quinta-feira, 6 de dezembro de 2007


Viagem no tempo:
Cartão postal da Praça Tiradentes (centro do Rio),
nos primeiros anos do século passado


BALAIO PORRETA 1986
n° 2180
Rio, 6 de dezembro de 2007



LIVROS, AUTORES & CREPÚSCULOS (2)

Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la: ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada. (Clarice LISPECTOR. A descoberta do mundo [9/12/1967]. Rio de Janeiro : Rocco, 1999, p.51)

O universo interior de Clarice Lispector sempre desafiou seus leitores mais atentos. Dizer que se pautava em uma espécie de "delírio ontológico" talvez nos leve a divagações metafísicas sem maiores conseqüências críticas. Afinal, o seu "delírio" era por demais concreto, mesmo quando suas viagens literárias apontavam para a imaginação em transe. Não nos esqueçamos: Clarice é um dos nomes capitais da literatura brasileira. Ao lado de Machado, Graciliano e Guimarães Rosa. A rigor, um dos nomes capitais nos mais diversos sentidos.

Mas façamos um exercício de especulação ficcional. Tentemos descobrir que rua inesquecível era essa, uma rua que a germinou para todo o sempre. Seria uma Rua Perto do Coração Selvagem? Ou simplesmente uma Rua da Imaginação Delirante, Habitada por Fadas e Bruxas? Decerto, não se tratava da Rua da Carioca (ou se tratava?), nem tampouco da Rua da Constituição, muito menos da Rua Sete de Setembro ou da Avenida dos Passos, ou ainda da Rua Pedro Primeiro, ou da Rua Visconde do Rio Branco, que desemborcam na tradicional Praça Tiradentes.

Entre nuvens e neblinas, depois de reler alguns dos melhores contos de Ray Bradbury, acredito que Clarice Lispector simplesmente viajou para o passado, para os tempos do Rossio - futura Praça Tiradentes. Lá, por volta de 1825, existia o o Teatro de São João (transformado, décadas depois, no Teatro João Caetano) e a Rua da Carioca ainda era a Rua do Piolho. Na mesma época, no interior do Rio Grande do Norte, o famoso padre e político Brito Guerra era um dos maiores mulherengos de Caicó. Mas, claro, disso Clarice não sabia.

Mas devia saber que a Praça Tiradentes, que já fora Rossio, também fora Campo dos Ciganos. Antes mesmo de ser Rossio, quando não passava de um simples pantanal abandonado, longe da "civilização", habitado por alguns poucos ciganos, considerados "infames" pelos registros coloniais existentes. Na verdade, seu lugar de origem era a atual Rua da Constituição, que liga a Praça Tiradentes ao Campo de Santana, ou seja, Praça da República. Ouso dizer: Clarice Lispector, ucraniana de nascimento, era uma cigana da escrita.

Daí a sua viagem em dezembro de 1967, quando a Praça Tiradentes já era um espaço privilegiado de prostitutas, homossexuais e malandros de todas as espécies. Mas também era - e ainda é - o espaço do Teatro João Caetano, do Teatro Carlos Gomes e da gafieira Estudantina (aliás, será que ainda existe?), além, nas proximidades, do Centro de Artes Hélio Oiticica e do Real Gabinete Português. E mais: do centenário Bar Luiz, na Rua da Carioca. A Praça Tiradentes tem história (segundo dizem, foi lá que enforcaram o dito cujo, daí o nome).

A Praça Tiradentes tem história e histórias. Histórias de amantes desesperados, de loucuras inconfessáveis, de enforcamentos políticos. E de uma Clarice Lispector que um dia viu uma coisa: uma rua que, enquanto viveu, nunca mais saiu de sua lembrança. Provavelmente, a Rua do Piolho, sim, a Rua do Piolho, que abrigaria, no início do século XX, já como Rua da Carioca, o Cinema Íris. Sim, lembro-me perfeitamente de tê-la encontrado, nos idos de 1919, numa sessão do Íris. Para ver um filme de Tom Mix. Lembro-me bem do seu ar de felicidade quando a sessão terminou.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Memórias da Cidade do Rio de Janeiro, de Vivaldo Coaracy. Rio de Janeiro : José Olympio, 1965, 558p. [] Um livro para quem ama o Rio: sua história, sua gente, suas praças, seus largos, suas ruas, suas igrejas, suas lendas, seus feitiços, seus amores, seus primeiros teatros. Ricamente ilustrado, trata-se de um livro-homenagem: como historiografia memorialística, um verdadeiro canto de amor, que principia pelas louvações do pernambucano Manuel Bandeira e do mineiro Carlos Drummond de Andrade. Um livro para ser guardado com o necessário carinho por aqueles que sabem apreciar uma edição bem cuidada. Em texto bem escrito.

6 comentários:

sandra camurça disse...

Bela homenagem a Clarice, Moacy. E ao Rio também. Ah, adoro, postais antigos, fotos antigas, tempos antigos...Enfim, sou uma mulher moderna, rs.

Um beijo.

Francisco Sobreira disse...

Sabendo como são os escritores, Moacy, desconfio que Clarice não viu essa rua, não estava no local àquela hora da noite, enfim, tudo foi produto da imaginação dela. Abraços.

Claudia Perotti disse...

Gosto imenso da Clarice e gostei da homenagem!

Beijinhosssss

Vais disse...

Olá Moacy,
Linda a foto.
Também gosto muito da Clarice.
Beijo

midc disse...

moacy, encarne mais vezes essa persona de motorneiro do tempo - seus passageiros agradecem.

Dilberto disse...

Meu caro, brilhante esta tua viagem pelo universo de Clarice! Uma metalinguagem lírica com a car desta cigana cosmopolita! Chego a crer que estás certo em colocá-la junto aos Sagrados Escritores de Nossa Língua! Grande abraço, Moacy - tem viagem também nos Morcegos...