domingo, 6 de dezembro de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
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para verouvir um dos momentos de
Hitler, um filme da Alemanha
(Hans-Jürgen Syberberg, 1977)
Um filme radicalmente instigante e provocador: em 7 horas de projeção - em quatro partes -, o que se tem aqui, antes de tudo, é uma colagem perturbadora de sons (discursos radiofônicos,
Mahler, Wagner, Beethoven, Mozart, Haydn, a "fala" anticonvencional, com uma reflexão assustadora: "Quem foi Hitler? Quem somos nós? Hitler está em cada um de nós?") e de imagens aparentemente desconexas, mas semioticamente reveladoras, com exceção do longo depoimento do ex-secretário do megaditador alemão. Trata-se, enfim, de uma colagem audiovisual que vai do espetáculo circense a soluções cenográficas para-surrealistas, do semidocumentário (na parte citada do ex-secretário) a indagações hipnoticamente metafísicas. E mais: da carnavalização em política, fundada nas raízes mitológicas do germanismo, à carnavalização da sociedade de consumo (afinal, haveria diferença substantiva entre o modo de produção hollywoodiano e o modo de produção nazista, ambos com seus aparatos ideológicos de estado?). E ainda: da teatralização como montagem cênica à desteatralização como desmontagem narrativa. Segundo a nossa leitura, em sendo um filme polêmico e difícil, ou mesmo um filme-tese (mas não "tese" em seu sentido acadêmico, e muito menos cinematográfico), é possível afirmar, a partir de determinados procedimentos estéticos fundados na ideologia da recepção: trata-se de uma das maiores obras-primas do cinema.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2861
Natal, 6 de dezembro de 2009

Grandes filmes produzidos e/ou lançados em 1977
numa relação sujeita
a assombrações, mangabas e relampos:
1. Hitler, um filme da Alemanha (Syberberg)
2. Aqui e lá (Godard & Mièville)
3. Annie Hall (Allen)
4. Um dia muito especial (Scola)
5. Uma revolução é um lance de dados (Straub & Huillet), curta
6. Providence (Resnais)
7. Esse obscuro objeto do desejo (Buñuel)
8. Noite de estreia (Cassavetes)
9. O amigo americano (Wenders)
10. Esposamante (Vicario)
11. Parade (Tati)
12. Mar de rosas (Ana Carolina)

Nota: Annie Hall/Noivo neurótico, noiva nervosa, para os autores do Almanaque do cinema (Ediouro, 2009), é um dos 50 filmes mais importantes da história do cinema.


POEMA
Nilza Menezes
[ in Garatuja, n° 50 ]

A minha carne
ainda quer,
ainda geme
e treme.
A minha alma
muito mais,
é menina,
não sabe o que é tempo
ou sina.


PARA UMA DAMA NO VENTO
Afonso Henriques Neto
{ cf. Balaio, n° 319, de 26/set/1991 ]

pelo silêncio do som
pela risada do fim
joplin

pela certeza do incerto
pelo infinito do tênis
janis

pela comovedora explosão
pelo galático spleen
janis joplin


POEMA
Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

se me rasgo inteira
de paixão e véu
sou delírio
sangrando mel


RELEMBRANDO UM GRANDE JOGADOR
Moacy Cirne
[ in Balaio, n° 1314, 14/9/2000 ]

Os apreciadores do bom futebol sempre admiraram o estilo elegante e encantatório de Zizinho, o grande craque dos anos 40 e 50. Muitos o consideram, inclusive, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, ao lado de um Pelé, de um Garrincha, de um Nilton Santos. Sua técnica impecável fazia qualquer torcida delirar com seus passes mágicos e seus dribles embriagadores. Era um jogador clássico, um jogador que sabia ser clássico.

O que pouca gente sabe, contudo, é que Zizinho - além de ter brilhado no Flamengo, no Bangu e no São Paulo - também defendeu as cores do Fluminense, e o fez, mais precisamente, em 1956. E assim um sonho - um certo sonho - se transformava em realidade. O Fluminense, que já contava com Castilho, Didi e Telê, entre outros ídolos, passava a contar com o mestre Ziza.

Exímio batedor de faltas, Zizinho fez vários e vários golaços para os tricolores, conquistando vitórias e mais vitórias até hoje lembradas com emoção por mim. Baixinho, em apenas três jogadas bailava como uma pluma suavemente mágica em direção ao gol adversário, empolgando o torcedor mais sensível, mesmo que fosse flamenguista, botafoguense, vascaíno. Preciso e precioso, parecia flutuar no campo de jogo, santificando a redondice de seu universo plasmado em matéria, alma e coração.

Lembro-me muito bem: o seu passe - ao se transferir para o Nense - custou uma pequena fortuna para os padrões da época: 10 contos de réis, até então a mais cara transação financeira no mundo juvenil do futebol-de-botão na distante Caicó dos anos 50. Mas valeu a pena; jogando pelo Fluminense, Zizinho, produzido em casca de coco de pele macia, polido com esmero artesanal, me deu muitas e muitas alegrias. Sem dúvida, foi o maior jogador de futebol-de-botão de todos os tempos em Caicó. Ou mesmo no Seridó.

Quando a minha família se mudou para Natal, em 1957, aposentei-o. Rubro-negros, alvinegros, cruzmaltinos e americanos que me desculpem pela ousadia: uma relíquia como aquela, à altura dos melhores sonhos, só poderia terminar sua imortal carreira de goleador nas mesas de futebol-de-botão jogando pelo Fluminense - o meu Fluminense.

11 comentários:

putas resolutas disse...

sempre quis ser menina, não tenho inveja dos homens, de nada - nem do penduricalho entre as pernas - mas tem uma coisa que fico pensando - jamais ter jogado uma partida de futebol de botão é uma sacanagem! vou arranjar um joguinho pra minha neta!!

besos

Pedrita disse...

eu adoro ettore scola. faz tempo que quero rever o obscuro objeto do desejo pra ver as duas atrizes no mesmo personagem, mas não consegui. beijos, pedrita

Assis Freitas disse...

Buñuel, Resnais, Scolla, Wenders, Godard e o mestre Zizinho. Só fera. Um balaio iluminado.

Francisco Sobreira disse...

Meu caro,
À medida que lia o texto sobre esse extraordinário Zizinho, achava que você estava "viajando". Me lembro bem que em 56 ele jogava ainda no Bangu e no ano seguinte se transferiu para o São Paulo, onde foi campeão. Depois, a surpresa: ele "jogou" no Flu no seu time de botão. Um texto que , além de bem escrito, contém esse elemento de surpresa. Um abraço.

Sergio Andrade disse...

"Hitler, um filme da Alemanha" é genial! Já "Annie Hall" deve ser o que menos gosto do Allen.

Excelente o texto sobre mestre Zizinho.

Abrs

Jefferson Bessa disse...

Gostei muito de ver um filme nacional na lista.

Mar de Rosas é um filme e tanto.

Ana Carolina é excelente!!!!


Um abraço, Moacy!!!

Jefferson

Marcelo Novaes disse...

Moa,


A construção mítica desse personagem-excrescência, com toda a base de Messianismo Pagão-Germânico, orações ensinadas na escola às crianças e corais ao "Salvador Hitler" é um capítulo sobre a miserabilidade humana também (e sobretudo) coletiva. É um capítulo sobre a institucionalização política de um Messianismo Laico (Mitologizado como "Religião Laica"), que faz frente a todos os abusos dos credos institucionalizados aliados aos "aparatos de Estado". O fenômeno Hitler (aquele baixinho histriônico, megalomaníaco, ressentido e auto-idólatra) com sua grandiloquência "espetaculosa" e ritualística, mostra o quanto os homens se aglutinam em torno de Messianismos de todos os gêneros, quando o conforto/ álibi de estarem em grande massas inflamadas lhes encobre as covardias e bestialidades individuais, ainda mais potencializadas pelo "espírito de horda". A presunção de pertencerem a uma "elite eleita" (raça superior, vigor étnico-cultural), que também fez a miséria do "lastro religioso judaico", e promoveu o projeto colonialista dos Estados Católicos (além do Escravagismo e da Inquisição), também se dá nessa versão laico-paganizada (mas extremamente mitológica, e de um messianismo histriônico-grupal-étnico) que se chama "Nazismo". Ao modo do que de pior as Religiões Institucionalizadas produziram. Nazismo aparece como uma contraface da noção de eleição do Judaísmo. Não é casual que eles tenham sido as vítimas preferenciais dessa leitura mitologizada-política (além dos interesses relativos às suas posições econômicas). Verso e reverso de uma mesma "mitologia de eleição exclusiva".



Comunidades
lambem os rabos, com extrema avidez, de "Messias Fabricados", com uma facilidade enorme, a despeito dos méritos. Ou da falta de.


"Mentalidade de rebanho, da "horda que depreda", saqueia e se ufana. Em nome de Deus, de Allah ou de Hitler. Com um cerimonial e simbologia de fazer inveja às religiões mais ritualísticas.



O Hitlerismo é uma religião laico-institucional, transformada em "Culto de Estado". Quem quiser fazer uma "crítica das religiões" deve pensar em cada estratégia operada pelo Nazismo, no rol dos objetos de seu estudo.






Abração,










Marcelo.

Canto da Boca disse...

Grande lista, Moacy!

Deixo-te um abraço!!

Mirse Maria disse...

Grande filme, Moacy! Espero não ter um Hitler em mim!!!!!

Aplausos aos poetas Afonso Henriques Neto, Sandra Camurça e Nilza Menezes, com esta me identifiquei!

Como não entendo de futebol, aguardarei a lista de filmes.

Beijos vagarosos no retorno

Mirse

nina rizzi disse...

Uau, belíssimos os poemas: sou menina, me rasgo e explodo spleen, evoé!

E eu não sei porque, ao ler "noivo/ noiva", que é mais ou menos, me lembrei de um filme tosco, mas legal (!) "como emlouquecer seu chefe" (e bem que eu gostava de quebrar a máquina das cópias na cabeça dele!)...

Eu sou apaixonada pelo Hitler. Não por suas sandices ideológicas, claro, mas acho uma personagem fascinante. Muitomuitoboademais as apontações, sobretudo: "Quem foi Hitler? Quem somos nós? Hitler está em cada um de nós?" Imagina que ele foi um bebezinho todo rechonchudo de bochechas vermelhas que as pessoas "sensíveis" apertavam - Ai, que coisa rica! pois...

É isso, o filme que eu veria hoje não está na lista, mas não sai da cabeça de ninguém que o tenha visto, são assim os sonhos ;)

Beijo.

Cosmunicando disse...

oi Moa querido!
passando pra deixar um beijo e ler todos os balaios possíveis antes de dormir... saudade imensa.
Obrigada pela postagem do epicentro, obrigada sempre por tua delicadeza, mestre.