quinta-feira, 19 de abril de 2007

“Rio, 11.07.1990

Prezado Moacy Cirne,

Saúde e paz.

Ausente do Rio por dois meses, só hoje posso acusar recebimento do seu Balaio Incomun. Você sabe, de há muito, que sou apreciador do que você faz. Relendo esse Balaio, me lembro de suas coisas antigas, sempre presididas por talento e sentido inovador. Agradeço ter me enviado as suas últimas criações. Abraços do

Nelson Werneck Sodré [historiador].”


BALAIO PORRETA 1986
nº 2000
Rio, 19 de abril de 2007
Excepcionalmente, 160 cópias do presente número serão distribuídas hoje no IACS, em Niterói, a partir de 15h.


26 LIVROS
QUE ME FAZEM REPENSAR O MUNDO

  1. Dom Quixote (Cervantes, 1605/1615)
  2. A divina Comédia (Dante, 1308-21)
  3. Hamlet (Shakespeare, 1601)
  4. Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa, 1956)
  5. Tom Jones (Fielding, 1749)
  6. A educação sentimental (Flaubert, 1869)
  7. O vermelho e o negro (Stendhal, 1830)
  8. Moby Dick (Melville, 1851)
  9. Tristam Shandy (Sterne, 1760-67)
  10. Os lusíadas (Camões, 1572)
  11. O pai Goriot (Balzac, 1835)
  12. Decameron (Boccaccio, 1349-53)
  13. Os demônios (Dostoievski, 1872)
  14. A montanha mágica (Mann, 1924)
  15. Ulisses (Joyce, 1922)
  16. Crônicas marcianas (Bradbury, 1950)
  17. As flores do mal (Baudelaire, 1857)
  18. A ave (Wlademir Dias Pino, 1956)
  19. Ensaios (Montaigne, 1580-88)
  20. O 18 Brumário de Luís Bonaparte (Marx, 1852)
  21. O princípio Esperança (Bloch, 1954/1959)
  22. A água e os sonhos (Bachelard, 1942)
  23. As palavras e as coisas (Foucault, 1966)
  24. Do mundo fechado ao universo infinito (Koyré, 1957)
  25. Sobre a prática & Sobre a contradição (Mao, 1937)
  26. A Bíblia (Criação anônima: Vários autores, 800aC/100dC)


BALAIO,

UM ZINEPANFLETO-EM-PROGRESSO


Tudo começou quando, em setembro de 1986, ocupávamos a Chefia do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Precisávamos de um boletim informativo que, em sendo ágil, não fosse algo simplesmente burocrático. E assim, a partir do dia 8, o Balaio começou a sua existência. Seus 70 exemplares iniciais logo se transformaram em 120, 160, 180 cópias [por número]. Houve, espanto, claro. Como um professor de uma instituição superior ousava tanto? Seria possível manter uma publicação (xerografada) com inquietações que poderiam gerar anseios e perplexidades?

Nos 17 primeiros anos, atingindo mais de 1500 números em cerca de 280 mil cópias acumuladas, o Balaio tornou-se um zine-acontecimento, com suas panfletagens e suas balaiadas, distribuindo cachaça e brindes variados (livros, discos, revistas, camisinhas) em noitadas que marcaram época na história do IACS, o velho Casarão da Lara Vilela, em Niterói. E que, em seus números normais, agitava as nossas assembléias de greve, quando a Comunicação e boa parte da UFF paralisavam suas aulas. A nossa intervenção, no espaço da Universidade Pública, era o resultado de idéias que alimentavam o saber militante que norteava uma postura e uma necessidade de feitio poilítico-existencial.

Para nós, o Balaio sempre foi um instrumento ideológico-anticultural de luta política. Mesmo quando publicava informações aparentemente sem importância. Mesmo quando editava poemas eróticos e/ou pornô-debochados. Mesmo quando salientava o nosso humor gráfico e verbal, ou investia no poema/processo. Ou rompia com os padrões tradicionais de produção & distribuição: ora um Balaio para ser cheirado (com um nu frontal feminino carregado de talco), ora um número que representava o verdadeiro “corte epistemológico” (em cada exemplar, um corte no papel cuidadosamente tesourado), ora um número para ser jogado no lixo (completamente amassado), ora um número para ser incendiado (acompanhado de um fósforo como indicador de suas intenções políticas).

Na trajetória do Balaio, acreditamos que há momentos inesquecíveis: a luta contra a proibição do filme Je vous salue, Marie (Godard), já em 1986; a participação nas greves de 1989 e1991, entre outras; a participação nas campanhas presidenciais petistas de 1989 e 1994 [mais recentemente, já em nossa fase eletrônica, na de 2006]; a divulgação dos poemas de Chico Doido de Caicó, a partir de 1991; a participação no impedimento político de collor de melleca, a besta de bosta, em 1992; o lançamento da candidatura do citado Chico Doido à Academia Brasileira de Letras, em 1934; os poemas/colagens de Luiz Rosemberg Filho, depois de 1993; algumas balaiadas, em particular, como a do número 1000, em 1997. Haveria mais a citar. Muito mais. O concurso de classificados amorosos entre alunos e alunas, por exemplo, no início dos anos 90. Outros concursos, outras idéias.

Na verdade, o Balaio sempre foi uma curtição. E continua sendo.

[ in Almanaque do Balaio. Natal: Sebo Vermelho, 2006 ]


[][][]

NOTA DE ÚLTIMA HORA:
Faleceu ontem em Natal, à noite, a grande figura humana DANILO BESSA, um bravo guerreiro norte-rio-grandense das lutas políticas dos anos 60. Auto-exilado no Rio (posteriormente em São Paulo), depois de 64, Danilo Bessa fazia parte, então, do "Incrível Exército Brancaleone" das noitadas cariocas, temperadas por cervejas, caipirinhas e discussões sem fim em torno do socialismo e das práticas revolucionárias vivenciadas por todos nós. Em dia de festa para o Balaio, somos dominados pela tristeza.

11 comentários:

DANIEL PEARL disse...

A Mídia na Berlinda: 1) No ano passado, a Editora Abril vendeu parte de seu capital a um grupo sul-africano. Matérias publicadas da revista Veja, insinuaram que empresa do filho de Lula, em parceria com a TV Bandeirantes estaria recebendo publicidade oficial indevida. Mas a Band não deixou barato. Em retaliação a Abril, veiculou, no seu telejornal noturno (terça-feira), um duro editorial em que insinuou que haveria ilegalidades na aquisição das cotas da Editora Abril pelo grupo empresarial sul-africano. 2) Por outro lado, no final de 2006, Roberto Requião não perdoou ninguém e meteu o pau na imprensa, entre elas: Folha de São Paulo, CBN, Mirian Leitão até Pedro Bial, entre outros. 3) Por que Lula é tão popular? Lula parece se converter em um enigma a ser decifrado, tanto para a direita, quanto para a esquerda. Reflitamos conjuntamente sobre por que Lula é tão popular?.Acesse o DESABAFO PAÍS: http://desabafopais.blogspot.com Um abraço, Daniel Pearl.

Moacy Cirne disse...

Meu caro Daniel Pearl: Compreendo os motivos que fazem o seu Desabafo País. E, em grande parte, concordo com eles. Todavia seria interessante que você, ao visitar os blogues das pessoas, fizesse comentários (favoráveis ou desfavoráveis) sobre os conteúdos dos mesmos, sob o risco de se tornar um blogueiro antipático. Abraços cordiais.

sandra camurça disse...

Moacy,

Parabéns, cara! Parabéns mesmo!
Que o Balaio Porreta tenha longa vida!
Sempre serei sua leitora fiel.
Adoro isto aqui, Menino!

2000 beijos pra ti.

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Fui um dos destinatários do Balaio impresso. De tempos em tempos, você juntava uma porção deles e mandava pra mim. Agora ele está no mundo virtual e eu continuo lendo e gostando, e , principalmente, admirando a sua perseverança em mantê-lo vivo, atuante. Um abraço,

tião disse...

Ei, Moacy: foi reler aquele texto de abertura e ficar com saudades do Almanaque, esse livro que vai se tornando ele próprio um objeto de evocação. Sempre que penso nele, lembro da viagem de final de ano 2006 a Natal - e vice-versa. Como se fosse uma música marcante, que posso botar pra tocar de vez em quando só folheando as páginas. Outra: naquela lista lá de cima, marco 4 e 7. Riobaldo e Julian Sorel, bela dupla do exemplar humano- um com seus espantos e outro com suas dissimulações.

Marco disse...

Ah, caro mestre...
Pena eu não poder ir receber um exemplar do Balaio... Eu trabalho e com catraca eletrônica.
Mas foi bom relembrar do velho IACS, na Lara Vilela... Ah, pessei bons quatro anos lá, no curso de Comunicação Social/Jornalismo. e foi uma baita honra para mim tê-lo como professor.
Longa vida ao balaio!
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Jens disse...

Loga vida ao Balaio. Parabéns, Moacy.

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Moacy,
Pena nunca ter visto um Balaio impresso!
Ainda bem que sua generosidade nos traz o eletrônico.
Um forte abraço e longa vida aos dois!

Felipe Nóbrega disse...

Puxa, "Ensaios" de Montaigne é sensacional!
abraço!

Wescley disse...

Moacy, gostaria que você enviasse para o meu correio eletrônico (wjgama@gmail.com) o teu endereço geográfico, para que eu possa remete-lo uma cópia do singelo cd que acabo de organizar com alguns amigos. Grande Abraço daqui do velho e bom Seridó.

Wescley disse...

Moacy, gostaria que você enviasse para o meu correio eletrônico (wjgama@gmail.com) o teu endereço geográfico, para que eu possa remete-lo uma cópia do singelo cd que acabo de organizar com alguns amigos. Grande Abraço daqui do velho e bom Seridó.