sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Bíblia
de
Van Gogh


BALAIO PORRETA 1986
nº 2575
Natal, 20 de fevereiro de 2009

Nas terras do meu sertão
Quando vai caindo a tarde
Fica o espaço cinzento
A terra em chamas se arde
Não há quem de lá se ausente
Que uma saudade não guarde.
(Domingos FONSECA, in Cultura nordestina/I;
poetas repentistas nordestinos)


O LIVRO DOS LIVROS
(9)

Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba

A história de Jacó Apenas Jacó
e de Raquel Apenas Raquel, a Tesuda

E o Senhor das Alturas disse: "Puta merda!, enquanto Eu discutia com aquele insano que, no futuro, criará uma inaceitável teoria da evolução, muita coisa aconteceu na terra. Preciso ter mais cuidado: a humanidade está fugindo do Meu controle. Nem sei direito porque Chico Doido Vulgo Isaque Doidão abençoou a Jacó Apenas Jacó. Seria seu filho?" E mais disse o Senhor das Alturas: "Aliás, o que é feito de Adri Adriannita, seu esposo poeta e seus amigos atrevidos? Melhor faço em acompanhar, por enquanto, a velhice de Chico Doido Vulgo Isaque Doidão, antes que o doido das sagradas escrituras seja Eu".

E assim aconteceu. E assim foi. Quando Chico Doido Vulgo Isaque Doidão ficou velho, os olhos se lhe enfraqueceram e já não podia ver mais nada, nada mais podia ver. O Senhor das Alturas disse, então: "Que história mais chata. Vou passar para os seus finalmentes". Mas antes o Senhor das Alturas resolveu conhecer o carnaval de Recife e Olinda, dar uma espiada no Galo da Madrugada e cair no frevo rasgado na Avenida Guararapes(ª). Afinal, um Senhor das Alturas como Ele precisava conhecer de perto a alma humana, que Ele mesmo criara, é verdade, mas que estava se revelando muito rebelde para o seu gosto.

Depois do carnaval, o Senhor das Alturas, espantado com o que vira, chamou seus jagunços e disse: "Os homens têm autoridade sobre as mulheres pelo que Alá os fez superiores a elas e por que gastam de suas posses para sustentá-las. As boas esposas são obedientes e guardam sua virtude, por mais perseguida (ªª) que essa seja, na ausência de seu marido conforme Alá estabeleceu. Aquelas de quem tomais a rebelião, exortai-as, bani-as de vossa cama e batei nelas".

E um dos jagunços alertou-o: "Oh, Senhor das Alturas misericordioso e clemente, não pronunciai tais palavras; elas pertencerão a um Profeta do futuro, das arábias afamadas". E uma jovem que tudo ouvira acrescentou: "Além do mais, em mulher não se bate nem mesmo com uma flor". E o Senhor das Alturas resmungou. E resmungou o Senhor das Alturas, como se dissesse: "Tudo bem, tudo bem. Esqueçam o que Eu falei...".

E o Senhor das Alturas foi cuidar do seu rebanho. E do seu rebanho foi cuidar o Senhor das Alturas. E o Senhor das Alturas passou a observar o comportamento de Jacó Apenas Jacó. E viu que ele se apaixonou pela bunda de Raquel Apenas Raquel, a Tesuda, irmã de Lia de Maracujá, filhas de Labão de São João, que reuniu todos os homens do lugar e deu um banquete, ao ver que Jacó Apenas Jacó tinha interesse por uma de suas filhas.

Vendo o Senhor das Alturas que Lia de Maracujá era desprezada, tornou-a fecunda ao passo que Raquel Apenas Raquel, a Tesuda, permaneceu estéril. E Jacó Apenas Jacó, pra lá de contrariado, foi obrigado a se casar com Lia de Maracujá. Mas Labão de São João disse-lhe: "Sejai um bom esposo para Lia de Maracujá e dentro de sete anos também te darei Raquel Apenas Raquel, a Tesuda, como esposa e ficarás com as duas, na maior felicidade". Sete semanas depois, os dois, Jacó Apenas Jacó e Raquel Apenas Raquel, a Tesuda, já se encontravam, às escondidas.

Lia de Maracujá era comida biblicamente, nos dias pares, e muitos filhos tiveram. Raquel Apenas Raquel, a Tesuda, era comida da cabeça aos pés, nos dias ímpares, e muitas orgias fizeram. Sete anos depois, quando Labão de São João sacramentou a união dos três, e por descuido do Senhor das Alturas, Raquel Apenas Raquel, a Tesuda, passou igualmente a ter filhos. Ao todo, com as duas, Jacó Apenas Jacó teve onze filhos, além de mais três com as duas piniqueiras(¹) que os serviam. E mais fez Jacó Apenas Jacó: tomou toda a riqueza de Labão de São João.

O Senhor das Alturas ficou puto, mas pensou: "Talvez a humanidade seja um poço cujas águas estejam contaminadas pelo sexo e pela ganância sem que Eu - que tudo vejo, que tudo pressinto - tenha percebido. Hoje à noite desafiarei Jacó Apenas Jacó para um duelo debaixo da primeira oiticica que encontramos. Caso ele consiga se sair bem, o que duvido, poderá seguir o seu caminho e contribuir para o povoamento da terra".

Próximo capítulo:
A luta do Senhor das Alturas
contra Jacó Apenas Jacó

Nota dos Editores:

(ª) Há uma versão apócrifa d'O Livro dos Livros que acrescenta o seguinte: "E o Senhor das Alturas foi visto com duas raparigas na Rua da Aurora, na maior animação". Contudo, não há provas documentais sobre tal fato: ter caído no "frevo rasgado" não leva a nenhuma conclusão mais precipitada de cunho erótico, já que diante de um bom frevo não há cristão que resista a dois, três ou mais passos de sua coreografia dançante, e de seu ritmo alucinante, quer esteja acompanhado, quer esteja sozinho. E o Senhor das Alturas, por sua pureza divina, por sua essência espiritual, jamais se deixaria cair em tentação carnal. Jamais.

(ªª) É provável que haja aqui um duplo sentido, já que
"perseguida", na terra abençoada pelo Senhor das Alturas,
pode significar igualmente o "sexo das mulheres".
Pelo menos, essa é a interpretação dos doutores em teologia
de Alexandria, Bagdá, Cairo, Paris e São José do Seridó.

(¹) Piniqueira : Funcionária doméstica.

10 comentários:

Marcos disse...

Moacy:

Isto não é um comentário, é um pedido de divulgação.

Caros amigos:

A Folha de São Paulo, em editorial contra Hugo Chávez, caracterizou o regime brasileiro de 1964/1984 como "ditabranda". É um absurdo: quer dizer que quem morreu, foi torturado ou sofreu arrocho salarial daquele regime deve respirar aliviado porque ele era brando! Não existem ditaduras brandas! Ditaduras são ditaduras!
Pior: a FSP respondeu, em sua coluna de cartas do leitor, de maneira grosseira e ofensiva, a Benevides e Comparato, intelectuais sérios que ousaram criticar aquele termo medonho.
Transcrevo convite de Caio Navarro Toledo (Professor da UNICAMP) para os ofendidos escreverem cartas de protesto à FSP:

xxxxx

Car@s,
carta que enviei a colegas da Unicamp. Caso concordem com seus termos, peço que a divulguem em suas listas;
abs,
caio

ps. cartas de protesto à Folha devem ser encaminhadas a leitor@uol.com.br com cópia para ombudsman@uol.com.br


Colegas,

Repulsivas e agressivas duas recentes posições editoriais de Folha de S. Paulo: em `Limites a Chavez´, editorial de 17/2, o jornal apela para a ignominiosa expressão de "ditabranda" para se referir à ditadura militar brasileira que, durante vinte anos, prendeu, torturou e assassinou brasileiras e brasileiros; hoje, após publicar as cartas dos profs. Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato - que contestaram o emprego da esdrúxula e falsificadora expressão -, o jornal, sem argumentos e razões, agride a atuação pública destes dois combativos intelectuais por meio de uma leviana "nota de redação".
Diante de todas estas agressões ao pensamento democrático, cartas de protesto ao jornal e o cancelamento da assinatura não seriam as respostas mais consequentes ?
sds,
caio

ps. abaixo as cartas dos dois colegas e a leviana nota do jornal:

MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES, professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP): "Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!"

FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP): "O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."

Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.

xxxxx

Não podemos deixar a FSP agir assim!
Abraços:
Marcos Silva

Dilberto disse...

Faço minhas as palavras do Marco! E como sonho com Genipabu... E adorei "comida biblicamente"! E o BBB deveria ser proibido, uma vez que a TV deve cumprir papel social! E é só! Abraço, Moacy!

Moacy Cirne disse...

Caro MARCOS: O Balaio de amanhã abordará o assunto em pauta.

Um abraço.

Jens disse...

Hehehe, começou a sacanagem, isto aqui tá ficando bom demais (ops, não me refiro à sanagem do mal praticada pela FSP).
Moacy, talvez não apareça por aqui durante os festejos de Momo. Se assim for, um bom carnaval. Até quarta-feira.
Um abraço.

Jens disse...

sacanagem do mal (foi mal).

aloha san disse...

Sacangem "muito" do mal. Mas bem que alguns jornalistas tinham conchavo com o regime militar. Tem uma pesquisa mega polêmica que irritou muita gente por conta disto:
"Cães de Guarda: jornalistas e censores..." da Beatriz Kushnir.
Momento propício para uma re-leitura...

bjs

Adriana disse...

pois, não.

adelaide amorim disse...

A Bíblia está cada vez melhor.

Já a FSP teve dias melhores. Que pena.
Beijo e bom carnaval, Moacy.

Cosmunicando disse...

até eu fiquei com vontade de cair no frevo rasgado... hahahaha
beijos

(quanto à folha, sem comentários... aliás, já comentei num outro post aqui)

Adrianna Coelho disse...


"Aliás, o que é feito de Adri Adriannita, seu esposo poeta e seus amigos atrevidos?"

adri adriannnita tava no frevo rasgado com seu esposo poeta, que sendo paulistano (eu verifiquei em loco) é um sujeito bamba: tem samba no pé... bom, deveria ser frevo pra encaixar na história, mas... rsrsrsr

ás vezes não sei dizer do que gosto mais, se das histórias do livro dos livros ou das notas dos editores... ahahahaa