quarta-feira, 24 de junho de 2009

Maracanã,
antes de ser tomado pelas multidões,
em foto distribuída pela
UNERJ


BALAIO PORRETA 1986
n° 2702
Natal, 24 de junho de 2009


Minha paixão pelo Fluminense é uma "paixão literária". Ela não surgiu de uma grande exibição, de um título histórico, ou de um gol inesquecível, mas de uma crônica [de Nelson Rodrigues]. Surgiu através da palavra. Do mesmo modo, e desde então, minha paixão pela literatura é, de certa forma, "futebolística".
(José CASTELLO. Uma paixão de letra, in A cabeça do futebol)


A CABEÇA DO FUTEBOL, O FUTEBOL NA CABEÇA

Há o futebol e há o Fluminense. Há o futebol e há o Fla-Flu. Há o futebol e há o Maracanã. Outros dirão: há o futebol e há o Pacaembu; há o futebol e há o Mineirão; há o futebol e há o Morumbi; há o futebol e há o GreNal; há o futebol e há o ABC-América; há o futebol e há o Santa Cruz. E há outras paixões, de norte a sul. E há o jogo bem disputado. E há o drible embriagador. E há a defesa milagrosa do goleiro. E há a folha seca. E há o gol antológico. E há a explosão dionisíaca da torcida. E há livros como A cabeça do futebol(*).

Um livro com algumas crônicas memorialísticas marcadas pela mais pura emoção, pela emoção mais genuína: 'O dia em que virei santista', de José Roberto Torero; 'A ditadura não é mais forte do que o amor de um pai', de Juca Kfouri. Ou marcadas pela emoção em busca de um sentido para a literatura: 'Uma paixão de letra', de José Castello. Ou, ainda, marcadas pela emoção - e também pelo humor: 'Um escritor no pasto', de Raimundo Carrero. Poder-se-á dizer, entre outras coisas, tudo é encantamento, tudo é futebol.

Mas não ficamos por aqui: há crônicas que, jornalísticas ou não, realizam-se com vigor através do esmero documental e da memória afetiva: 'Camilo Cela, o torcedor do Íbis' [sim, é verdade, o pior time do mundo tem um torcedor ilustre], de Fernando Monteiro; 'O menino', de Samarone Lima; 'Souza Futebol Clube', de Gustavo de Castro; "No tempo de Jacaré e Pablito Calvo', de Carlos Magno Araújo. Há inclusive um delírio semificcional, escrito com paixão: 'O dia em que a Fiel invadiu o Rio de Janeiro', de Josmar Jozino.

E há a ficção propriamente dita através do erotismo muito bem realizado que se cristaliza na escrita de Elianne Diz de Abreu em 'O pênalti', assim como há um texto com toques metalinguísticos em 'Bola, gingado e prazer', de Selma Medeiros. E se a poesia não me encantou ('A bola', de Fabrício Carpinejar; 'Futebol da vida', de Abel Meneze), se Daniel Piza ('Bola de meia') me frustrou, e se senti a ausência do futebol gaúcho e do futebol do Norte, outros textos - ficcionais ou não, memorialístcos ou não - me interessaram: textos de Xico Sá ('O crime da mesa redonda'), Luiz Martins da Silva ('O homem que queria superar Didi'), Klecius Henrique ('A bola era eu'), Humberto Werneck ('Foi córner ou escanteio'), Rubens Lemos Filho ('Ele sempre será'), Enrique Vila-Matas ('Coração tão tricolor'). Há outros autores, outros textos. Enfim, é bom ressaltar, trata-se de uma coletânea que embarca num "jogo que é puramente afetivo" (os organizadores). E que jogo!

(*) A cabeça do futebol
Orgs.: Carlos Magno Araújo, Samarone Lima, Gustavo de Castro
Brasília: Casa das Musas, 2009, 166p.
/ Lançamento em Natal: próxima sexta, dia 26, às 19h, na Siciliano do Midueu Xópim /


Metaficção
A HISTÓRIA DE UM JOGO
ATRAVÉS DAS MANCHETES DOS JORNAIS

NO DECORRER DO TEMPO
Moacy Cirne

155 mil torcedores foram ao Maraca para ver Flu-Coringão, em 1976

1976: 50 a 60 mil corinthianos invadiram o Rio
1996: 70 mil corinthianos invadiram o Rio, em 1976
2006: 80 mil corinthianos invadiram o Rio, em 1976
2016: 120 mil corinthianos invadiram o Rio, no século passado
2036: 150 mil corinthianos invadiram o Rio, no ano de 1976
2076: 220 mil corinthianos invadiram o Maracanã, 100 anos atrás
2096: 400 mil corinthianos invadiram o Rio e o Maracanã, em 1976 dC
2976: 666 mil corinthianos no Rio para ver o Coringão, no século XX


MANHÃZINHA
Wescley J. Gama (Currais Novos, RN)
[ in A Taberna ]

toda vez que a lenha estalava no fogo
o cheiro do café gritava,
acordando todo mundo


GERMINAL
Ada Lima (Natal, RN)
[ in Menina Gauche ]

Apenas deságüe em mim
e faça surgir
um coração
em meu ventre.


SERIA MARILYN MONROE
UMA LEITORA DE JOYCE?

Aqui, em foto de 1955,
por
Eve Arnold,
a atriz americana
Marilyn Monroe
aparece concentrada

nas últimas páginas de Ulisses
(cf. blogue de Milton Ribeiro).

13 comentários:

Lívio Oliveira disse...

Belo post. Bela imagem do Maracanã. Belos textos. Bela Marilyn...mas, que ela nunca leu Joyce, disso tenho certeza!
Abs.

Mirse disse...

Bom dia, Moacy!

Linda a foto do Maraca. Mas infelizmente não entendo muito de futebol.

Grande Lívio! porque essa certeza?

Ada Lima: Genial o poema!

Beijos amigo!

Mirse

Diz disse...

Obrigada pelo comentário destacando o conto.
:)
o que vc lei lá no blog, eu gosto mais do que deste. Agora entende porque me irritei com o comentário daquela pessoa me chamando de preconceituosa- eu amoo povo do sertão, a mulheres à espera dos homens, aquela força que vem do sofrimento.
Hj amanheci tonta, mal estar=velhice, deve ser,
vou ver se posto sobre o livro tb, está na hora.
Preciso do sol, aqui anda excasso :(
bj Elianne- está elienne no seu post, mas pode deixar,não faz mal...

Diz disse...

A Marilyn lendo Ulisses... é piada.
Nem eu consegui ler de cabo a rabo- li trechos- eu gosto da narrativa,mas é preciso mais do que isto para ler o Ulisses, é preciso cultura, eu não tenho o bastante.
Deveriam colocar outro livro na mão dela- se fosse a simone signoret eu acreditaria. Por que será?
:)
ih! vão dizer precconceito contra as loiras :) hihihi ando paranóide.:)

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Não sei se na época Marylin estava casada com Arthur Miller. Se estivesse, ela teria "pegado" "Ulisses", por sugestão (imposição?) do marido. Vou noutra direção da afirmativa de Lívio. É possível que ela tenha lido algumas páginas do livro de Joyce, mas não entendeu patavina. Não por falta de inteligência, mas pelo hermetismo excessivo de "Ulises". Aliás, tenho certeza que a maioria das pessoas que o elogia, não o leu, ou se leu não o entendeu. Falando de futebol, domingo nos enfrentaremos mais uma vez. Um abraço.

nina rizzi disse...

boa dia, caríssimo :)

que linda a imagem do maraca. e a epígrafe fantástica, assim passo também a gostar mais de futebol. a literatura faz destas coisas. mas me encantava, quando criança, ver meus tios pulando - macacos, atrás da bola ponte-pretana.

só o título do poema de Ada já me-quase seria suficiente, mas aí ela vem desaguando poesia em nós. que coisa linda :)

sou doida pela marilyn-mulher, pr'além mito. mas uma foto dessas, é mitológica!

beijo :)

BAR DO BARDO disse...

Não tenho foto e não sei se Roberto Dinamite lia Guimarães Rosa. Será que lia?

Tahiane disse...

Futebol é paixão nacional e eu,mesmo não me interessando pelo esporte, devo reconhecer que, antes dos lamentáveis episódios de violência nos estádios, a paixão das torcidas era de arrepiar...

abs...

Jens disse...

Moacy, parabéns pela presença n´A Cabeça do futebol.

Marilyn leitora de Joyce seria a glória.

Um abraço.

Nydia Bonetti disse...

Moacy, Marilyn deve ter lido "O Pequeno Príncipe"... Sem preconceito... :)
Manhâzinha e Germinal: Lindíssimos. E o Maracanã... é um monumento. Abraços

líria porto disse...

manhãzinha e germinal - lidos poemas, lindos!

vais disse...

Saudações Moacy,

GERMINAL da Ada
Apenas deságüe em mim
e faça surgir
um coração
em meu ventre.
simplesmente delirante de bonito
e Páreo de Nel, também

Manhãzinha, cheira a rapadura, roça e fogão de lenha

e o Quintana é meu, ahahahaha

beijo procë

vais disse...

Moacy,
só um trenzim, são as origens , em fogão de lenha, leia-se `fornalha`.
beijo