segunda-feira, 26 de março de 2007

DO DESEJO

de Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(Do Desejo, 1992)


BALAIO PORRETA 1986
nº 1980
Rio, 26 de março de 2007

DIARIM DE MARIA BUNITA - I
(Divulgação: Menina Arretada do Seridó)
CAFUNDÓ-DO-JUDAS, 23/03/24 
Meu diarim, hoje eu tô aperriada qui nem a mulesta. 
E além do mais tô de boi. Já viu cuma é tá de boi
dentro
dessas brenha? Num gosto de usar calçola,
mais é o jeito.
Virgulino inté parece qui adivinha
e fica me
azucrinano o dia todo. Só dá vontade de
ficar espichada na baladêra,
vendo os cabra alimpá
as arma e contar os causos.

Onte, Virgulino aproveitô qui eu tô assim nesses dia e
se mandô pra zona de uma tar de Maria Lôra.
Voltô só de
menhazinha. Mais deste tá qui eu ainda furo
os óio dela,
é só passá essa marmota qui eu tô. Tumbém,
num sei pra
quê muié ter chilique todo meis. Tenho inté
TPM. Se arrete
não, diarim, eu isplico. TPM é toda pôrquera
do meis.

Tem mais é qui butá pra fora, né não?

(Continua)
 

DEMOCRATAS, FIDALGOS

E ARISTOCRATAS

O PFL vai mudar de nome. Na ânsia de cair nas graças do populacho, a sigla de Herr Bornhausen, ACM, ACMinho et caterva vai passar a chamar-se Partido Democrata – PD. “Agora vai”, devem ter pensado os pefelês, entusiasmados com a idéia certamente gestada por um marketeiro genial.
No entanto, a coisa começou mal.
Um estraga-prazer, que sempre os há, descobriu que PD é a gíria francesa para pederasta. “Assim não dá! Esse negócio não vai pegar bem!”, resmungaram os liberais, alvoroçados. O marketeiro genial sacou um coelho da cartola: o Partido Democrata não será chamado popularmente de PD, mas apenas de Democrata. Estranho, risível até, mas o marketeiro disse que vai dar certo e com essa gente não se discute.
Quem não gostou foi o Jorjão, membro da turma que freqüenta diuturnamente o Bar do Nereu. Além de faz-tudo, quebra-galho e contumaz barranqueador de éguas, Jorjão também faz parte da ala dos compositores da Sociedade Esportiva Recreativa Democratas do Samba. Ao saber da novidade dos liberais, reclamou:
- Pó, seu Jens, estes caras vão queimar o filme da nossa escola, disse ele.
Concordei em silêncio.
Depois de entornar um martelo de batida de maracujá, Jorjão concluiu:
- Considerando a turma do pefelê, acho que o mais adequado seria que se chamassem Fidalgos e Aristocratas, falou meu amigo, unindo a crítica política à alfinetada carnavalesca, visto que o Grêmio Recreativo Fidalgos e Aristocratas é inimigo figadal da SER Democratas do Samba.
Entornei meu martelinho de tequila e novamente concordei silenciosamente.
 

3 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Esse Diarim de Maria Bunita promete, pelo texto inaugural. Mas fiquei pensando cá comigo se a autora não é mais uma criação sua. Ou sua e de Nei. Um abraço.

Lívio Oliveira disse...

Passei e vi Hilda Hist.
Parei...de verdade!
Moacy, fiquei perplexo com a beleza do poema!
Abs. Lívio

Anônimo disse...

Moacy,
O que mais me atrai na poesia de Hilda Hilst é a sua construção incomum, seu pensamento que navega onde não se suspeita. Assim, empurra as fronteiras do verso e inaugura situações novas, numa linguagem inquieta e inquietante. A leitura dos livros ‘Do desejo’ e ‘Da morte.Odes mínimas’ que, para mim, contêm o melhor da sua produção poética é um deleite, ao mesmo tempo que um revolver de sentimentos insuspeitados. Não consigo lê-la sem comoção, sem me lambuzar de desassossego – e aí está toda a sua maestria (e magia). Como um todo, acho sua obra bastante desigual. Sua prosa não me toca. A poesia, no entanto, quando acerta a mão, é uma dádiva.
Tenho espiado com freqüência o seu Balaio - com suas bugigangas e variedades -, verdadeiro bazar, abastecido pelo mercado de Caicó, feira do Alecrim e Casa Vesúvio. Gosto muito.
Obrigado pela publicação do poema.
Um grande abraço, Napoleão.