sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cidades do Mundo que eu gostaria de conhecer (8)
Florença - Itália
Ponte Vecchio, erguida em 1345
[ Imagem: R.o.b.e.r.t.o. ]
Firenze/Florença, berço do Renascimento,
teve origem num antigo povoado etrusco, em 59aC
População atual: cerca de 380.000 habitantes


BALAIO PORRETA 1986
n° 2834
Natal, 6 de novembro

Troca-se um crepúsculo azul, devaneio caicoense dos anos 50, por um sonho barroco, ligeiramente escandaloso, de qualquer época, de qualquer lugar, de qualquer tudo. Tratar com Moacy Cirne, poeta e cangaceiro da anticultura, no Balaio Incomun, em São Saruê dos Delírios Nordestinos.
(Moacy Cirne. Classificado amoroso, in Balaio, n° 328, de 31/10/1991)


SE NÃO ESCREVO
Marize Castro
[ in Lábios-espelhos, 2009 ]

Se não escrevo, ela me engole.
Come meu útero.
Meu cérebro.
Minha alma.
Meu sexo.
Se não escrevo, ela entristece.

Solta urros no meio do dia.
Despedaça-se.

Se não escrevo, ela abandona-me longe de casa,
do sol diário, do Amor, dos latidos amados.
Se não escrevo, torno-me surda,
ascética, manca, cética.
Se não escrevo, ela bem sabe, destruo-me.
Incendeio-me.
Murcho.
Cego-me.


SAGRAÇÃO DO VERÃO
Luís Carlos Guimarães
[ in A lua no espelho, 1993 ]

De repente a mulher desabrochou nua
saindo do mar, pois a água não a vestia,
antes a desnudava, fazendo a sua
nudez mais nua à dura luz que afia
seu gume no sol da manhã que inaugura
o verão. Dezembro só luz reverbera
em seu corpo, doura-lhe as coxas, fulgura
nas ancas, no dorso ondulado de fera.
Fera que guarda no ventre uma colmeia
com a flor em brasa do sexo que ateia
fogo ao meu desejo e tanto me consome
a vulva, gruta, rosa de pêlos - que nome
tenha - que desfaleço como se em sangue
me esvaísse morrendo de amor. Exangue.


HÁ ALGO DE TRÁGICO NO REINO DA CAPITANIA

Quer politicamente, quer culturalmente, há algo de trágico - lamentavelmente trágico - no reino da Capitania das Artes, em Natal. Seja pela incompetência administrativa do sr. César Revoredo, seja pela boçalidade do atual presidente (como é mesmo o nome dele?), seja pela ignorância total e absoluta de dona Micarla de Souza, prefeita da cidade, em questões de arte & literatura, a Capitania, é preciso dizê-lo, hoje representa o máximo em atraso cultural e social. O que estão fazendo com a proposta da revista Ginga, por exemplo, é inqualificável; todo um trabalho editorial jogado fora. Ou quase. Será que a revista morreu antes mesmo de nascer? E pior: a experiência bem sucedida da Brouhaha, da gestão anterior, foi totalmente ignorada já pelo sr. Revoredo, decerto a partir de (mesquinhas) ordens superiores. Seria cômico se não fosse trágico, como já se disse por aí. Há que se temer também pelo Auto de Natal. Aliás, até agora a Capitania não justificou porque ignorou, sem maiores explicações, o concurso - que teve três concorrentes - que ela mesmo criara para, de forma louvável, registre-se, apontar o autor do espetáculo natalino. O fato concreto é que, com dona Micarla de Souza (e o politicamente deplorável José Agripino Maia), tudo vai mal na cultura do município. De certo modo, o mesmo se aplica à Fundação José Augusto, só que em outro nível de agenciamento político; a governadora, aparentemente, não sabe o que é política cultural. Ou, então, tem outras prioridades. Nos dois casos, perde a cidade, perde o Estado.


UFF: Memória Departamental 1985
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Niterói, GCO, em 18.11.85

JE VOUS SALUE, LIBERTÉ

Os professores e alunos de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense e de seu Curso de Cinema, em Reunião Departamental, resolvem denunciar a postura reacionária de certas pessoas da área religiosa que têm estimulado o veto, em território nacional, do filme Je vous salue, Marie, do cineasta francês Jean-Luc Godard.

Nós, do Departamento de Comunicação Social e do Curso de Cinema, repudiamos o fato em si pelo que ele encerra de censura e obscurantismo. E outra não poderia ser a nossa posição, comunicadores sociais que somos.

Não queremos discutir aqui a importância de Godard para a história do cinema europeu e/ou mundial. Para muitos, estamos diante de uma obra da maior significação e da maior dimensão, gostemos ou não de seus filmes, gostemos ou não de suas propostas.

Queremos discutir - e questionar - o primado da censura sobre a arte, que se manifesta de maneira tão retrógrada no presente episódio. Sabemos o que vem a ser para um país a censura à imprensa, à música, ao teatro, às artes, ao cinema, e assim por diante. Pois, em última instância, a censura é um atentado contra a dignidade e a inteligência do Homem.

Queremos também questionar o poder da Igreja Católica, ou de seus representantes legais, que se arvora de Censora-Mor da sociedade brasileira. Que poder é este, que não leva em consideração a diversidade de opiniões religiosas, morais e estéticas? Que poder é este, que pretende assumir a censura de forma tão descarada? Que poder é este, que se revela tão insensível à liberdade de expressão?

Não, não podemos ficar calados. Não, não podemos aceitar que um Governo [o de José Sarney] que pretende ser democrático e soberano possa compactuar com tal absurdo, próprio dos fascismos e das intolerâncias.

O possível veto ao filme de Godard - ou a qualquer outra manifestação artística, nacional ou estrangeira -, se se concretizar, será o veto da ignorância. E do terror cultural.

Moacy Cirne
Chefia GCO [IACS]

12 comentários:

Mirse Maria disse...

Bom Dia, Moacy!

Boa pedida, Frença/Frorenzia. Não queria ter saído de lá.

Poesias geniais. Vou indo.... e me debato novamente com a vergonhosa censura.everia ser erguido um muro, tipo de lamentação, só que de pichação onde se pudesse escrever para esses senhores que pensam ser os donos da verdade.

Estética não se ensina, apreende-se. Censura NUNCA MAIS!

Beijos

Mirse

Mme. S. disse...

Esse post está particularmente brilhante. A Marize, o texto sobre a capitania, o manifesto favorável ao filme do Godard... Enfim, nada como começar o dia com você Moacy.

Pedrita disse...

gostei do poema da marize castro. não sei se florença está entre as cidades que quero conhecer, mas tenho muita vontade de conhecer a bélgica e a holanda. beijos, pedrita

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Meu caro jovem, perfeito o texto sobre o caos/desordem na Capitania das Artes. Putz, o poema do mestre Luís Carlos Guimarães é de arrepiar. Conheço Florença e recomendo. Em suma, post danado de bom.

líria porto disse...

o que é uma pena é que as nuvens da fotografia (que maravilha) não estejam mais lá... que momento!!

é isso, moacy - "é proibido proibir"!

besossssssssss

Assis Freitas disse...

Exibimos uma cópia em vhs desse filme de Godard aqui na universidade de Feira numa tv de 20polegadas para um auditório com mais de 400 pessoas. Foi um sururu...

nina rizzi disse...

eu quero ser nuvem, barco, lá em florença ou em qualquer lugar, assim não deixo de ser barroco... caraca, eu adorei essa epígrafe...

o poema de marize é execelente, sobretudo a segunda estrofe, um poema completo.

guimarães me faz renascer sonhos venusianos. mas aí me lembro de um outro guimarães, o rosa: "os lugares são mais longes para os pobres".

recebi um hóspede paulista há duas semanas, veio pra fazer o concurso pra profesor aqui da prefeitura. as paredes da minha sala tântrica são pintadas de poesia e fotografias, por isso ele disse: "isso aqui é um museu e hoje dia só quem vai aos museus são os artistas". bem, os censores não vão...

e acho que a garnde massa leitora de poesia são mesmo os poetas, os espectadores de dança são dançarinos e assim por diante, mas esse conceito de arte é tão burguesólgo, não? tranforma-se a arte em mercadoria e então o artista é uma categoria. penso que somos todos artistas...

'inda mais pra 'guentar dessas e outras, né, moacy. palhaços, malabaristas, domadores de feras...

excelente postagem. toda.
um beijo, dois beijos.

Dilberto L. Rosa disse...

Muito bom seu Classificado Amoroso! Sobre esta linda ponte, quem não quer conhecer? Bacana quando o Cinema se lembra dela e a mostra em imagens em Cinemascope... Lembro-me desta tosca polêmica quanto ao filme do Godard... E sobre Política, recomendo o atualíssimo "Honoráveis Bandiddos", do Palmério Dória! Abração!

Diz disse...

Tb quero, gostaria, de conhecer Florença. Dizem ser linda.
E este veto é ridículo- retrocesso total.
Xô!
Ando sumida de todos os blogs, desculpe a ausência- venho mais não comento.
Abs, Elianne-laura

Marcelo Novaes disse...

Moa,




A memória documental está ótima. Não posso dizer o mesmo da realidade para a qual ela aponta.






Abraços,









Marcelo.

Adriana Karnal disse...

ai ai esse blog q adoro e me informe e enfeito.

Sônia Brandão disse...

Gostei muito do seu Classificado Amoroso.

bjs