segunda-feira, 14 de maio de 2007

CINEMA, DOCUMENTÁRIO E VERDADE

O que faz de um documentário um filme essencial para a história do cinema? Pensemos em Robert Flaherty, com seu documentário ficcionalizado, autor de pelo menos uma das grandes obras-primas do cinema (O homem de Aran, 1934). Pensemos em Dziga Vertov, com seu documentário experimental, autor igualmente de pelo menos uma obra definitiva para a história da linguagem cinematográfica (O homem da Câmera, 1929). Há casos isolados de documentários extremamente fortes e belos (Nuit et brouillard [Resnais], 1955; O sangue das bestas [Franju], 1948; ou mesmo, por outros motivos, China [Antonioni], 1972). Há também o documentário-epistolar (Carta para Jane [Godard], 1972), o documentário político (La hora de los hornos [Solanas], 1968; A revolta do Chile [Guzmán], 1975-79; o já citado Carta para Jane). E assim por diante. No caso brasileiro, temos alguns documentaristas consagrados: Humberto Mauro, Vladimir Carvalho, Eduardo Coutinho.

Mas é preciso insistir na pergunta: o que faz de um documentário um grande momento da cultura cinematográfica, o que faz de um documentário um filme capital? Algumas questões básicas devem ser levantadas: o modo de olhar (seja participativo, seja histórico-social, seja aparentemente neutro), a substância narracional específica (com o seu "tempo narrativo"), a articulação dos elementos estruturais, a clareza das idéias e dos objetivos, o comprometimento formal-cinematográfico com o tema escolhido. A partir daí, é possível construir uma grande obra: uma obra que não se esgota na possível beleza plástica (quando for o caso) ou no delírio ideológico do conteúdo pelo conteúdo (quando a situação dada permite "ligações políticas" previsíveis). [No mundo virtual, aliás, há ótimos blogueiros que pensam o documentário com um olhar crítico-histórico-antropológico bastante instigante - haja vista o exemplo natalense de Marcos A. Felipe.]

Neste contexto, um documentário como o brasileiro Hércules 56 (Sílvio Da-Rin, 2007) é mais do que necessário: é estética e politicamente fundamental. Fundamental para que compreendamos, sem as facilidades do panfletarismo, mas com a energia de um didatismo histórico-sociológico invulgar, os meandros da política tupiniquim pós-AI5, quando a ditadura militar endureceu de vez a ossatura do poder pseudo-institucional instalado entre nós. Fundamental para que compreendamos melhor um dado episódio político da nossa história mais recente: a captura, por organizações de esquerda, do embaixador americano no Brasil, o sr. Charles Elbrick. O filme de Sílvio Da-Rin dá voz, hoje, aos idealizadores da captura (em salutar processo de crítica e autocrítica), assim como dá vez e voz àqueles combatentes políticos que, entre os que estão vivos, foram trocados pelo embaixador. E também, com agilidade rítmica, resgata cenas da época: a repressão policial nas ruas, o enterro de Edson Luiz, a passeata dos 100 mil, a leitura de um manisfesto (uma das exigências para que o embaixador não fosse justiçado), a chegada dos companheiros militantes no México e, depois, em Cuba. Sem emocionalismo gratuito, mas com a dosagem certa da emoção política e cinematográfica. Ao contrário da ficção O que é isso, companheiro? (uma obra falsa e equivocada sobre o mesmo tema), Hércules 56 - o nome do avião que levou a companheirada militante para o exílio - é um filme sério. Desde já, em sua modernidade radical, um dos melhores lançamentos do ano.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2018
Rio, 14 de maio de 2007


DIARIM DE MARIA BUNITA - VIII

Quirido Diarim,

ôje tô arretada de tanta raiva qui si eu pudesse e o capitão 
concordasse eu mandava arrancar os possuído do Diabo Lôro e
ainda mandava sangrar de faca pexêra aquela infitete daquela
cigana que se arranchô pur aqui cum minha permissão. apois
num é qui peguei a mardita de semvergonhice cum aquele branquelo
fi d'uma égua debaixo de uma algaroba lá pras banda das
oiticicas? apois de ôje num passa, adispois dessa, nunca mais
qui ela vai lê sorte de ninguém purque ninguém mexe no qui é de
Maria Bunita sem orde dela. Cum o Diabo Lôro eu mi acerto adispois
purque na farta de Virgulino inté qui ele faiz um chamego gostoso
numa bucetainha, faiz sim... Ah, diarim, deixe istá qui o qui é dele
tá guardado...



SER NATALENSE - Ô orgulho réi besta!!!

por Alexandro Gurgel (RN)

[in Grande Ponto ]

Natalense não se diverte, ele "bota pa decê"!
Natalense não é distraído... é apombaiado!
Natalense não vai em festa... ele vai pra bagaça!
Natalense não vai com sede ao pote... ele vai com a bixiga taboca!
Natalense não vai embora... ele vai pegá o beco!
Natalense não diz "concordo com vc" ... ele diz "Né isso, omi!!!!"
Natalense não conserta... ele imenda!
Natalense não bate... ele "sentá-le" a mãozada!
Natalense não sai pra confusão... ele sai pro "muído"!
Natalense não bebe um drink... ele toma uma!
Natalense não joga fora... ele rebola no mato!
Natalense não discute... ele bota boneco!
Natalense não é sortudo... ele é cagado!
Natalense não corre... ele faz carrera!
Natalense não ri... ele se rasga!
Natalense não brinca... ele manga!
Natalense não compra cachaça... ele compra "o lítu"!
Natalense não toma água com açúcar... ele toma garapa!
Natalense não exagera... ele alopra!
Natalense não percebe... ele dá fé!
Natalense não vigia as coisas... ele pastora!
Natalense não vê destruição... ele vê só o distroço!
Natalense não sai apressado... ele sai desembestado!
Natalense não observa... ele passa "pia"!
Natalense não agarra a mulher... ele arroxa as doidinhas!
Natalense não dá volta... ele arrudêia!
Natalense não diz que fulano não é de confiança... ele diz que a mercadoria é sem nota!
Natalense não espera um minuto... ele espera um pedaço!
Natalense não é distraído... ele é avoado!
Natalense não fica encabulado... ele fica todo errado!
Natalense não é engraçado... ele é marmotento!
Natalense não é bonito... ele é bixinho!
Natalense não passa a roupa... ele engoma a roupa!
Natalense não ouve barulho... ele ouve zuada!
Natalense não acompanha casal de namorados... ele segura vela!
Natalense não dá cantada... ele dá um L!
Natalense não é esperto... ele é desenrolado!
Natalense não é rico... ele é estribado!
Natalense não é homem... ele é macho !


[][][]

# No blogue do Poema/Processo:
Tempo do poema
, de Alvaro de Sá,
e FMI, poema de Anselmo Santos #

3 comentários:

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Moacy,
A postagem de hoje está excelente, pra variar.
Vi o seu blogue Poema/Processo e, com todo respeito, acho que merecia um "layout" melhor (mais a ver com a proposta sempre inovadora) e algumas mudanças nas "configurações", em especial no acesso "universal" aos comentários.
Caso precise de alguma ajuda, não se acanhe.
Forte abraço.

Marcos A. Felipe disse...

Moacy, obrigado por tudo! Vou atrás do doc do Resnais e do Franju. Do primeiro cheguei a ver o doc citado quando você trouxe aquele dvd mesmo sem legendas. Mas a força daquelas imagens é tão essencial que não precisa de narração alguma. O de Franju, infelizmente, não vi. O Hércules, creio, teve a facilidade do estudo que o antecedeu, pois o Silvio Darin é autor de um dos mais belos livros sobre História do Documentário, onde, a cada página, aborda as teorias, os discursos e filmes dos próprios documentaristas. Quando vens a Natal?

sergio disse...

Meu caro, Nuit et Brouillard e Sangue das Bestas são maravilhosos! Não vi China, Carta Para Jane e revolta do Chile, infelizmente, mas me parece que esse último foi lançado em DVD recentemente. Pretendo ver Hércules 56 esta semana. Abraço!