sexta-feira, 13 de março de 2009

Seridoísmo
130343


Caatinga Grande,
em São José do Seridó:
aqui senti as primeiras cores da manhã


BALAIO PORRETA 1986
n° 2596
Natal, 13 de março de 2009


Quarenta e 8! Quarenta e 8!
Um grande ano para o meu Botafogo...
Quarenta e 8! Quarenta e 8!
Um grande ano para o meu cospefogo...
E um viva pra São João
Que morou em Caicó
No tempo da revolução.
(Chico Doido de Caicó)


Humor natalense
SÁTIRAS & EPIGRAMAS DE ZÉ AREIA (1901-1972)
[ por Veríssimo de Melo, 1972 ]

Resposta maliciosa

Um gaiato passou ao lado de Zé Areia [barbeiro e biscateiro, uma das figuras mais populares da Natal dos anos 40-60], zombando de sua gordura e indagou:
- Zé, quantos quilos você pesa?
Resposta maliciosa:
- Já te esquecestes?

Uma dívida

Uma tarde, no Natal-Clube [em pleno Grande Ponto, na Cidade Alta], Zé Areia andou espalhando nas rodas que [o político e advogado] Djalma Marinho estava lhe devendo cinquenta cruzeiros. E saiu. Meia hora depois, aparece Djalma Marinho e vários amigos lhe falaram sobre a estória da dívida a Zé Areia. Djalma estranhou, como era natural, a tal dívida. Encontrando-o, mais tarde, perguntou:
- Que estória é essa que anda espalhando de que eu lhe devo cinquenta cruzeiros?
- Deve - disse Zé Areia. - Eu lhe pedi, naquele dia, cem cruzeiros, e você só me emprestou cinquenta. Logo, deve cinquenta!...


Repeteco
A ESTRADA
Moacy Cirne

Sinto o primeiro impacto. De imediato, sou dominado por inesperada quentura nas costas. Mas consigo correr. E corro. Um segundo impacto me atinge. Preciso correr, mais ainda. Um rio me aguarda, à esquerda. Mergulho nele. Suas águas me envolvem com certa doçura. Mas de onde surgira aquele rio, em plena Glória, entre a Lapa e o Catete? Não importa; o que importa é que estou a salvo. O calor aumenta. Ouço os sinos da igreja mais próxima. Uma voz de rapariga me chama. Ambrósio, Ambrósio, cuidado com a ponte, não se deixe enforcar. O fogo me queima por dentro. Não sei nadar, lembro-me de repente. O que está acontecendo, então? Só sei que não existe mais qualquer sinal de rio; estou numa estrada de tijolos amarelos, familiar cena de filme antigo. Caminho com passos lentos; o calor que me domina é intenso. Pressinto que minhas roupas estão encarnadas. E encarnado é o meu cordão, em disputa contra o cordão azul. Sou uma criança apaixonada pela rainha do Encarnado na cidade da minha infância. Carlitos, o Gordo e o Magro me fazem companhia, sorrindo. Durango Kid aproxima-se: Não se preocupe, estou aqui para defendê-lo dos bandidos. Estou aqui para salvá-lo das balas perdidas. Confie em mim. Olho para o meu avô, com sua ternura sem fim. No caminhão da feira, cortando o cheiro da manhã carregada de mangas e esperanças, contamos os jumentos à beira da estrada, a mesma estrada de tijolos amarelos. À esquerda e à direita vemos jumentos tristes e honestos. São dezenas, são centenas deles. Estranho, parecem pássaros que não sabem voar. Quem ganhará a aposta? O feirante bêbado de auroras garantindo que à direita do veículo, beirando a estrada, maior seria o número daqueles pobres e inevitáveis animais? Ou vencerá o outro? O outro não sou eu; eu sou aquele que precisa mergulhar no Poço de Santana, no final da estrada. Mas o Poço está longe, muito longe. Nunca fiz um filho. Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi um livro. Nunca entrei num túnel tão comprido. E as coisas estão ficando cada vez mais nebulosas. Além, já noite, do alto do coreto da praça, Luiz Gonzaga acena para mim. Asa branca, assum preto, légua tirana. Baião-de-dois. Baião-de-três. Baião-de-cinco. O império submarino. Flash Gordon no Planeta Mongo. A volta do Aranha-Negra. Sansão e Dalila. Nunca houve uma mulher como Gilda. Os melhores anos de nossas vidas. Belinda. O barco das ilusões. Amar foi minha ruína. Dois palermas em Oxford. Paraíso proibido. Tarzan e as amazonas. O império das ilusões. O Aranha-Negra no Planeta Mongo. Sansão, Gilda, Belinda e Dalila. Nunca houve uma mulher como Tarzan. Estou cansado. O chão da Glória tem gosto de sangue e sertão. Preciso dormir.

11 comentários:

Romário Gomes disse...

Parabéns, Moacy, pela vida, pelo seridoísmo, pela sertanejidade. Que o Senhor das Alturas o conserve poeta, para sempre.

Jens disse...

Oi Moacy.
Conto sufocante, angustiante, com um toque desesperador. Gostei das referências ao passado sertanejo, à música e ao cinema. Esta estrada não é um caminho para cavaleiros descuidados, mas sim para escritores talentosos. Valeu.
Um abraço.

adelaide amorim disse...

Que lindo, Moacy, e que agonia.
Vejo no post de ontem que você tem vivido bastante a história do Rio. Você conheceu o Cosme Alves Ferreira Neto, que foi curador da cinemateca do MAM? Era um grande amigo, que conheci na faculdade de filosofia da UB. Um beijo e parabéns pelos 42 anos e pela vida.

Mirse disse...

Qurenta e 8
Viva o NOSSO BOTAFOGO!!!!!

Que sonho, ou pesadelo! Pelo menos conheco o Moacy escritor!

Parabéns pela postagem!

Abraços

Mirze

Eliene Dantas disse...

O Seridó mais uma vez se apresenta com toda sua poesia. Abraço Moacy

françois disse...

arre, que esse me deixou de olhos marejados... :')

Nivaldete Ferreira disse...

Obrigada pelo retorno simpático, Moacy. Vou seguir sua sugestão..., postar regularmente. Acho que agora terei mais apetite, depois de entrar nessa Ceia Larga de Escritas Blogais (você, Sheyla e outros que vou achando através de vossas mercês). Um beijo!

Monica Araujo disse...

Lindo conto Moacy, estou linkando você, tudo bem ????

sandra camurça disse...

130343...hummmm...sentiu as primeiras horas da manhã...hummmmmmmm...
AHAAAAA!!!
FELIZ ANIVERSÁRIO, MENINO!
Um pouco atrasada,né?
Beijos & Cheiros

Nivaldete Ferreira disse...

Obrigada pela publicação de FACA... Estou escrevendo O Livro da Menina Torta... Vontade de já dispersar tudo no blog... Vou ver. Abraços.

Adrianna Coelho disse...


Moa, que texto maneiro... A vida passando como um filme, e a cabeça no chão da Glória... Putz, gostei pra caramba.