sábado, 14 de julho de 2007


Grandes momentos do cinema:
Blow-up (Michelangelo Antonioni, 1966).
Mais uma vez o cinema do Mestre italiano com suas conotações formalmente apolíneas, mesmo quando embriagadoras, como aqui. Não haverá em Blow-up um duplo olhar que revela o não-revelado, que revela aquilo que não é para ser revelado? Quando o vi pela primeira vez, ainda nos anos 60, havia nele qualquer coisa que me dilacerava, que me queimava, como se a tangível Londres não fosse uma Londres intangível. Ao mesmo tempo, sua modernidade nos angustiava: o filme estava dentro de nosso sangue, de nossas entranhas, de nossos desejos, de nossas desilusões. Visceralmente. Até hoje. Até hoje. (Moacy CIRNE. Luzes, sombras e magias. Natal: Sebo Vermelho, 2005, p.114)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2062
Rio, 14 de julho de 2007



OFERENDA
de Laura Amélia Damous
[ in A poesia maranhense no século XX, de Assis Brasil ]

Venho te oferecer meu coração
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (24a / 111)

Livro de poemas de Jorge Fernandes [1927]. Natal: Fundação José Augusto, 1997, 96p. [] Edição facsimilar: a primeira explosão modernista do Rio Grande do Norte. Manuel Bandeira, Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade, entre outros, tinham em alta conta os versos regionalistas e, às vezes, onomatopaicos (além do caligramático Rede "suspensa") do poeta potiguar. Jorge Fernandes, com esse único livro, e José Bezerra Gomes, igualmente com a solitária Antologia poética, tornaram-se referência obrigatória para as vanguardas (anti/contra)literárias de Natal, a partir de 1966/67.

O Eu profundo e os outros Eus, seleção poética de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1975, 288p. [Nossa edição dos anos 60, que considerávamos uma verdadeira Bíblia da Poesia, ficou para sempre nas mãos de uma jovem morena carioca, por volta de 1968.] Basta dizer que se trata do maior poeta de língua portuguesa, depois de Camões. É preciso dizer mais alguma coisa? Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos: quatro pessoas numa só - eis aqui o Santíssimo Quarteto da Poesia Universal. Em se tratando de Pessoa, tudo vale a pena, já que a sua poeticidade não é pequena.

O casamento [1966], de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, 260p. [] Um romance arrasador, que atinge, com furiosa agressividade, os padrões morais e amorais da classe média suburbana das grandes cidades brasileiras, particularmente o Rio de Janeiro. Ninguém se salva da sujeira lancinante que envolve todos os personagens. Não há compaixão, não há salvação. Mas há a obra-prima: a literatura que, com suas imperfeições, consegue ser perfeita. Como já foi dito, aliás. Não é um livro qualquer - é um livro de Nelson Rodrigues, é a obra de um "anjo pornográfico" (cf. Ruy Castro).

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Não nos desculpemos de amar com a imaginação. Tudo é imaginação. O amor é imaginação concentrada; a poesia, imaginação difusa. (Joaquim NABUCO. Pensamentos soltos. Brasília: AN Editora, s/d, p.305)

4 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Olha a coincidência, caro Moacy. Terminei há poucos dias de ler, mais uma vez, Livro de Poemas. É um livro fundamental, embora tenha alguns poemas menores. Um dos veros que mais me agradam é aquele que que diz "cajus todos virgulados de castanhas". É, Jorge sabia das coisas. Um abraço.

Acantha disse...

Perfeita seleção, MOACY querido!!

sandra camurça disse...

Moacy! Que cartaz lindo! Ótima postagem. E quanto a citação: você se supera, hein, moço? Um beijo.

Andros Renatus disse...

"Blow up" explode a cabeça da gente... é um daqueles filmes que deixam a gente sem reação no final, em estado catatônico...

Abraços!