segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


A angolana
Micaela Reis
via
Milton Ribeiro


BALAIO PORRETA 1986
n° 2514
Natal, 22 de dezembro de 2008

Não era uma mulher, era uma guilhotina:
cinco homens perderam a cabeça por sua causa.
(Max NUNES. Uma pulga na balança,
org. Ruy Castro, 1996)


CONDICIONANTES
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito, em 19/09/07 ]

Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só para deixar você entrar


ÁFRICA POP
Carito
[ in Os Poetas Elétricos, em 12/01/07 ]

Abro a boca cheia de Áfricas
E o mundo vira uma bola de chiclete de sonhos
Na minha goma de Madagascar!


DIARIM DE MARIA BUNITA (4 e 5)
Divulgação: Menina Arretada do Seridó

(4)

Siridó-da-Bixiga-Lixa, em 25/07/1924

Quirido diarim:
Ôje eu tô cuma sordade bateno no peito qui so vendo... acho qui ainda é ressaca do tar frevo de Olinda, ou então daquele cigarrim isquisito qui me deram e qui me deixô afoita pur demais. O qui eu quiria mermo ôje era ficá na baladêra cum meu Capitão mi dizeno qui eu sô uma frô de mandacarú, qui num tem muié mais bunita qui eu em toda essa redondeza. Maria Bunita tem seus dia de frescura tumbem, visse diarim... Tô tão carente qui se eu pudesse inda ôje eu dava um jeito de aparecer num tar de beco da lama, lá pras banda da capitá do Rio Grande, que é frevoroso qui só a gota serena, pro mode vê se me curava desse banzo. Se o Capitão deixá... Mais aposto cuma ele num deixa qui ele num é besta não.

(5)

Soledade-do-Bom-Jesus, em 17/08/1924

Ôje fiquei toda arrupiada, quirido diarim. Pois num é qui o Capitão me garrô pur trais e sapecô um xêro tão aprumado no meu cangote qui mais um pouquim e eu me desmanchava toda. Inté me isquici qui existia o carnavá de Olinda e tumbem daquele danado de Diabo Lôro. Só não consigo isquecê mermo é do tá do beco da lama, me contaro que lá é um lugar muito ótimo e, pode inté parecê frescura, mais tô precisando de gente que endireite direitim o meu califon e as minhas calçolas, apois o Capitão pra isso é mei desajeitado. E uma fême, mesmo sendo cangacera como sô, pricisa de certas mulerices, né não diarim? O diacho é qui a capitá do Rio Grande é longe pur dimais. Vô tê que isperá qui o Capitão resolva invadi e faça istrupulia numa cidade qui tem o nome parecido com Moxotó, Mororó, Mossoró, uma coisa assim, e qui fica pertim da capitá. Enquanto o Capitão vai si diverti com as donzela de lá, peço licença a ele pra conhecer o tá beco tão famoso. Parece que a coisa é certa: Jararaca garantiu pra ele qui a tá cidade de nome isquisito mais bunito é a coisa mais fáci do mundo de conquistá, inquanto ele conquista Moxoró, eu conquisto os minino do beco, ah, conquisto sim diarim, e pode apostá, eles num vão mais nunca me isquecê, vão não. Só priciso sê tenciosa, o meu xibiu num é pra qualquer hômi não. Mais será qui o Capitão vai deixá, ele é mais sabido que o Rei Salamão e um tá de Rui Baboso.

7 comentários:

romério rômulo disse...

moacy:
esse balaio é um balaio de revelações.e o seridó uma bateia de poetas.como o caicó.preciso dizer ao tião nunes,agora eternizado num livro da ufmg.você está citado lá.eu vi.
o diarim promete,com esse beco famoso.
um abraço.
romério

Milton Ribeiro disse...

E eu perderia a minha pela angolana que tascaste no teu quirido diarim virtual. Abraço, Moacy!

Francisco Sobreira disse...

Muito boa essa de Max Nunes, sem dúvida um grande humorista. Um abraço.

Mariana disse...

linda angolada!
linda Sheila!

e como sempre ótimo Carito...

Quanto ao Diarim... acho que conheço maria bunita! rsrsrs

Bosco Sobreira disse...

Excelentes os poemas, meu caro Mestre. Mas, o Diarim em dose dupla tá uma delícia!
Forte abraço,
Bosco

Pavitra disse...


dos poemas, só posso dizer que são lindos...
a micaela me dá vontade de quebrar o espelho!
tbm me bateu a saudade dos meus tempos de guilhotina.
e o diarim... ah, o diarim... maria bunita escreveu muito, não foi, moacy? rsrsrs

Ariane disse...

Estas postagens me deram uma saudade da Bahia e das estórias do cangaço que ouvia nas calçadas...
Querido, obrigado por querer publicar meu poema no Balaio. Seria lindo.
Um abraço! Até breve!