sexta-feira, 3 de abril de 2009

Praia de Tabatinga,
ao sul de Natal

Foto de Helder Lima Freire


BALAIO PORRETA 1986
n° 2617
Natal, 3 de abril de 2009

Criticar é ainda escrever, visto que, no fundo, escrever é ler.
(Pierre Macherey. Para uma teoria da produção literária, 1966)


10 POETAS POTIGUARES
Adriano de Sousa
[ in Substantivo Plural ]

Walflan de Queiroz
Ferreira Itajubá
Jorge Fernandes
Sanderson Negreiros
Nei Leandro de Castro
Luís Carlos Guimarães
Alex Nascimento
João Gualberto
José Bezerra Gomes
Marize Castro


SÓ PARA LEMBRAR QUE EU SOU MALUCA
Yasmina Curi
[ in Flores do desejo ]

Quando eu estiver doidinha,
Bem maluca para dar,
E houver machos por perto
Tratem de me segurar.
Dois segurem minhas coxas
E o mais avantajado
Me deixe sem ar, bem roxa,
De tanto ser penetrada,
De tanto belo entra-e-sai
E eu gritando bem alto:
Eu quero mais, quero mais.


FADO
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

tenho doença incurável
sofro de irrealidade
acredito em fadas


CONTO POLICIAL
Paulo Bullar
[ in Germina Literatura ]

A campainha tocou. Através do olho mágico, um homem de ar soturno, chapéu e terno cinza. Abri. "Polícia", disse, e foi entrando sem cerimônias. Caminhou até a poltrona da sala, tirou o chapéu e se sentou. Sem saber o que fazer, perguntei de maneira idiota se ele gostaria de beber alguma coisa. Me perguntou se tinha uísque. Tive vontade de mandar ele à merda, mas por algum motivo me dirigi à cozinha e voltei com uma garrafa de doze anos e dois copos com gelo. Servi, acendi um cigarro e me sentei no sofá. Ele acendeu um charuto. Parecia não ter pressa. Deu um bom gole no uísque e fechou os olhos, como se estivesse sentindo a bebida descendo o esôfago, e assim ficou por alguns segundos, olhos fechados. Seu cabelo era grisalho. Impaciente, perguntei o que desejava. Ele sorriu de forma quase imperceptível, me encarou. Continuava calado. Aquilo já estava começando a me irritar, quando, por fim, ele disse: "belo dia, não?", deu uma tragada no charuto e expirou a fumaça para oeste, pachorrento. Seus olhos não tinham brilho. Eram olhos de velho, foscos e acinzentados. Terminou de beber seu uísque e se levantou. Colocou o chapéu, olhou mais uma vez para mim e se dirigiu à saída. Sem olhar pra trás, bateu a porta e se foi. Me dirigi à janela. O dia, de fato, estava belo.

7 comentários:

Mirse disse...

Uma beleza o conto! A fotografia idem! mais uma praia que vou conhecendo..
Os dois poemas de igual maneira, belos!
Enfim, PERFEITO!

Parabéns, Moacy

Beijos

Mirse

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
Esse conto tem um quê de kafkiano. Um abraço.

Mariana disse...

Moa,

adorei o balaio de hoje. Adorei os poemas e o conto policial.

bão dia!

líria porto disse...

oi, moa! sem falar que gostei de estar no balaio - esse conto é o máaaaaaaaaaaaaaaaaaaximo! quinveja!
besos

adelaide amorim disse...

O fino, mestre Moacy.
Um fim de semana muito bom pra você./
Beijo.

Hercília Fernandes disse...

"tenho doença incurável
sofro de irrealidade
acredito em fadas".

Moacy,

toda a matéria está belíssima, parabéns!

Destaco o texto da Líria Porto porque me toca a alma, já que também apresento certa tendência à irrealidade; e convivo com bruxas, fadas e dragões...

Novamente, parabéns por mais esse belo número do balaio!

Abraços,
H.F.

Bartolomelo disse...

Procevê.. Uma espritada dessas nunca cruzou, nem por acaso nem por poesia, com Chico doido de Caicó!
Bartolomelo