sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Em 1978, o cego Jorge Luis Borges ainda comprava livros a mancheias. E com o entusiasmo de uma criança numa loja de brinquedos. (...) Poucos amaram tanto os livros quanto Borges. O livro, para ele, era o mais assombroso instrumento do homem. Os demais, dizia, são extensões do corpo: o microscópio e o telescópio, de sua visão; o telefone, de seu braço. Não seria o livro outra extensão da visão? Não, é uma extensão da memória e da imaginação. (Sérgio AUGUSTO. As penas do ofício. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p.172)

BALAIO PORRETA 1986
n° 1945
Rio, 2 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos

Contato:
balaio86@oi.com.br

Brinquedo
de Celso Boaventura (RN)
[ in Sub Eterno ]

Cavo no asfalto o leite aziago
Que o teu corpo implora,
Cravo no corpo os dentes quebrados,
Já passa da hora;
A canção retrocede no deck vazio,
Eu persigo o vazio,
E o frio que a cidade promete, eu não vejo onde está.
Lavo meus olhos com gestos amargos,
E o rosto envelhece,
Saio de casa, um retrato embaçado,
O calor é uma prece,
Entoada em compassos bravios,
Eu perdi o navio,
E o ardil, que à saudade apetece, eu não quero nem ver.
Ensaio escrever, mas não trago
A inaudita fumaça,
Desmaio ante o teu coração congelado,
Sou uma torpe ameaça
À esse sonho infantil que o amor desconstrói,
Eu quis ser teu herói
Mas não há comprimidos no armário que eu possa engolir.

MAIS! OU MENOS?
O suplemento Mais!, da Folha de S.Paulo, já foi muito bom. Hoje, coisa de um ou dois anos, tem variado um bocado, ora para ótimo, ora para apenas razoável. De qualquer maneira, não pode, ou não deveria, cometer algumas asneiras imperdoáveis. No último domingo (28 de janeiro), por exemplo, indicou o romance Tom Jones (Henry Fielding, 1749), uma das obras-primas indiscutíveis da literatura mundial, apontando que o destaque da edição seria a tradução de Clarice Lispector. Só que não se trata de uma tradução como a entendemos; trata-se, antes, de uma adaptação bastante resumida da obra original, voltada para o público jovem. Para que se tenha uma idéia, só o primeiro volume da edição da Globo (Porto Alegre, 1949, trad. Octavio Mendes Cajado), em corpo 9, contém 380 páginas [o segundo volume estende-se por 360 páginas], enquanto o resumo de Clarice Lispector, em corpo 11, apresenta 350 páginas. Uma brutal diferença, não? Decerto, trata-se de um bom texto e de um bom resumo. Afinal, Clarice é Clarice. Contudo, o título mais adequado da obra (o erro, na verdade, é anterior à Ediouro) poderia ser Tom Jones, de Clarice Lispector, a partir de Henry Fielding. Aliás, o título completo do romance é A história de Tom Jones, um enjeitado. De nossa parte, recomendamos o texto original, seja ou não (bem) traduzido em sua totalidade, e não apenas um "resumo", por melhor que seja. E se é verdade que a Ediouro caprichou na edição resumida do livro, nada se compara, na literatura inglesa, ao verdadeiro Tom Jones de Henry Fielding, provavelmente um dos dez maiores romances de todos os tempos.

Relendo o Balaio Vermelho
Segunda-feira, 2 de fevereiro, 2004
CAICÓ, CHUVA E ALEGRIA

Voltar a Caicó, no interior do Estado, em pleno inverno, sob o impacto dos horizontes verdejantes e das nuvens grávidas de felicidade, é uma experiência inesquecível. Durante dois dias, para o nosso grupo familiar, Caicó transformou-se na mais pura festa. Na mais pura emoção. Minha companheira (Fátima Arruda), uma de minhas filhas (Isadora), meu irmão (Milton), sua mulher (Fátima Campos) e a filha (Madalena), e este vosso cangaceiro da anticultura, hóspedes de Damásio Oberdan e Karla Elizabeth, vivemos momentos generosamente maravilhosos. Já no sábado, um banho de chuva, com direito à bica, fato que não me acontecia desde 1959: uma sensação encantatória carregada de espiritualidade cósmica. No domingo, pela manhã, a volta ao Rio Seridó, mais cheio e mais emocionante. A alegria estava estampada no rosto de homens e mulheres, velhos, adultos, adolescentes e crianças. E se tratava de uma alegria quase selvagem, quase primitiva, lembrando a Caicó de outros tempos, de outros invernos. Depois, mais adiante, ver o Itans pegando água e a sangria da Passagem das Traíras completou de forma religiosa (por que não?) uma viagem que só poderia resultar em poesia:
sertão verde-sonho
das águas azuis
caicó que te quero caicó
e um rio: o rio seridó
mais do que memórias do futuro,
de barreira a barreira,
de emoção a emoção,
começo e fim da cidade,
barra nova
itans e um poço:
o poço de santana
e a alegria
do espetáculo das águas
no coração do inverno.
UM DISCO PORRETA
Messe de Nostre Dame,
de Guillaume de Machaut (c1300-77),
por Dominique Vellard / Ensemble Gilles Binchois
[ Cantus C 9624 (1999, grav. 1990) ]

3 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
Estou escrevendo ainda de Natal, só viajarei à tarde. Muito oportunas as suas observações sobre o livro de Fielding, que, infelizmente, não conheço. (Gostei do filme de Tony Richardon adaptado de livro, nunca mais o vi, mas tive a mesma impressão quando o vi em vídeo, há mais de 10 anos.) E vica Caíco, apesar daquele calorzão! Um abraço.

Celso disse...

Moacy,

Como sempre muito lisonjeado de estar entre as publicações deste balaio. Precisamos nos encontrar, quem sabe a semana da poesia em Natal. Tenho estado ultimamente interessado em Caicó. Nasce em mim uma vontade premente de conhecer aquela terra, da qual tanto contas.

Abraço

Mulher na Janela disse...

Querido Moacy, lindo o poema! Lindo o espetáculo da natureza! Acredita que nunca vi um açude sangrando? Tô doidinha que isso aconteça um dia com o Gargalheiras, o Velho Garga, coitado, a situação dele não tá lá muito boa!

Um abraço com carinho de água caindo sobre os ombros.