segunda-feira, 16 de março de 2009

Foto
de
Vladimir Milata


BALAIO PORRETA 1986
n° 2599
Natal, 16 de março de 2009

Tendes talvez mais medo de proferir a sentença contra mim
do que eu em recebê-la.

(Giordano BRUNO, em 1600, ao ouvir a sentença que ordenava a queima de seus livros e sua morte na fogueira)


O LIVRO DOS LIVROS
(13b)

Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba

A crise existencial do Senhor das Alturas
- Parte 2 -

E o Senhor das Alturas pensou, pensa e pensará: "Muitos questionaram, questionam e questionarão a minha concretude divina. Mas como duvidar da minha infinitude criadora diante da beleza das mulheres e diante da grandeza do Seridó e do FlaFlu, ou do GreNal? Santo Anselmo dirá: 'Creio para compreender'. Não será o suficiente? Somente Eu posso duvidar de minha existência. Santo Agostinho dirá: 'Toda natureza e toda espécie escritural é obra de Deus'. Não será o suficiente? Somente Eu posso duvidar de minha natureza.

E o Senhor das Alturas pensou, pensa e pensará: "Muitos crimes e muitas injustiças serão cometidos em Meu nome. Minhas poderão ser, no futuro, as palavras de Giordano Bruno, pois direi através de seus escritos: 'Sendo o universo infinito e imóvel, não é necessário procurar o motor dele. Se infinitos são os mundos contidos nele, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma'. E serei condenado à fogueira! E serei condenado à morte! E serei condenado à eternidade! Mas não sou Giordano Bruno".

E o Senhor das Alturas continuou, e continuou, e continuou: "Ser ou não ser, eis a questão ontológica que me ilumina e me aniquila. Desconfio que, na história da história, William Shakespeare e Johann Sebastian Bach são e serão mais importantes do que Eu próprio. E isso me assusta. Mas Eu sou o Senhor das Alturas, sou o Senhor das Contradições, sou o Senhor das Paixões, tenho poder suficiente para arrasar Shakespeare e Bach. Mas valerá a pena? Nada disso tem relevância. Eu sou Eu, jamais esquecerei".

E o Senhor das Alturas completou: "Para que serve a Humanidade? Se Ava Gardner não será minha, de quem será? Se Rita Hayworth minha não será, quem a terá? Eu sou Eu? Sou! E darei uma última oportunidade para os seres humanos: permitirei a criação de Moysés Sesyom do Sertão. Se ele falhar em sua sagrada missão, destruirei toda a humanidade: 666 mil vulcões vomitarão seus raios de fogo, 666 mil bombas explodirão da Bahia ao Seridó, 666 mil sóis racharão o quengo de homens e mulheres. Se existo, logo penso? Se penso, logo existo? Sou a própria Contradição? O que fazer da minha crise? Eu sou o Senhor das Alturas! Eu sou William Shakespeare! Eu sou Johann Sebastian Bach! Eu sou Giordano Bruno! Se penso, logo existencializo. O que sou? Quem sou? Quem Me criou? Eu sou o Senhor das Alturas e da Eternidade."

Próximo capítulo:
O surgimento de Moysés Sesyom do sertão

7 comentários:

romério rômulo disse...

moacy:
a bahia,o seridó,a ava gardner,o rio são francisco e o manuelzão dependem
lá do senhor das alturas?
um grande abraço.
romério(de ouro preto)

líria porto disse...

o senhor das alturas faz é drama!
fosse das baixuras ia ver que o buraco é cá embaixo!
besos

Mulher na Janela disse...

bom te ler sempre, Moacy.

dá uma passadinha lá na Janela! tem poema novo!

beijão do Seridó nublado.

Marisinha disse...

Oi Seu Moacy. Tudo bem?
O Jens ainda está entocado com a Odaléia (haja filme!) e estou de dona do campinho.
Puxa, o senhor acha que sou uma invenção do Jens? Tá certo que ele tem uma mente criativa (e doentia!), mas não tanto. Sou real, feita de muita carne nos lugares certos, ossos fortes, sensualidade exuberate, sonhos delirantes e indignação cívica.
***
Venho acompanhando a sua versão do Livro dos Livros e gostando muito. Não comento porque sou uma mocinha tímida e a sua inteligência me intimida. O senhor também tem uma mente criativa e igualmente doentia, se me permite a sinceridade. Acho legal assim.
Um abraço e um beijo.

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
Mais uma bela, expressiva foto. O ar contemplativo da mulher é algo que tira um mínimo de erotismo na sua nudez. E que sábias palavras de Giordano Bruno, que dizem bem do papel da Igreja naqueles tempos da Inquisição. Abraço.

Mirse disse...

Oi Moacy! Estou quase achando que o Senhor das Alturas está realmente sofrendo dessas tormentosas dúvidas humanos. Que beleza a frase do Giordano Bruno. E que terror essa época!
Aguardarei ansiosa o surgimento de Moysés Sesyom.
Cara, você é genial!

Parabéns!

Forte abraço

Mirze

Cosmunicando disse...

e haja crise existencial... é daquelas escabrosas, claro, nada é pouco pro Senhor das Alturas =)
adorei a foto,
beijos