quinta-feira, 7 de agosto de 2008


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Magdalena Olek
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BALAIO PORRETA 1986
n° 2392
Rio, 7 de agosto de 2008

Para mim, nem homem nem mulher podem ser trancados em coisa nenhuma. Tampouco masculino e feminino podem prescindir de sua essência humana.
(Carmen VASCONCELOS, in Substantivo Plural, 14/07/08)


Repeteco
CONTRAMEMÓRIAS 1998

Como outros potiguares e outros marcianos, também fiz a minha VIAGEM INSÓLITA através do Diário de Natal. E o fiz em 10 de maio de 1998:

Você é o que queria ser quando era adolescente?
Eu queria ser extraterrestre; hoje sou apenas poeta e cangaceiro.

Você se arrepende de alguma coisa?
Talvez sim, talvez ficção.

O que gostaria de ter feito e não fez?
Navegado pelo Seridó, entre Jardim e Caicó.

Qual o seu sonho atual?
Viajar para a Natal dos anos 20 e para o Rio dos anos 40.

Em que situações você mente?
Como poeta, posso mentir. Como cangaceiro, não minto jamais.

Conte um segredo de viajante.
Já estive em Saturno, São Saruê e Solaris, o planeta das águas encantatórias.

Qual o livro que você leu de um fôlego só e leria novamente?
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Quem mais o influenciou?
O cinema, o rádio, os quadrinhos...

O que você acha de pessoas loquazes?
Quando incompetentes, não me interessam.

É aborrecido envelhecer?
Para quem sabe ouvir, ler, sentir e ver, não existe o envelhecer.

Pessoas arrogantes e prepotentes merecem o quê?
O desprezo.

Você gosta de ouvir pessoas que não sabem ouvir?
Decididamente, não.

De que você tem medo?
À maneira de Faulkner, eu diria que entre a dor e o nada, tenho medo do nada.

Que tipo de música faz você sonhar com o paraíso?
Händel, Bach, Haydn, Mozart, Coltrane, Pixinguinha.

O que lhe seduz no jogo da criação?
A provocação.

Que tipo de música faz você ter pesadelos?
Axé music, axé music, axé music.

Gosta das festas do Grand Monde?
O Grand Monde é um mundo pequeno. Suas festas nada me dizem.

O imaginário apavora?
Ao contrário. O imaginário - sobretudo o imaginário em transe - é uma porta aberta para o delírio criativo. E mais do que nunca o delírio é uma necessidade existencial.

Como você convive com seus sonhos?
Procurando vivê-los, na exata medida do impossível.

Você é daquelas pessoas que acham arte moderna um amontoado de rabiscos?
Claro que não. Só que a verdadeira arte, de Bosch a Hélio Oiticica, sempre foi moderna.

O que você acha do dinheiro.
Dinheiro? Como professor universitário, não sei mais o que é dinheiro...

O que você prefere: Tambaba ou Museu do Louvre?
Tambaba e o Museu do Louvre, Pirangi e o CCBB, Búzios e o Paço Imperial.

A arte é necessária ou só frescura?
Viver é necessário?...

O que você faria se ficasse sozinho numa ilha onde só se ouve forró e axé music?
Prefereria ficar surdo para o resto da vida.

Qual a pessoa que você mais detesta?
FHC ou ACM. Os dois se equivalem. Ou se completam.

O que você nunca faria novamente?
Dançar um tango canadense na Matriz de Caicó, em plena Festa de Santana.

O que a boca diz quando a alma grita?
Te quero mais do que a um poema.

Qual a palavra que nunca deve ser dita?
Depende.

Qual o mal deste final de século?
A ditadura da mediocridade.

O que dói em Natal?
A miséria, como em qualquer outro lugar. E o turismo que privilegia, por exemplo, um reles foguetinho de Barreira do Inferno.

Nota 2008:
1. Decerto, a referência ao forró se aplica a um certo tipo de forró feito hoje, de coloração reeira, e não ao forró pé-de-serra.
2. Entre os nomes mencionados, em termos musicais, é preciso acrescentar Monteverdi, Charpentier, Marais, Beethoven, Jacob do Bandolim, Luiz Gonzaga, Urbano Medeiros...
3. A Búzios citada no texto não é a Búzios do Rio Janeiro, e sim a Búzios ao sul de Pirangi, nas proximidades de Natal.
4. Igualmente dói em Natal o predomínio do "colunismo social" nos principais jornais da cidade.
Ah, sim, e o turismo sexual.

4 comentários:

Sérgio Vilar disse...

Até você, Moacy, foi fiscado pelo grande D´Luca? (rs). Rapaz, seu fôlego deve ser de mergulhador para devorar Grande Sertão numa lapada só. Valeu pela visita. E o Diário do Tempo estende o tapete vermelho pra vc entrar e bagunçar. A desordem faz a força!..rs

Grande abraço!
sergiovilar.blogspot.com

Mme. S. disse...

Moacy, na época que você embarcou naquela "Viagem", eu posso dizer que as personas eram infinitamente interessantes que as de agora. Adorei suas respostas também. Um beijo afetuoso, S.

Marco disse...

Beleza de póstagem, caro mestre Moacy. Essa entrevista será atual até daqui a oitocentos anos. Gostei do cangaceiro e poeta... Ré, ré, ré... Muito bom. Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Beti Timm disse...

Moacy,
Fortes as palavras suas e tão verdadeiras.Respondi junto, e concordei em quase tudo,às respostas da entrevista. Se divergi, um pouco foi no gosto musical, é claro concordando plenamente quanto a praga do axe music. Mas quanto ao imaginário bebi a resposta ávidamente. Beijos de balaio