quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Clique na imagem
(mulher angolana, com bebê,
autoria desconhecida)
para ouvir
Ruy Mingas
em
Monangambé,
de António Jacinto e do próprio Mingas


BALAIO PORRETA 1986
n° 2804
Natal, 7 de outubro de 2009

A literatura angolana ainda não se afirmou como poderia. Houve períodos em que até era difícil publicar no país e os jovens tinham poucos hábitos de leitura. Isso reflecte-se na actualidade, em que têm aparecido poucos escritores jovens que se afirmam. Um problema sério é o fraco domínio que têm da língua portuguesa, pela fraca qualidade de ensino que enfrentamos. Há talentos, há estórias, muita criatividade, mas por vezes falta a ferramenta linguística ou os apoios necessários ao começo. Mas penso que a literatura se vai desenvolvendo progressivamente.
(Entrevista com PEPETELA, escritor angolano)


UM HOMEM NUM McDONALD'S!
Décio Bettencourt Mateus
[ in Mulembeira ]

Um homem das áfricas longínquas
Num McDonald’s das europas
A tremer o frio nas roupas
A esconder as mágoas
E miséria das terras ricas
E sofridas das áfricas!

Senta-se faminto num canto
O cansaço da África
A desilusão da Europa branca
No rosto esfomeado
Senta-se ao meu lado
A dor d’África no pensamento!

Traz a fome dos dias a roer
O homem num McDonald’s das europas distantes
A África e suas gentes
A roer, a moer
E um homem senta-se perdido nas europas
A tremer o frio nas roupas!

A África atrasada, distante
A poeira e gritaria de desentendimentos
Dos homens arrogantes
Europa, o paraíso, fica num além
Dissipado numa nuvem
E o “um homem” senta-se nos seus pensamentos!

E parte perdido na ilusão das europas brancas
A vergonha das áfricas ignorantes
E suas gentes
A barriga de fome a roer
A vergonha a doer
E um homem parte na desilusão das áfricas!


CAZUMBI
Branca Mourinho
[ in Angola: Os Poetas ]

cazumbi cazumbi,
almas penadas
dançam à roda de mim!

sombras esguias,
vozes veladas,
gestos imprecisos
inacabados,
fugidos,
intocáveis
dançam à roda de mim!

passam,
repassam,
caminham
sem pisar o chão,
sem lhe tocar
vão rodando no ar.

dançam à roda de mim
Nessa noite de sertão!


DESPERTAR
Namibiano Ferreira
[ in Poesia Angolana ]

Para Dinah

Acordar
e ter um poema
para olhar-te
mordendo
a Primavera
na polpa
do morfema,
fruta suculenta
que me estendes
sobre a bandeja
d’alabastro
do teu corpo
puro desejo
que sacia
minha fome.


SAUDADES DE ANGOLA
Lobitino Almeida N'gola
[ in Malambas ]

Duas palavras existem
que de tão fortes
quanto poderosas
definição não têm.

E quando cá longe andamos
e as duas desabusadas se associam,
tão penosas se trasladam
em alma expatriada menstrua.

Uma, etérea,
de Saudade se apelida;
outra, qual sublime arte terrena
por Angola assim se clama!

Tudo se define,
e quase tudo se compreende;
se a Saudade é algo que se sente,
Angola é fogo presente sempre ardente!


VOZ DO SANGUE
Agostinho Neto
[ in Na noite grávida de punhais, 1976 ]

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melódicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

12 comentários:

Pedrita disse...

eu gosto bastante do agualusa e estou em contato com outro escritor angolano e vou tentar ler alguma obra dele. eu falo bastante com os meus amigos portugueses q visitam o meu blog que os países de mesmo idioma fazem pouco intercâmbio de sua cultura. poucos filmes portugueses vem ao brasil e vice-versa, sem falar em países como angola. é uma pena. beijos, pedrita

kinaxixi disse...

Um abração aí pró Brasil.

BAR DO BARDO disse...

Excelente divulgação de nossos irmãos d´África!

Muito bom!

assis freitas disse...

Grande lembrança a do Agostinho Neto, o líder do MPLA e o primeiro presidente de Angola. Em um de seus poemas ele diz: "Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é preciso que a pureza e a justiça existam dentro do nosso coração".

Marcelo F. Carvalho disse...

Todos, absolutamente todos negros e lindíssimos poemas!

Mme. S. disse...

bela homenagem!

Dilberto L. Rosa disse...

Genial "UM HOMEM NUM McDONALD'S!", lembrei-me da desconstrução feita por Chico Buarque em muitas de suas canções... Falando em Chico, para ser completa a homenagem, só faltou "Morena de Angola", do mestre carioca, rs! Abração!

P.S.: e não perca a conclusão da lista no sábado, hein?!

Carito disse...

é angola ou nunca!

nina rizzi disse...

moacy, essa é das postagens mais marcantes que já vi aqui, lindíssima, meu caro. não dá nem pra pensar no que é melhor. é de Angola Zim.

(gostei das suas diagonais ellenísticas, visse ;) rsrsrs...)

ah, sim, a imagem... eu sinto sentir essa mulher. é osso. e é coragem. dá até vontade de abraça-la, e ao seu menino e todo esse mundo negro, blues.

um beijo.

ELCAlmeida disse...

Obrigado pela citação e esteja sempre à vontade para "roubar" (ximunar) qualquer poema que deseje.
E já agora e ao contrário do que afirma Marcelo F. Carvalho, nem todos são negros, já que uns também são brancos e, ou, mestiços, mas todos, TODOS, são Angolanos!
Abraços
Eugénio Costa Almeida

Sônia Brandão disse...

Moacy, muito me agradam as vozes de nossos irmãos angolanos.

bjs

Decio Bettencourt Mateus disse...

Moacy: é sempre um prazer passar por cá e como sempre, encontrar a casa cheia de diversidades agradáveis. Muito me alegrou mais esta presença em grande de Angola. Obrigado. E obrigado pela postagem de "Um Homem num McDonald’s!"

Um kandandu.