sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Xilogravura de
J. BORGES
via
Bar & Cachaçaria Papo Furado


BALAIO INCOMUN 1986
n° 2800
Rio, 2 de outubro de 2009

Amanheci minha aurora.
(Guimarães ROSA. Grande sertão: veredas, 1956)


JULIETA NUMA NOTA SÓ
Mariana Botelho
[ in
Suave Coisa ]

eu te quero tanto que meus olhos se magoam


ESBOÇO
Gilka Machado
[ in Sublimação, 1938 ]

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
E no corpo da mata
os pirilampos,
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias...
E o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
E no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...

PERSPECTIVA
Henriqueta Lisboa
[ in Miradouro e outros poemas, 1976 ]

Longelua, como foi
que te sonharam os poetas
na parca visão de outrora?
Eras suspiro de nácar
eras intangível pétala?
Agora que te achas nua
no cosmo, que te pisaram
os homens com seus sapatos
e que os sábios te escalpelam
as rochas e outros entulhos,
talvez nunca mais te vejam
com o mesmo dulçor meus olhos
a contemplarem de esguelha
o que não há. Longelua...
Tão apenas Velalua.


HISTÓRIA
Hildeberto Barbosa Filho
[ in Eros no Aquário, 2002 ]

(para Eleonora Montenegro)

Faz tempo
que garimpo a alma
das palavras.

Faz tempo
que estou morrendo
na ânsia do último verso.


POEMA
Ada Lima
[ in Menina Gauche ]

Construo-me
com tinta
no pano frágil da folha.

Desfaço-me
entre dosséis
de poemas alheios.

COBERTAS
Iara Maria Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

ousa carícias
e temperos
na foz lírica
de minhas coxas:

lambe selos,
abre a boca.

o paraíso escor-
rega
espumando lírios
sobre as roupas.

UNHAS SUJAS DE TERRA
Marcos Losnak
[ in Medusa, n° 3. Curitiba, fev.-março 1999 ]

No fundo do olho do pássaro
um resto de nuvem
acena um melancólico adeus

Enquanto brincamos na floresta
o lobo afia seus dentes
nos seios de nossa mãe

Escolhemos ser alguma coisa
e não conseguimos suportar
aquilo que escolhemos

Escolhemos ser algo mais
e nem ao menos sabemos
o que é algo que é mais

O céu se despede das penas
entoa um vento quase cinza
e agora somos nós os coveiros


Uma breve seleção das
MÁXIMAS DE TIA ZULMIRA
Stanislaw Ponte Preta
[1ª ed.: 1976; 2ª ed.: 2008 ]

O Diabo não freqüenta os "inferninhos" de Copacabana
com medo de dicar desmoralizado.

Era uma pequena de físico tão espetacular
que era até um pecado andar vestida.

As três coisas mais perigosas que eu conheço são:
limpar arma de fogo, mulher do vizinho e croquete de botequim.

O riso fácil às vezes é timidez.
O riso difícil às vezes é estupidez.

Se o Diabo entendesse de mulher
não tinha nem rabo nem chifre.

Bebia muito sim e nunca teve ressaca.
Tinha mesmo era maremoto.

Crer em Deus é fácil.
Nos padres é que é difícil.

Quando um amigo morre leva um pouco da gente.


Repeteco / Memória 1924
DECÁLOGO DA ESPOSA
[ in Revista Feminina, SP, out./1924 ]

I - Ama teu esposo acima de tudo na terra e ama o teu próximo da melhor forma que puderes; mas lembra-te de que a tua casa é de teu esposo e não do teu próximo;

II - Trata teu esposo como um precioso amigo; como a um hóspede de grande consideração e nunca como uma amiga a quem te contam as pequenas contrariedades da vida;

III - Espera teu esposo com teu lar sempre em ordem e o semblante risonho; mas não te aflijas excessivamente se alguma vez ele não reparar nisso;

IV - Não lhe peças o supérfluo para o teu lar; pede-lhe, caso possas, uma casa alegre e um pouco de espaço tranqüilo para as crianças;

V - Que teus filhos sejam sempre bem arranjados e limpos; que ele ao vê-los assim possa sorrir satisfeito e que essa satisfação o faça sorrir quando se lembre dos seus, em estando ausente;

VI - Lembra-te sempre que te casaste para partilhar com teu esposo as alegrias e as tristezas da existência. Quando todos o abandonarem fica tu a seu lado e diz-lhe: Aqui me tens! Sou sempre a mesma;

VII - Se teu esposo possuir a ventura de ter sua mãe viva, seja boa para com ela pensando em todas as noites de aflição que terá passado para protegê-lo na infância, formando o coração que um dia havia de ser teu;

VIII - Não peças à vida o que ela nunca deu para ninguém. Pensa antes que se fores útil poderás ser feliz;

IX - Quando as mágoas chegarem não te acovardes: luta! Luta e espera na certeza de que os dias de sol voltarão;

X - Se teu esposo se afastar de ti, espera-o. Se tarda em voltar, espera-o; ainda mesmo que te abandone, espera-o. Porque tu não és somente a sua esposa; és ainda a honra do seu nome. E quando um dia ele voltar, há de abençoar-te.

[ Republicado em: História da vida privada no Brasil/3, p.394-6)

Nota do Balaio:
Publicada em São Paulo, na ocasião com cerca de 600 mil habitantes, a Revista Feminina é um valioso documento histórico para se entender a prática e o pensamento masculinos que, durante décadas e décadas, nortearam a relação homem/mulher entre nós a partir de um machismo antes de tudo bastante cruel. É verdade que as mulheres, embora timidamente (para os padrões atuais), já começavam a reagir. Resta-nos saber se o Decálogo em pauta foi levado a sério pela leitoras das grandes cidades. Não temos dados sobre a sua tiragem e se, de fato, atingia o público feminino de forma expressiva.

16 comentários:

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Bela selecao poética. Destaco a xilogravura de Iemanjá, definitivamente ela está ligada ao culto das Kiandas em Angola, sobretudo entre os Ambundu (a Kianda é uma divindade das águas do mar, rios e lagoas).
Kandandu

Marcos disse...

Moacy:

A Revista Feminina merece ser muito discutida. Indico a leitura de "Imprensa feminina, Revista Feminina", artigo de Sandra Lúcia Lopes Lima, publicado na Revista brasileira de História (PUC/SP, nº 35, jul/dez 2007).
Abraços:

Marcos Silva

Mariana Botelho disse...

Julieta, agora nem tão magoada porque está no balaio, em ótima companhia.

nina rizzi disse...

bom dia, Moacy,

belíssima seleçõa de poemas, ainda mais belos com a gravura do J. Borges com a minha rainha.

mas hoje fico com o decálogo e seus apontamentos. aqui no ceará havia uma revista no final do século XIX e início do XX, chamada ESTRELA, editada por Francisca Clotilde, na época praticamente uma feminista: fundou o primeiro magistério para mulheres, não era laico, mas visava tirar as mulheres do liame doméstico. Além do mais, na revista e em vários jornais cearenses deixava clara sua conduta abolicionista (aliás, o Ceará foi o primeiro estado a abolir oficialmente a escravidão, isto em 1884, quatro anos antes do país e, claro, não por motivos "humanistas", mas porque aqui não tinha muita relevância).

Além disso era poetisa, e está o ponto: uma poesia impregnada de décalogos como o da revista citada no balaio."a mulher, cabe cuidar dos filhos e fazer de tudo para o seu marido, edificar o lar, e, por conseguinte, seu trabalho e a nação", tipo assim. um tanto positivista... De qualquer modo, era sim uma senhora "a frente de seu tempo"...

hoje, contudo, vejo parte do movimento feminista tão sexista quanto o patriarcado. o que me valeu o poema do dia, sinto dizer,, dedicado ao bar de ferrerinha.

um beijo.

assis freitas disse...

um alvoroço de balaio,conteúdo a esparramar-se.

Pedrita disse...

gostei do poema do hildeberto. beijos, pedrita

Mulher na Janela disse...

eita coisa boa ancorar nesse balaio...

affi que esse poema da mariana tá de inventar outras notas, outros tons, de tão lindo...

xeros...

líria porto disse...

'dia, moa!
ler o balaio ao lado do quarto de malu - tem nada melhor...

a vida no interior é mansa, dá vontade mesmo de arrumar a matula e picar a mula!

de araxá, a terra de dona beja, besos!!

Marcelo Novaes disse...

Moa,


Lamentável decálogo. Servilismo e amor não cabem no mesmo balaio.



As Unhas Sujas de Terra do Marcos e a "foz lírica" de Iara são belíssimos, e fazem interessante contraponto um ao outro.






Belas escolhas.






Abração,








Marcelo.

nina rizzi disse...

Moacy:

você foi ellenizado aqui:

http://mariaclara-simplesmentepoesia.blogspot.com/2009/10/postagem-simplesmente-poesia-14.html

um beijo

Jens disse...

Moacy:
o Decálogo da Esposa ganhou aprovação ampla, geral e irrestrita da turma do Bar do Alemão, com exceção da Marisinha, a rebelde, por razões óbvias. Fizemos uma vaquinha para imprimir e emoldurar. Vamos colocar em lugar de destaque, junto a caixa registradora. Assim, eventuais pretendentes e moçoilas em idade casadoira em geral saberão como deve ser a esposa perfeita.

Um abraço.

Mirse Maria disse...

Boa tarde Moacy,

Em primeiro lugar, parabéns pela vitória do Fluzão!

A Xilogravura belíssima!

Os poemas todos de excelência, com destaque para Mariana, e Ida.

Não concordo com o decálogo.

Mas.... há uns e há outros uns.

No mais tudo perfeito.

Beijos

Mirse

Francisco Sobreira disse...

Que poema esse de Gilka Machado, cara! Pelo que tenho lido dela, essa poeta não é valorizada como merece. Um abraço.

Sônia Brandão disse...

Uma bela escolha dos poemas, e da xilogravura também.

bjs

Oliver Pickwick disse...

Ei, Moacy! Este post não é um balaio, antes uma arca, de proporções anti-diluvianas. Que poesias bonitas e criativas, hein?
E a Tia Zulmira? O que escreveria acerca dos bailes funks cariocas dos últimos tempos?
Não conhecia este Decálogo Da Esposa. É um registro interessante de uma época.
Um abraço!

BAR DO BARDO disse...

so go(l)d