sábado, 3 de fevereiro de 2007

RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE: Al-Fárabi (Rua do Rosário, 30) e Berinjela (Av. Rio Branco, 156), os dois sebos mais charmosos e mais completos – em termos qualitativos – do Centro, no Rio. Aliás, para quem ama os livros, o sebo – qualquer sebo – é um lugar especial, capaz de surpresas inesperadas. Até mesmo um simples sebo de rua tem suas magias. Esta semana, por exemplo, encontramos no sebo do ‘seu’ Miranda, na calçada da Laranjeiras com a Gen. Glicério, uma edição rara (lançada em 1961) de La peste, de Albert Camus, pela Gallimard. Além de um livro da Coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional, editado em 1960, com autógrafo: O Marquês de Pombal e o Brasil, de Marcos Carneiro de Mendonça, famoso goleiro do Fluminense e da seleção brasileira nos anos 10 do século passado. Pois é, para quem gosta de livros, tendo consciência de sua importância social e cultural, sebos e livrarias são programas absolutamente necessários. Neste particular, aqui no Rio, Al-Fárabi, Berinjela, Luzes da Cidade, Imperial, São José, Folha Seca, Leonardo Da Vinci, Argumento, Prefácio, Livraria do Museu, Arteplex Livros, Timbre e as várias Travessas são templos sagrados, mais sagrados do que muitos “espaços religiosos” que se dizem cristãos. E de cristãos não têm nada, absolutamente nada.

BALAIO PORRETA 1986
nº 1946

Rio, 3 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos

Uma viagem sentimental pela
BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
:
600 livros indispensáveis (4/100)

Cartas dos sertões do Seridó, de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Lidador, 158p. [] Livro que já nasceu clássico, deliciosamente clássico, centrado nas histórias e vivências do Autor no sertanejamento de Acari, em pleno Seridó, através de cartas endereçadas ao jornalista Woden Madruga, da Tribuna do Norte, de Natal. Um livro tão gostoso quanto um café da manhã sertanejo, à base de canjica, cuscuz, pamonha, tapioca, queijo de coalho, leite, pão. E café.

Cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores galego-portugueses, por Fernando Peixoto da Fonseca (org., pref., notas e glossário). Lisboa: Livraria Clássica, 1971, 141p. [] Uma ótima seleção da poesia medieval de origem ibérica. Inclui poemas & canções de Afonso X, Airas Nunes, João Baveca. E mais: João Vasques, Martin Soares, Pedro Amigo de Sevilha, Pero Mafaldo, Roi Pais de Ribeira, Vasco Peres Pardal. Sobretudo, um livro para pesquisadores.

Machado de Assis: Seus 30 melhores contos. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1961, 478p. [Livro adquirido em Natal, nos anos 60.] Seleção estabelecida a partir das opiniões de Afrânio Coutinho, Eugênio Gomes, Augusto Meyer, Sílio Romero, Lúcia Miguel Pereira e outros. Entre os contos, algumas obras-primas indiscutíveis: Missa do Galo, Uns braços, A cartomante, O alienista, Teoria do medalhão, Cantiga de esponsais, O espelho, A igreja do Diabo.

O Museu Darbot e outros mistérios, de Victor Giudice. Rio de Janeiro: Leviatã, 1994, 152p. [] O conto em sua expressão maior como burilamento da forma tensão/contensão conteudística. Basta que leiamos, basta que sintamos o “fraseado” lapidar de A única vez, A criação: efemérides, Cavalos, Jurisprudência, A história que meu pai não contou, Relatividade em nome de Borges, A festa de Natal da Condessa Gamiani, O hotel e O Museu Darbot.

Pensamentos, de Blaise Pascal. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1957, 294. [Livro adquirido em Natal, na Universitária, no início dos anos 60.] “A memória é necessária para todas as operações da razão” (p.138). “Aspiramos à verdade e só encontramos incertezas” (p.159). “A vida comum dos homens é semelhante à dos santos. Todos buscam sua satisfação e só divergem quanto ao objeto em que a colocam” (p.216).

Sandman: Noites sem fim, de Neil Gaiman & outros. São Paulo: Conrad, 2003, 162p. [] Verdadeiras preciosidades da arte gráfico-seqüencial quadrinhística, desenhadas/pintadas por Milo Manara (O que eu experimento do Desejo), Miguelanxo Prado (O coração de uma Estrela), Barron Storey (Quinze retratos de Desespero), Bill Sienkiewicz (Adentrando), Frank Quitel (Noites sem fim). E mais duas ou três histórias, todas deslumbrantes.


UM FILME PORRETA
Terra em transe (Brasil, 1967),
de Glauber Rocha,
com Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy, Paulo Gracindo.
Um dos grandes filmes políticos da história do cinema: explosão maior do talento glauberiano, ao lado de Deus e o diabo na terra do sol, trata-se de uma obra vigorosa, radical, politicamente estrutural (e não apenas conjuntural).

UM DISCO PORRETA
Nação Potiguar, de vários autores [ Scriptorin Candinha Bezerra/Fundação Hélio Galvão (1999) ]. Um hino ao Rio Grande do Norte, com a participação amorosa e criativa de Hermeto Paschoal, Carlos Zens, Xangai, Chico César, Antúlio Madureira, Gereba, Antônio Nóbrega, Quinteto Natal Metais e outros. Diante de Praieira (Othoniel Menezes & Eduardo Medeiros), ou de Royal cinema (Tonheca Dantas), por exemplo, somos alegria e tristeza, ao mesmo tempo.

[][][]

Almanaque do Balaio
Memória 1978
OS 10 CONTOS MAIS IMPORTANTES DA LITERATURA MUNDIAL
[ in Revista de Cultura Vozes, setembro de 1978 ]

Na opinião de Moacyr Scliar (RS):

1.Despertar (Babel)
2.O nariz (Gogol)
3.Colônia penal (Kafka)
4.Acender um fogo (London)
5.Missa do galo (Machado de Assis)
6.O ousado rapaz do trapézio suspenso (Saroyan)
7.O inimigo (Tchecov)
8.Objetos sólidos (Woolf)
9.Arábia (Joyce)
10.Bontzie, o silencioso (Peretz)

Na opinião de Murilo Rubião (MG):

1.O poço e o pêndulo (Poe)
2.
Os exilados de Poker Flat (Harte)
3.
Quatro encontros (James)
4.
Missa do Galo (Machado de Assis)
5.
Acender um fogo (London)
6.
Bola de sebo (Maupassant)
7.
A luz da outra casa (Pirandello)
8.
Os assassinos (Hemingway)
9.
O capote (Gogol)
10.
Uma rosa para Emily (Faulkner)

7 comentários:

sandra camurça disse...

"Missa do Galo" é um dos mais sensíveis contos que li na minha vida. Grande Machado de Assis... Beijos.

Mulher na Janela disse...

É fantástico o conto do Machado, assim como o devem ser os outros citados (que desconheço) mas que sei do teu bom gosto. Mas incluiria algo do Gabriel, o Garcia, como os que compõem o livro maravilhoso "Doze contos peregrinos".

Grande abraço, Moacy, e obrigada pela linda dissecação do meu poema.

Beijos...

Adega de Imagens do AT disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adega de Imagens do AT disse...

ê, caro mestre Moacy...
Bom vir aqui no Balaio e tomar conhecimento de sugestões pra lá de porretas. Conheço bem os sebos do Rio, posto que sou um tremendo seboso neste aspecto. Dos contos que li dessa relação, concordo com a presença deles na lista. Lembrei de dois contos que me enchem os olhos quando os releio: "Noites Brancas", de Dostoiévski, e "O Arquivo", do citado Victor Giudice.
Um grande abraço.
Marco, do Antigas Ternuras

teiadepalavras disse...

Mestre Cirne, passei para lhe agradecer a visita e como sempre além de poesias, bons textos o balaio nos oferece muitas dicas, opções e trocas preciosas, resgates de nossa cultura, que torna deliciosa a passagem pelo Balaio.

Bjão
Casti

Demonarch disse...

Bem, pegando carona na sua seleção de contos, meio na caruda, arrisco com os títulos de Machado de Assis (contos fluminenses), Marçal Aquino (famílias terrivelmente felizes), Henry James, Primo Levi, Clarice Lispector, Marcelo Mirisola, Alphonse Daudet, Dino Buzzati, Bukowski, I. Bashevis Singer, Dorothy Parker, Borges, J. Cheever, Lugones, et al. Manda bala na lista de Discos Voadores!

adelaide amorim disse...

Moacy, o sebo é a maior prova de que o mundo capitalista também admite o (bom) jeitinho brasileiro. E o engraçado é que em geral os livros mais valiosos são os mais baratos. Gosto de passar aqui no Balaio, que cada vez me parece mais porreta :) Beijo.