quarta-feira, 5 de dezembro de 2007


As horas
caem mansamente
e o silêncio
continua
a gritar
em mim

Texto e foto:
Claudia Perotti
[ in Olhares ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2179
Rio, 5 de dezembro de 2007


POEMA de
Luma Carvalho (Currais Novos, RN)
[ in Casarão de Poesia ]

de olhos vendados
hoje
a lua
nem flagrou
minha alma nua...


CLASSIFICADOS
de Ana de Santana (Caicó, RN)

Vende-se uma casa
Com vários vãos
E desvãos
Todos apetrechados
De máscaras e receitas de bolo
Ao redor
Árvores frondosas fazem a segurança

Vende-se um vestido de noiva
Todo bordado de quartos
Capelas e alpendres
Acompanha uma grinalda
De flores de laranjeira
E um spray para manter o cheiro natural

Também aceito troca
A casa por um cendero
O vestido por um candeeiro
E o resto por uma máquina de guardar idades


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Todos os poemas, de Mário de Sá-Carneiro. Rio de Janeiro : Aguilar ; MEC, 1974. 148p. /Biblioteca Manancial 23/ [] Segundo o crítico e ensaísta Otto Maria Carpeaux, Sá-Carneiro (1890-1916) "é o mais estranho de todos os poetas portugueses", Estranho e extremamente criativo, acrescente-se. Num certo sentido, mais criativo e mais angustiado do que o próprio Fernando Pessoa, de quem, aliás, era grande amigo. Ou, pelo menos, mais antenado com a sua época. O próprio Pessoa dele afirmaria: "Gênio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. ... Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor". Os dois fizeram parte da geração Orfeu, em Portugal, irrequieta e revolucionária para os padrões estéticos vigentes. A título de informação: aos 26 anos, Sá-Carneiro suicidou-se em Paris.


FRAGMENTOS DA POESIA DE SÁ-CARNEIRO

É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
(Álcool, in Dispersão [Todos os poemas, p.44])

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
...
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que nunca sonhei!...)
(Dispersão, in Obras citadas, p.48-49)

Sou esfinge sem mistério no poente.
(Estátua falsa, in Obras citadas, p.52)

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
(Epígrafe, in Indício de ouro [Todos os poemas, p.67])

6 comentários:

Sílvia Câmara disse...

Muito bacana os Classificados, de Ana Santana. Demais mesmo.
um abraço,

Claudia Perotti disse...

Querido,

Mais uma surpresa que adorei!
Para mim é uma grande honra fazer parte do teu blog.

Agradeço-te imenso!

Beijinhossssssss

Ada disse...

Eu ADORO a poesia de Sá-Carneiro!

E esqueci de comentar ontem sobre a obra de Joe Sacco. O "Palestina, uma nação ocupada" me fez chorar.

Há uma HQ dele sobre Sarajevo (tenho lá em casa, mas não lembro o título todo, li faz mais de um ano) também muito boa. Mas ainda prefiro "Palestina".

Abraço!

sandra camurça disse...

Bela postagem Moacy. Mas hoje a blogosfera está envolta em melancolia: o Balaio Porreta, a Toca do Jens... E eu me contamino fácil pelos sentimentos de quem me é muito caro...

Um beijo carinhoso.

Marco disse...

Caro mestre Moacy,
Como você encontra poemas tão lindos, tão instigantes? Esta postagem está particularmente bonita. E pelo visto, Caicó é um celeiro de poetas.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Acantha disse...

Um Balaio particularmente agradável!