sábado, 26 de setembro de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
& OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
Clique na imagem
para verouvir o trêiler de
Laura
(Otto Preminger, 1944)
Este é um film noir por excelência; talvez seja o melhor filme de Preminger. Decerto, quando o vimos pela primeira vez em Caicó, nos idos de 1950-51, não tínhamos a menor ideia das potencialidades estéticas de um gênero que seria determinante para a história do cinema americanos dos 40 e 50. No máximo - estamos apenas supondo -, ficamos intrigados com a sua trama e com o tema musical de David Raksin. Mas como já éramos curiosos com tudo aquilo que nos envolvia, Laura deve ter sido um desafio e tanto para os nossos olhos de criança, que, a partir de 1948-49 não perdia um só título apresentado no Cine Pax. Acreditamos que no espaço de 10 anos, vimos aproximadamente 1600 filmes em Caicó.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2795
Natal, 26 de setembro de 2009

O cinema noir é conhecido pelas tramas complicadas e pelas reviravoltas arbitrárias ... Em Laura (1944), há um detetive policial que não frequenta a delegacia; um suspeito que é convidado a acompanhar de perto o interrogatório de outros suspeitos; uma heroína que na maior parte do tempo está morta; um homem que tem um ciúme doentio de uma mulher, embora em nenhum momento ele pareça heterossexual; um protagonista romântico que é um campônio rústico e parvo do Kentucky transportado para a alta sociedade de Manhattan; e uma arma do crime que é devolvida a seu esconderijo pelo policial que "virá buscá-la de manhã".
(Roger EBERT. Grandes filmes, 2005)


DIVERSAS
Nina Rizzi
[ in Putas Resolutas ]

o êxtase é um
vê-la
(colados os corpos
sou o seu profundo)
não abro mão da maravilha
: (minha) condição feminina
prolongar prazeres
como não a dor

senhores (minha senhora), não há nada como
a vida clitoriana
en(sf)trega em tribal

ademais, nada sabe a ciência do íntimo
— o meu
: n'ela o prazer é um canto
curva entre ossos
maciez rugosa
é maresia
pontos em gostos gemidos
gritos e gozos


ESQUELETO
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

escrevo
depois faço a poda

só sobram
os ossos descarnados
do poema



POEMA
Vais
(2006)

Ando num caminhar vagaroso
como quem vai
sem eira nem beira
De que me servem as certidões?
Num ato simbólico, rasgo uma
Legalmente não existo
Posso nascer e morrer
quantas vezes quiser
- Padre, faça meu casamento!
e não se espante com a cor do meu vestido
- Juiz, faça meu casamento!
não possuo documentos
Eu basto, a minha pessoa,
meu corpo, meus atos,
minhas palavras
Meus pensamentos,...
Só meus, e de quem eu permitir.
O acesso está negado!
Quando comecei a andar
senti
algo cair do meu bolso
Não olhei pra trás
Naquela rachadura de terra
Minha identidade ficou enterrada
E fui assim mesmo
.


Memória 1997
A POESIA E O POEMA BRASILEIROS:
DEZ LIVROS FUNDAMENTAIS
segundo
Nei Leandro de Castro
[ in Balaio n° 987, de 14 de julho de 1997 ]

1. Libertinagem (Manuel Bandeira)
2. Sentimento do mundo (Carlos Drummond de Andrade)
3. O visionário (Murilo Mendes)
4. O cristal refratário (Abgar Renault)
5. Romanceiro da Inconfidências (Cecília Meireles)
6. A educação pela pedra (João Cabral)
7. O domingo azul do mar (Paulo Mendes Campos)
8. Arranjos para assobio (Manoel de Barros)
9. Navegos (Zila Mamede)
10. Hora aberta (Gilberto Mendonça Teles)


VIOLINO
Jairo Lima
[ in Bar Papo Furado ]

e me descobri no Recife com saudades do Recife
e a esta angústia veio somar-se outra
que me deu de ver Angra dos Reis nos retratos
e umas histórias sobre a usina atômica

e quiz versos de fogo contra o fogo da usina
e rimas de mel para o seio das colinas

e a esta angústia veio somar-se outra
que me deu de lembrar a infância dos sábados
criança não traquina
a que a réstia do sol da telha de vidro do quarto vinha coçar a narina

e a esta angústia veio somar-se outra
que me veio indefinida das meninas que amei
e mi vi com saudades de um violino que jamais toquei
e que vendi na caixa para um músico da sinfônica
por cento e vinte mil reis


UMA HISTÓRIA DE ZÉ AREIA
Veríssimo de Melo
(Natal, 1972)

Uma tarde, no Natal Clube, Zé Areia [barbeiro e boêmio] andou espalhando nas rodas que Djalma Marinho [um importante político potiguar dos anos 50 e 60 do século passado] estava lhe devendo 50 cruzeiros. E saiu. Meia hora depois, aparece Djalma Marinho e vários amigos lhe falaram sobre a estória da dívida de Zé Areia. Djalma estranhou, como era natural, a tal dívida. Encontrando-o, mais tarde, perguntou:

- Que estória é essa que você anda espalhando de que eu lhe devo cinquenta cruzeiros?

- Deve - disse Zé Areia. - Eu lhe pedi, naquele dia, cem cruzeiros, e você só me emprestou cinquenta. Logo, deve cinquenta!...


MEU CORAÇÃO ESCONDE
Carmen Vasconcelos
[ in Chuva ácida. Natal, 2000 ]

Meu coração esconde,
a palavra escapa,
a palavra que preciso cuspir.

Mas não é porque me cobre
a túnica do silêncio,
que estarei despida de poesia
ou perecerá,
sobre o branco impecável desta página,
o meu reflexo.


WILLIAM SHAKESPEARE, MEU GHOST WRITER
Milton Ribeiro
[ in Improvisações sobre Literatura... ]

Estava em casa, lendo numa mesa de fórmica branca, daquelas que se faziam anos 60 e 70, quando Shakespeare chegou. Em meu sonho, ele falava um português machadiano. Sentou-se tranqüilamente em meu antigo quarto com aquela mesma cara das pinturas, só que um pouco mais corado, e declarou que gostaria que eu começasse uma carreira de poeta. Propôs-se a ser um ghost writer.

- Aliás - riu-se Shake -, já o sou… Mas agora quero ser seu ghost writer.

Sorri e disse-lhe que não lia muita poesia e que era incapaz de um verso (aqui fui honesto), mas que, obviamente, concordava com o esquema. (Um belo oportunista ou um homem preocupado em divulgar altíssima cultura? O primeiro, certamente.) Então, ele passou a me ditar os poemas mais sublimes e perfeitos, dos quais não lembro, é claro. Só lembro da profunda emoção que me causaram e da dificuldade que tinha para escrever com o lápis na fórmica, pois as lágrimas me atrapalhavam. Enquanto fungava, ouvia e copiava a maior e mais inédita das obras. Às vezes, perguntava-lhe onde deveria mudar de linha ou onde acabava a estrofe, essas coisas técnicas. Minha caligrafia era belíssima. (Minha letra é horrorosa.)

Depois de muitos sonetos - a mesa de meu sonho era imensa -, meu novo amigo cansou e pediu-me para levá-lo até a porta. Enquanto o acompanhava, ele garantiu que voltaria.

- Voltarei! - falou ele bem alto, para minha alegria.

Não parecia um espectro. Quando voltei, nossa empregada estava de joelhos sobre a mesa, esfregando-a com produtos de limpeza bastante eficientes. (Não vi suas marcas, então não posso indicá-los.) Vi a mesa branca, ainda úmida, e caí em abissal desespero. Acordei apavorado. Não é sempre que se perde um ghost desses.


20 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Se não for o melhor filme de Preminger, é o melhor do gênero noir, pelo menos dos que conheço. É um grande filme, Laura, que, volta e meia, estou revendo. Um das coisas que mais me agradam nele é a paixão do detetive por uma mulher morta.E o fato de ele (e também o espectador) acreditar que Laura morreu, e, vem então a constatação de que ela está viva,deixando todo mundo de cabelo em pé pelo impacto da surpresa, é uma grande sacada do roteiro, muito bem elaborado. Grande filme. Um abraço.

líria porto disse...

acordo cedo mesmo - e escrevo nessa hora - e mando o primeiro beijo do dia... risos

gracias, moacy, por estar dentro do balaio e cercada de versos por todos os lados!

os livros de poemas - in-dis-pen-sá-veis!

líria porto disse...

o sobreira e eu chegamos juntos! risos!

Marcos disse...

Moacy:

"Laura" é um bonito filme, para ser lembrado sempre - construção de personagens, canção belíssima. E Premminger é um diretor que abordava personagens e temas muito perturbadores: sempre revejo "Carmen", com os fascinantes Dorothy Dandridge e Harry Belafonte numa época em que ainda havia apartheid no sul dos EEUU. E "Tempestade sobre Washington" também apresenta um campo temático muito preconceituado na época em que foi feito.
Assisti a algumas biografias televisivas da talentosa Dorothy, nas quais Otto aparecia muito mal - violento, explorador. Melhor não confundir esses tristes aspectos pessoais com seu talento artístico.
Abraços:

Marcos Silva

Marcos disse...

Anigos:

A "Carmen" de Preminger é "Carmen Jones". Desculpem a falha.
Abraços:

Marcos Silva

Lou Vilela disse...

Passando para atualizar a leitura... ;)

Excelentes textos! O da Liroca, conciso, encantador - dá uma boa mostra de seu estilo; o da Nina, visceral.

Beijos e um excelente sábado para todos!

Pedrita disse...

nossa, eu vi laura há vários anos em vídeo na casa dos meus pais. qd eles ainda viviam juntos. maravilhoso! e essa foto é majestosa! gostei muito do poema da nina rizzi. não li essa obra do joão cabral, nem do paulo mendes campos. enfim, anotado pra diminuir a culpa de não conhecer esses textos. beijos, pedrita

assis freitas disse...

Vendo a foto de Laura imediatamente lembrei-me de Gilda. Acho que preciso rever os dois filmes para acabar a confusão. Adorei Shakespeare como ghost writer.Um balaio para abrir o final de semana.

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Mui substancioso o Balaio deste sábado. Fiquei curioso para ver Laura. Valeu a dica. Fabuloso o poema da Nina Rizzi. Também achei supimpa a lista do Ney. É isso, camarada. Ótimo sábado literário.

Sergio Andrade disse...

Laura é fascinante. E Gene Tierney...ah Gene Tierney! rss

Marcos disse...

Assis Freitas:

"Gilda" me parece matriz para toda e qualque propaganda de shampoo - se os herdeiros da atriz e do diretor fossem pagos pelas imitações, estariam mais ricos ainda. E contém uma cena de strip-tease excitante, reduzida à luva da protagonista. E mais um baile à fantasia que é um primor fotográfco em nuanças de branco e preto.
Rita Hayworth podia não ser boa atriz num sentido clássico mas sabia seduzir visualmente como ninguém! Não era apenas bonita: sabia aparecer bonita.
Abraços:

Marcos Silva

nina rizzi disse...

nossa, com uma sinopse como a de ebert já vou a assistir sem medo de me achar uma parva! rs..

é uma alegria estar dentro do seu balaio, visse. aqui é macio e quente feito o mais profundo prazer :p

descamando tudo, sobram toos os documentos que não dizem nada sobre mim, quem seria ellena? que poema, caramba!

ds três últimas listas, drummond, joão cabral e bandeira são unamidade. e o maneco do pantanal só não esteve na de ontem. eu nunca deixo de ler esses cabras e leio mais e releio, pra mim, fundamentais, assim como o murilo mendes, que só apareceu hoje. diferente de mim, que passo o cartão.

um beijo, moacy :)

Marcelo Novaes disse...

Moa,




Belas postagens. Destaco a soma das angústias de Jairo Lima.






Abração,






Marcelo.

luma carvalho disse...

gosto de passar por aqui... sempre tantas coisas novas e gostosas de serem lidas! ah! tive o prazer de conhecer a carmem vasconcelos, ela é tão linda quanto os seus poemas...

beijos na alma
com sabor de "poesia"

luciana
luma
lua

luma carvalho disse...

gosto de passar por aqui... sempre tantas coisas novas e gostosas de serem lidas! ah! tive o prazer de conhecer a carmem vasconcelos, ela é tão linda quanto os seus poemas...

beijos na alma
com sabor de "poesia"

luciana
luma
lua

vais disse...

Saudações Moacy,
bacana demais!
Carmen
Milton
o Zé Areia né besta nada, eheh
Nina
Líria
e Jairo
é um grande prazer de estar por aqui
abração procê

Nydia Bonetti disse...

Tudo muito bom por aqui, Moacy. Esta lista de poetas, perfeita, se bem que eu inverteria algumas das posições. E os poemas de hoje, fantásticos. Bom domingo! beijo.

Tahiane disse...

Li sobre Zé Areia num antigo livro que meu pai me deu, no tempo em que Natal era "De Líricos e de Loucos"... São boas histórias de Bohemios...

ps.: Sou aluna de um amigo seu, Moacy. Professor Jarbas Martins, eleleciona Comunicação e Artes visuais na UFRN. :)

dade amorim disse...

Na luta contra o tempo, de vez em quando consigo aportar aqui em tua praia. É bom demais, quando consigo.
Beijo pra você e uma grande semana.

BAR DO BARDO disse...

líria & nina - 0002 dupla de duas estrelas...