domingo, 2 de março de 2008

Foto de
Rudy Trindade

Nossa homenagem
aos 443 anos do Rio,
comemorados ontem


BALAIO PORRETA 1986
n° 2249
Rio, 2 de março de 2008



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Memórias da Cidade do Rio de Janeiro [1955], de Vivaldo Coaracy. Pref. José Honório Rodrigues. Rio de Janeiro : José Olympio, 1965, 558p. /Col. Rio 4 Séculos, v.3/ [] Uma obra especial, quer por sua farta documentação literária e historiográfica, quer por suas inúmeras e variadas ilustrações: desenhos de Rugendas, Debret, Chamberlain, Theremin, Luís Jardim e outros; mapas; fotografias diversas. Sob todos os aspectos, um livro valioso: importante capítulo de nossa literatura memoralística. "Em Vivaldo Coaracy, como em Vieira Fazenda, a candura da confiança, o sonho vago e suave, baseia-se numa ampla e minuciosa compreensão dos fatos, de todos os fatos, inclusive e especialmente os sociais, as relações humanas, de classe, de uma sociedade de classes, discriminadas pela raça, pela religião, pela riqueza, pela saúde, pela educação. Por isso Vivaldo Coaracy, cuja obra mais estruturada segue com um impeto independente e um encanto legítimo o sentido da história do Rio de Janeiro, é um 'memorialista' esplêndido, na linha de Felício dos Santos, Joaquim Manuel Macedo, Vieira Fazenda e Gastão Cruls" (José Honório Rodrigues).

E, neste livro, o Rio se faz presente. E, nesta obra, o Rio se faz carioca. Na Praça Quinze, por exemplo. Com o seu Paço Imperial, verdadeira relíquia arquitetônica do século XVII. Com a Matriz da primeira freguesia da cidade, instituída em 1680. Com o seu Arco do Teles, que resiste ao tempo e à boemia. Com o Chafariz da Pirâmide, obra do Mestre Valentim inaugurada em 1779, como parte do próprio cais. Hoje serve de referência para uma das entradas do "mergulhão". Muita coisa já não mais existe. Como o famoso Hotel de França, que "mesmo depois de superado por outros nas acomodações, guardou a fama da boa cozinha e era grande a clientela que lhe freqüentava a sala de refeições, montada em larga varanda sobre a praça" (p.43).

E, através das páginas de Vivaldo Coaracy, a história do Rio continua viva. No Rossio (atual Praça Tiradentes, e que já foi Praça da Constituição até 1889), por exemplo. "Desdobradas através de um percurso de quase quatro séculos, as suas memórias apresentam uma sucessão de quadros coloridos que refletem variados e essenciais aspectos da vida da comunidade carioca" (p.61). No local figuravam o Teatro de São João, inaugurado em 1813 (no espaço hoje ocupado pelo Teatro João Caetano), e outras casas de espetáculo. No local, ou quase ao lado, entre as atuais Avenida Passos e Rua da Constituição, num "pantanal abandonado e desprezado" (p.67), figurou um Campo dos Ciganos, com "seus míseros e toscos casebres de moradia" (idem). No local, daí o seu nome a partir de 1889, teria sido enforcado Tiradentes em 1792. Mas há controvérias sobre a exatidão do espaço destinado à forca que o supliciou. Afinal, ainda para os padrões atuais, a distância entre a cadeia pública, ao lado do Palácio dos Vice-Reis (Paço Imperial) e o Largo do Rossio não é pequena.

A viagem de Coaracy pelo temp(l)o carioca, entre o factual e o pitoresco da vida cotidiana, continua revelando o Rio de nossas inquietudes: o Rio que passa pelo Largo da Carioca (p.105ss), pela Praça da República, que já foi Campo da Honra, Campo de Santana e Praça da Aclamação (p.157ss) [aliás, ainda hoje muitos a chamam de Campo de Santana], pelas Igrejas antigas (p.263ss), pela história da escravidão dos índios e dos negros africanos (p.387ss), por uma listagem das principais ruas e alguns bairros (p.425ss). E aqui há nomes curiosos, nomes que desafiam a nossa imaginaçãol: Bairro das Águas Férreas (atual Cosme Velho), Rua das Boas Pernas (atual Moncorvo Filho), Beco dos Barbeiros (atual Travessa Onze de Agosto), Rua das Belas Noites (atual Rua das Marrecas). Fiquemos por aqui: uma Rua das Belas Noites nos leva a sonhos inimagináveis e desejos proibidos. Mas voltaremos ao assunto, em breve. Por que, por exemplo, a tradicional Rua Carioca já se chamou Rua do Egito? Já pensaram numa rua chamada Detrás de São Francisco? Sabiam que a Praça Mauá já foi Largo da Prainha? E a Primeiro de Março (todos conhecem hoje o CCBB, na esquina com a Presidente Vargas), Direita da Misericórdia? Sim, precisamos voltar ao assunto.

4 comentários:

Marcos A. Felipe disse...

Apenas 3 estrelinhas pro Deserto Vermelho, meu caro?!@!? São raros os Antonionis que não são cinco estrelas. Além do mais, O Deserto Vermelho é, praticamente, um estudo sobre a cor no cinemae como e como esta tem relação com a psicologia dos personagens. Neste processo que integra cromatismo e personagens, Antonioni desenvolve uma obra austera em seu controle, poética na instituição das cores e devastadora em relação à solidão de indivíduos perdidos nos sentimentos. Vale mais, vale mais!!!

Moacy Cirne disse...

Caro Marcos: Para mim, *** (três estrelas) é a cotação máxima. Considerto "O deserto vermelho" uma obra-prima, portanto. Um abraço.

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Fiquei intrigado com o aniversário do Rio em primeiro de março. Não é em 20 de janeiro, dia de São Sebastião? Um abraço.

Marcos A. Felipe disse...

Ahhhhhh Moacy .... Minha referência são as cinco estrelas, como da maior parte do pessoal que as utilizam para as cotações... Sem problemas, mil desculpas.