segunda-feira, 23 de junho de 2008


Igreja de Sant'Ana
em
Currais Novos (RN)

Foto de
Pedro Morgan


BALAIO PORRETA 1986
n° 2348
Rio, 23 de junho de 2008

Que venha Obama ao encontro de nossas esperanças, tais como o fim da agressão ao Iraque e do bloqueio a Cuba.
(Frei Betto)


DOR DO DESERTO
Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Meu chão reclama
a dor do deserto.
Mas não sou o deserto
dessa areia. Ou sou?


DIVAGAÇÕES & PROVOCAÇÕES

[] Tenho meus parâmetros estético-informacionais para avaliar uma obra literária, além do gosto pessoal (com suas inúmeras mediações). No caso da prosa ficcional, são parâmetros que passam pelo solo significante da escrita enquanto textualidade. Na prática, a questão se resolve de maneira bastante simples, se levarmos em consideração que uma "boa história", por melhor que seja, não é suficiente para marcar um bom romance, uma boa novela, um bom conto. É necessário que a pensemos em termos estruturais, mais do que em termos formais. Assim posto, tomemos dois exemplos conhecidos: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado. Por que o primeiro me parece uma obra-prima e o segundo uma obra descartável? Simplesmente porque, no caso de GS:V, seus múltiplos recursos temáticos, estilísticos, verbais e simbólicos não podem ser resumidos, não podem ser reduzidos a uma mera informação conteudística. Impossível condensar uma só de suas páginas, um só de seus segmentos temáticos (o mesmo se diga de Dom Quixote, A educação sentimental, O vermelho e o negro, Ulisses, Dom Casmurro, S. Bernardo, A paixão segundo G.H., e muitos outros). Já o romance de Jorge Amado pode ser tranqüilamente resumido, sem qualquer perda estético-informacional. A rigor, poder-se-ia reduzi-lo, digamos, a 140 ou 160 páginas, sem o menor problema.

[] Machado de Assis ou Guimarães Rosa? A enquete realizada pelo suplemento Mais!, na Folha de ontem, revela-se frágil e cabotina. Embora possamos ter nossas preferências pessoais (e eu as tenho: na literatura, no cinema, nos quadrinhos, na música, no teatro, nas artes), cumpre ficar com os dois. Assim como me parece literariamente saudável ficar, em termos preferenciais, com Thomas Mann e Kafka, Graciliano Ramos e Clarice Lispector, ou, em poesia, com Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto. Nada mais ridícula, por exemplo, do que a opinião de um tal de Abel Barros Baptista, professor lisboeta: "Machado de Assis é muitíssimo superior a Guimarães Rosa, e dou pra isso razão fortérrima: o próprio Rosa o reconheceu". Há opiniões sensatas, claro. Como a de Walnice Nogueira Galvão, professora da USP: "Estão confundindo literatura com futebol: quem é o melhor, o Santos ou o Flamengo?". Ou a de Eduardo Gianetti, economista e professor: "Machado disseca, Rosa fabula. Metade de mim pondera, metade de mim oscila. ... Por temperamento e afinidade anglo-analítica, tendo a preferir Machado; mas por encanto e feitiço teuto-dialético, inclino-me ao mistério de Rosa". Leia-se de igual modo a resposta de Antonio Candido, ensaísta, crítico e professor: "Uma das coisas que mais enriquecem a literatura brasileira é o fato de haver nela dois escritores tão grandes, mas tão polarmente opostos quanto o parcimonioso Machado de Assis e o derramado Guimarães Rosa".

9 comentários:

Maria Maria disse...

As imagens são belíssimas, especialmente as sensuais. Obrigada pela visita lá em casa. Beijos

Ariadna disse...

Passei por aqui pois estou divulgando meu blog e gostei muito dos posts. Bem interessante. Visite o meu, ok. Tenha uma ótima semana.

Jens disse...

A literatura é grande. Tem lugar para todo mundo.

Marcelo V. disse...

Caro Moacy, estou divulgando para os moradores do Rio que meu curta-metragem "A Volta do Regresso" está passando amanhã (terça, 24/06), às 18 horas, na Casa França-Brasil (Visconde de Itaboraí, 78), dentro do Cinesul 2008. Depois, vamos bebemorar e convidamos a todos.

Tobias disse...

Bobéia. Toleima. Comparar duas criações tão distintas... São duas belezes muito diferentes entre si, duas verdades poderosas em seus próprios termos, dois escritores que lêem de forma diferente um mesmo leitor. Tem dias em que eu prefiro GR, mas adoro Machado de Assis a qualquer hora. Como Grande Sertão: Veredas é o meu livro sagrado, e Machado é um gênio inconteste.

Maria Maria disse...

Oi, Moacy! Tenho retalhos de espartilho. Beijos

Tobias disse...

Em se plantando tudo dá
Na lavoura do meu roçado:
De Guimarães Rosa a Machado.

ana de toledo disse...

ué..cadê meu comentário?

Moacy Cirne disse...

Seu comentário, ANA? Não tenho a menor idéia... Coisas do mundo virtual...