quinta-feira, 10 de janeiro de 2008



Aqui nasci, nesta casa da Caatinga Grande, em São José do Seridó.
Aqui, pela primeira vez, ouvi cantos de pássaros e auroras
e senti o calor do sertão. 64 anos depois, com olhos atentos,
volto ao chão das minhas esperanças inaugurais.
E volto com emoção: uma emoção docemente mágica.
Entre nuvens e espantos. E azulências arrebatatoras.

(Fotos minhas, em 7/1/2008)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2201
Rio, 10 de janeiro de 2008


EM SÃO JOSÉ DO SERIDÓ

Eis-me (ao lado da companheira Fátima, do seu sobrinho André e de minha filha Isadora), numa segunda-feira de janeiro, em São José da Bonita, em pleno sertão potiguar. Através de Romário Gomes (poeta e blogueiro), Eliene Dantas (poeta, cantora e de igual modo responsável pelo blogue da ACCAS, assim como Carlos Felipe), Napoleão Medeiros (presidente da Câmara Municipal), Galim Silva (cantor), Aparecida Ferreira (poeta) e outros, sinto-me mais seridoense do que nunca. O sol, o sal, o chão, o grão, tudo é Vida. Vejo a cidade, uma cidade praticamente desconhecida para mim: seu casario típico, sua praça floricolorida, seus habitantes generosos. Algo me diz que sou filho de três cidades: Caicó, Jardim e São José. E a Passagem das Traíras, barragem construída nas terras dos três municípios, no encontro dos rios Seridó e Acauã, parece ser o símbolo geográfico-vivencial de minha cidadania seridoternuramentálida.

DE SÃO PAULO À CAATINGA GRANDE
E AO POÇO DA BONITA

De São José, com o sol torrando as nossas idéias e as nossas vertigens, partimos para o sítio São Paulo. Um almoço sertanejo nos aguardava. Do bom e do melhor: carneiro assado, arroz-de-leite, feijão verde, batata doce e outras iguarias. Também nos aguardava a simpatia (e o bom humor) de Bibi Medeiros, proprietário do sítio. E que nos contou uma história fantástica. Quando jovem, morador de uma fazenda em São José, por ele se apaixonou uma bela morena. Mas, por vários motivos, o namoro se tornou inviável. Só que, apaixonada, a mulher passou a sonhar e sonhar com o nosso amigo. Cada sonho mais bonito e mais enluarado do que o outro. E de tanto sonhar, e de tanto sentir as vibrações da terra amada, e de tanto pensar em Bibi, senhor de palavras bonitas e carinhosas, a doce morena engravidou: grávida de sonhos impossíveis e feiticeiros. Mas Bibi - artes & manhas do destino - com outra se casou. E, até hoje, é um homem feliz, plenamente feliz.

Como feliz mostrava-se o grupo, ao visitar a Caatinga Grande: seus espaços seridolentes, seus horizontes bordados com a luz do sertão. E ainda houve tempo, no final da tarde, a caminho de Caicó, para uma visita ao Poço da (Moça) Bonita. E uma pergunta dupla se fazia presente: quantos nele se perderam, quantos nele se encontraram? São José, quase ao lado, ao anoitecer, preferia não se revelar por inteiro, guardando os segredos de sua gente e de seus abismos existenciais. Num raio de poucos quilômetros, Cruzeta, Acari, Currais Novos, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó, Parelhas, Ouro Branco, Serra Negra do Norte, São João do Sabugi, Timbaúba dos Batista, Caicó, e mais cinco ou seis cidades, seridovivem nossas lutas, nossas emoções, nossas expectativas, nossas esperanças, nossas descobertas. E nossos segredos e abismos.

9 comentários:

Romário Gomes disse...

Cidadão seridoternuramentalidoense! Instigante! Ô, Moacy, eu esperava ansioso este momento porque seguramente sabia que tudo seria mais bonito depois de suas palavras. Ah, uma ligeira observação: o "ACCAS na Net" é atualizado por mim, por Eliene e por Carlos Felipe.

Jacinta disse...

Ei Moacy,
rapaz, que prosa boa nesse seu texto. Sabe que fiz o passeio junto, assim, imaginando os lugares.
Lembrei-me que meu pai sempre falava de Carnaúba dos Dantas. Tenho vontade de conhecer.
Abraços

Jacinta Dantas

Moacy Cirne disse...

Caro ROMÁRIO: Fiz a emenda necessária. Abraços em todos.

Eliene Dantas disse...

Pois é Moacy, um lindo dia com lindas pessoas. Acho que aquele dia estava cercado de uma magia importante que vai manter acesa a chama da criatividade em nossos corações. Um grande abraço e volte sempre. A casa é sua.

Francisco Sobreira disse...

Imagino, caro amigo, a sua emoção em visitar a casa onde nasceu. E de também rever os locais da sua infância e adolescência. Infelizmente, mais uma vez não podemos nos encontrar. Quem sabe na próxima vez que você vier por aqui dá certo. Grande abraço.

Marco disse...

Que belíssima postagem, caro mestre Moacy! Vendo a casa em que nasceu, lembrei do engenho de Zé Lins. Fiquei imaginando voc~e, brincando por esse terreiro. acho que deveria haver uma lei dizendo que toda criança deveia brincar num terreiro como esse. Maravilha, mestre. Seja benvindo!
Acabei de colocar no Antigas Ternuras meus Melhores e Piores do ano passado. Um abraço. Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Jens disse...

Beleza, Moacy.
É sempre emocinantes voltar às nossas raízes. Aproveite!

Espartilho de Eme disse...

Belas imagens de seridós bravios. Adorei o texto também! Beijos, Maria Maria

Acantha disse...

Linda imagem, linda história.. Mas fiquei curiosa mesmo sobre arroz- de-leite. Perdoe a ignorância da "esperta" aqui, mas o que é, MOACY??