sexta-feira, 11 de maio de 2007

ESTIVE DESLIZANDO
Lívio Oliveira, Natal RN
[ in Grande Ponto ]

Estive deslizando na seda do teu corpo
onde encontrei, em gotículas de suor,
o brilho cristalino
que fez meus olhos transbordarem.

Tudo sorvi:
prazeres, encantos.
Ampliei-me na maciez de tua pele,
razão única de tecer a teia
na qual me joguei sem medo.

Busquei teus segredos mais inóspitos
e encontrei, cedo, o sonho guardado,
brinquedo que herdei na madrugada,
saciando uma vontade tensa
que se envolvia de perfumes, carícias.
Até mesmo uma dor inexplicável surgiu.

A língua tateava no escuro,
havia chegado a um ponto úmido,
quente, doce,
oásis descoberto.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2016
Rio, 11 de maio de 2007
# Poema/Processo #



UMA GEOMETRIA SENSÍVEL DA PALAVRIMAGEM
Nos últimos anos, cada vez mais, o cineasta Luís Rosemberg Filho tem realizado vídeofilmes que apostam num con/texto cinematográfico baseado na força da palavrimagem. Não só a palavra, não só a imagem, mas a soma das duas signagens em função de resultados que, em última instância, apontam para o saber político instaurado nos atos de filmar e pensar o mundo, o cinema e a realidade. Eventualmente, na dependência da proposta trabalhada pelo autor, a palavra pode, inclusive, assumir um papel narrativo que extrapola a própria semioticidade cinematográfica enquanto tal. Basta ver o recente O dinheiro: a crítica ao capitalismo, através de um discurso mais verbal do que visual, assumidamente raivoso, se faz de forma árida e por vezes dura, bastante dura. Não se trata, aqui, de uma desconstrução da narrativa, como em Godard, como em Straub; trata-se, antes, de uma desconstrução do valor simbólico da imagem no interior do processo fílmico, que, paradoxalmente, passa pela reconstrução da colagem fotográfica. A imagem só é importante na medida em que o discurso oral é importante. Neste sentido, O dinheiro pode incomodar muita gente. Como se dizia ontem, após a sessão dupla no Oi Futuro: o que Rosemberg propõe, ao desconstruir o cinema, é uma cine-reflexão. Sobre o Brasil, hoje. Sobre o capitalismo, ontem e hoje. Sem concessões. E, se se trata de capital, uma cine-reflexão sem poesia. Há a raiva, há o nojo. Só a crítica, às vezes repetitiva, às vezes paradidática (mas sem qualquer espécie de facilidade testemunhal), molda o anti-espetáculo da miséria construída pelo objeto-dinheiro. Poesia e crítica, a rigor, que vamos encontrar no segundo programa da sessão dupla: Memórias. Neste caso, muito mais do que no vídeofilme anterior, nos deparamos com uma verdadeira geometria sensível da palavrimagem. E as memórias que nos atingem são as memórias de uma câmera, câmera essa que é o próprio olhar crítico e amoroso de Rosemberg, capaz, inclusive, de homenagear tematicamente, por exemplo, o fotógrafo Mário Carneiro – um dos maiores de toda a história do cinema brasileiro – e de homenagear plasticamente a luz de um lentolento crepúsculo no Rio de Janeiro. A citação final, então, é perfeita para a compreensão plena do cinepoema apresentado, com sua carga de amargura/desencanto, considerando, ainda, a sua crítica ao uso excessivo da imagem (no fundo, publicitária) que não faz pensar e repensar a vida como um todo: “Não creio que seja imprescindível entender um filme. O mais importante é vê-lo como uma experiência sensível” (Michelangelo Antonioni). Poder-se-á dizer, enfim: na arte que se faz questionadora, o entendimento vem exatamente da experiência sensível que ela – politicamente – provoca no leitor, que poderá deixar de ser um leitor passivo para, em Rosemberg, se trans/formar em leitor produtivo. Cansado do Brasil e do próprio cinema, o autor de Assuntina das Amérikas não se cansou da Poesia. E, através da Poesia (e da Reflexão Crítica), ele repensa o seu fazer-cinema e o seu estar-no-mundo-como-ser-concreto aberto a novos vídeofilmes e a novas leituras. (MC)


MAIS UMA ZINGU!

NAS PARADAS VIRTUAIS DAS LEITURAS CINEMATOGRÁFICAS

Da Carta ao Leitor:

"Saindo do aterrorizante, provocativo e cabalístico número sete, Zingu! chega ao oito com uma possível maioridade. Pra completar e dar mais brilho a essa publicação, chamamos Edu Janks, um dos maiores críticos do país para dar seu depoimento.

(...)

Mas como não ficamos só em Bocas e Becos, finalmente neste número o leitor poderá ver a estréia de Gabriel Carneiro se declarando no Musas Eternas. A escolhida dele foi a sua musa número 1, Nicole Kidman.

Também neste maio, as moças Melody Westerna e Andrea Ormond estréiam novas colunas. Melody resolveu dar um tempo em sua bem-sucedida coluna Anti-musas para iniciar uma interessante coluna de livros Zingu! Books. Leiam o texto e comprovem o talento dela. Já Andrea, deixando de lado a Estranho Encontro, produz a partir desse número a sensível coluna Crônicas.

Mas como Zingu! também é feita de marmanjos, não se esqueça de conferir Marcelo Carrard decifrando os disco movies. Esse subgênero fez grande sucesso na segunda metade dos anos 70 e início dos 80. O incansável editor do Mondo Paura ainda teve tempo pra falar do clássico El Topo em sua já célebre sessão Cinema Extremo.

Se tiverem tempo amigos, pra afinar os ouvidos nada melhor que ver mais uma vez o fantástico Domingos Ruiz Júnior falando da inesquecível Marlene, uma das cantoras brasileiras mais adoradas em todos os tempos.

Menino Maluquinho, A Última Sessão de Cinema, quadrinhos [Zodíako, de Jayme Cortez, por Daniel Salomão Roque], música estrangeira de qualidade, Coluna do Biáfora, entre outros, completam mais uma edição da nossa revista.

Muita tubaína a todos vocês,
Matheus Trunk,
Editor-chefe"

4 comentários:

Jens disse...

Oi Moacy.
Andei afastado (muito trabalho), mas vejo que continua tudo muito bom por aqui.
Vou lá conferir o Poema/Processo.
Um abraço.

Marcos A. Felipe disse...

Moacy, tentei comentar lá no blog Poema Processo e pede senha. Ao contrário do Balaio Vermelho/Balaio Porrta, lá não tem a opção Outro.

Mary disse...

Gostei dos versos que deslizam de Lívio Oliveira...

Beijos e um bom fim de semana! :)

Marco disse...

Caro mestre Moacy,
Que beleza ver um post dedicado ao Rosemberg! Nos anos 70, eu fiz um curso de cinema em que no final, participaríamos da elaboração de um curta. O Rosembeg e o anselmo Vasconcellos eram os protagonistas. Tive grandes papos com o "Rosen". Ele é um artista absolutamente instigador.
Carpe Diem.