sexta-feira, 11 de abril de 2008


Claridade Clara Claridade:
a alegria das cores
em
Pierella Bedoyan
[ cf. Eu Faço Arte e Lavo Panelas ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2282
Rio, 11 de abril de 2008


CORAÇÃO EM FUGA
Iara Maria Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

se quero precipícios
é porque de chuva
me visto
me ouso
me abuso

quero no vôo da vertigem
descobrir-me virgem e abismo
pedra e absinto

porque não me dói
o enigma da esfinge


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS:
LIVROS & AUTORES

Cantadores [1921], de Leonardo Mota. Capa & ilust. Aldemir Martins. Fortaleza : Imprensa Universitária do Ceará /1960/, 304p. [] Um livro definitivo, ou quase, sobre a poesia popular brasileira, a partir de suas raízes nordestinas, considerando-se o rico mapeamento de nomes & poemas, como o incrível Luís Dantas Quesado, paraibano-cearense, que glosou o mote ‘Nem todo pau é esteio’ (p.115-6) com exemplar vivacidade, assim como nos sensibilizou e ainda nos sensibiliza com o inspirado Beijo (p.116), de autoria às vezes questionada, é verdade. No final, há dois capítulos deliciosos: o primeiro, de “causos sertanejos” (p.327-77); o segundo, de vocábulos e expressões regionais da época, anos 10 do século passado (p.279-302). Trata-se de um elucidário verdadeiramente porreta: brochote (= rapaz atrevido, pessoa sem importância); cabra da rede rasgada (= indivíduo desabusado); desmastreio (= contratempo); dormir chiquerado (= dormir separado da mulher); entusiasmado (= orgulhoso, atrevido); entrançar (= vagabundar); farrambamba (= gabolice, fanfarronada); felpa (= qualidade); grungunzar (= remexer); lambugem (= vantagem que se propõe numa aposta); mandureba (= cachaça); na rosca da venta (= face a face); pilóia (= cachaça); quengo (= cabeça, ineligência). [Já quenga, como se sabe, é rapariga, puta, meretriz.] Etc. e tal, etc. e tal.

Velhos costumes do meu sertão, de Juvenal Lamartine de Faria [1954 (1963)]. Natal : Sebo Vermelho; Mossoró : Fundação Guimarães Duque, 3ª ed., 2006, 127p. [] Importante documento antropológico, que é substancioso "depoimento de um sertanejo sobre o sertão do seu tempo" (JLF, setembro de 1963). Um dos livros capitais para que possamos compreender, em toda a sua plenitude social e cultural, o nosso Rio Grande: o Rio Grande do Norte de todas as paixões e de todos os alumbramentos, de todos os seridós, de todos os sonhos, de todas as aventuras e de todas as descobertas – o Rio Grande de todos nós, potengíacos ou não, agrestinos ou não, mossoroenses ou não, seridoenses ou não. Seus temas, variados, recobrem a casa-grande, as indumentárias, a alimentação, a escola, as relações de parentesco, a hospitalidade sertaneja, as festas de casamento, as festas populares e religiosas, os vaqueiros e as vaquejadas, os cangaceiros, os matadores de onça. E mais. E mais. Os velhos costumes do nosso sertão, apesar da globalização, estão mais vivos do que nunca. E quem nunca tomou um banho de chuva, ou viu um açude sangrar, no inverno, não sabe o que é o sertão com cheiro de terra molhada. Claro, há também o sertão da seca, há o sertão da fome, o sertão da miséria..

7 comentários:

Vais disse...

Olá Moacy,
'a alegria das flores', coisa mais linda, vou copiar e colar.

gostei bem do poema
'porque não me dói
o enigma da esfinge'
fiquei pensaaaaaaaannnnndo

escrevi pra você
abração

Romário Gomes disse...

Muito boa postagem: belas cores, belo poema, contundentes comentários a respeito dos textos, sobretudo no tange ao sertão globalizado, suas mazelas, seus avanços, seus costumes... Cumpre lembrar os fetiches em torno do tema, o que me faz recomendar-lhe, caro Moacy, acessar o blog de Caio Muniz: www.camelagemvirtual.zip.net
Lá tem um texto nessa perspectiva. Um abraço.

Márcia disse...

tentando voltar ao mundo dos blogues, em meio a uma trabalheira daquelas... ;)) beijo grande.

Pierella disse...

:) grande honra!

Vais disse...

olá Moacy,
abraço

ana de toledo disse...

Lindo esse Coração em fuga! Lindo!

Mulher na Janela disse...

obrigada pelo privilégio de ocupar um espaço de tão delicado (e afiado) Balaio!

um beijo de todos!

Iara