sábado, 31 de março de 2007

O SERIDÓ SOMOS NÓS
Para Oswaldo Lamartine de Faria


Nossas águas, nossas oiticicas, nossos sonhos – o Seridó somos nós.
Nossos sertões, nossas canjicas, nossas alegrias – nós somos o Seridó.
Nossos aboios, nossas gentes, nossas quimeras – o Seridó somos nós.

Nós somos o Sertão, mesmo quando somos Pirapora Natal e Olinda.
Mesmo quando somos o Fluminense, o Flamengo, o ABC e o América.
Porque somos a chuva, o relampo, o trovão, o rio de barreira a barreira.

Porque somos nossas cruvianas, nossas virações, nossos horizontes.
Porque somos: Caicó Cruzeta Acari Ouro Branco e Jardim do Seridó.
Carnaúba Parelhas São José Currais Novos e Timbaúba. Porque somos.

O Seridó em todos nós: Serra Negra do Norte Jucurutu serrote solidão.
O ambó o barreiro o açudeco o açude o Itans o boi a boiada e o boiadeiro.
A caatinga o caatingueiro o chapéu-de-sol o chapéu-de-couro. E o sertão.

O Seridó somos nós. Nós somos o Seridó, capelas santanas e vaqueiros.

Moacy Cirne


BALAIO PORRETA 1986
nº 1985
Rio, 31 de março de 2007


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (9/111)

Sertões do Seridó, de Oswaldo Lamartine de Faria. Brasília: Senado Federal, 1980, 232p. [] Reunião de cinco pequenas obras do Autor: Açudes dos sertões do Seridó, Conservação de alimentos nos sertões do Seridó, Algumas abelhas dos sertões, ABC da pescaria de açude no Seridó e A caça nos sertões do Seridó. Louve-se, em Oswaldo Lamartine, o estilo ágil e deliciosamente fluente, a pesquisa etnográfica, a vivência nordestina, o saber sertanejo. Um escritor como poucos em nosso país: a escrita sensível a serviço da informação humanística e de uma certa sociologia da leitura comprometida com a aventura do Homem em toda a sua plenitude social, cultural, religiosa, mística. E seridoense, acima de tudo, em nosso caso particular.

Ensaio sobre a noção de profundidade na música, de Eric Rohmer. Trad. Leda Tenório da Motta & Arthur Nestrovski. Rio de Janeiro: Imago, 1997, 240p. [] Rohmer não é apenas um cineasta rigoroso, é também um ouvinte consciente e intelectualmente preparado para as aventuras criadoras da música erudita. O subtítulo da obra é bastante sintomático: Mozart em Beethoven. Afinal, o que seria da humanidade sem música, poesia, literatura, pintura, teatro, escultura, arquitetura, quadrinhos, cinema e a paixão que nos move em direção ao saber e à consciência crítica? "Eu não diria que Mozart, para mim, é o maior dos músicos: Bach e Beethoven ficam na mesma altura. Mas é o mais profundo" (p.21).

A vontade radical, de Susan Sontag. Trad. João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, 262p. [] Coletânea de ensaios de alto nível político e literário, publicada originalmente nos Estados Unidos em 1969. Em destaque: A imaginação pornográfica; Persona, de Bergman; Godard; O que está acontecendo na América (1966). Quando o lemos pela primeira vez, em 1987, ficamos entusiasmados com a sua clareza crítica. E com a sua agudeza ensaística. Sontag nos mostra que é possível pensar criticamente a realidade sem que recorramos ao formalismo barato de muitos. O saber militante passa necessariamente pelo conhecimento ontológico: o mundo que nos cerca é muito mais complexo do que aparenta ser.

Aventuras de Alice no País das Maravilhas [1865] & Através do espelho 1872] /Edição comentada/, de Lewis Carroll. Trad. Maria Luiza Borges; ilust. John Tenniel; int. & notas Martin Gardner. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002, 303p. [] Embora prefiramos as traduções de Sebastião Uchoa Leite, publicadas antes, esta edição é primorosa, seja pelo acabamento gráfico, seja pelas ilustrações de Tenniel ou pelas notas de Gardner. E os dois títulos, aqui reunidos no mesmo volume, e que se completam esteticamente, são clássicos inegáveis da literatura mundial. O seu lado fantástico, extremamente criativo, extrapola possíveis conotações psigológicas que, infelizmente, poderiam tornar duvidoso o legado humanístico do autor.

Notas sobre o cinematógrafo, de Robert Bresson. São Paulo: Iluminuras, 2005, 143p. [] Breves anotações, feitas por um grande diretor, de 1950-58 e 1960-74 e que são importantes para uma melhor compreensão do sistema cinematográfico que o alimenta formalmente. Exemplos: "Opor ao relevo do teatro a superfície lisa do cinematógrafo" (p.27); "Tenha certeza de ter esgotado tudo o que se comunica pela imobilidade e pelo silêncio" (p.29); "O cinema sonoro inventou o silêncio" (p.42); "Um som não deve jamais socorrer uma imagem, nem uma imagem socorrer um som" (p.52); "Traduzir o vento invisível através da água que ele esculpe passando" (p.62); "O verdadeiro é inimitável, o falso imutável" (p.67).

As crônicas marcianas [1950], de Ray Bradbury. Trad. José Sanz. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980, 212p. [] Se fôssemos apontar os melhores relatos ficcionais americanos de todos os tempos, decerto o livro de Bradbury (contos que se relacionam romanescamente) ocuparia um lugar especial. Nunca a ficção científica, antes ou depois, atingiu uma plenitude poética tão esplendorosa quanto aqui. Quando o lemos pela primeira vez, no final dos anos 60, ficamos fascinados: seja por sua imaginação criadora, seja por seus delírios humanísticos, seja por suas possibilidades temáticas. Aqueles que acreditam que a FC se resume em guerras interplanetárias, em robôs assassinos, em aventuras espaciais, só conhecem uma pequena parte de seu universo ficcional. Alguns dos melhores capítulos/contos: Os homens da Terra, A terceira expedição, A manhã verde, Encontro noturno, O marciano.

A guerra dos mundos [1898], de H.G. Wells. Trad. Raul de Sá Barbosa. Ilust. Alvim Corrêa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, 248p. [] Ficção científica antes da ficção científica (enquanto gênero formalmente constituído), este é um livro antenado com seu tempo, tempo esse que acreditava em suas descobertas, em seus avanços tecnológicos, em sua racionalidade quase religiosa. Mas que, para alguns, como Wells, terminou sendo um tempo apropriado para se pensar o pessimismo de modo abrasador, cujas incertezas filosóficas (que não se inscreviam no âmbito do materialismo dialético) entravam em choque com as certezas políticas voltadas para o sonho e para a utopia. Aliás, a ficção científica formou-se a partir de três vertentes básicas, ora literárias, ora filosóficas: o sentido do maravilhoso, o espírito de aventura e a possibilidade da utopia. De qualquer maneira, este é um livro que coloca a imaginação em primeiro plano, cujo tecido textual se constrói a serviço da boa literatura. Até mesmo uma suposta invasão de marcianos não se resumia à invasão em si: o seu simbolismo refletia uma nova maneira de olhar o mundo. Sem dúvida, estamos diante de um belo livro, aqui, como álbum, enriquecido pelas ilustrações do brasileiro Alvim Corrêa, que datam do início do século XX, fazendo com que essa seja uma edição preciosa. Bela e preciosa. Há que registrar que Alvim Corrêa fez mais pela visualização onírico-especulativa do livro de H.G. Wells do que todo o cinema que o adaptou até agora. Mesmo em relação aos quadrinhos, não conhecemos nada tão poético e fascinante, em sendo penumbroso, quanto os desenhos de Alvim Corrêa.

Quadrinhos em fúria, de Luiz Gê. São Paulo: Circo Editorial, 1984, 88p. [] As histórias-em-quadrinhos de Luiz Gê, desde os tempos heróicos da nanica Balão, nos anos 70 do século passado, são o melhor exemplo da pujança criativa do nosso grafismo seqüencial. Produzidas durante o mais duro período da ditadura militar que procurou nos arruinar, política e ideologicamente, as historinhas aqui republicadas sintetizam o que existe de mais instigante no quadrim tupiniquim: crítica e metacrítica, visão e cosmovisão, tesão e tensão, amor e humor, arte e artimanha, poética e política. Reproduzimos, a seguir, o que escrevemos para este álbum: "O quadrinho realista brasileiro, em sua vertente estilizada, tem momentos de raro fulgor gráfico, narrativo e semântico-temático na produção do paulista Luiz Gê, um dos (poucos) nomes ímpares de nossa 'banda desenhada'. Desde 1972, quando surgiu na paulicéia tresvairada, a revista Balão, de instigantes propostas alternativas, Luiz Gê tem-se destacado como um autor de exemplar modernidade. A arte de Luiz Ge é uma arte radicalmente nova, inserida no interior da própria radicalidade quadrinhística, à margem da indústria cultural. É assim que ela é moderna: nas alegorias, no simbolismo, na estesia gráfica. Assim é a obra-em-progresso que figura na primeira linha do quadrim tupiniquim, como se fora uma geometria do desejo gráfico, 'uma faca só lâmina', sem as facilidades de um certo escrachamento simplista que muitas vezes domina os caminhos humorístico-caricaturais de nossos quadrinhos. A porrada (gráfica) de Luiz Gê tem outra direção, outra voltagem".

3 comentários:

Anônimo disse...

Professor! Cadê Florânia?!

Alex de Souza

Moacy disse...

Pois é, meu amigo: Cadê Equador? Cadê Jardim de Piranhas? Cadê Lagoa Nova? Na verdade, citei as cidades que conheço ao vivo e ao cheiro, embora Carnaúba (dos Dantas) e Timbaúba (dos Batista) apareçam mais por laços afetivos e rítmicos - em relação ao texto em si - do que qualquer outra coisa. Um abraço. Seridoense, claro.

Bosco Sobreira disse...

Somos todos Seridó, mesmo os que não somos Serídó.
Muito bom, meu caro Mestre.
Forte abraço.