segunda-feira, 6 de outubro de 2008


Natal! Natal!
Nem o luto a derrubará!
Redimensionamento cromático
por
Moacy Cirne


BALAIO PORRETA 1986
n° 2446
Rio, 6 de outubro de 2008

Apesar de tudo,
Natal resistirá,
Natal sobreviverá.


Cinema
Oriente Desconhecido & Festival do Rio 2008
FILMES VISTOS NOS ÚLTIMOS 10 DIAS

Três momentos *** (Hou, 2005)
Tropical malady ***
(Weerasethakul, 2004)
A viagem do balão vermelho ***
(Hou, 2007)
Katyn ***
(Wajda, 2007)
Les amours d’Astrée et de Céladon **
(Rohmer, 2006)
Quatro noites com Anna **
(Skolimowski, 2008)
Ondas invisíveis **
(Ratanaruang, 2006)
Blissfully yours **
(Weerasethakul, 2002)
Millenium Mambo **
(Hou, 2001)
Xiao Wu **
(Zhang-ke, 1997)
A fronteira da alvorada *
(Garrel, 2008)
O homem que engarrafava nuvens *
(Lírio Ferreira, 2008)

Cotações:
***
Excelente
**
Ótimo
* Especialmente bom

CÂMARA CASCUDO – UMA BREVE LEITURA (2)

Se as suas obras historicamente menos enriquecedoras também despertam a nossa atenção, o nosso olhar crítico, só podemos chegar a uma conclusão: a pujança intelectual de Cascudo é cristalina. E inquestionável. O que não nos impede de lamentar as lacunas e os artifícios de História da Cidade da Cidade do Natal (1ª edição: 1947; 2ª edição: 1980) e de História do Rio Grande do Norte (1ª edição: 1955). Sabemos o quanto é difícil fazer restrições a Cascudo em Natal (se bem que Esmeraldo Siqueira, por exemplo, muito antes do poema/processo, já o fazia com bastante dureza). Mas é preciso entender que as nossas restrições são de ordem epistemológica, e não pretendem diminuir o significado cultural de sua obra.

Vejamos, então, a História da Cidade do Natal (HCN). Há um início promissor: “A tendência inevitável da história é mostrar o que foi escondido pelo documento” (HCN, 2ª ed., p.15). Mas logo em seguida vem o primeiro ponto discutível do livro, a rigor, uma reunião de vários textos sobre a capital potiguar, publicados em períodos diversos, e portanto pouco sistematizados: “Natal é uma cidade sem problemas” (p.15). Como assim? Não existem cidades, regiões e/ou países historicamente sem problemas, quer políticos, quer sociais, quer econômicos, quer culturais. Por que Natal seria diferente? Neste caso, seria preciso apontar as diferenças substantivas em relação a outras localidades. Decerto, não é possível fazê-lo.

Mas o pior vem a seguir: “Cidade sem problemas, que a Padroeira não permita o nascimento deles, nascidos monstruosamente dos bolsos cheios e dos corações vazios...” (p.16). Façamos um esforço de imaginação para justificar o Mestre Cascudo: tratar-se-ia de uma metáfora. Ou de simples ironia. E já que a História não é nosso campo específico do Saber, talvez estejamos equivocados... Contudo, a nossa desconfiança aumenta quando lemos: “A História oficial iniciar-se-á com a tentativa de colonização. É um período escuro, irriçado em contradições, ausências de documentos” (p.19). Agora, sim, tudo fica mais claro: a preocupação de Cascudo é com a História Oficial, com a história das elites. Como, aliás, já tínhamos observado.

Há também controvérsias sobre a fundação da Fortaleza da Barra do Rio Grande (cf. Helio Galvão e Olavo de Medeiros Filho, mais consistentes), que Cascudo procura minimizar: afinal, a fortaleza (e não forte), como a conhecemos, foi construída durante alguns poucos meses ou vários anos? E se é verdade que o Mestre da Junqueira Ayres acertou em muitos pontos, no tocante à fortaleza, abriu espaço para dúvidas que, a rigor, nunca foram respondidas a contento. A não ser, parcialmente (acrescente-se, apesar do rigor que neles encontramos), pelos já citados Helio Galvão e Olavo de Medeiros Filhos. De qualquer maneira, Cascudo fez e fazia literatura. Boa literatura – uma literatura digna dos Mestres.

Quando a questão, por sua vez, volta-se para o problema indígena, o nosso espanto se torma maior: “Os cariris, indígenas de cabeça chata, silenciosos ... foram grandes aliados dos holandeses, n’algumas tribos como os janduís. Correspondem esses cariris, sob vários aspectos, aos Tapuias que nunca existiram antropologicamente, sendo apenas nome dado pelos tupis aos seus inimigos do interior” (p.54). É necessário que façamos algumas leituras da época (anos 30 e 40, em particular) para que não sejamos injustos com o folclorista norte-rio-grandense, o “colecionador de crepúsculos” que todos admiramos – o “brasileiro feliz” por excelência: o espirituoso “Cascudinho” da vida boêmia da Natal de todos os sonhos.

O que significa afirmar, portanto, que os tapuias nunca existiram antropologicamente? Seria o nosso espanto gratuito, pura e simplesmente? Sim, é verdade: os tupis, compreendendo as tribos potiguara e tabajara (RN/PB-PE), os chamavam de tapuias, gentios da “língua travada”. Mas eles, os nossos indígenas dos sertões, inimigos declarados dos portugueses, se autodenominavam de otshicayaynoe (subdivididos em tarairiús e outros, cf. Olavo de Medeiros Filho: Índios do Açu e Seridó, 1984, p.21-30). Acreditamos que só uma verdadeira história capaz de registrar a língua do nosso gentio do sertão potiguar-cearense dará conta da complexidade do problema lingüístico-antropológico que se apresenta.

Os próprios tarairiú – que adotavam a prática do endocanibalismo (cf. Fátima Martins Lopes) – se diferenciavam de outros tapuiais. “Os Tarairiú eram guerreiros temidos pelos outros indígenas, pela sua ferocidade, força, velocidade e destreza na guerra ...” (Fátima Martins Lopes. Índios, colonos e missionários na colonização da Capitania do Rio Grande do Norte, p. 140). Ao contrário do que apregoa a historiografia oficial, os tapuias merecem todo o nosso respeito, toda a nossa admiração. Cascudo só viu uma parte do problema. Mas será que ele tinha, nos anos 40 e 50, condições históricas e antropológicas de ver a questão a partir de outra perspectiva cultural? Sob vários aspectos, sim. Por que não o fez então?

(Continua)

4 comentários:

Jens disse...

Pois é, Moacy, ninguém é imune ao erro - ou equívoco. Nem mestre Câmara Cascudo.
Um abraço.

Mariana disse...

Achei o balaio!!!

adelaide amorim disse...

Gosto de vir ao Balaio e ficar passeando pelos posts que ainda não tinha lido, vendo os poemas, as fotos, os comentários. Gosto muito mesmo. E sempre aprendo - hoje, sobre Cascudo, que conhecia bem superficialmente. Beijo pra você, Moacy.

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Sem falar nos outros méritos que Cascudo tem, o que mais me agrada nele é o seu estilo. Ele sabia escrever. Um abraço.