado (Losey, 1963), Gertrud (Dreyer, 1964), Dr. Fantástico (Kubrick, 1964), Por alguns dólares a mais (Leone, 1965), Duas ou três coisas que sei dela (Godard, 1966), A religiosa (Rivete, 1966), Terra em transe (Glauber Rocha, 1967), Week-end (Godard, 1967), One plus one (Godard, 1968), La hora de los hornos (Solanas, 1968), A cor da romã (Paradjanov, 1969) ou o curta La jetée (Marker, 1963).

Sábado, 4 de Julho de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
Clique na imagem
de
Cantinflas
- Mario Moreno, 1911-1993 -
[pelo cartunista peruano Roberto Castro]
para verouvir
uma cena de
O bombeiro atômico
(Miguel M. Delgado, 1950)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2712
Rio, 4 de julho de 2009

Tarzan, Durango Kid, Rocky Lane, Hopalong Cassidy, O Gordo & O Magro, Burt Lancaster, James Mason, Glenn Ford, Esther Williams, Ava Gardner, Rita Hayworth, Maria Antonieta Pons, Ninon Sevilha, os filmes de capa & espada, os policiais B, os seriados e... Cantinflas: todos faziam o maior sucesso entre os marmanjos que frequentavam o cinema de Seu Clóvis. O comediante mexicano, com suas calças caídas, seus personagens pobretões, suas falas muitas vezes sem o menor sentido, seu jeito desengonçado, era, então, sucesso absoluto, apesar do desprezo da crítica especializada por seus maravilhosos filmes, mesmo quando ingênuos. E pelo menos três títulos de sua filmografia nos chamaram a atenção na primeira metade dos anos 50, em Caicó: Vamos voar, moço! (1947), O bombeiro atômico (1950) e Se eu fosse deputado (1951).


NIETZSCHIANAS
Hercília Fernandes
[ in HF Diante do Espelho ]

Acham-me triste...

dizem haver certo pessimismo

em minhas curvas e linhas.

Mas desde que Nietzsche,

em mim, chorou

não há lágrimas em minha

escrivaninha

há dor transmutada em

beleza.


ESQUECER
Mariana Botelho
[ in Suave Coisa ]

mudar a voz
de um verso

guardar por um tempo
o açúcar

o sapato
pra sempre

morrer lentamente
no olho claro
da memória

Fiquei por tantos anos vivendo histórias das minhas divas no cinema, que passei a desconfiar de que meus homens também dormiam com Gilda.

A neurose do ciúme acabou com todos os meus relacionamentos. Foram oito casamentos ao todo. Todos destruídos por brigas, discussões e ciúme. Fui até acusada de levar pra cama — eu mesma — outras mulheres.

Não posso negar que em minhas fantasias isso, de fato, acontecia. Tempo perdido.

Hoje, prefiro viver ao som de As time goes bye e dormir, todos os dias, ao lado de Humphrey Bogart.

Minha vida acontece no escuro, sem lanterninhas.


Diretamente do
Bar de Ferreirinha,
em Caicó

O BÊBADO E A DAMA DE PRETO

Começou a tocar uma música.

Um bêbado levantou-se cambaleando e dirigiu-se a uma senhora de preto e pediu:
- Madame, me dá o prazer dessa dança?
- Não, por quatro motivos: primeiro, o senhor está bêbado! Segundo, isto é um velório! Terceiro, não se dança o Pai Nosso! E quarto porque 'Madame' é a puta que o pariu! Eu sou o padre!


Estórias de mesa de bar


Arakén, Nelhão e Pituleira, frequentadores do Bar de Ferreirinha, foram contemporâneos no CDS [Colegio Diocesano Seridoense, antigo GDS].
E sacanearam muito os professores nas aulas.
Hoje, têm filhos em idade escolar, alguns até já têm filhos casados e nutrem a expectativa de brincar com os futuros netinhos.
Lógico que não recomendaram aos filhos e nem recomendarão aos netos as presepadas dos tempos de estudantes, como esta, em plena aula de biologia.
A professora explicava:
- A hiena é um animal que vive no centro da África, é necrófaga, reproduz-se uma vez ao ano e emite uma vocalização similar ao som do homem ao rir. Entenderam? Arakén, entendeu a explicação?
- Sim, professora: a hiena é um animal que vive no centro da Afríca, é necrófoga, faz amor uma vez ao ano e emite uma vocalização similar ao som do homem quando ri.
- Muito bem. E você, Nelhão, como é que entendeu essa história?
Nelhão:
- A hiena vive longe, come carne podre, transa uma vez ao ano e ri como o homem.
A professora achou que a explicação estava mais ou menos. Dava pra ficar na média.
- E você, Pituleira?
- Taí um negócio que não entendo. A hiena vive longe pra caralho, come merda, só trepa de ano em ano e ainda ri. Ri de quê, professora?
Tirou zero!

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Analu Campos
no auto
Jesus de Natal
(Moacy Cirne, 2005),
com direção de Paulo Jorge Dumaresq
e música de Mirabô Dantas


BALAIO PORRETA 1986
n° 2711
Rio, 3 de julho de 2009


Do ponto de vista da história dos evangelhos como documentos, está claro que cada um deles foi escrito por um único autor e pretendia ser uma unidade em si mesmo. Quem eram esses autores - "Mateus", "Marcos", "Lucas" e "João"? Ninguém sabe. A tradição da Igreja tentou veiculá-los direta ou indiretamente com os doze discípulos originais, mas não há provas reais para sustentar essa visão. Esses nomes eram comuns na época. Além do mais, nenhum dos evangelhos traz menção ao nome do autor no próprio texto: são todos essencialmente anônimos.
(John B. GABEL & Charles B. WHEELER. A Bíblia como literatura, 1990)


O LIVRO DOS LIVROS
(ST, 2)

O nascimento de Aijesus da Cruz

E o Coral do Seridó,
constituído por João, Marcos, Mateus e Lucas,
em ritmo de baião canadense,
cantou para os povos da manhã:

E Maria Maria se fez grávida.
Seria por encantamento?
Seria por deslumbramento?
Zé da Carpintaria dizia que não.
Sua prima Isabel dizia que sim.
E sua mãe Santana de Santana apenas sorria.
Zé da Carpintaria, embora desconfiado,
casou-se com Maria Maria
na Matriz de São José.
Eliene Cantora e Romário Poeta seus padrinhos foram.
E os noivos na Passagem das Traíras
se aconchegaram.
Era um casebere, mas rico palacete parecia
aos seus olhos plenos de fé e poesia.
E numa suave e bela noitestrelã
o Altíssimo apareceu em sonho para a jovem
e um sussurro Maria Maria ouviu:
"O filho que carregas em teu ventre abençoado
será a glória maior da Humanidade,
que, mais do que nunca, precisa de um Salvador".
No dia seguinte, assustada, Maria Maria
contou o seu sonho para o marido e
cantou com fé para que o Altíssimo a sentisse:
"Navego ao amanhecer pelo meu corpo -
às vezes duvido do poder do pensamento
e, tal qual pássaro amarelo,
duvido do azul do céu, do brilho das estrelas,
do reflexo do sol, do raio e da luz"(¹).
E mudando de toada, Maria Maria continuou cantando:
"Nascer para a vida
Com toda a sua lida
É uma coisa gloriosa
Por demais radiante.
E se uma rosa é uma rosa
A nossa fé é brilhante.
Pois a criança é esperança
Para um mundo melhor
Que se faz bonança
Para um mundo maior.
Assim sendo, sendo assim,
A fé que nos ilumina
É vida, é paz, e nos fascina.
A criança que vai nascer e renascer
Com ternura e alegria nos fará crescer.
A minha alma engrandece o Senhor
E meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador"(²).
E a notícia se espalhou por todo o o Seridó:
uma criança especial iria nascer.
Os pobres gostaram da ideia; os fazendeiros, nem tanto.
Houve mesmo um deles, Herodes do Mau Pranto,
que debochou da possível macheza de Zé da Carpintaria.
E os meses se passaram.
E Maria Maria, buchuda(³), mais crescia, mais crescia.
Fora um ano sem inverno: vidas secas em terras secas.
Mas o casal não se desesperava.
Um cometa surgiu no céu, e mais e mais se aproximava
das terras seridoenses.
Era o mês de dezembro, noite plena, luar do sertão.
E na Passagem das Traíras
mais um seridoense nasceu para a vida.
Aijesus da Cruz passou a ser o seu nome.
Nome de cabra macho, nome de cabra valentão.
E logologo o mijo da criança(ª) foi providenciado.
De Caicó, Ferreirinha apareceu com duas garrafas de cachaça.
De Jardim, Chico de Assis apresentou-se com três litros de vinho.
De São José, Romário Poeta trouxe bastante cajarana.
Os três eram verdadeiros reis: reis da amizade e da boa vontade.
E o cometa mais e mais no firmamento brilhava.

Próximo capítulo:
De Aijesus da Cruz a Jesus Cristão da Cruz

(¹) Mais uma vez é supreendente como a oração de Maria Maria encontra eco, séculos depois, na poesia de Maria José Gomes, de Currais Novos, não muito distante de São José e da Passagem das Traíras.
(2) No ano 2005 da Era Comum, na Cidade dos Reys, um auto natalino aproveitaria, sob a direção de Paulo Jorge Dumaresq, a cantoria da jovem seridoense, aqui reproduzida.
(³) Buchuda : Grávida.
(ª) Mijo da criança : Comemoração etílica em louvor do recém-nascido, reunindo os pais, parentes e amigos.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

[ Clique no texto de Fábio François para verouvir uma surpresa, de 1975 ]


Caicó
FERREIRINHA, BAR E BLOGUE

Visitar a cidade seridoense e não conhecer o Bar de Ferreirinha - aberto em 1959 - é muito pior do que ir a Roma e não visitar a Fonte da Anitona (cf. A doce vida, de Fellini). Ao lado do Mercado Público de Caicó, o Bar de Ferreirinha, para comemorar seus 50 anos de existência etílica - lançou um blogue, sob a direção dos jornalistas Pituleira e Roberto Fontes, além dos colaboradores Pantera de Zé Gentil, Neto de Julinda, Rainel Bocão, Airton Prikitim, Zé Boré e outros, exatamente com o nome que consagrou o famoso estabelecimento: Bar de Ferreirinha. Humor, conversa fiada, notícias da cidade, política, cultura sertaneja, e assim por diante. A seguir, alguns exemplos extraídos do blogue:

MARIDO VAIDOOOOOOOOOSO
O cara vaidoso compra um sapato novo.
Chega em casa e fica andando pra lá e pra cá e nada da mulher perceber sua nova aquisição.
Para chamar a atenção ele resolve tirar toda roupa.
Completamente nu, aparece novamente andando pra lá e pra cá. A mulher finalmente pergunta:
- Ficou doido? O que você faz andando pra lá e pra cá, com esse pau mole pendurado?
O marido explica:
- É que ele está olhando para o meu sapato novo.
E ela retruca:
- Por que você não comprou um chapéu?

REMÉDIO CASEIRO
Um conterrâneo, frequentador do Bar de Ferreirinha, foi a Dr. Gerson Feitosa (in memorian) fazer exames de rotina, porque estava se sentindo meio depressivo.
Depois de ver o histórico do paciente, Dr. Gerson pergunta:
- Fuma?
- Pouco.
- Você tem que parar de fumar.
- Bebe?
- Pouco.
- Você tem que parar de beber.
- Sexo?
- Pouco.
- Ah, você tem que fazer muito sexo, pois vai lhe ajudar a melhorar muito.
Ele então vai para casa e conta para a sua mulher o que o médico lhe disse e, imediatamente, vai tomar um banho. A mulher, esperançosa, se enfeita, se perfuma, põe seu melhor baby-doll e fica na espera. Ele sai do banho, começa a se vestir, a se perfumar e a mulher, surpresa, pergunta:
- Aonde é que você vai?
- Você não ouviu o que o médico me disse?
- Sim, mas aqui estou eu prontinha para você.
Ele responde:
- Ahh, lá vem você de novo com essa mania de remédio caseiro!!!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009



Cartões postais do início do século passado

Atenção -
A pedido de Chico Doido de Caicó
(em mensagem enviada de seu Plano Astral 69/69)
o Balaio revela o "mapa do tesouro",
com 2375 reproduções de cartões eróticos antigos:
o saite
Naughty Ladies


BALAIO PORRETA 1986
n° 2709
Rio, 1 de julho de 2009


De José Mindlin, bibliófilo, negando-se a apontar seus livros preferidos: "Acontece que os livros são muito ciumentos. Se eu falar de alguns que goste mais, terei problemas com os outros".
(Ada CAPERUTO. Mais de três quilômetros de livros,
in
Abigraf, dez./2007)


AOS IMIGRANTES
Lara de Lemos
[ in Dividendos do tempo, 1995 ]

Meus mortos estão guardados
em mim mesma.
Por isso não os procuro
em sepulturas.

Encontro-os
no labirinto dos sonhos
em longas noites
escuras.

COMPOSIÇÃO CASUAL
Lau Siqueira
[ in Texto sentido, 2007 ]

I
no mármore da mesa
dois livros
um pote de cerâmica
cajus maduros e um
esplendor de orquídea

II
estirando
espinhos para o mundo
um cacto resiste

DOIS POEMAS de
R. Leontino Filho
[ in Sagrações ao meio, 1993 ]

o corpo ferido
atravessa sofrimentos
uma dor plural
no entanto há fumaça
viagem - pouso das mãos

[]

vampirescamente
este desatino nu
trouxe-te a mim

HONDURAS: A LÓGICA DO GOLPE
Flávio Aguiar
[ in CartaMaior ]

Não sei o que foi pior: ler sobre o golpe em Honduras, ou ler, nas seções de cartas da Folha de S. Paulo (deve haver em outros jornais também) na internete, leitores brasileiros justificando o golpe. Os argumentos centrais eram os mesmos de 1964 no Brasil: o presidente ia violar a Constituição, ia implantar uma ditadura de esquerda (pra esses leitores, ditadura de direita pode), ia virar um novo Hugo Chavez, ia, ia, ia. Só ia. Fato, nenhum. Ainda, de quebra, mais uma acusação, desta vez contra o governo brasileiro, que teria aplicado dois pesos e duas medidas ao não condenar a eleição no Irã e ao condenar o golpe em Honduras, como “mais uma prova” do “esquerdismo” da política externa brasileira.
[ Clique aqui para ler o artigo na íntegra ]


E PARA ENCERRAR A SÉRIE DE CARTÕES POSTAIS...

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Galope

Meu coração
é um cavalo louco

sangrando como o sol
atrás das colinas.

Foto & Poema:
Sônia Brandão
(in Pássaro Impossível)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2708
Rio, 20 de junho de 2009


Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obtusidade dos que amam, dos que cegam de ciúmes,
dos que sentem falta e saudade.

(Antônio MARIA, 12/9/1959, in O jornal de Antônio Maria, 1968)


UNIVERSO
Juan Ramón Jiménez
Trad. Manuel Bandeira
[ in Poemas traduzidos, 1956 ]

Teu corpo: ciúmes do céu.
Minhalma: ciúmes do mar.
(Pensa minhalma outro céu.
Teu corpo sonha outro mar.)


SEM CERIMÔNIA
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

ele me quis - entreguei-me
ofereci-me em bandeja

cheirou-me lambeu-me
partiu-me em mil pedaços
e sem usar guardanapo
comeu-me

deixou o resto
às baratas

: os ratos tiram proveito


MUDA
Ada Lima
[ in Menina Gauche ]

Não sei falar, por isso ecrevo.
Mas estou desaprendendo a escrever.


TEXTO
Mario Cezar
[ in Coivara ]

a verdade
é o olho âmbar

que te abriga

AURORAS DE TEMPOS ANTIGOS
Assim eram os cartões eróticos



ENQUANTO ISSO, em Honduras, o golpismo militaresco tomou conta do país. E a democracia foi para o brejo, ou para coisa pior. Aqueles que viveram (e sentiram no corpo, no coração e na cabeça) o terror de 1964 no Brasil sabem muito bem o que significa na carne um golpe contra as instituições. Por mais burguesas que elas possam ser.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Imagem de
Nossa Senhora da Esperança de Triana
(Sevilha, Espanha)
Padroeira dos ciganos e dos homossexuais

Foto:
Javier Tortosa


BALAIO PORRETA 1986
n° 2707
Rio, 29 de junho de 2009


Não sabemos quem escreveu os evangelhos. Quando apareceram, eles circularam anonimamente, e só mais tarde foram atribuídos a figuras importantes da Igreja primitiva. Os autores eram cristãos judeus, que ... redatores competentes, editaram materiais
anteriores.

(Karen ARMSTRONG. A Bíblia - uma biografia, 2007)


O LIVRO DOS LIVROS

SEGUNDO TESTAMENTO

1.
O livro de Maria Maria

E o Coral do Seridó,
constituído por Lucas, Mateus, João e Marcos,
em ritmo de xote marroquino,
cantou para os povos da madrugada:

Em São José, no sítio Caatinga Grande,
há um casal humilde e trabalhador -
Joaquim Branco, o marido; Santana de Santana, a mulher.
Os dois teem uma filha mui formosa;
Maria Maria é o seu nome.
E se Joaquim é vaqueiro e Santana doceira é,
Maria Maria, aos 16 anos, já é bordadeira das boas,
com seus jasmins, girassois e querubins,
com seus cajás, bogaris e maracujás.
E Maria Maria, morenice moreneza,
foi prometida em casamento a Zé da Carpintaria,
cara honesto, esforçado e caladão,
um verdadeiro galado(¹) do sertão.
Mas a jovem, donzela e recatada,
depois de suas tarefas domésticas,
gostava de caminhar. E caminhava.
E numa dessas caminhadas pelo sítio,
na direção da Passagem das Traíras,
sozinha, com seus sonhos e sua morenitude,
um rapaz esbelto e boa pinta encontrou.
Ligeiramente agalegado, com roupas brancas e douradas,
logo se apresentou:
"Ave, cheia de graça! Eu sou Gabriel Trovador".
Sua cara de anjo tanta confiança inspirava
que a jovem Maria Maria segui-lo resolveu.
E por duas horas os dois juntos ficaram.
E os dois riam e os dois se olhavam.
E os dois se doçuravam.
E Gabriel Trovador, por fim, lhe disse:
"És uma jovem tão maravilhosa e tão envolvente
que dentro de nove meses serás mãe de um ser especial".
"Como assim?", espantou-se Maria Maria,
"Ainda não me casei".
"Não importa", falou Gabriel Trovador,
"o pai da criança é um espírito também especial".
"Preciso voltar para casa, posso vê-lo de novo?",
suspirou a filha de São José, com tristeza no olhar.
"Não, sou um viajante das estrelas
e para outros mundos preciso partir".
E Gabriel Trovador partiu.
E Maria Maria, em clima de raro alumbramento,
voltou para casa. A noite já se anoitecia.
E Maria Maria de repente sentiu-se tocada pela poesia.
E cantou para si mesma,
num misto de apreensão e felicidade:
"Eu me celebro como os ramos de jurema
que se deitam sobre as águas.
Ai, meu doce anjo trovador,
de boas novas anunciador,
só a mulher é trigo,
só seu ventre multiplica,
e por isso é eterna,
e por isso é terra"(²).

Naquela noite Maria Maria começou a tecer
o mais belo bordado de sua vida.

Próximo capítulo:
O nascimento de Aijesus da Cruz

Notas:

(¹) Galado : Sortudo (no presente caso). Dependendo do contexto, há outros significados para galado, em geral depreciativos.
(²) Os dois primeiros e mais o quinto, o sexto e o sétimo versos, milagrosamente, seriam redimensionados por uma poeta seridoense do séc. XXI da Era Comum, a curraisnovense Maria José Gomes, através de dois poemas.

Domingo, 28 de Junho de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
Clique na imagem
para verouvir
o trêiler de
O processo
(Orson Welles, 1962)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2706
Rio, 28 de junho de 2009

1. Como pensar a relação cinema/literatura dentro de uma perspectiva crítica moderna capaz de contemplar mediações culturais pertinentes aos bens simbólicos que constituem as duas linguagens?; 2. Como entender a passagem de um discurso seco, sem maiores arroubos formais, de tessitura apolínea, para um discurso neo-expressionista formalmente arrebatado(r), de tessitura dionisíaca?; 3. Como relacionar o universo de Orson Welles com o de Franz Kafka?
(Moacy Cirne, in O Processo, o livro)


Repeteco
O CONTO
de Moacy Cirne


Diante do computador, depois de alguns minutos sem nada fazer, começo a escrever, enquanto um calor sufocante toma conta do meu quarto e dos meus sentidos:

Este conto, o texto que agora se apresenta, será mínimo, de pouquíssimas palavras, e terá apenas um personagem, alegre e raparigueiro, a repetir o tempo todo: um conto é um conto é um conto. Não, convenhamos, não é um bom começo para um conto, mesmo para um conto que se pretende um nadinha de nada. E que teria apenas mais um ou dois parágrafos. Resolvo mudar, portanto:

Este conto será pequeno, pequeno como uma pequena praça de uma vila do interior, e terá dois personagens – um homem e sua amante. Será que um conto é um conto é um conto? Ainda não está me agradando. Falta-lhe mais concretude, mais sustança, mais sentimento. Digamos que seja assim:

Este conto, naturalmente pequeno como uma pequena praça do interior, terá dois personagens – um homem jovem e jocoso e sua amante velha e vistosa, leitores de Murilo Mendes, Carlos Zéfiro e Affonso Ávila. Não, nada disso. Mudemo-lo mais uma vez:

Este conto, íntimo como uma pequena praça, como em Lorca, em sendo curto, apresentará dois personagens e uma aurora bronzeada. Melhor, melhorando:

Este conto, em sendo curto, apresentará um crepúsculo e um personagem em conflito, um personagem chamado Gregório. Ou Samuel, tanto faz. Não sei, não sei, um conto – ao que me consta – tem que ser impactante já em seu início. Impactante ou não, impactante ou sim, precisa envolver o leitor desde o princípio. E se for curto, como pretendo que seja, é necessário que, em sendo pura síntese, pura concreção, termine por se fazer tenso e denso. Tensão e contensão, não como um poema concreto, mas como um poema minimalista. Posso começar, mais uma vez, mais uma vez: Um dia, depois de um sono agitado e inquieto, Gregório acordou, e caminhou, e caminhou, e caminhou à espera do crepúsculo. À espera de um crepúsculo que se fazia aurora abismada, como no poeta popular. Que se fazia desespero, como no escritor angustiado. Não, não convém uma aurora desesperada, ou abismada, ou menos ainda um crepúsculo fatigado. De novo, diante do computador, ouvindo velhos cancioneiros medievais, sufocado pelo calor, recomeço, o conto está começando a se definir na minha cabeça, transfigurando seu rumo, transfigurando seu norte: Um dia, depois de um sono agitado e inquieto, entre crepúsculos metafísicos e auroras arrepiantes, Gregório acordou e viu que não passava de uma enorme barata. Agora sim, agora sim: trata-se, sem dúvida, de uma idéia bastante original. Por que será que, num século de tantos e tantos absurdos como o XX, ninguém a teve antes? Seria considerado um conto fantástico, tenho certeza. É preciso insistir, claro, dando-lhe nova forma: Um dia, depois de uma noite de sono agitado e crepúsculos anoitecidos, Gregório acordou e se sentiu como um monstruoso inseto. Não, ainda não. É possível mudar, mais uma vez, quero um conto que seja a essência máxima da construção mínima. Assim, talvez assim: Quando certa manhã Gregório acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Perfeito, o máximo de concisão. Será que devo aumentá-lo? Como Gregório se comportaria, ou se comportará, a partir daí? Vou pensar no assunto. Vou pensar no assunto. Preciso também pensar no título. Algo como A demanda judicial. Não, Transformação parece-me mais adequado. Ou não? Enquanto isso, o ideal seria providenciar uma possível tradução para outra língua, talvez o alemão. Será que o professor paulista Modesto Carone gostaria de traduzi-lo? Não deixa de ser uma idéia interessante.




Sábado, 27 de Junho de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
Clique na imagem
para verouvir
duas cenas de
Joana d'Arc
(Victor Fleming, 1948)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2705
Rio, 27 de junho de 2009


Estrelado por Ingrid Bergman, Joana d'Arc foi exibido no cinema de 'seu' Clóvis por volta de 1952/53. Confesso: o drama da jovem francesa que, injustamente, seria condenada a morrer na fogueira, impressionou-me bastante. Como aquela doce e ao mesmo tempo forte donzela, depois de vitoriosa numa guerra para mim incompreensível, poderia ter sido executada de forma tão bárbara? Mas o filme fez um tremendo sucesso em Caicó: a história e a beleza da atriz calaram fundo na alma dos caicoenses.


CAMINHANTE, TUAS PEGADAS
Antonio Machado (Sevilha, 1875 - Collioure, 1939)
Trad. Wilton José Marques
[ in Transverso, 1988 ]

Caminhante, tuas pegadas
são o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
e quando se olha para trás
se vê a vereda que nunca
se voltará a palmilhar.
Caminhante, não há caminho,
apenas estrelas no mar.


VÉUS, GRINALDAS E GRILHÕES
Santa Maria
[ in Escritoras Suicidas ]

I

A noiva, prometida e enamorada,
deixou todos esperando na igreja,
e fugiu com a cunhada.


II

Quando o noivo chegou ao altar,
olhou para a desconhecida ao lado
e gritou sim sem gaguejar.


III

Repletos de encantamento,
depois da lua-de-mel,
cada um voltou ao seu casamento.



CURSO DE INGLÊS AVEXADO
Alex Gurgel
[ in Grande Ponto ]

Is we in the tape! = É nóis na fita.

Tea with me that I book your face = 'Xá comigo
que eu livro sua cara.

I am more I = Eu sou mais eu.

Do you want a good-good? = Você quer um bom-bom?

Not even come that it doesn’t have! = Nem vem que não tem!

She is full of nine o’clock = Ela é cheia de nove horas.

I am completely bald of knowing it = Tô careca de saber.

Ooh! I burned my movie! = Oh! Queimei meu filme!

I will wash the mare = Vou lavar a égua.

Go catch little coconuts! = Vai catar coquinho!

If you run, the beast catches, if you stay the beast eats!
= Se correr, o bicho pega, se ficar o bicho come!

Before afternoon than never = Antes tarde do que nunca.

Take out the little horse from the rain = Tire o cavalinho da chuva.

The cow went to the swamp = A vaca foi pro brejo!

To give one of John the Armless = Dar uma de João-sem-Braço.

UMA OBRA-PRIMA DA ARTE NARRATIVA
Ao contrário do que imagina José Serra e outros políticos de segunda categoria (cf. o recente caso das biblotecas escolares de Porto Alegre e São Paulo), Um contrato com Deus é uma obra-prima. E tem mais: seu autor - Will Eisner - é um dos maiores nomes da arte narrativa norte-americana, merecendo figurar na galeria dos grandes criadores da grafia sequencial do século XX na terra do bangue-bangue: Orson Welles, John Ford, Stanley Kubrick, Buster Keaton, Howard Hawks, Winsor McCay, Jules Feiffer, Robert Crumb, Frank Miller, Nicholas Ray, John Huston. Ousamos dizer: são 12 dos maiores gênios das linguagens cinematográfica e quadrinhográfica.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009


1. Imagem superior: Foto de Zen Sen
2. Imagem inferior: Cartão postal do início do séc. XX


BALAIO PORRETA 1986
n° 2704
Natal, 26 de junho de 2009

Juca Kfouri, Fernando Monteiro, Samarone Lima, José Roberto Torero, Carlos Magno Araújo, Elianne Diz de Abreu, Gustavo de Castro, Klecius Henrique, Rubens Lemos Filho, Selma Medeiros, Humberto Werneck, Enrique Vila-Matas, José Castello e outros: pessoalmente e/ou literariamente, todos eles marcarão presença hoje à noite no lançamento de A cabeça do futebol, na Siciliano do Miduei Xópim, em Natal.


DOIS POEMAS de
Chico Doido de Caicó

Rio de Janeiro! Rio de Janeiro!
Só de pensar no meu Botafogo
Me dá uma vontade danada
De fazer poesia
Rio de Janeiro! Rio de Janeiro!
Só de pensar em suas mulheres
Me dá uma vontade danada
De ficar com a língua dura.

[][][]

Incrível Fantástico Extraordinário
Já champrei caicoenses e espanholas
Natalenses, portuguesas e cariocas
Paulistas, mineiras e cearenses
Gaúchas, argelinas e até uma americana
Mas nunca champrei uma pernambucana... andou muitas léguas ao longo do cio
as águas corriam lépidas paralelas

o corpo que tinha as curvas tão certas
perdeu-se das regras por estes caminhos

De MARCONI LEAL
[ in 10 conceitos-chave do conservador moderno ]

|| Todos os problemas do universo, a começar pelas supernovas e a extinção do sol daqui a bilhões de anos, são culpa da esquerda, a quem se devem também alguns desastres naturais como o furacão Katrina.

|| Os problemas do Brasil começaram quando, em vez de ensinar os índios a serem escravizados e torturados de acordo com as leis do mercado, Pedro Álvares Cabral, notório esquerdista, preferiu distribuir Bolsas Pau-Brasil entre eles, acabando com a vontade trabalhar dos selvagens e transformando-os em alcoólatras, vagabundos e hippies.


O PENSAMENTO VIVO DO VIVO STANISLAW PONTE PRETA
[ Pif Paf nº 1, 21 de maio de 1964,
in Pif Paf - 40 anos depois. Rio: Ed. Argumento, 2005 ]

ACHADO
Todo homem que considera a mulher o sexo perdido é porque não é muito dado a procurá-lo.

CULINÁRIA
Nem sempre o dono dos temperos faz o melhor refogado.

MORTAIS
As três coisas mais perigosas que eu conheço são: limpar arma de fogo, mulher do vizinho e croquete de botequim.

OPORTUNIDADE
O sol nasce para todos e a sombra para quem é vivo.

PROPAGANDA
Tirante a mulher, a gente deve sempre recomendar aquilo que experimentou e gostou.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Matriz de São João,
em Açu,
região central do Rio Grande do Norte

Foto de
Jean Lopes


BALAIO PORRETA 1986
n° 2703
Natal, 25 de junho de 2009


Antes de escrever, eu olho, assustado,
para a página branca de susto.

(Mario QUINTANA. O terrível instante, in Caderno H)



PÁREO
Nel Meirelles
[ in Fala Poética ]

meu cavalo
serpenteia
pelas campinas
do teu ventre

o galope
germina
o trote
denso
do gozo


BARULHO
Lau Siqueira
[ in Poesia Sim ]

palavra
por palavra
minha úlcera
de verbos
tece aos poucos
a membrana
do silêncio

[ do livro O comício das veias ]


ÊXODO
Gilberto Mendonça Teles
[ in Plural de Nuvens, 2006 ]

Chegamos à planície, onde teus olhos
inventarão o azul dos horizontes
escandidos nas unhas, como os versos
na fábula dos dias impossíveis.
Aqui o tempo enrola seus casulos
de terras e de mares estrangeiros.
E o mito desenrola-se nas sedas
da longa solidão que desfazemos.
Nestes campos noturnos nosso povo
construirá seu reino na linguagem
da Terra Prometida, que buscávamos
neste êxodo sem fim, que agora finda.


Recomendamos
Conversas de um velho safado
SEMPRE NO MEU CORAÇÃO
Jens
[ in Palimpnoia ]

Talvez um dos maiores mistérios da humanidade jamais seja desvendado: as razões que determinam a paixão clubística. Refiro-me, claro, ao rude esporte bretão. O que faz com que, em não poucos casos, o sujeito desafie a lógica familiar e torça por um clube diferente daquele preferido pela maioria do seu clã? Quando era meninote, por exemplo, o Glorioso Esquadrão Alvi-Rubro dos Pampas era o time do coração dos Silvas, à exceção da mana Rosa que deixou-se encantar pelo tradicional adversário, o Tricolor da Azenha (para quem não é afeito às coisas do mundo da bola, o primeiro é o Internacional e o segundo o Grêmio Porto Alegrense). Não tenho a mínima idéia do que motivou nossas escolhas – quando dei por mim já era colorado; o mesmo aconteceu com ela.

Como toda paixão intensa, o futebol é fonte de grandes alegrias. Poucas coisas dão tanta satisfação ao aficionado como comemorar um título de campeão (pessoalmente, desconheço orgasmo que se iguale ao prazer que o Inter me proporcionou quando conquistou o Campeonato Mundial de Interclubes em cima do Barcelona). [ Clique aqui para ler o texto completo. ]


O SUBPENSAMENTO VIVO DE
MARCONI LEAL

/Dois fragmentos/

A história é sempre contada pelos vencedores. Vejam, por exemplo,
o diabo como foi injustiçado.

Durante décadas tentei manter um diálogo com deus. Desisti faz alguns anos. Não dá. Ele se acha muito superior.


BODEGA DO CHICO DOIDO DE CAICÓ

Bebes & comes:

* Guaraná Doidão:
Guaraná em pó batido durante 69 segundos com 200ml de cachaça (Topázio ou Samanaú, preferencialmente), uma barra de chocolate amargo, uma colher de sopa de gengibre, dois cálices de licor de amendoim e o leite da mulher amada, à vontade.
Parede: Ovo de codorna. Cru. Com casca e tudo o mais.

* Açaí Porreta:
Suco de açaí batido durante 55 segundos com três cálices de licor de chocolate, um pouco de mel e uma colher de sopa de proteinato, temperado com o sorriso da mulher amada.
Parede: Queijo de coalho. Assado.

* Goiaba Escandalosa:
Uma taça de vinho do porto, sorvete de chocolate (duas bolas caprichadas) e uma goiaba. Mistura para ser batida durante 43 segundos. Sob o olhar da mulher amada.
Parede: Queijo do sertão. Derretido.

* Caju Diabólico:
300ml de cachaça. Da boa. Topázio, Seleta, Samanaú, Rainha, Ferreira, Germana, tanto faz. Não precisa bater. Pode-se beber aos poucos, em três ou quatro talagadas.
Parede: Caju. Bastante caju.

E na entrada principal da Bodega,
um poema de Chico Doido de Caicó:

Reconheço: sou mentiroso dos bons
Mas uma coisa é tiro e queda
Queda e tiro sem talvez
Mulher comigo sempre terá vez.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Maracanã,
antes de ser tomado pelas multidões,
em foto distribuída pela
UNERJ


BALAIO PORRETA 1986
n° 2702
Natal, 24 de junho de 2009


Minha paixão pelo Fluminense é uma "paixão literária". Ela não surgiu de uma grande exibição, de um título histórico, ou de um gol inesquecível, mas de uma crônica [de Nelson Rodrigues]. Surgiu através da palavra. Do mesmo modo, e desde então, minha paixão pela literatura é, de certa forma, "futebolística".
(José CASTELLO. Uma paixão de letra, in A cabeça do futebol)


A CABEÇA DO FUTEBOL, O FUTEBOL NA CABEÇA

Há o futebol e há o Fluminense. Há o futebol e há o Fla-Flu. Há o futebol e há o Maracanã. Outros dirão: há o futebol e há o Pacaembu; há o futebol e há o Mineirão; há o futebol e há o Morumbi; há o futebol e há o GreNal; há o futebol e há o ABC-América; há o futebol e há o Santa Cruz. E há outras paixões, de norte a sul. E há o jogo bem disputado. E há o drible embriagador. E há a defesa milagrosa do goleiro. E há a folha seca. E há o gol antológico. E há a explosão dionisíaca da torcida. E há livros como A cabeça do futebol(*).

Um livro com algumas crônicas memorialísticas marcadas pela mais pura emoção, pela emoção mais genuína: 'O dia em que virei santista', de José Roberto Torero; 'A ditadura não é mais forte do que o amor de um pai', de Juca Kfouri. Ou marcadas pela emoção em busca de um sentido para a literatura: 'Uma paixão de letra', de José Castello. Ou, ainda, marcadas pela emoção - e também pelo humor: 'Um escritor no pasto', de Raimundo Carrero. Poder-se-á dizer, entre outras coisas, tudo é encantamento, tudo é futebol.

Mas não ficamos por aqui: há crônicas que, jornalísticas ou não, realizam-se com vigor através do esmero documental e da memória afetiva: 'Camilo Cela, o torcedor do Íbis' [sim, é verdade, o pior time do mundo tem um torcedor ilustre], de Fernando Monteiro; 'O menino', de Samarone Lima; 'Souza Futebol Clube', de Gustavo de Castro; "No tempo de Jacaré e Pablito Calvo', de Carlos Magno Araújo. Há inclusive um delírio semificcional, escrito com paixão: 'O dia em que a Fiel invadiu o Rio de Janeiro', de Josmar Jozino.

E há a ficção propriamente dita através do erotismo muito bem realizado que se cristaliza na escrita de Elianne Diz de Abreu em 'O pênalti', assim como há um texto com toques metalinguísticos em 'Bola, gingado e prazer', de Selma Medeiros. E se a poesia não me encantou ('A bola', de Fabrício Carpinejar; 'Futebol da vida', de Abel Meneze), se Daniel Piza ('Bola de meia') me frustrou, e se senti a ausência do futebol gaúcho e do futebol do Norte, outros textos - ficcionais ou não, memorialístcos ou não - me interessaram: textos de Xico Sá ('O crime da mesa redonda'), Luiz Martins da Silva ('O homem que queria superar Didi'), Klecius Henrique ('A bola era eu'), Humberto Werneck ('Foi córner ou escanteio'), Rubens Lemos Filho ('Ele sempre será'), Enrique Vila-Matas ('Coração tão tricolor'). Há outros autores, outros textos. Enfim, é bom ressaltar, trata-se de uma coletânea que embarca num "jogo que é puramente afetivo" (os organizadores). E que jogo!

(*) A cabeça do futebol
Orgs.: Carlos Magno Araújo, Samarone Lima, Gustavo de Castro
Brasília: Casa das Musas, 2009, 166p.
/ Lançamento em Natal: próxima sexta, dia 26, às 19h, na Siciliano do Midueu Xópim /


Metaficção
A HISTÓRIA DE UM JOGO
ATRAVÉS DAS MANCHETES DOS JORNAIS

NO DECORRER DO TEMPO
Moacy Cirne

155 mil torcedores foram ao Maraca para ver Flu-Coringão, em 1976

1976: 50 a 60 mil corinthianos invadiram o Rio
1996: 70 mil corinthianos invadiram o Rio, em 1976
2006: 80 mil corinthianos invadiram o Rio, em 1976
2016: 120 mil corinthianos invadiram o Rio, no século passado
2036: 150 mil corinthianos invadiram o Rio, no ano de 1976
2076: 220 mil corinthianos invadiram o Maracanã, 100 anos atrás
2096: 400 mil corinthianos invadiram o Rio e o Maracanã, em 1976 dC
2976: 666 mil corinthianos no Rio para ver o Coringão, no século XX


MANHÃZINHA
Wescley J. Gama (Currais Novos, RN)
[ in A Taberna ]

toda vez que a lenha estalava no fogo
o cheiro do café gritava,
acordando todo mundo


GERMINAL
Ada Lima (Natal, RN)
[ in Menina Gauche ]

Apenas deságüe em mim
e faça surgir
um coração
em meu ventre.


SERIA MARILYN MONROE
UMA LEITORA DE JOYCE?

Aqui, em foto de 1955,
por
Eve Arnold,
a atriz americana
Marilyn Monroe
aparece concentrada

nas últimas páginas de Ulisses
(cf. blogue de Milton Ribeiro).

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Foto:
Gerhard Grasinger


BALAIO PORRETA 1985
n° 2701
Natal, 23 de junho de 2009


Uma cidade é uma casa. Necessita ser cuidada, acariciada. Ter suas paredes, seu teto e chão limpos. Sem zelo, não há cidade. Uma cidade deseja ser amada, descoberta, revelada. Ao oferecer um claro céu azul, uma cidade quer ser olhada, admirada por homens e mulheres, sejam seus moradores, sejam seus visitantes.
(Marize CASTRO, in Perigo Iminente. Natal, 2009)


POEMAS de
Zemaria Pinto
[ in Fragmentos de silêncio. Manaus, 1995 ]

garçom, traga-me uma navalha

e um chope espumando nuvens

[][][]

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

[][][]

paixão

a nona sinfonia explode
tua lâmina me rompe o ventre
e faz jorrar o sangue da minha carne
plantando-me tua semente

a paixão violenta - o grito
a lágrima sufocada - ah, a alegria
língua que lambe o mundo

o beijo a dentada
contigo, eu pelo espaço:
Beethoven & boleros

sou uma égua de fogo

Da série
ALFARRÁBIO
de Cássio Amaral (MG)
[ in Enten Katsudatsu ]

1
a palavra
sangra vogais
nas nuvens

2
a palavra brinca
com o silêncio
onde urra o ovo da fábula


DOIS POEMAS de
Márcia Carrano
[ in Vento Leve.
Juiz de Fora, 2007 ]

minha cabeça
virou um grande
texto
totalmente fora
do contexto.

[]

afasta esta poesia doida
pousando incômoda
em meus dias:

preciso viver
de pão-sal-e-dor.


ALGUNS NORDESTINISMOS PORRETAS

[] Tomando a bença a cachorro e chamando gato de meu tio
= Quando a pessoa está muito embriagada.

[] Um roçado de xibiu
= Um bocado de mulheres no mesmo ambiente.

[] Comer na frente que nem enxada
= Diz-se do casal que mantém relações sexuais antes do casamento.

[] Quebra-cu
= Ônibus desconfortável.

[] Afoimosiou
= Ficou linda.

[] Puetera
= Poetisa.

[] Vá prantar galinha enquanto os pintos não nascem
= Vá pra puta que o pariu.

[ in Nem Kombi, nem Ford, nem sai de Sinca (PB, 2005),
de Myriam Gurgel Maia ]

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009


Mona Lisa Desnuda:
versões realizadas por autores anônimos;
algumas delas (como a da imagem inferior)

atribuídas ao próprio Da Vinci,
ou por ele supervisionadas, segundo os pesquisadores
(cf. Museo Ideale Leonardo Da Vinci)



BALAIO PORRETA 1986
n° 2700
Natal, 22 de junho de 2009

O gato é preguiçoso como uma segunda-feira.
(Mario QUINTANA. Imagem, in Caderno H, 1973)


ABERTURA, 1
Romério Rômulo
[ do livro Per Augusto & Machina, a sair ]

1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!

2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.

3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.

4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!

5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!

6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.


CELEBRAÇÃO
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

peço silêncio:
há uma flor
se abrindo no jardim


ELAS
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

a vida é a puta
que em mim se esfrega
e espera que eu resista
às suas curvas

a vida é a santa
que me recusa
e assim me arrasta
para suas pernas

a morte é mulher
sem intenções escusas


POEMA EM DÓ MENOR
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito, em 24/10/2007 ]

Para que te convidar para entrar
Se sequer bates à porta

De que adiantaria todo alvoroço
Rosas no cabelo
Saia rodada
Calcinhas na gaveta
Se me despes apenas com silêncio e indiferença


Para que te convidar a beber
Da minha saliva

Se sequer sentes sede
E de que adiantaria colocar um blues na vitrola
Vinho em taças
Cubanos equilibrando-se no fino cristal
Se teus olhos se mantêm ávidos por outras esquinas


Não, senhor, não entrarás mais em minha casa.
Para chegar até esse lugar é preciso atravessar uma rua
Dois rios, alguns vendavais, poças de sangue
Quiçá um continente inteiro
E dois ou três versos desperdiçados

Mas de que adiantaria
Se sequer soubestes ler nas entrelinhas


O LIVRO DOS LIVROS
Segundo Testamento
1. O Livro de Maria Maria
A partir da próxima segunda-feira