sábado, 12 de abril de 2008


Cartaz do filme
Eclipse,
de Michelangelo Antonioni,
lançado em 1962,
o ano de
Viver a vida (Godard)
Jules et Jim (Truffaut)
O anjo exterminador (Buñuel)
O homem que matou o facínora (Ford)
O processo (Welles)
O processo de Joana d'Arc (Bresson)
O silêncio (Bergman)
Muriel (Resnais)
Porto das Caixas (Paulo César Saraceni)
A faca na água (Polanski)
Cronaca familiare (Zurlini)
La jetée (Marker), curta
Labirinto (Lenica), curta/animação
solida (Wlademir Dias Pino)
Billenium (Ballard)
Um estranho numa terra estranha (Heinlein)
Primeiras estórias (Guimarães Rosa)
Homem-Aranha (Lee & Ditko)
Mort Cinder (Oesterheld & Breccia)
Barbarella (Forest)


BALAIO INCOMUN 1986
n° 2283
Rio, 12 de abril de 2008



Repeteco 7 julho 2004
A METAMORFOSE EM TRÊS TEMPOS

A metamorfose, de Kafka, publicado em 1915, é um dos textos mais densos da literatura do século XX. Toda a "angústia kafkiana", que depois encontraria contornos ainda mais intrigantes em O processo, já aparece aqui de forma inusitada. No momento, estamos empenhados em três leituras da novela (ou conto, segundo alguns): duas traduções e uma adaptação, recém-lançada no mercado brasileiro, levando em conta, contudo, que não temos acesso ao original alemão.

Comecemos com a tradução de Modesto Carone, que já conhecíamos: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso" (SP: Brasiliense, 1991, p.7). Vejamos a tradução de Jorge Luis Borges, de igual modo nossa conhecida: "Al despertar Gregorio Samsa una mañana, tras un sueño intranquilo, encontróse en sua cama convertido en un monstruoso insecto" (Buenos Aires: Losada, 1976, p.15). Nos dois casos, o mesmo impacto semântico-temático.

Não será diferente na quadrinização de Peter Kuper (São Paulo: Conrad, 2004). Uma primeira página, totalmente preta, com letras destacadas em branco no seu eixo central: "Ao acordar naquela manhã de sonhos perturbadores, Gregor Samsa viu-se transformado...". Ao se virar a página, os desenhos de Kuper: expressionistas, duros, agressivos. Desenhos que serão a marca registrada nas páginas seguintes. Com uma cruel advertência: "Não era um sonho".

Decerto, existe uma brutal diferença entre a transcriação semântica de um texto e a adaptação desse mesmo texto para outra linguagem, com níveis de significação estética diferenciados. Não podemos ler uma revista de quadrinhos como se lê um livro. Antes de se perguntar pela possível fidelidade ao "clima" kafkiano, deve-se perguntar: Kuper conseguiu fazer de A metamorfose um bom quadrinho?

Ou seja, não se pode fazer uma leitura comparativa mecanicista em se tratando de linguagens diferentes. Lembremo-nos de O processo, quando foi lançado no cinema, em 1962: alguns o criticaram porque seria pouco kafkiano. Ora, ora, deveriam se indagar se o filme era wellesiano, se tinha a marca de Welles... Qualquer comparação deveria ser feita, em primeiro lugar, com o cinema do próprio Welles e com a produção cinematográfica da época. Kafka era uma referência importante, claro, mas não era a principal.

Curiosamente, Kuper, com seu estilo gráfico opressivo, bastante pesado no claro-escuro das imagens, consegue ser kafkiano na medida de suas pretensões estético-narrativas. Há uma passagem particularmente interessante, ainda no início, quando o gerente da firma vai visitar Gregor Samsa, em função de seu atraso.

Em Carone: "Estou perplexo, estou perplexo. Acreditava conhecê-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos. ... Porém, vendo agora sua incompreensível obstinação, perco completamente a vontade de interceder o mínimo que seja pelo senhor" (p.19-20).

Em Borges: "Estoy asombrado; yo le tenía a usted por un hombre formal y juicioso, y no parece sino que ahora, de repente, quiere usted hacer gala de incompresibles extravagancias. ... Pero ahora, ante esta incompresible testarudez, no me quedan ya ganas de seguir interesándome por usted" (p.25).

Em Kuper: a página é dominada por uma só imagem, sombria como as demais. E o balão, dividido em três tempos gráficos, indica a fala do gerente, que completa: "Estou chocado, CHOCADO! Achava que você era uma pessoa razoável!" Se é possível comparar as duas traduções, mesmo sem levar em consideração a matriz original do texto, a quadrinização de Kuper tem que ser remetida a outros quadrinhos e a outras adaptações de obras literárias. E que são muitas, inclusive no Brasil.

Mas ler Kafka através de Carone e Borges é viajar por terras prazerosas no campo fértil da leitura. Conhecer Kafka através de Kuper tem outra dimensão estética, mas igualmente importante, desde que não deixemos em segundo plano a relevância do texto enquanto escrita literária (já as HQs seriam uma escrita gráfica). Ou seja: leiamos/vejamos Kuper (que já incursionara pelo universo kafkiano), mas, antes de mais nada, leiamos Kafka. Tomemos a cena da morte de Gregor Samsa, por exemplo, depois de longa odisséia pelos labirintos das incertezas humanas.

Em Carone: "Recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã. Permaneceu nesse estado de meditação vazia e pacífica até que o relógio da torre bateu a terceira hora da manhã. Ele ainda vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de fora da janela. Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego" (p.80-81).

Em Borges: "Pensava con emoción y cariño en los suyos. Hallábase, a ser posible, aún más firmemente convencido que su hermana de que tenía que desaparecer. Y en tal estado de apacible meditación e insensibilidad, permaneció hasta que el reloj de la iglesia dio las tres de la madrugada. Todavia pudo viver aquel comienzo del alba que despuntaba detrás de los cristales. Luego, a pesar suyo, su cabeza hundióse por completo, y su hocico despedió débilmente su postrer aliento" (p.72-73).

Em Kuper: três páginas narram o drama terminal de Gregor Samsa, sendo que as duas últimas, praticamente sem palavras, formam um só painel visual. Aqui, Kuper deixa de lado o seu traço definido, másculo, vigoroso, para mergulhar em sombras de baixa temperatura informativa, mas de alta configuração gráfica. Tudo se completa, nada se perde.

No final, apesar da tragédia familiar, a irmã de Gregor "havia florescido em uma jovem bonita e opulenta" (Carone, p.87), isto é, "habíase desarrollado y convertido en una linda muchacha llena de vida" (Borges, p.78). E o traço de Kuper, nos últimos enquadramentos, parece adquirir estranha e voluptuosa alegria.

Nota do Balaio: A 1ª edição da tradução de Jorge Luis Borges é de 1943; a de Modesto Carone, de 1985. O original de Peter Kuper é de 2003.


OS MELHORES FILMES
SEGUNDO
ROBERT BENAYOUN
[in Top 100 movies, 1988]

1. Vidas amargas (Kazan)
2. A regra do jogo (Renoir)
3. Luzes da cidade (Chaplin)
4. Cidadão Kane (Welles)
5. Ano passado em Marienbad (Resnais)
6. Amarcord (Fellini)
7. Viridiana (Buñuel)
8. A aventura (Antonioni)
9. Andrei Rublev (Tarkóvski)
10. Relíquia macabra (Huston)


RECOMENDAMOS
a leitura da crítica de Francisco Sobreira
sobre Pai e filha (Ozu, 1949),
in Luzes da Cidade.

5 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Do seu instigante texto sobre "A Metamorfose" e as traduções de Carone e Borges, além da adaptação do livro para os quadrinhos, queria me deter um pouquinho sobre a adaptação de uma obra literária (ou teatral) para o cinema. Já vi "O Processo" mais de uma vez (em cinema e DVD, ou em VHS, não me lembro com precisão) e , na minha modesta opinião, Welles, à sua maneira, não deixou de ser fiel a Kafka. Ele pode ter sido mais wellesiano do que kafkiano. Eu acho que, mesmo se tratando de veículos de criação diferentes, o diretor, ao adaptar um livro, deve ser fiel ao autor, sem deixar de ser fiel a si mesmo. (Estou falando de grandes obras levadas ao cinema por grandes diretores.) Para citar apenas dois exemplos, o que Visconti fez com "Noites Brancas", de Dostoiewski, e Nelson P. dos Santos com "Vidas Secas". Mudando de assunto, grato por mais uma recomendação de um texto meu. Grande abraço.

Jens disse...

Oi Moacy.
Camarada, estou voltando, desta vez para ficar, espero (tóctóctóc). Gosto pra caramba da primeira frase da Metamorfose (quando li na tradução do Carone pensei: porra, que troço é este?).
***
Quanto a literatura em quadrinhos, lembro agora de uns albúns com umas histórias do Bukowiski (não lembro o autor) que muito me agradaram. Linguagem diferente, como o cinema. Mas quando existe talento...
***
"Quando a lenda for mais interessante do que os fatos, publique-se a lenda". (Acho que é mais ou menos assim). 1962 foi um bom ano.

adelaide amorim disse...

É sempre um grande prazer visitar o Balaio, Moacy. Mais um texto rico e competente, em que a gente só sai ganhando.
E que saudade de alguns filmes que gostaria tanto de rever!
Beijo pra você.

samuel disse...

Muito bom seu blog, coincidentemente tô com Pai e Filha no gatilho aqui para assistir, depois vou ler sua recomendação. E Antoioni é o maestro da imagem, poesia pura. Abraço

Vais disse...

Olá Moacy,
tem umas coisas que leio que fico impressionada, adorei esta postagem sobre Kafka e deve de ser muito interessante esta revista em quadrinhos, pois Metamorfose mexeu, não li O Processo, li O Veredcto, e fiquei de queixo caído.
Ah, que bom que deu certo, e só pra variar, o Balaio é um prazer de leituras e imagens.
abração