terça-feira, 15 de julho de 2008


Madonna,
no livro-álbum Sex (1992),
fotografada por Steven Meisel


Veja
outras fotos do livro no blogue do
Poema/Processo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2369
Natal, 15 de julho de 2008


O lugar vazio deixado pelo cristianismo nas almas modernas não foi ocupado pela filosofia, mas pelas superstições mais grosseiras. Nosso erotismo é uma técnica, não uma arte ou uma paixão.
(Octavio Paz. O labirinto da solidão, 1978)


DIVAGAÇÕES & PROVOCAÇÕES

Sabe-se que a fronteira entre o erotismo e a pornografia é bastante tênue. Um filme como O último tango em Paris (Bertolucci, 1972), por exemplo, parece-me "docemente pornográfico", como diria o poeta, isto é, sensualmente erótico. Já um filme como Os dez mandamentos (De Mille, 1959) contém elementos pornográficos. Em maior ou menor grau. Uma obra com valores erotizáveis (cf. Bertolucci, Oshima, Manara, Picasso) aponta para duas possibilidades formais: por um lado, pode ser pornográfica, quando má realizada; por outro lado, pode ser amorosamente erótica, quando bem realizada (vide os autores citados). Decerto, em termos de comportamento humano - um terreno sempre difícil de ser explorado no campo das psicologias sociais -, a pedofilia (para que fiquemos num exemplo tristemente conhecido) não passa do mais puro desvio pornográfico. Como pornográfica é a fome. É a miséria social. É a impunidade. É a violência urbana. Pornográfico é o preconceito. É o racismo. É a ditadura da mediocridade. São os fascismos. São os comportamentos amorais de muitos e muitos políticos.

Sempre fui a favor do saber militante, e não do saber que se esgota nos gabinetes refrigerados da incompetência subliterária. O saber teoricista não me interessa, nunca me interessou, assim como não me interessa a direitice mental, refúgio dos frustrados de ontem e de hoje. E de sempre. Outro é o lugar do verdadeiro intelectual. E o que é um "verdadeiro intelectual"? De saída, quem pratica a erudição pela erudição, isto é, a erudição burra, não passa de um "pobre" intelectual sem eira nem beira. A rigor, quem se vale apenas de "leituras inertes" (cf. Bachelard), sem criatividade e/ou sentido produtivo, não merece ser chamado de intelectual em sua plenitude crítica. Intelectual, salvo engano, é aquele que faz da militância intelectual uma prática substancialmente concreta de vida a partir do real, do social e das diferenças culturais - uma prática humanamente concreta de vivências literárias, filosóficas, antropológicas etc.

5 comentários:

Mme. S. disse...

Esse post está sensualmente instrutivo, querido.

Lívio Oliveira disse...

A conceituação do intelectual é interessante e dá contornos efetivos para a discussão a respeito do tema!
Abraços!
Lívio

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Lúcido o seu texto. Mas você poderia explicitar por que "Os Dez Mandamentos" contém elementos pornográficos. Um abraço.

Diego Viana disse...

Do caralho a defesa do saber militante. 100% apoiado. Morte ao gabinete!

Jens disse...

Ô Moacy, faço coro com o Sobreira. Explica melhor a pornografia d'"Os Dez Mandamentos".
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Porra e a Madonna? Vou lá conferir no Poema/Processo.
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Um abraço.