quarta-feira, 20 de junho de 2007


Nem Pipa, nem Genipabu.
Nem Ponta Negra, nem Muriú.
A praia do Rio Grande do Norte que realmente me fascina
chama-se Galinhos, numa pequena península
a 166 quilômetros de Natal, no litoral norte, perto de Areia Branca.
É verdade, é verdade: ainda não conheço Cristóvão e Ponta do Mel.
Só posso dizer o seguinte: Galinhos, com seus 2.000 moradores
e algumas poucas pousadas (que não atraem o turista tradicional, ainda bem!),
é a praia dos meus sonhos nordestinos.
[Aqui, em foto de Hugo Macedo]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2041
Rio, 20 de junho de 2007



CONDOMÍNIO
de Adelaide Amorim
[ in Inscrições ]

o hálito
não te pertence
: perfume destinado
desde sempre
a quem te colhe
pétalas na pele


Cinema
ROMANCE DO VAQUEIRO VOADOR

Há algo de mágico, que extrapola a emoção, no mais recente filme do paraibano-carioca-brasiliense Manfredo Caldas:
Romance do vaqueiro voador não é uma obra qualquer.
Entre a poesia e o documentário, entre a ficção e a realidade, o filme nos atinge em vários níveis: ora pela poesia de suas imagens e por seu aboio cantante, ora pela narrativa metalingüística que o forma e o dimensiona enquanto discurso cinematográfico, ora pela construção de um personagem mitológico (magistralmente vivido por Luiz Carlos Vasconcelos), ora pela crueza dos depoimentos daqueles que sobreviveram à construção de Brasília. Sim, porque Brasília foi construída sobre os cadáveres de centenas e centenas de candangos/operários, em grande parte nordestinos. Desde os tempos de Juscelino, Brasília não é uma cidade inocente: a morte de muitos de seus construtores pesou sobre os seus idealizadores - e o peso foi terrível. Por trás de toda uma beleza - a beleza de seu planejamento, a beleza de sua arquitetura -, há muita dor, há muita tristeza. Manfredo soube captar, com energia, essa dor e essa tristeza. E ao mesmo tempo, apesar de tudo, soube captar a beleza de Brasília. Não a Brasília dos generais e dos políticos, mas a Brasília que palpita, que sofre, que ama, e que não esquece a dor da perda. A dor da tragédia. Em Romance do vaqueiro voador - o vaqueiro que voou do alto do edifício em construção para a morte no chão batido - o cinema, já no título, se encontra com a poesia de cordel. E, sob o olhar atento de Manfredo Caldas, Luiz Carlos Vasconcelos, Sérgio Moriconi (co-roteirista), Waldir de Pina (fotógrafo), Ricardo Miranda (montador) e Marcus Vinícius (músico), já nasceu clássico. Simplesmente, o melhor filme nacional em muitos e muitos anos.

8 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
Como esse filme te "pegou", hein? Nem precisava você dizer que, para o seu gosto, na sua opinião, é o melhor filme brasileiro em muitos anos. Será que aparece por aqui? Oremos, como dizia um colega, aliás não religioso. Até agora não passou "O Céu de Sueli", que tenho tanta vontade de ver. Ah, esses exibidores daqui! Um abraço.

Felipe, SM disse...

Bom dia meu querido,

A despeito de Cristóvão e Ponta do Mel, bonitas pela exótica paisagem de suas dunas vermelhas com cheiro de sertão, não são elas tão aconchegantes e relaxantes quanto à praia de Galinhos, sem dúvidas, a minha Itapuã (aquela cantada pelo Vinícius. Hoje, sobrevive apenas em seu poema).
Grande abraço. Felipe, SM

Marco disse...

Caro mestre Moacy,
Adorei conhecer este cantinho. Cada vez mais suspiro por cantinhos, onde o vírus da violência humana urbana ainda não tenha infectado. Deve ser mesmo muito bonito este lugar. Aliás, o Rio Grande do Norte é recanto de belíssimos lugares. Tenho um enorme carinho por Natal.
Gostei do poema singelo de Adelaide.
Fiquei curioso sobre o filme que você citou. E cá falei com meus botões: toda grande obra arquitetônica ou de engenharia é feita sobre sangue. Desde as grandes pirâmides, que mataram centenas, quiçá milhares de pessoas até Brasília, passando por Suez, Panamá, Madeira-Mamoré... É triste perceber que os monumentos que o Homem constrói para deixar patente o seu domínio na Terra são desumanos no sentido que consome vidas para seu empreendimento.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Marcos A. Felipe disse...

Sobreira, acho que O Céu de Suely já saiu em DVD. Lamento lhe propor a audiência em DVD, mas, sim, no cinema ele fica mais elegante. É um dos melhores filmes brasileiros há anos, sí ficando atrás do Cinema, Aspirinas e Urubus.

Jens disse...

Ô Moacy:
Galinhos me fez ter saudades do verão, tchê.
Um abraço.

sergio disse...

Se é no Rio Grande do Norte só pode ser maravilhosa. Já anotei o nome da praia pra próxima vez que eu for para lá :)
Nunca tinha ouvido falar nesse filme. Fiquei curioso.
Abraço!

adelaide amorim disse...

Moacy, fico sempre toda prosa quando encontro um texto meu aqui no Balaio, junto com tanta coisa boa de ler. Te agradeço, viu? Um beijo.

Geórgia disse...

Tá de casa nova, meu xodó? E que maravilha de praia é essa que eu ainda não conheço? Qualquer coisa com menos de 5000 moradores me atrai escandalosamente. Beijo-te.