terça-feira, 26 de junho de 2007


Navegando pelos sonhos virtuais da imaginação poética:
La nostalgie, de Sergey Kharlamov
[ in Meu Porto ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2046
Rio, 26 de junho de 2007



CAUDAIS
de Lívio Oliveira (RN)

Um sonho dúplice
explode sob a blusa transparente
da moça incauta
e se conduz à minha língua
sedenta de líquidos sagrados,
vinhos e mostos,
óleos e leites.
Formas circulares,
arredondadas,
preenchidas e recobertas
por matéria mágica.
Tudo é santo
nessa dama eufórica.
Sorriso puro de aprendiz,
neófita de posições,
de atitudes,
e eu, louco vampiro.
alimentando-me
de sua pureza,
agora já descoberta,
como seu corpo
que emerge das águas
e dos sais
desse mar de gozos
abissais,
cachoeiras e fontes
que jorram de mim.


MINICONTO I
de Jeanne Araújo (RN)

Nascera menino. Compraram-lhe sapatos, bonés e uma corrente de homem. Mas a sensibilidade estava nele como uma espinha atravancada na garganta. Gostava de, às escondidas, vestir os vestidos das irmãs, pintar a boca com o batom da mãe. Brincava de casinha com as meninas da rua. Várias vezes foi agredido pelos colegas. Várias vezes apanhou do pai. Um dia, cansado de tudo, trancou-se no banheiro com gilette na mão
e menstruou pela primeira vez.



Cinema
MOOLAADÉ, UM FILME AFRICANO

Vimos ontem, no CineMaison (centro do Rio), pela primeira vez, um filme do senegalês Ousmane Sembene. Recentemente falecido aos 84 anos, Sembene é um diretor bastante conceituado na Europa, sendo mesmo tido por muitos como "o pai do cinema africano". O que vimos, na verdade, foi o seu último filme, por sinal: Moolaadé (2004). Aqui, aos poucos somos dominados pela estrutura narracional da obra, por suas imagens, e pela forte temática que a torna política sem ser panfletária: a temática da "castração vaginal" entre jovens meninas que vivem num vilarejo tribal no interior da África. O filme não é maniqueísta, ao contrário, e, em sua limpidez conteudístico-narrativa, coloca em pauta o que de fato interessa, sob a instância de uma dada leitura, a nossa leitura. E o que interessa, para nós, é a questão do humanismo, problematizado pelo olhar "branco-ocidental", diante do embate entre a tradição (secular) e a modernidade (globalizada). Neste sentido, os dois últimos breves planos do filme, separados por um corte preciso, são emblemáticos, levando-nos a perguntas sem respostas. O que fazer para conter a fúria das "castradoras religiosas", sem ferir os rituais sagrados da História de um povo? O que fazer quando um símbolo tradicional (um ovo de avestruz) é substituído por uma antena de televisão? Moolaadé é mais do que um filme: é uma aula de africanidade.

7 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
Depois de mostrar a beleza, digamos, agressiva daquela atriz, você nos oferece uma mulher de uma pureza, de uma "inocência" em sua nudez, inclusive passando uma impressão onírica. Bela foto, como é belo o poema de Lívio. Um abraço.

Patuska disse...

Belíssima foto no início do post, Moacy, e me tocou ainda mais o miniconto da Jeanne..
Parabéns aos dois...
Abraços!

Patrícia

PS: Poemas, tortos, insanos, sanos são sempre precisos... Todos os poemas me são!! ;oD

Jens disse...

Putz, que porrada o conto da Jeanne. Parabéns pra ela.

Anônimo disse...

Moacy:
Obrigada, muito, pelo presente...
E, que coisa boa, encontrar, de novo, seus passos no Meu Porto.
O meu beijo e o meu sorriso...

Míriam Monteiro - http://migram.blog.uol.com.br

Janaina Staciarini disse...

Adorei o Miniconto 1. Adorei seu espaço. E adorei mais ainda saber você tricolor. Eu também voltarei, Moacy.
Beijos.

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Moacy,
O Balaio, hoje, vem com tudo que nós, pobres mortais, temos direito.
Está tudo de "primera", como se dizia lá no meu Canindé. Foto, poema e conto: tudo poesia. E da melhor!
Um forte abraço.

sergio disse...

Meu caro, mas que notícia triste, não sabia da morte do Sembene. Não esqueço um filme dele que vi na Mostra de SP tempos atrás: Campo de Thiaroye. Um cineasta respeitado em todo mundo civilizado, mas claro que totalmente desprezado por estas plagas. Excelente sua resenha.
Um abraço!