sábado, 1 de março de 2008


Monica Vitti em
O deserto vermelho, de Antonioni,
lançado em 1964,
o ano de
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha),
O evangelho segundo São Mateus (Pasolini),
Gertrud (Dreyer),
Dr. Fantástico (Kubrick),
Por um punhado de dólares (Leone),
King & country (Losey).
E do golpe militar no Brasil.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2248
Rio, 1 de março de 2008


Cinema
OS ÚLTIMOS FILMES (RE)VISTOS

Cotações:
*** (excelente); ** (ótimo); * (especialmente bom)
Sem cotação: razoável e/ou interessante

Persépolis ** (Paronnaud & Satrapi, 2007), animação, no Estação/1
Sicko / $O$ Saúde ** (Moore, 2007), no Estação/1
Em casa:
Salvador 71 ** (Nick Zarvos & Sindoval Aguiar, 1979), curta
[R] O deserto vermelho *** (Antonioni, 1964)

Atenção:
No próximo sábado,
comemorando os 52 anos de nossos registros cinematográficos,
iniciados em Caicó, em 1956,
apontaremos os 52 filmes que nos fazem vibrar com o cinema,
em edição atualizada.


PLUMA
Lau Siqueira
[ in Texto sentido. Parahyba, 2007 ]

quase inexisto quando penso
que n'algum momento tudo esteve
tão imerso que as artérias colidiam

não sou o argonauta que um dia
desceu de uma nuvem imantada
com algo em chamas nos olhos e
um desejo canino de
lamber o invisível

vivi a sensação de penetrar inteiro
no mesmo dilúvio que desencana
ao que não se basta

(você é um argumento ao silêncio
e tua boceta tem algo de céu)

Nota:
Este e outros poemas foram lidos ontem, pelo Autor,
no Barteliê, em Ipanema.


VONTADE QUE DÁ E PASSA
Cyana Leahy
[ in Seminovos em bom estado. Niterói, 2003 ]

Quero dilacerar a palavra
rasgar a seda da palavra
esgarçar a dubiedade da palavra
de viés
sem conserto
Quero abrir bem a boca
articulando fonemas
gritar de frente sem mascarar a palavra
uma vez
para que não entrem lesmas
para que não me teçam teias
para que eu ouça o atabaque
escondido na palavra presa
para que a palavra sangrada
escancarada escarrada
solte a mulher
ainda viva
dentro de mim



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Reflexões de um cineasta, de Serguei Eisenstein. Trad. Gustavo A. Doria. Rio de Janeiro : Zahar, 1969, 240p. + Cadernos de fotos e ilustrações. [] Para muitos e muitos cinéfilos (é o nosso caso), Eisenstein continua sendo uma referência cinematográfica importante. Neste livro - estudos dos anos 40 -, o autor de Potemkin (1925) teoriza sobre os encaminhamentos da invenção, a cor no cinema, a honestidade literária (sobre Máximo Gorki), a realização de alguns seus filmes. Há também estudos e/ou anotações sobre Alexandre Dovjenko, Ed. Tissé, Charles Chaplin. Resumindo: um livro que não perdeu sua atualidade em se tratando de uma história das idéias cinematográficas. Há também uma pergunta que alguns se fazem: seria Eisenstein mais importante do que Dziga Vertov? Ou não seria essa uma pergunta deslocada? Embora prefiramos o cinema de Vertov, não podemos deixar de reconhecer o valor estético do realizador de Outubro (1927). Mas os dois, por diferentes caminhos, colocam em pauta a questão arte/política. Em tempo: há novas edições dos textos de Eisenstein, através de outras editoras.

9 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
A diferença de apenas um ano na informação da data de um filme não representa nada, ou quase nada, a não ser se se tratar do final ou do início de uma década. No entanto, tanto o dicionário de Jean Tulard, quanto o Dicionário de Cineastas Brasileiros, de Luiz F. A. Miranda , citam 1963 como a data do filme de Glauber. Outra coisa: você não terá esquecido "King and Country", de Losey? Não o conheço, mas você já me disse que gosta dele. Ainda sobre a sua postagem, gostei do poema de Lau. Mudando de assunto: respondi no meu blogue a sua pergunta sobre o meu irmão, não sei se você viu. Um grande abraço.

benechaves disse...

Moacy: no meio de tantos filmes bonitos em 1964 o Brasil mergulha no obscurantismo. São os contrastes da vida. E durante a famigerada 'quartelada' foram 20 anos de uma história que marcou para sempre a inércia, corrupção e mediocridade dos que detêm o Poder.(Vide exemplo nos governantes pós-golpe). Restou-nos o que?
Entre outras coisas, a bela foto da Monica Vitti que você ilustra para todos nós.

Um abraço...

Moacy Cirne disse...

SOBREIRA: 1. "Deus e o diabo" foi rodado em 63, sim, mas, ao que tudo indica, lançado no dia 16 de março de 1964 (Arnaldo Jabor, in 'Folha conta 100 anos de cinema). E é também o que atestam, quanto ao ano, Fernão Ramos ('História do cinema brasileiro'), Christian Zimmer ('Cinéma et politique'), entre outros, além da ficha técnica contida em 'Roteiros do Terceyro Mundo', do próprio Glauber, com organização de Orlando Senna; 2. De fato, houve esquecimento de minha parte quanto a Losey. Grato pela lembrança. Agora mesmo vou acrescentá-lo; 3. Vi, sim, a sua resposta. Um abraço.

Jens disse...

"Seria Eisenstein mais importante do que Dziga Vertov? Ou não seria essa uma pergunta deslocada?"
Pô, Moacy, tá brincando comigo. O Eisenstein em conheço, quem tendo 50 anos e que tendo sido de esquerda na juventude (eu continuo) não viu o Encouraçado? Mas o Dziga? Fiquei boiando, como se dizia no meu tempo.
A propósito de tempo, gostei muito das 20 lembranças de Natal nos anos 60. Qualquer hora vou copiar a idéia e publicar as minhas lembranças de POA dos anos 70.
Um abraço. Bom sábado e com domingo.

Carito disse...

Desde que vi o Deserto Vermelho meus olhos ficaram assim... vermelhos... desertados... nessa estranha comunicação sobre a incomunicabilidade... no vazio fértil de Monica Vitti grávida de melancolia... 1964 - o ano em que eu nasci, numa madrugada repleta de estrelas... uma delas era Monica Vitti...

Silvia Chueire disse...

Foi bom ter ido ao Barteliê, Moacy, foi bem bom. Assim retomamos o contato e eu volto aqui aonde não vinha também a um bom tempo. Um prazer vir, aliás.Como é que fui deixando? Há coisas que não se explicam...

Beijos,
Silvia

Prill disse...

umas listas. duastrês.
uma amiga me ligou em DDI: responde a ele com cuidado, tenho os livros pro mestrado em hq.
mas é que agora fiquei pensando nas listas e fico igual criança que chega no parque (parquinho não serve, tem de ser parque de verdade) e vai em cima da cabeça um Glauber, um Antonil, o Kubrik. ah sim, aí a criança não anda em brinquedo nenhum, a criança demora a decidir e lembra só da excitação diante das listas e dos poemas-brinquedo-eisenstein. mas daí cê vê, ela não andou em nada direito porque não deu tempo, se é que andou. não deu nem pra vomitar.

isso tudo porque fiquei com isso de "limão com gosto de aurora". fiquei confusa. ninguém deve chegar e dizer essas coisas, ninguém; não escreve essas coisas mais. tem umas frases que não decodifico, por burrice, por tristeza. é isso. era, na verdade visita de cortesia, virou outra coisa. trouxe escova de dentes e penso em ficar. se der.

Jacinta disse...

Caramba,
adoro a atualização da história que você faz.
Um abraço
Jacinta

sandra camurça disse...

Ah Moacy, assisti Persépolis, adorei, apesar de não ter vivido o que ela (a autora/personagem) viveram: uma guerra, a repressão... Me identifiquei bastante, acho que tem a ver com o fato de sermos da mesma geração (eu e a Satrapi). E o desenho é muito bom, o argumento, diálogos sensíveis de encher os olhos d'água, mas também ri um bocado.

Esses poemas são uma beleza, tanto o do Lau como o da Cyana me tocaram profundamente.

Um beijo.