quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O sertão nordestino
Foto:
Sebastian Duarte


BALAIO PORRETA 1986
n° 2805
Natal, 8 de outubro de 2009
5° aniversário
do encantamento de
Luiz da Costa Cirne

O sertão, com suas pedras mágicas, seu vento sonolento, sua aridez azul e previsível, seus alumbramentos crepusculares, sempre moldou homens e mulheres de fibra. ... Mas o sertão não admite vacilações. Naturalmente, um homem nascido e criado em seus caminhos e veredas sabe disso. Em nosso caso, sabe o que é ser um seridoense. Se um homem não se faz por acaso, um seridoense não se faz por acomodação. Há que lutar, há que viver, há que amar, há que compreender.
(Moacy Cirne, em junho de 1999, no 80° aniversário de LUIZ CIRNE)


Memória 2004
ORAÇÃO PARA O PAI


Pai,
Há novos rios e novas cores nas terras e nas planícies que passaram a te acolher desde o dia 8 do corrente mês. E há novas auroras e novos Seridós que te contemplam para todo o sempre.

E te contemplam, Pai, porque acreditam que os homens de personalidade forte, os homens que sabem cultivar a generosidade, os homens que sabem praticar a bondade, como o Senhor, não morrem jamais. Não morrem jamais em nossos corações, em nossas mentes, em nossos afetos, em nossas esperanças.

São homens que se encantam, que viram pássaros, que viram nuvens, que se transformam nas águas azuis de nossas memórias mais acolhedoras. E mais cristalinas.

Pai,
aqueles que aqui se encontram nesta Morada da Paz, que é também a Morada da Saudade, sabem da tua retidão, sabem da tua luta, sabem da tua sabedoria diante dos muitos caminhos e descaminhos da vida.

Ninguém é perfeito, ninguém é perfeito, decerto, e todos nós já cometemos nossos pequenos erros, nossas pequenas incoerências, nossas pequenas contradições, mas façamos da presente hora o lugar da reflexão, para que saiamos daqui mais fortes, mais solidários, mais compreensivos. Apesar da terrível dor que nos esmaga. Apesar da terrível dor que nos oprime.

Que o nosso choro não seja em vão.

Que a memória de tua memória, Pai, seja uma luz para todos nós.

Porque,
Pai,
aqueles que aqui estamos, nesta manhã aparentemente sem vida,
sempre te amaremos.
Muito obrigado por tudo.
E que descanse em PAZ, PAI.

[Texto lido no sepultamento de Luiz da Costa Cirne, em Natal]


Memória 2005
BALAIO INCOMUN n° 1604
Rio, 8 de outubro de 2005

Um ano depois
SERTÃO, SERTÕES
Para Luiz da Costa Cirne,
in memoriam

O sertão não é para qualquer vivente. Com pedra e fogo, natureza febril que se faz aurora grávida de mistérios e silêncios, o sertão, faca e bala, existe dentro do sertanejo através de alfenins, alpendres e lonjuras. O sertão somos nós: seus bichos, suas oiticicas, seus rios, seus açudes, suas mulheres, seus homens. E suas promessas de relâmpagos e trovoadas. E suas promessas de horizontes e arco-íris. No inverno, o cheiro da terra molhada alimenta aqui-acolá a alegria que substancializa a nossa nordestinidade.

O sertão somos nós: suas veredas, suas travessias, seus descampados, seus riachos, seus rios magros, seus dias, suas dores. Enfim, o sertão somos nós: o gado que nos contempla com seu olhar sonolento, o galo que nos desafia com sua altivez exemplar. O sertão somos nós: o xique-xique que se faz vida, o algodão que se fazia norte. O sertão-sertão: o vento da tarde que se faz viração, o frio da madrugada que se fazia cruviana. Na seca, a manhã cinzenta é um prolongamento de nossas tristezas mais profundas.

E um ano depois de seu encantamento – um ano depois da crepuscular viagem que nos despedaçou –, eis que sentimos o nosso Pai como um sertão dentro do sertão de nossas lembranças, de nossas azulências, de nossas esperanças, de nossas seridolências. Houve um tempo para a alegria. Há um tempo para a tristeza. Aqui estamos, com a mesma dor de um ano atrás. Decerto, construímos a sua memória como quem constrói uma catedral de silêncios íntimos, como quem constrói um curral de sonhos barrocos.

E a construímos sabendo que outro é o seu sertão, neste momento. E a construímos sabendo que outros são os seus caminhos, desde outubro do ano passado. A morte tem seus desdobramentos próprios, decerto misteriosos para aqueles que ainda não se encantaram. A dor tem seus desdobramentos específicos, nem sempre compreensíveis, nem sempre mensuráveis. Mas existe a saudade, que é comum a todos nós. Mas existe o sertão, que é comum para nós e para muitos de seus amigos.

Só que o sertão não é para qualquer vivente, repetimos. Não é para qualquer sobrevivente, não é para qualquer pescador de ilusões. Mas a seu modo seco e sisudo o nosso Pai soube vivê-lo, soube senti-lo, soube compreendê-lo. Através de pequenos gestos. E de grandes afetos. Através de poucas palavras. E de grandes generosidades. Que o seu sertão, agora e sempre, do outro lado da sétima margem do rio, seja um sertão feito de águas e auroras, luzes e licores, sonhos e seridós. Ao lado daqueles que sempre o amaram.

BALAIO produzido ao som da Missa de Nossa Senhora [c1364], de Guillaume de Machaut, por Andrew Parrot / Taverner Consort & Taverner Choir [Virgin Classics, grav. 1983]

10 comentários:

Lou Vilela disse...

Belíssimas homenagens, Moacy! Emocionadas e emocionantes.

Beijos,
Lou

Francisco Sobreira disse...

Pois é, Moacy, 5 anos já se passaram desde a morte do seu pai, a quem você faz uma homenagem comovente. Um abraço.

Carito disse...

Grande homenagem, forte, bela, belíssima!!! Emocionante post...

Mme. S. disse...

Esse post está especialmente belo, Moacy. Você puro!

Marco disse...

Caro mestre Moacy,
Seu comovente texto sobre seu pai me emocionou e me fez lembrar do meu. E me fez lembrar de muitos "pais" nordestinos, tanto os da literatura, quanto os reais. E eu conheci alguns que traziam o sertão na alma e no corpo, com mãos calosas feito cactus.
Receba minha homenagem ao seu pai, que combateu o bom combate e legou uma obra ao filho, que por sua vez, tem feito por onde honrá-lo.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

assis freitas disse...

Sem palavras...

Tahiane disse...

Emocionante a homenagem, Moacy.

bjo

Romário Gomes disse...

Belas palavras: um poeta é um poeta é um poeta...

líria porto disse...

sertão, sertanejos... comovente!
besos

Nydia Bonetti disse...

Que bom, quando a memória se faz luz... Sem palavras... Beijos.