quinta-feira, 19 de março de 2009

Foto de
Niko Guido


BALAIO PORRETA 1986
n° 2602
Natal, 19 de março de 2009


O problema das diferentes traduções da Bíblia não se firma somente no estilo puramente literário. Há, sem dúvida, algumas traduções melhores que outras, com linguagem brilhante ou mais tradicional. Porém, o maior problema se encontra no conteúdo: o sentido do texto pode mudar radicalmente dependendo da tradução que se utilize. E estes problemas se mantêm inclusive quando as traduções se realizam a partir dos textos originais, já que o hebraico foi evoluindo com o tempo.
(Juan ARIAS. A Bíblia e seus segredos, 2004)


O LIVRO DOS LIVROS
(14)

Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba

O surgimento de Moysés Sesyom do Sertão

E apareceu no interior da Bahia um novo manda-chuva, MiCarlos Agripinnius nomeado, que não conhecia a história de Zé do Ouro e o valor dos seridoenses, que naquelas terras além do Rio do Chico se encontravam e lá trabalhavam. E nova seca se abateu sobre todos. E a fome mais uma vez deixou os sertanejos agoniados. E o dono das terras, o sr. MiCarlos Agripinnius, culpou os seridoenses, devotos que eram de Nossa Senhora de Sant'Ana. E resolveu persegui-los. E resolveu condenar à morte centenas de crianças. E ordenou às parteiras: "Lançai no Rio do Chico todo aquele que nascer macho, e só poupai as fêmeas".

Mas as parteiras, religiosas em sua maioria, não obedeceram às ordens do coronel baiano. E o Senhor das Alturas, depois da crise existencial, voltou a se interessar pela humanidade. E pensou em suas palavras, antes pronunciadas: "Nascerá uma criança que não poderá falhar na condução de seu povo, caso contrário destruirei todos os seres humanos, sem a menor piedade". E a criança nasceu; abandonada na margem do rio, já que seus pais temiam as ordens do manda-chuva da região, foi encontrada e criada por uma filha de MiCarlos Agripinnius, que desconhecia a sua origem. E era uma criança sabida. E era uma criança alegre.

E Moysés Sesyom do Sertão passou a ser o nome da criança. E Moysés Sesyom do Sertão cresceu e se tornou bastante popular, com seus versos fesceninos(ª), sua fibra de homem-macho e sua admiração pelo forró pé-de-serra. E Moysés Sesyom do Sertão era um homem trabalhador e pesquisador. E Moysés Sesyom do Sertão, alertado em sonho pelo Senhor das Alturas, identificou a sua verdadeira gente e as doze tribos que formavam a grande família seridoense: os Dantas, os Araújos, os Nóbregas, os Batistas, os Marizes, os Gurgeis, os Medeiros, os Vales, os Costas, os Azevedos, os Martinianos e os Pereiras.

E Moysés Sesyom do Sertão, sob o olhar atento do Senhor das Alturas, reuniu todas as tribos, com seus 6.666 viventes, e resolveu partir para o Seridó, na fronteira do Ryo Grande com a Parahyba - a terra prometida pelos deuses da ancestralidade, berço da humanidade. Mas o coronel MiCarlos Agripinnius enfureceu-se e tentou impedir a fuga dos potiguares das ribeiras do Acauã, Piranhas e Seridó. E o Senhor das Alturas, mais compenetrado do que nunca, disse a Moysés Sesyom das Alturas: "O coração do coronel endureceu e ele não quer deixar o teu povo partir. Mas és o meu novo Patriarca e Profeta e como tal agirás. Sejas forte como um Charlton Heston, comediante do futuro, que serei mais prodigioso do que o observador Cecil DeMille, igualmente do futuro".

E Moysés Sesyom do Sertão, quando a cruviana(¹) chegou sob o céu estrelado, partiu com o seu povo, ziguezagueando entre a Bahia mais profunda e as fronteiras de Pernambuco e do Ceará, com os jagunços e bandoleiros do coronel a perseguir todos eles, armados de peixeiras, facões e parabelos na mão. 222 e mais 222 dias já durava a perseguição. E Moysés Sesyom do Sertão, cansado e pra lá de destabocado(²), clamava por socorro ao Senhor das Alturas. E o Senhor das Alturas, momentaneamente chumbado, depois de umas e outras na Meladinha do árabe Nasi, na Cidade dos Reys, preferiu ficar entupigaitado(³). Até que, mesmo de ressaca, indicou-lhe um caminho seguro pelas veredas do grande sertão.

Próximos capítulos:
15. A travessia do Rio do Chico
16. Os dez mandamentos

Notas:
(ª) Qualquer semelhança com o poeta fescenino Moysés Sesyom, nascido em Caicó no séc. XIX da Era Comum, e falecido em Açu no séc. XX da Era Comum, não passa de mera coincidência bíblica.
(¹) Cruviana : friagem da madrugada.
(²) Destabocado : franco, aquele que é muito franco nas conversações.
(³) Entupigaitado : calado, caladão.

4 comentários:

Jens disse...

Oi Moacy.
E a saga prossegue... Gosto do Senhor das Alturas. O Deus irado e vingativo do Antigo Testamento é um cabra macho (aqui no Sul, um bagual) - não perdoa, mata. O mesmo se pode dizer do CDC, aí embaixo, com a diferença que este não mata, fatura (se é que me faço entender, hehehe).
Um abraço.

Mirse disse...

Oi Moacy, quer um conselho, que já sei que está pensando: se conselho fosse bom, não se dava, mas se vendia. Mas, fala um livro com esse tema que tenho acompanhado. É maravilhoso, bem humarado e chega bem perto da verdade.
Dei boas gargalhadas. Aguardarei qual vai ser o mar escolhido por Moyses Sesyom.

Parabéns, amigo! Além de grande escritor, um humorista de 1ª.


Beijos

Mirze

Valéria Araújo(valeriaa.silvaa@yahoo.com.br) disse...

Confesso que, depois de anos a fio, consegui encontrar A invenção de Caicó. Não por falta de lugares que o vendessem mas por falta de tempo meu. Nesses tempos em que perdemos o contato dos emails, apenas ouvi da minha amiga Anna Maria Jasiello comentários sobre suas idas e vindas À Natal, ficando surpreendetemente encantada. mAS QUANTO AO LIVRO... ainda nao comecei a ler. Apenas o prefácio tipicamente caicoense que, em tempos mais sensíveis, faz com que algumas lágrimas descam o rosto. Lerei assiduamente como pede a leitura mas degustando cada frase com o seu mais devido valor.

Um abraço,


Valéria

Jota Effe Esse disse...

Prosa boa de se ler, meu amigo! Meu abraço.