domingo, 31 de maio de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA

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o final
de
Ordet / A palavra
(Carl T. Dreyer, 1955)
um dos grandes filmes europeus
da história do cinema mundial


BALAIO PORRETA 1986
n° 2678
Rio, 31 de maio de 2009

O sentido religioso do mundo escapa à sensibilidade. Ordet é uma espécie de tragédia teológica, sem a menor
concessão ao terror.

(André Bazin. O cinema da crueldade, 1975)


TEXTOPOEMA
Mariana Botelho
[ in Suave Coisa ]

o poeta é um mar de si mesmo.


EXERCÍCIO POÉTICO
Flávio Corrêa de Mello
[ in Rio Movediço ]

No quarto sentado
no colo do meu corpo
me desafio conhecer
estas paredes que me narram
no centro das vigas e no visgo
do concreto sem poros.
Por ora assisto o desfolhar
dos cupins expondo o estertor
do mofo e do aniquilamento
no armário e nos lençóis,
enquanto na janela do quarto
um black-out estendido
derrete as cinzas de sol
e esconde para além
o além dos meus pensamentos.



INVESTE
Rubens Guilherme Pesenti
[ in Poemastigando ]


CREPÚSCULO DE UM FAUNO
Henrique Pimenta
[ in Bar do Bardo ]

0.
quem dá pensão às entranhas de Deus?
a terra

1.
as folhas não desejam a quietude
e se arrepiam
em carrilhão de suspense

2.
as borboletas
multíplices e irisadas
pelo condão de sua gênese laminar

3.
a flor é uma
anomalia do verde
como um sol recluso
estúpida de beleza
resiste por existência mínima

4.
espinhos?
a farra da infância
sua ingenuidade lanceia víboras
ao torso da adolescência rubra
um aroma de gengibre
recende

5.
cintila ao horizonte
a cegueira lilás
...
por um colibri


Fragmentos do
DICIONÁRIO DO DIABO
Ambrose Bierce
(1842-1913)
Trad. Jorge Arnaldo Fortes, 1973

Absurdo - Declaração ou crença manifestamente discordante da nossa opinião. - Qualquer objeção levantada a este excelente dicionário.

Advogado - Pessoa hábil em burlar a lei.

Aliança - Em política internacional, a união de dois ladrões que teem as mãos de tal modo enfiadas nos bolsos um do outro que não podem separadamente pilhar um terceiro.

Antiamericano - Perverso, intolerável, pagão.

Chato - Sujeito que fala quando queremos que ouça.

Covarde - Alguém que numa emergência arriscada
pensa com as pernas.


Deplorável - O estado de um inimigo ou adversário após um choque imaginário conosco.

Diplomacia - A arte honrosa de mentir pela pátria.

Infiel - Em Nova Iorque, alguém que não crê na religião cristã; em Constantinopla, o que crê.

Liberdade - Um dos mais preciosos bens da imaginação.

Niilista - Um russo que nega a existência de tudo, menos de Tolstoi. O chefe da escola é Tolstoi.

Orar - Pedir que as leis do universo sejam anuladas em favor de um peticionário isolado confessadamente imerecedor.

Religião - mUma filha da esperança e do medo, explicando à ignorância a índole do incognoscível.

Zeus - O chefe dos deuses gregos, adorado pelos romanos como Júpiter e pelos americanos modernos como Deus, ouro, povo ou cão. (...)


POEMA DE CHICO DOIDO DE CAICÓ
(1922-1971)

O primeiro sessenta e 9
A gente nunca esquece.
Já dizia Platão, já dizia Raquel,
já dizia Camonge.

O primeiro sessenta e 9
a gente sempre bebe.
Já dizia o prefeito, já dizia a puta,
já dizia o monge.

20 comentários:

Lívio Oliveira disse...

O Balaio está maravilhoso, hoje! Quero chamar atenção para o grande poeta que você publicou aqui: Henrique Pimenta é, para mim, um hábil trabalhador da palavra.
Um abraço!

Mirse disse...

Bom Dia Moacy!

Lindas as duas partes do filme. Um drama triste e perfeito, onde hoje já se sabe tratar-se de esquisofrenia e catalepsia, respectivamente falando. Mas impresiona, pelos recursos da época, enfim por tudo.

Os poemas estão maravilhosos. Sigo o Rubens e o considero um grande artista, talvez o melhor do poema concreto.

Lívio tem razão. Henrique é hábil demais em trabalhar a palavra. Belo poema o que você escolheu.

Chico Doido, fora de série.

O dicionário, muito bom também, apenas me chamou atenção a definição de "Infiel" nos dois países.

Um excelente Balaio para começar um domingo!

Perfeito!

Beijos

Mirse

Bené Chaves disse...

Moacy: e por falar em 'A Palavra', consegui uma cópia do filme e vou vê-lo a qualquer momento. Como consegui também uma de 'Pierrot le fou'.

Um abraço...

Eliene Dantas disse...

Acho bom demais esse Balaio porque sempre aprendo mais por aqui. Uma linda semana pra vc garoto sertanejo!

romério rômulo disse...

moacy:
o chico doido criou uma rima essencial,camonge/monge.camonge,suponho,
deve ser o bardo português mulherengo.
romério

Moacy Cirne disse...

Sim, ROMÉRIO,
Camonge é o próprio Camões.
Era assim que os poetas populares
do Nordeste o chamavam.

Um abraço.

Maria Maria disse...

Moacy, seu poema sobre o poema está no meu espartilho. Adorei.

Beijos,

Maria Maria

líria porto disse...

adorei isso - camonge!!!

Maria Maria disse...

Como uma brincadeira gostosa o Canto da boca completou seu pensamento.

Ah, fiquei curiosa!!!!Mas vou esperar ansiosamente.
Beijos,

Maria Maria

BAR DO BARDO disse...

moacy, como você sabe que eu não sou "apenas" um sonetista?! (risos).

um beijo.

- henrique pimenta

BAR DO BARDO disse...

moacy,

não posso (nem quero) deixar, literariamente, de dizer o seguinte:
1. mariana botelho - síntese-mor;
2. flávio corrêa de mello - ensimesmamento lírico;
3. rubens guilherme pesenti - desnudando-se concretamente ao amor;
4. nada a declarar;
5. ambrose bierce - aparte à parte;
6. chico doido de caicó - aquilo nos lábios.

há pelo menos cinco flores que vingam em qualquer terreno.

felicidades a todos do florilégio!

- henrique pimenta

Nydia Bonetti disse...

Começando com Ordet e terminando com Chico Doido, recheado com estes belos poemas, o balaio "tá uma belezura", Moacy. Destaco hoje o poema do Pimenta. Poema e poeta: raros. Mariana também sempre comove. Muito bom.
Abraços

Adriana Godoy disse...

A presença do Pimenta aqui só faz enriquecer esse balaio porreta. H.P. é um mestre na arte de brincar seriamente com as palavras. Sonetista de primeira linha, sem nunca deixar o humor de lado. Esse é o Pimenta e que ótima escolha você fez. Parabéns aos dois.

cássio amaral disse...

o trem tá bão aqui meu irmão.

braços do abraço.

Marisete Zanon disse...

Crepúsculo de um fauno do Pimenta é de dar inveja!!! Vai escrever assim lá na PQP, viu!!! Lindo!!! O poema visual também é de tirar o fôlego...
um abração querido

Marisete zanon

Jens disse...

Oi Moacy.
Finalzinho de domingo, mas ainda deu pra pegar o CDC. Agora vou dormir mais alegre.
Um abraço.

Flávio Corrêa de Mello disse...

Oi Moacy,
finalzinho de domingo também!
Obrigado por me figurar entre pares poéticos de tão bom escol!
É um florilégio sem dúvidas, como disse o Pimenta. Através do Balaio, você consegue reunir escritores que dinamizam a vida cultural da internet. Parabéns!

Fatima disse...

Olá Moacyr!
Que prazer receber sua visita e seu carinho. Já estou bem melhor, as vezes acontece da gente parar para considerar certas questões mal resolvidas.Mas agora é partir pro segundo tempo antes da partida terminar.
Volta sim Moacyr a casa é sua.
Eu tb vou voltar para apreciar seu blog sem moderação, como sempre as indicações do Henrique são ótimas.
Vou ficar por aqui e levar vc lá pra casa pra minha lista de blogs favoritos.
Bjs.

Cosmunicando disse...

só feras!!!!!!
que Balaio fantástico, quanta gente boa =)

puro deleite esta edição,
beijos

betina moraes disse...

querido moacy,

me atualizei do balaio,

duas coisas me impressionam: a versatilidade das postagens e as amarras entre as idéias,
sempre existe mensagem por cima de tudo (por trás não, por cima, pois é clara e direta.) e o resultado é uma revista multi, com direções variadas e lugares bem escolhidos para nos levar.

inspiração constante. adorável!

escolhi esta postagem aqui para deixar meu comentário para aproveitar e dizer o quanto gosto da poesia do henrique pimenta, principalmente quando ele se move fora das rédias do soneto...


um beijão para você, porreta!