quarta-feira, 10 de junho de 2009

Uma alegoria com Vênus e Cupido
(c1546)
Agnolo Bronzino


BALAIO PORRETA 1986
n° 2688
Rio, 10 de junho de 2009


A existência de tanta poesia nos livros proféticos [do Primeiro Testamento] evoca questões inevitáveis: os profetas antigos seriam na verdade poetas?
(John B. GABEL & Charles B. WHEELER.
A Bíblia como literatura, 1986)


O LIVRO DOS LIVROS
(35)

Texto estabelecido por John Gabriel Wylker

Das lamentações caicoenses

E os homens de Caicó, anos e anos depois da morte do sucessor de Moysés Sesyom do Sertão, se deixaram enganar por falsas promessas. E os homens de Caicó se deixaram levar pelas raparigas do Cai Pedaço e do Pinga Pus. E os homens de Caicó se transformaram em biriteiros frequentadores do Ferreirinha. E seus moradores de bem, aos prantos, procuraram outras cidades. E só voltavam em ocasiões especiais.

Oh, como estás solitária!, cidade minha(¹), solitária como se fora uma jovem malamada, que só se torna populosa, oh graciosa, quando o Itans sangra e o Seridó resplandece de barreira a barreira nos invernos das auroras adormecidas, e nos tempos gloriosos das festas de Sant'Ana e do Rosário. Mas choro e chorarei por ti, oh Caicó, antes que Madonna chore pela Argentina(²). Choro e chorarei por ti, pedras e serrotes do meu sertão, e que já fostes a alegria de todo o Seridó, oh Caicó arcaico mallarmaico chicocesaraico(³).

Oh Caicó, que pecou e pecará gravemente - com seus cabarés enluarados, com a demolição do sobrado que abrigou e abrigará o jornal O Povo(ª¹), com a demolição do Cinema Pax e do Mercado Público, e com a transformação de uma tradicional praça(ª²) num simples logradouro de comedorias & beberagens. Quem a honrava, com bravura e macheza, agora a despreza e a desprezará. Oh, como choro e ainda chorarei por ti, como lamento e ainda lamentarei por ti.

Todo o seu povo geme e gemerá à procura de latim(ª³), de pescaria, de cantoria e de sabedoria, e de carne-de-sol com macaxeira e manteiga de garrafa, e de queijo de coalho, e de chouriço(ªª¹), e de caldo de cana com pão doce, e de coalhada com rapadura, e de umbuzada, e de canjica e pamonha - e nada mais encontra ou encontrará, a não ser enlatados e refrigerantes. Até quando, oh Senhor das Alturas? Até quando, oh Nossa Senhora de Sant'Ana?

O Altíssimo destruiu todos os seus inimigos - os que vieram de terras estranhas e mesmo os da pátria seridoense. Em tempos idos, destruiu Axé Musiqueta e Gonorreia; em tempos recentes, submeteu Jó da Silva e Silva a provas terríveis, maquinadas pelo Senhor das Sombras. Mas o mundo não se acabou, apesar dos ímpios, apesar dos infiéis, apesar dos ateus, apesar dos poetas do poema/processo e do poema/possesso. O mundo só se acabará, se o Senhor assim o desejar, quando o Poço de Santana, na minha Caicó, secar de uma vez por todas.

Teus profetas, oh maldita Vila Real do Princípe(ªª²), te vaticinaram ilusões e mentiras. E é um caicoense que vos fala. Um caicoense que venceu léguas tiranas(ªª³). É preciso que voltes a ser a Caicó de Sant'Ana, a Caicó do Seridó. E que voltes a admirar as Sagradas Escrituras e os pergaminhos de Miguel Cirilo, José Bezerra Gomes, Luís Carlos Guimarães, Manoel Dantas, Olavo Medeiros, José Augusto e Oswaldo Lamartine. Sábias são as palavras daqueles que amam as Escrituras Bíblicas e que almejam um novo tempo para a amada Cidade:

O Senhor é grande,
muito além das fronteiras do Seridó.
Não temos todos um único Criador?
Não foi um único Deus a nos sonhar?
Por que, então, não perdoará
a gente hospitaleira de Caicó,
que espera voltar para, entre nós,
viver, amar e trabalhar?

E em sonho o Senhor disse e dirá:
"Que Eu não venha a desferir
sobre esta terra
a mais completa e terrível destruição".

Próximos capítulos:
36. A autocrítica do Senhor das Alturas
(Final do Primeiro Testamento)
36a. Bibliografia do Primeiro Testamento
Início do Segundo Testamento -
1. O livro de Maria Maria
2. O nascimento de Aijesus da Cruz

Notas:

(¹) O presente capítulo, de autoria anônima, mas com a aprovação metafísico-aristotélico-parnasiana do Senhor das Alturas, é todo ele um "lamento" proferido, palavras após palavra, verbo após verbo, por um caicoense auto-exialado em terras paraibanas.
(2) No Concílio Serra Negra 1874 EC, confirmado pelo Concílio Parelhas 1926 EC, a discussão sobre este "choro espistemológico" fixou o seguinte dogma, conhecido como Dogma Von Trier: A Argentina em questão é uma referência metafórico-impressionista ao país do Piauí, que em épocas bíblicas foi administrado pelo Capitão-Mor Maradona, pai de Madonna, mãe-de-santo e contra-parente do baiano Carlos Gardel, sobrinho do pernambucano Pixinguinha do Bandolim, casado com a mineira Joana Araújo das Gargalheiras Sergipanas, irmã de Riquelme Tevez dos Anjos, amigado com Sarita Montiel, catimbozeira de Maria Boa, na Cidade dos Reys, cantada em prosa e verso por Mário Ivo Sonhador, compadre de Sheyla dos Azevedos, amiga de Potiguarando da Silva, leitor de Marize Castro, prima de Carmen Miranda, sanfoneira de Marinês e sua gente, parceira de Romário, afilhado de Chico Doido de Caicó, avô de Zé Limeira da Paraíba, sogro de Elba Ramalho, sobrinha de Alceu Valença, o Cineasta, e de Luís da Câmara Cascudo, o Colecionador de Crepúsculos.
(³) Expressão absolutamente indecifrável. Contudo, o teólogo Carito Elétrico Carito, da Cidade dos Reys, às margens do rio Potengy dos Meus Amores, sustenta a tese de que se trata de uma referência cabalística à cidade de Catolé do Rocha, na Paraíba.
(ª¹) O Povo : primeiro jornal republicano do Ryo Grande do Nordeste.
(ª²) Possível referência à Praça Dr. José Augusto, hoje totalmente desfigurada.
(ª³) Em Caicó funcionou uma famosa Escola de Latim, no séc. XIX da Era Comum, dirigida pelo Padre Brito Guerra, pai de seis filhos reconhecidos em testamento. Será alguma referência profética de conteúdo bíblico-dadaísta à mesma?
(ªª¹) Chouriço : Doce típico de região, à base de sangue de porco, farinha, rapadura, gengibre e ervas diversas. Segundo o ateu juramentado Moacy Cirne, trata-se do melhor doce do mundo.
(ªª²) Uma das denominações antigas impostas pelo governo imperial à cidade, nome rejeitado pelos caicoenses de qualquer época, antes e depois da Era Comum.
(ªª³) Cf. Luiz Gonzaga, o Santo Protetor do baião.

16 comentários:

Mirse disse...

Bom dia, Moacy!

Hoje é 10 de junho? No meu clendário está 9. Não me assuste!

Raparigas do Pinga Pus!!!! (Ótimo)

Fantástico, oh grande escriba!

Eis que vos falo: Não haverá abaixo do sol ninguém que descreva de forma tão bela e poética o Livro dos Livros sobre Caico e Seridó!

Moacy Cirne já é um filho dileto!

Muito Bom!

Parabéns, Moacy!

E obrigada por nos presentear com essas maravilhas : da alegoria à Luiz Gonzaga, o Santo Protetor do Baião.

Beijos

Mirse

nina rizzi disse...

bom dia :)

o texto me toca feito cordel. a gente criando heróis, o que talvez seja melhor que deuses. uma imaginação tão-fértil que ainda não foi capaz de criar soluções materialistas...

a imagem me remete a pater-famiglia. e essa nossa 'mania' de querer se juntar. penso que a palavra incesto foi criada no mesmo dia que a palavra família. a imagem poderia figurar no 'elogio á madrasta', do grande mario vargas llosa. em vários capítulos é feita associação de famosas telas com seus textos quase-contos perfeitamente sincrônicos.

e viva-súplica :)

nina rizzi disse...

opa, sim, podíamos criar coisas assim bem-doces (pra mim sem sangue, lol)

http://www.youtube.com/watch?v=pP0Ns8DWzJg

beijo outro.

Lívio Oliveira disse...

Caro Moacy,

A saga é infinita...

Amigo, tem homenagem a você em O TEOREMA DA FEIRA. Um poema que Ana de Santana me enviou ontem.

Por sinal, coincidentemente, há uma homenagem a você no blog TOCA DO LOBO, pelo que vi aqui ao lado.

Coisas de quem é merecedor...

Um grande abraço!
Lívio
p.s. O lançamento foi um grande sucesso. Sua colaboração foi essencial para a qualidade do livro.

Marcos disse...

Moacy:

Vc viu na tv a apoteose conservadora na USP? Uma reitora conservadora chamou uma polícia conservadora para disparar tiros (de borracha, por enquanto) e diferentes bombas de gases contra funcionários e estudantes anti-conservadores. E esse conservadorismo é largamente incentivado por Imprensa e outras instituições. Dá para perceber que os conservadores não precisavam que nós deixemos eles serem conservadores para agirem com extrema liberdade? Sugiro que nós reinvidiquemos o apoio ao direito de anti-conservadores serem anti-conservadores. A barra está pesada, Moacy!
Abraços:

Marcos Silva

Carito disse...

...o balaio brincando de cabra-saga!

Marcos disse...

NOTÍCIAS DO FRONT USP
Amigos encaminho alguns relatos do absurdo do autoritarismo ocorrido ontem na Universidade de São Paulo.
O DCE solicita moções de apoio à comunidade universitária e de REPÚDIO CONTRA A AGRESSÃO NA USP!!


Quanto a mim, tive de me proteger das bombas 'de efeito moral' e diga-se efeito moral uma pinóia! Elas explodem, ensurdecem e soltam estilhaços. Como já descrevi longamente nos vários posts do twitter/maria_fro e em alguns comentários do Biscoito Fino (http://www.idelberavelar.com/) que fez e está fazendo uma cobertura excelente desta barbárie, o que ocorreu na USP ontem não tem justificativa.


A direitona raivosa pode falar o que for, mas este quadro de barbárie é mérito da inabilidade e truculência deste que se diz governador do estado e deseja presidir o país. Ontem tivemos uma mostra do que seria o Brasil se os brasileiros acreditarem em um sujeito autoritário, que não cumpre a sua palavra, arrivista (Serra não engole a USP que sempre resistiu a tentativa deste vampiro em retirar a autonomia universitária, fazendo do seu primeiro ato, assim que assumiu o governo do estado, em 04/01, um decreto para retirar a autonomia universitária e que foi repudiado pela comunidade acadêmica).

A sociedade civil, que preza a liberdade de pensamento deveria toda repudiar este ato brutal e tão DESPROPORCIONAL, sem cabimento e justificativas.

Professor Kabengele que já é um senhor e tanto fez por este país, teve de correr de bombas,como outros professores, alunos e funcionários q receberam spray de pimenta nos rostos. Um horror, algo inadimissível e injustificável.
Repudio este sujeito como membro da comunidade da USP, c/o cidadã e como pessoa.

CONCEIÇÃO OLIVEIRA
HISTORIADORA, EDUCADORA AUTORA DE LIVROS DIDÁTICOS, PRÊMIO JABUTI, 2005/2008
ALUNA DE PEDAGOGIA DA FE-USP


(Repassado por Marcos Silva, Professor do Depto. de História da FFLCH/USP)

líria porto disse...

"Até quando, oh Senhor das Alturas? Até quando, oh Nossa Senhora de Sant'Ana?"

eu te leio, releio, fico entranhada de terra natal - viva a minha araguari, viva a tua caicó!!
besos

líria porto disse...

voltei depois de ir à toca do lobo - só pra te ver!!! confesso que gostei!
besos

Fatima disse...

Quanta criatividade!!!
Adoro vir aqui Moacy.
Bjs.

Marcos disse...

Moacy:

Enviei um texto que não foi aceito pelo blog. Algum problema técnico?

Marcos Silva

Moacy Cirne disse...

Que texto, MARCOS?
O seu comentário anterior - especialmente longo - encontra-se postado, aqui mesmo. Não se esqueça que o Balaio, sendo um blogue, não é o Substantivo Plural: os comentários enviados não aparecem como artigos isolados.

Um abraço.
Ah, sim, também fiquei indignado, claro, com a posição da reitoria da USP. Darei alguma nota na edição de amanhã, não necessariamente assinada por mim.

Marcos disse...

Moacy:

O texto era um pouco longo, foi devolvido 3 ou 4 vezes pelo blog. Abordava violência policial (com a chancela da reitoria) na USP. Acho que foi devolvido devido à extensão.
Obrigado pela resposta:

Marcos Silva

Marcos disse...

Caros amigos:

Reproduzo mensagem do Professor Caio Navarro Toledo (UNICAMP) sobre os violentos acontecimentos uspianos:

Colegas,

neste momento, o mínimo que, individualmente, se pode fazer - diante da brutalidade da ação da PM -, é enviar manifestações de protesto à Reitora da USP, profa. Suely Vilela; é ela quem, em última instância, exigiu a presença da força policial no campus. Se tivesse o mímino de dignidade (sic!), essa senhora deveria se afastar imediatamente do cargo que, novamente, demonstra não estar capacitada para exercer.
sds,
caio

email: gr@usp.br

Abraços:

Marcos Silva

Beti Timm disse...

Mestre querido,

a forma como é descrito,no Livro dos livros, o infortúnio e as aviltações cometidas contra a tão amada Caicó, se reflete em mim, como a descrição das dores de um ser muito querido por nós, uma mulher que amamos e que vemos sofrer. Bonito isso! Sofri em cada linha, as agressões infligidas a Caicó. Espero que a redenção de caicó, venha rápido. Mais uma vez teu texto me prende e me encanta.

Beijos

Anônimo disse...

Earlier I thought differently, I thank for the information.