sábado, 3 de novembro de 2007


Grandes momentos do cinema:
Madre Joana dos Anjos (1961), de Jerzy Kawalerowicz.
Com fotografia magistral de Jerzy Wojcik e interpretação luminosa de Lucynna Winnicka, no papel da Madre Joana possuída pelos demônios, num convento europeu em pleno século XVII, esta obra-prima da cinematografia polonesa e mundial é uma jóia rara: um filme para ser visto uma, duas, três, mil vezes. Como já foi dito pelos estudiosos, uma obra de "pesquisa plástica que descreve com paixão e precisão a possessão histérica" de um episódio da história religiosa francesa, transposta para o cinema de forma irretocavelmente fascinante.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2155
Rio, 3 de novembro de 2007


DONATÁRIA
de Lívio Oliveira (RN)

Sobre tuas coxas
deixo o meu sonho,
enquanto arranhas minhas costas.

Entrego-te, também,
minhas armas,
minhas botas
e meu todo desejo.

Envolto em teus cabelos,
amacio-me nas luas abertas de teu umbigo,
entrego minha língua
às órbitas encrespadas de tuas auréolas.

Eis o momento em que não reflito.
Apenas, em mais um lapso de insanidade,
dôo-me ao teu encanto múltiplo
e salto para o abismo
de tua fêmea magia.


TRÊS FILMES, TRÊS OBRAS-PRIMAS

Fato raro em minha longa história de cinéfilo: quase não tenho ido ao Odeon, ao Estação, ao Arteplex, ao Museu da República, ao CCBB, à Maison. E ao Espaço de Cinema. Mas tenho visto filmes em casa. Visto e revisto. Muitos e muitos. Entre eles, três obras-primas.

Madre Joana dos Anjos (Kawalerowicz, 1961), que eu vira pela primeira vez em 1981, aqui no Rio (no antigo Cinema 1, se não estou enganado), retorna agora em dvd pela LumeFilmes, para atestar a sua importância estética, com um claro-escuro "pintado" de maneira admirável. Seus planos são precisos, o elenco é excelente, a história é ótima, a direção é criativa. O final (os sinos tocando, sem o menor som) é antológico. Aliás, a obra inteira é antológica. É puro cinema.

Othon (Straub & Huillet, 1969) é o cinema antinarrativo por excelência, com a devida marca straubiana. Não o conhecia; a cópia italiana que me chegou às minhas mãos tem por origem a Cineteca. Numa Roma moderna, com seus veículos e seus ruídos, no meio de ruínas, alguns poucos personagens, vestidos à moda antiga, declamam estaticamente, ou quase, os versos de uma das peças de Corneille. Radical do primeiro ao último segundo, trata-se de uma obra ímpar.

Paisagem após a batalha (Wajda, 1970). Também não o conhecia. E também se trata de uma obra-prima, levando em conta a minha particular leitura crítico-afetivo-libertinária. Belo e cruel, é um filme que revela, a partir da sensibilidade de um poeta (interpretado por Daniel Olbrychski), o que foi o mundo para aqueles que, sobreviventes de um campo de concentração, terminaram "prisioneiros" das forças aliadas (no caso, norte-americanas). Comovente.

Há ainda uma quarta obra-prima, (re)vista em dvd: Agonia e glória (Fuller, 1980 [restaurada em 2003], com um das mais expressivas seqüencias iniciais da história do cinema. Mas sobre ela, e sua pujança estética, falarei depois. Gostaria de igual modo de escrever sobre as quatro ou cinco obras-primas de Eric Rohmer, revistas recentemente.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

O olho interminável [cinema e pintura] [1989], de Jacques Aumont. São Paulo : Cosac & Naify, 2004, 266p. [] História linear e história materialista. O visual e o visível. A paisagem e a câmera. O panorama e o primeiro plano. As vanguardas dos anos 20. Godard e "a metáfora do cineasta como pintor" (p.217). A "cenografia lacunar" em Straub, Duras, Antonioni e Bresson (p.165). A recusa da expressão/significação em Othon, de Straub & Huillet (p.202).

6 comentários:

sandra camurça disse...

Belo poema...

Natália Nunes disse...

Anotada as dicas cinematográficas :)


Como andamos todos libidinosos ultimamente. A confissão do desejo é uma via de entrega a si mesmo. Eu acho.


Abraço!

benechaves disse...

Moacy: vi 'Madre Joana dos Anjos' aqui em Natal no ano de 1968 no cine Poty, de saudosa memória. Naquela época eu e o Marcos Silva viajávamos até ao Recife para fazermos a programação do 'cinema de arte' que exibia tb algumas estréias no citado cinema.Muitas fitas excelentes foram exibidas então. Pena que vi somente uma vez o filme citado, mas gostei bastante. Como saiu em dvd, acho que irei comprá-lo. Sem dúvida nenhuma.

Um abraço...

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
A exemplo de Bené, vi Madre Joana dos Anjos, no Poti, que, naquele ano exibia sessões promovidas pelo Cineclube Tirol, além do Nordeste. Não me lembro quase nada dele, mas sei que gostei. Como gostei, exibidos também no Poti, de A Faca Na Água, de Polanski (este revi não faz muito tempo e continuei a gostar) e A Passageira, de Munk. E mais um bom poema de Lívio. Abraços.

sergio andrade disse...

Oi, Moacy! Madre Joana dos Anjos é mesmo uma obra-prima. Assisti pela primeira vez numa reprise, creio que em 1983 no saudoso Cine Arouche e depois revi 2 ou 3 vezes no Telecine quando esse ainda era Classic. Maravilhoso!
Hoje terminei de ver os 5 filmes recentemente lançados em DVD do Andrzej Wajda, entre os quais esse "Paisagem Após a Batalha", tocante.
Os outros também são grandes filmes, com destaque para "Os Inocentes Charmosos" e "Tudo à Venda", que são geniais!
Um abraço.

Acantha disse...

Infelizmente não assisti aos filmes..
Gostei muito de Livio Oliveira - vou procurar mais coisas dele. Como sempre, Balaio é cultura - e muita!