domingo, 20 de setembro de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA

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o trêiler de
M.A.S.H.
(Robert Altman, 1970)
O primeiro grande filme de Altman (e ele realizaria pelo menos mais duas obras-primas: Cerimônia de casamento, em 1978, e O jogador, em 1992): a guerra - da Coreia - sob uma perspectiva humorística, na medida do possível. A rigor, uma obra inserida no contexto da época, de crítica à guerra do Vietnam, quando os norte-americanos, apesar de todo o seu poderio bélico, foram impiedosamente derrotados pelos vietcongues. Contudo, MASH, antes de mais nada, é um filme bastante divertido, com sua elevada taxa de ironia e sarcasmo.



BALAIO PORRETA 1986
n° 2789
Rio, 19 de setembro de 2009

A vitalidade de M.A.S.H. (abreviatura de Mobile Army Surgical Hospital) reflete o espírito de um tempo em que hippies queimavam cartas de convocação em praça pública, a contracultura revirava os ícones da América e a marginalidade assumia condição heróica. A história dos cirurgiões que servem num posto militar na Coreia é pretexto para uma crítica aguda ao poder, à hierarquia dos campos de guerra e às convenções religiosas e sexuais. O choque de informações se estabelece desde o início, quando soldados feridos são mostrados ao som da melosa canção "Suicide is painless" ("suicido é indolor") e prossegue no humor negro de Donald Sutherland e Elliott Gould nas ensanguentadas mesas de operação.
(Ricardo COTA, in Críticos)



SOLIDÃO NA METRÓPOLE
Adriana Monteiro de Barros
[ in Das Coisas Que Eu Não Sei ]

Rasgo a cara na manhã cinzenta desta cidade.
Me dirijo a qualquer lugar.
Não olho os sinais.
Não olho pra trás.
Automaticamente, sigo em frente.
Não paro.
Não ouço.
Finjo,
Não sinto.
Deslogo e ligo o I-Pod.
Antena transmissora de mim.
Não canto. Não penso.
Ouço apenas o barulho do meu silêncio
.


PREFERÊNCIAS
Mara faturi
[ in Per Tempus ]

Qual o doce que mais gosto?

O doce da tua língua
quando percorre
pêlos e poros
e eu viro
baba-de-moça.



INEFICÁCIA
Mirse Maria
[ in Meu Lampejo ]

Tal qual criança quisera ter
do teu pensamento,
a verdade ainda não dita

quisera saber teu intento
ou a senha que te magoa a ferida
se me desses ao menos uma vez
a chance de te ajudar

talvez voltasse a ser mulher

quem sabe pudesse te amar



TEXTO
Marcelo F. Carvalho
[ in Resumo da Chuva ]

Queria alcançar o instante que nunca aconteceu, aquele que ensaiamos e que ventos mais fortes carregaram pro quando. Queria, neste momento, dizer o que nunca foi dito, a palavra descoberta, úmida, ainda por gritar, carregada de regionalismo. Queria a música tocada há dez anos, quando eu não era um covarde acomodado, quando ainda acreditava no amor, no peito aberto, no olhar carregado de clichês e sonhos.

Queria a sensibilidade do meu próximo de ontem, quando ele ainda não pensava em dinheiro, dinheiro e sexo, dinheiro e dinheiro.
Queria parar esse tempo tanto.
Queria tirar essa tristeza sem como.
Queria estancar esse querer tanta coisa.


Humor
RESUMOS DE OBRAS LITERÁRIAS
[ in Ars Rhetorica, blogue desativado ]

Eis alguns resumos de obras literárias inspirados (e em certos casos traduzidos ou adaptados sem pudores) numa experiência análoga do Corriere della Sera.

Esperando Godot (Samuel Beckett)

Duas pessoas esperam por Godot, que nunca chega.

Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll)

Menina curiosa em crise de megalomania persegue coelho para jogar cartas com rainha.

Hamlet (William Shakespeare)

Príncipe adolescente de inclinações espíritas busca vingar-se da mãe. Morrem todos.

Anna Karenina (Leo Tolstoy)

Esposa adúltera interessa-se por trens e falece devido a estes.

O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marquez)

Teimoso jogador de xadrez Florentino Ariza apaixona-se por Fermina Daza e leva anos para conquista-la.

O velho e o mar (Ernest Hemingway)

Pescador de má sorte revela primeiros sinais de demência ao dialogar com tubarão.

Antígona (Sófocles, além de outros)

Moça de propensões necrófilas solicita cerimônia fúnebre para seu irmão. Morrem todos os bons.

A metamorfose (Frank Kafka)

Homem desperta em forma de inseto, mas sua rotina pouco muda.

Cândido ou O otimismo (Voltaire)

Dr. Pangloss afirma ser este o melhor dos mundos e, ao final, Cândido concorda.

Os sofrimentos do jovem Werther (Goethe)

Artista alemão apaixona-se por noiva de outro e beija-a. Em seguida, sicida-se.

O conde de Montecristo (Alexandre Dumas, pai)

Edmundo gasta sua fortuna vingando-se de amigos que já não se lembram mais dele.

O corvo (Edgar Allan Poe)

Erudito solitário tem crise de insônia e põe a culpa em um pássaro.

A consciência de Zeno (Italo Svevo)

Italiano suscetível não consegue parar de fumar.

Decameron (Giovanni Boccaccio)

Dez florentinos devassos narram histórias enquanto seus vizinhos morrem.

Crime e castigo (Fyodor Dostoevsky)

Russo arrogante assassina impunemente velha mesquinha; uma prostituta convence-o a se entregar e cumprir pena na Sibéria.

Bíblia

Deus cria o mundo e, desiludido, inunda-o salvando um velho e alguns bichos. Quando seu filho chega em visita, não é reconhecido.

Eneida (Virgílio)

Romance urbano: guerreiro foge de Tróia, passa temporada lasciva em Cartago e funda Roma.

Ulisses (James Joyce)

“Querida, vou dar um passeio. Podes ficar na cama.”

Volta ao mundo em 80 dias (Jules Verne)

Inglês desocupado faz aposta geográfica e vence-a por ser pouco entendido no assunto.

Guerra e paz (Leo Tolstoy)

Ele ama-a, mas ela ama outro. Enquanto isso Napoleão invade a Rússia.

Odisséia (Homero)

Guerreiro retorna a casa após vários anos; ao chegar, sua mulher diz tê-lo esperado sozinha.

Ilíada (Homero)

Um monte de homens combatem durante dez anos por uma mulher que não lhes pertence.

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Francesa enfadada casa-se com médico entediante, trai-o e mata-se.

Fausto (Goethe, além de outros)

Cientista medieval julga-se mais versado que o Diabo, mas se dá mal.

A Divina Comédia (Dante Alighieri)

Narigudo em crise de meia-idade narra viagem com colega de trabalho e ex.

Otelo (William Shakespeare)

Vêneto negro é convencido por amigo do adultério da esposa. Morrem todos.

Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)

Francês prolixo come uma bolacha e escreve sete livros narrando o processo.

O processo (Frank Kafka)

(Inacreditável, mas a justiça austro-húngara era mais funesta que a brasileira.)


21 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Gostaria de rever MASH, para saber se as suas diversas qualidades, que você e Ricardo Cota revela, foram preservadas. Embora a guerra fosse a da Coreia, é claro que o alvo era a guerra do Vietnam. Sem dúvida, um dos 5 ou 6 maiores filmes de Altman, um grande diretor. Um abraço.

Pedrita disse...

ótimos resumos. beijos, pedrita

Mara faturi disse...

Caríssimo,

que MARAVILHA seu espaço!!!!!
Obrigadíssima pela postagem de meu poema aqui;)
voltarei sempre,
valeuuuuuuuuuuuu!!!
grande abraço!!!!

Mulher na Janela disse...

tanta bolacha que comemos e nenhum paraíso se acha!

adorei os resumos!

beijos...

Mirse Maria disse...

Bom dia Moacy!

M.A.S.H. foi um dos melhores filmes que já vi. Não se encontra mais, talvez baixando na net. O que é uma pena! Bela escolha!

Obrigada mais uma vez por me fazer partilhar entre nomes tão grandes da poesia! Sinto-me honrada!

Adriana Monteiro de Barros, um show!

Mara faturi, um doce de poema!

Marcelo F Carvalho, um espetáculo!

Das obras literárias, li quase todas, mas seu resumo da bÍblia é outra obra! Muito bom!

Moacy, sinto pelo NENSE´. Já tinha preparado alguma coisa com Blanc, Vert, Rouge E a Flag e a torcida, mas vou finalizar, quem sabe dá sorte!

Bom domingo!

Beijos

Mirse

BAR DO BARDO disse...

MASH eu achava muito louco. Ainda permaneço com a mesma opinião...

Deixo um beijo para a Mirse.

Parabéns aos colaboradores.

Agora, as "resenhas" são de picar o toco!

Bom domingo!

assis freitas disse...

Altman é um dos bons, dele me recordo com certa nostalgia Três mulheres, como a baba de moça de poema. Sunday sweet sunday.

Marcelo Novaes disse...

Moa,


Gostei dos resumos: da chuva e dos livros. Mara mostra saber oferecer iguarias. Faturou mais uma. Mirze mostra aquela mão que quase alcança e se lamenta. Tantalizante. Dri Monteiro me remete à paisagem urbana tão comum (sobretudo nos ônibus..., pois eu pego ônibus)das pessoas circunscritas em suas bolhas de som. Ou silêncio.




Tudo muito bom!







Abraços,








Marcelo.

Jens disse...

Oi Moacy.
Simplesmente deliciosos os resumos das obras literárias (adorei o resumo da obra do Proust).

Bom domingo.

Ah sim: dá-lhe, FLU! É hoje!!!

Sergio Andrade disse...

Meu caro, além dessas Altman tem mais umas 4 ou 5 obras-primas: Imagens, 3 Mulheres, Nashville, Short Cuts...

Um abraço!

Bené Chaves disse...

Apenas como ilustração: este filme do Altman foi exibido aqui em Natal em março de 1971. Eu o assisti no dia 12 no cine Rio Grande.

Um abraço...

Felipe Marques disse...

Sinto pelo flu...

... mas as minis resenhas são demais!

abraço

Adriana Godoy disse...

Destaque para o poema da Mirse, e destaque para as resenhas...sensacionais. Bj

Marcos disse...

Amigos:

Sobre a Bíblia, tenho a impressão de que Deus se basta mas insiste em experiências.
Abraços:

Marcos Silva

Hercília Fernandes disse...

Bela reunião de textos, Moacy. Sua sensibilidade para a leitura/escrita e composição de quadros é fantástica.

Segue o meu abraço a todos que compuseram esta bela aquarela. Carinho especial à Mirse, que sempre me sensibiliza com a intensidade de seus sentimentos materializados em versos.

Beijos :)
H.F.

betina moraes disse...

...

a lembrança de M.A.S.H. é sempre oportuna!

os "resumos" dos livros foram ótimas chances de rir muito aqui...

e os poetas, inspirados!

sua revista é uma viagem, mestre moa!

um beijo!

Marcelo F. Carvalho disse...

Simplesmente agradecido, professor!
Abraço forte!

nina rizzi disse...

olá moacy.

destaco a mirse e a faturi.
mas estes resumos são demais de se tragar. tou rindo não à toa.

beijo.

nina rizzi disse...

olá moacy.

destaco a mirse e a faturi.
mas estes resumos são demais de se tragar. tou rindo não à toa.

beijo.

tchi disse...

Também pode ser lido de cima para baixo, como segue, o poema "Solidão na Metrópole", de
Adriana Monteiro de Barros:

Ouço apenas o barulho do meu silêncio.
Não canto. Não penso.
Antena transmissora de mim.
Desligo e ligo o I-Pod.
Não sinto.
Finjo,
Não ouço.
Não paro.
Automaticamente, sigo em frente.
Não olho pra trás.
Não olho os sinais.
Me dirijo a qualquer lugar.
Rasgo a cara na manhã cinzenta desta cidade.

Beijinhos.

Mme. S. disse...

frases ótimas!