terça-feira, 15 de setembro de 2009

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BALAIO PORRETA 1986
n° 2784
Rio, 15 de setembro de 2009

As coisas hediondas que tenho feito por amor... Chego a especular se não tenho correndo nas veias qualquer sangue de um demônio apaixonado.
(Fábio FRANÇOIS, in Odisseia Banal)


AMAR DEMAIS
João Tala
(Angola)

cantar rochas amar demais
entrar na revolução
como uma erupção

abordar o perfil de
dureza
com delírios de vida
e vagas explosões

desses barcos sufocados
pela vida
e rochas do homem

mal dizem os saberes:
quem canta rochas
vulcaniza a próstata.


UMA OUTRA PROSA
Assis Freitas
[ in Árvore da Poesia ]

percebo o que havia no teu corpo
néctar, pólen, semente
mas também havia poesia
disso a língua não sabia


A OUTRA FACE
Márcia Maia
[ in Tábua de Marés ]

se o fogo fere o amor
a alma e o corpo

o corpo ainda assim vez
por outra regozija

a mágoa ata

e o ódio nada é que o amor
visto do avesso do espelho


MEU CORAÇÃO ESCONDE
Carmen Vasconcelos
[ in Chuva ácida, 2000 ]

Meu coração esconde,
a palavra escapa,
a palavra que preciso cuspir.

Mas não é porque me cobre
a túnica do silêncio,
que estarei despida de poesia
ou perecerá,
sobre o branco impecável desta página,
o meu reflexo.


DOIS SENTIDOS
Vais

minhas mãos se ocupam de outros afazeres
e os olhos continuam vendo e lendo


EQUAÇÃO
Hercília Fernandes
[ in HF Diante do Espelho ]

A culpa foi da rosa
da rosa do vento
quem sabe da roda?!
da roda do tempo

A culpa foi nossa
[ não da rosa não da roda ]
incógnita chama
sentimento...


LIVROS QUE ME MARCARAM NOS ANOS 70

- e ainda me marcam (1)


A psicanálise do fogo [1938], de Gaston Bachelard. Trad. Maria Isabel Braga. Lisboa ; Estúdios Cor, 194p.


"O fogo é íntimo e universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e oferece-se como o amor. Volta a tornar-se matéria e oculta-se, latente, contido, como o ódio e a vingança" (p.21).


"O sonho caminha linearmente, esquecendo o percurso na corrida. O devaneio expande-se em estrela" (p.34).


"O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade" (p.36-37).

"O sonho é mais forte do que a experiência" (p.43).

"Só se pode estudar aquilo que se sonhou primeiro. A ciência começa mais com um devaneio do que com uma experiência, e são [necessárias] muitas experiências para afastar todas as brumas do sonho" (p.48).

"O amor não é mais do que um fogo que se transmite. O fogo é um amor que se descobre" (p.52).

"O calor é um bem, uma possessão. Deve guardar-se ciosamente e só o conceder a um ser eleito que mereça uma comunhão, uma fusão recíproca" (p.75).

"Depois do desejo, é preciso que a forma se concretize, é preciso que o fogo acabe e se cumpram os destinos. Neste sentido, o alquimista e o poeta interrompem e apagam o jogo ardente da luz" (p.99).

"Com o fogo tudo se modifica. Quando queremos que tudo se modifique apelamos para o fogo" (p.103).

"... as ideias antigas desafiam as idades; regressam sempre em devaneios mais ou menos científicos com a sua parte de ingenuidade primitiva" (p.119).

"... um espírito poético é pura e simplesmente uma sintaxe das metáforas" (p.187).

17 comentários:

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Caro Moacy,
Deixo aqui um link de outro meu blog, onde pode encontrar mais poemas e 1 conto de Joao Tala.
Kandandu

BAR DO BARDO disse...

fico sempre besta - e basta

assis freitas disse...

Ave Moacy, agradeço por estar neste balaio voluptuoso e em tão densas companhias. Bachelard é um porreta, dele também me apaixonei por A poética do espaço. Abraço.

Mme. S. disse...

legal essa seleção de períodos do livro, Moacy. Cada frase uma sentença. um beijo da sua menina.

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Desculpe, esqueci do link http://coresepalavras.blogspot.com/search/label/Joao%20Tala

Kandandu

Jens disse...

Oi Moacy.
Hoje me encantei com o demoníaco Fábio François e com a foto. Deu vontade tomar banho de rio.

Um abraço.

Marcelo Novaes disse...

Moa,


Bachelard é tremendo, na sondagem (poética) de todos os elementos.



Quanto à coletânea de hoje, Assis Freitas deve colher muitos frutos em sua Árvore (da Poesia), a se julgar por este.








Abração,








Marcelo.

Adriana Karnal disse...

Moacy,
Sua seleção é irretocável...destaco a Hercília, que adoro.Barchelard,hum, é maravilhoso...venho aqui para me ins-pirar.bj

Carito disse...

ave bache'lord da poética do espaço! assonhando desejos, o cara é fogo, como essa foto disfarçada de água, ave moacy! vou ficando por aqui...

líria porto disse...

kandandu - que palavra linda! estou a gostar dessa integração brasil / angola!

viva a língua!

nina rizzi disse...

43, 99, 119. céus eu devo ter escrito isso de algum outro modo...

olá moacy,

veja, sempre em sintonia: hoje é a revolução desse joão tala. anda a me arranajr irmãos por aí, hein?

sim, canto à revolução, como cantou:
"en la lucha de clases
todas las armas
son buenas:
piedras,
noches,
poemas".

no "tigre e a neve" a personagem de benigni é um professor de poesia. ele dá uma aula dizendo que, escrever poemas de amor, só depois dos oitenta. agora devemos escrever tudo o mais. mas, sabe (eu sei.. rs) tudo o mais canta o amor...

um beijo :)

Hercília Fernandes disse...

"O fogo é íntimo e universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e oferece-se como o amor. Volta a tornar-se matéria e oculta-se, latente, contido, como o ódio e a vingança".

Belíssimo post, Moacy. Bachelard, além de um cientista-historiador e/ou historiador das ciências, é um poeta que experimentou a "manualidade" do devaneio oriunda das profundezas da alma.

Belíssimos fragmentos você nos apresenta de "A psicanálise do fogo". Além da citação in abertura deste comentário, destaco uma de natureza conceitual:

"... um espírito poético é pura e simplesmente uma sintaxe das metáforas".

Esta frase é bachelardiana ao extremo, síntese de seu pensamento inovador e holístico.

Muito obrigada por meu poeminha "equação" figurar entre tão intrépidas vozes. Amei abundantemente os poemas aqui apresentados. Parabenizo a todos.

Forte abraço, poetíssimo!

Beijos :)
H.F.

vais disse...

Saudações,
ô moço, vou copiar o Assis Freitas

"Ave Moacy, agradeço por estar neste balaio voluptuoso e em tão densas companhias."

E, Assis, rapaz, gostei da Uma outra prosa, azar da língua,eheh

copio este também
"Com o fogo tudo se modifica. Quando queremos que tudo se modifique apelamos para o fogo" (p.103).

Moacy,
é um prazer
abraços

Nivaldete disse...

Que bom encontrar o velho e bom Bachelard aqui... Um maravilhoso bruxo. Aquela palavrinha, também maravilhosa -'coisário'-, na verdade está em A Poética do Devaneio. Vou corrigir lá no Lápis. Um abraço.

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Moacy, li num blog que publicou um poema meu que voce queria saber o significado de algumas palavras, ei-las aqui, meu caro:
Toninhas – Golfinhos.
Kiandas – Divindades das águas, sereia.
Kalunga – Mar, Deus e muitos outros sentidos (morte, infinito...)
Xinguilar – Ficar possuído pelos espíritos, incorporar espíritos, entrar em transe, ficar maluco (alusao mais comum).
Jinguba – Amendoim.
Kifufutila/Quifufutila – Doce moído com jinguba, acucar, canela, etc

Marco disse...

Os poemas são ótimos. As frases do livro são extra-classe.
A foto da ninfa do rio então...
Carpe Diem.

Sergio Andrade disse...

Ehr...tem o telefone da moça da foto? rsss