quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ferreirinha e Nina Rizzi:
o Comendador & a Poeta
na festa de lançamento em Caicó do livro
organizado por
Roberto & Pituleira
e editado por Abimael Silva
para o Sebo Vermelho.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2832
Edição Especial

Natal, 4 de novembro de 2009

O fato é um aspecto secundário da realidade.
(Mario QUINTANA, in Caderno H)


VIAGEM À VILA NOVA DO PRÍNCIPE
Cinquenta anos depois
João da Mata Costa
(Prof. de Física da UFRN)

para Moacy e Edjane


Da Festa do Rosário, Bar do Ferreirinha, Personalidades, Amigos
e outras matérias

"Da Mata é o Físico João / Faz do Mister o Amor"
(Lula Pneus)

BAR DO FERREIRINHA 50

Em cinquenta anos a volta. Saí de Caicó com um ano de idade numa Festa do Rosário e volto cinquenta anos depois. Uma volta para a mãe-terra. Para o útero. Tudo é envolto num mar de significados para além do que posso escrever.

Encontro sem combinar com o meu querido tio José Paulino – Zé Baixinho, irmão da minha querida mãe. Encontro Zé Romão nos seus mais de oitenta anos. Chapeleiro antigo e amigo íntimo de papai morto precocemente.

Logo ao chegar ao Bar do Zeca Barrão encontro o famoso Bibica. Nosso candidato a governador. Quem não for babaca vota Bibica. Bibica acompanhado de um bode vende a rifa (mais uma) que sortearia o famoso animal-símbolo do sertão nordestino.

Bibica é querido de todos e está em toda parte. No outro dia Bibica está de paletó para cumprimentar seus eleitores e tirar fotos com os seus muitos admiradores.

O filho de Dinarte Mariz, o ex-reitor da UFRN Geraldo Queiroz, políticos e vereadores, professores e populares estão presentes na festa de lançamento do livro.

Outra grande figura que tive o prazer de conhecer foi o comediante Silva – cover do Chico Anysio. Artista que esteve entre os 10 melhores do Faustão. Simpático, sempre fazendo muganga com a boca e a língua.

O lançamento foi um sucesso. Livro-homenagem aos 50 anos do Bar do Ferreirinha, o mais tradicional de Caicó. Um livro-álbum de fotografias numa justa homenagem ao bar e seu proprietário, para ciúmes do Zeca Barrão, cujo bar vizinho-esquina faz encontro de cadeiras com o bar do Ferreirinha.

Estão de parabéns os autores do livro Roberto & Pituleira e o editor Abimael. São vendidos mais de uma centena de livros numa festa que durou o dia inteiro. Só interrompida para a passagem da procissão do Rosário. Animou a festa a Banda de Música Recreio Caicoense, seguida por uma animada roda de samba. Dei uma canja e dancei acompanhado da grande musa da festa, a bela atriz Nina Rizzi.

Ferreirinha e Anchieta, o primeiro cliente do bar, também autografaram o livro. Não faltou quase ninguém no lançamento-festa. Muito sentida foi a ausência do Moacy, prefaciador do livro.

Um grande abraço para o amigo Lula Pneus, com quem tive o privilégio de conversar pessoalmente, e recebi de presente um lindo poema cujo mote é a epígrafe desse artigo.

Parabéns ao Souza por nos mostrar seu acervo de fotos antigas de Caicó e seus habitantes ilustres.

O mestre de cerimônias da festa foi o grande comunicador Pituleira.

Para completar o dia-banquete de emoção e resgate, encontro na noite caicoense, a grande cantora Dodora e a amiga Edjane. É demais para o meu coração.

Em cada habitante um rastro. Na aspereza do ar, a rispidez da fala e o orgulho do seridoense. O presente grávido do passado nutre uma grande alegria de poder estar vivendo esse momento de grande riqueza biográfica em meio século de existência.

OUTRAS PERSONALIDADES

A casa do Passarinho Avelino

Avelino é um amigo de sempre. Fico em sua casa, que é como um coração – atelier- floresta – gaiola aberta de sonhos. Em cada canto uma obra de arte da Ave-Linho.

Um quadro abstrato é uma das últimas obras do artista. Quadro inspirado nas cercas de pedras caicoenses recebeu o título de "Priquito atravessado”.

Ali adiante, duas caixas de ovos pintados pelo artista-passarinho. São seixos rolados de um rio que flutua feito uma rosácea-cera, ou seria Papai Noel?

Maurílio – O guardador das Horas

Na sua casa-museu guarda o tempo o agrimensor Maurílio. São dezenas e dezenas de relógios antigos que adornavam as casas antigas e marcavam as horas sertanejas de um tempo que parece mais lento. Mecanismos acionados por cordas e emoldurados por belas esculturas em madeira. Na parede da casa já não cabe tantos relógios maravilhosos. Ali um outro relógio raro que acompanha um calendário. Um outro belo relógio funciona com pilhas e os dias são marcados por lâminas de aço que se sucedem.

Completa a Mauriliana uma bela coleção de imagens sacras e outros objetos religiosos. Vitrolas antigas que ainda tocam discos 78 rpm. Teodolitos. Espingardas. Baús. Lanternas antigas a gás e muito mais objetos fazem parte de uma belíssima coleção de um grande gentleman e cultor das artes Um homem que vive o presente cultuando o passado e as horas das Aves- Maria.

Agradeço a generosidade do Maurílio e sua querida esposa, irmã do nosso querido amigo Avelino, pela bela oportunidade de conhecer um pouco mais a rica cultura sertaneja.

Para completar, somos servidos de um bom café acompanhado do verdadeiro e único queijo de manteiga de Caicó.

Souza - O guardião da memória fotográfica

O ex-soldado Souza é colecionador de um rico acervo de fotografias de personalidades e outras pessoas da sociedade caicoense. São muitas fotos organizadas em pastas de sacos plásticos que precisam ser melhores organizadas e arquivadas.

Grande parcela da história de Caicó e seus protagonistas fazem parte do rico acervo coletados com muito amor pelo colecionador amador. Políticos, times de futebol e pessoas do povo figuram no acervo do Souza, que tive o privilégio de conhecer.

Tudo começou quando Souza, ausente de sua cidade por longos anos, presenciou num lixo algumas fotos suas. Esse fato triste levou Souza a recuperar essas fotos e iniciar a sua prestigiosa coleção, que resgata boa parte da história de Caicó desde o princípio do século XX. Muitas fotos foram copiadas de originais emprestados e outras foram resgatadas dos desvãos do tempo.

Sugeri ao simpático Souza que organizasse essas fotos numa publicação para a posteridade. O seu acervo daria um belo livro-álbum de fotografias de uma Caicó que precisa ser lembrada. Fotografias que contam uma belíssima história da grande civilização seridoense.

A Festa da Irmandade dos Negros do Rosário

No domingo 01 de Novembro de 2009 sai pelas ruas o cortejo da Rainha e Rei do Rosário acompanhado do seu séquito de damas e corte. Um negro segura um toldo para abrigar os reis do congo. A rainha desse ano é uma senhora de pele clara que deve estar pagando promessa.

Os negros vestidos de calças e camisas azul e branco acompanham o casal real. Em seguida a banda galantemente vestida toca para alegria dos moradores e apreciadores. Emocionado sigo o cortejo até a Igreja do Rosário, que espera a chegada dos reis para a grande celebração da missa das 10h. Fogos celebram o grande acontecimento. As primeiras cadeiras da bela Igrejinha do Rosário são reservadas para os negros que entram na igreja sob aplausos. Os negros portam lanças e dançam alegremente. A missa solene acontece acompanhada do belo hino da irmandade dos negros do Rosário.

No final da tarde toda a cidade aguarda para acompanhar ou saudar á grande procissão que segue novamente para a Igreja do Rosário onde será celebrada uma segunda missa, após a qual novo reinado será escolhido e o rei e rainha receberão as coroas e cetros, numa tradição que remonta ao século XVIII.

Nos dias que antecedem à grande festa dos Negros dos Rosário, eles saem pelas ruas e feira livre para angariar dinheiro e mantimentos.

Converso com seu Bonifácio, que participa da festa há 60 anos. O historiador Muirakytan Macedo, da UFRN/CERES de Caicó, registra tudo em sua câmera fotográfica. Esqueci a minha máquina e registro o que a emoção permite numa bela e grande manifestação da cultura popular brasileira.

Essa festa é uma das mais saudosas recordações da minha mãe. Em cinquenta anos volto à terra onde nasci e me batizei como quem volta pra casa. E fosse só por isso já merecia esse reencontro carregado da dor e alegria de poder estar vivendo um grande dia na história de minha vida.

18 comentários:

Mirse Maria disse...

É bom compartilhar com você, Moacy e com os demais o que descreves.

Os amigos sentem-se felizes em fazer parte, mesmo sem conhecer, mesmo à distância, dessa festa que o emociona!

Parabéns! Bela postagem!

Beijos

Mirse

Mariana Botelho disse...

Eita, caramba, Moa!

Óia a Nina!!!! rsrsrs

Linda demais!

beijos

Bar de Ferreirinha 50 anos, desde 1959 disse...

Moacy, o texto do João da Mata está simplesmente arrebatador! É de um pirismo ímpar. Com a sua permissão e a dele, aviso que vou transcrevê-lo para o Bar de Ferreirinha sem a menor cerimônia.
Um abraço,
Roberto

Bar de Ferreirinha 50 anos, desde 1959 disse...

Moacy, o texto do João da Mata está simplesmente arrebatador! É de um lirismo ímpar. Com a sua permissão e a dele, aviso que vou transcrevê-lo para o Bar de Ferreirinha sem a menor cerimônia.
Um abraço,
Roberto

BAR DO BARDO disse...

Viva a festa!

Assis Freitas disse...

Taí uma bela festa e o texto é a mais perfeita tradução.

Marcelo Novaes disse...

Moa,



Descobertas em meio a reminiscências.

Texto impecável do João.


Festão.


:)






Abraços,









Marcelo.

Jens disse...

Moacy, o professor João da Mata conseguiu transmitir toda a emoção do momento. Foi bonita a festa, pá! Queria ter estado lá.
("presente grávido do passado". Duca! Por que eu não escrevo coisas assim?)

Um abraço.

José Carlos Brandão disse...

A memória é um rio - as águas passam e o rio fica.

betina moraes disse...

sensacional mestre moa,

e ainda com a nina e tudo o mais!

um beijo, querido!

nina rizzi disse...

Moacy, da Mata a quem sem mesmo conhecer conhecer chamei de José Sarney (só por saber que iria gostar.. rsrs), bem só agora o sei da Mata. Um dos pontos mais altos da festa foi aquela dança. Mas tudo ali cheirava a história, meu ofício, tudo ali cheirava a memória, segredos pra se ser feliz, tudo ali era poesia, um pouco de salvação.

Em todas as minhas andanças nunca fui tão bem recepcionada por uma "ruma"... que calor, não o caicó, o caicoense. eu saí daí completamente apaixonada, encantada e ja querendo voltar.

a lula pneus é mesmo um poeta "eugenia da raça". bibica de uma sabedoria digna de livros (e que merecerá um capítulo à parte), ah, sim, Edjane a dos cabelos em pé e (...) digo, Edjane?!

Pituleira e Roberto que cicerones... Ranyel e seus abraços fortes e todos mais que agora se confundem nomes em minha cabeça, mas que jamais, jamais esquecerei.

Da mata, partilho da sua emoção: um grande dia da história da minha vida.

ah, eu amo, como dizem por aqui "de vera, de rochedo", eu amo o caicó e seu povo. e eu volto, ah, volto...

beijos a todos :)

DAMATA disse...

Queria Nina,
Tb adorei a festa. Adrei dançar com voce.
Foi uma alegria imensa ter lhe conhecido.
Espero ve- la novamente.
Voce deu cores e alegria a festa.
Foi grande a emoção.
Gostei quando voce me chamou para dançar.

Anônimo disse...

oi, moacy!

belo texto de joão. nina, volte mesmo para terminarmos aquela conversa sobre os serrotes seridoenses (e os cabelos em pé).

abraços,

edjane

Beti Timm disse...

Mestre querido,

Que festa linda! Daquelas que se vai dormir regalada de alegria e bem estar interior.

Beijos

dade amorim disse...

Eita, Moacy, deu pra viver um pouco dessa festa e ver a riqueza de personagens e de coisas em volta.
Uma lindeza só. Muita vontade de ter estado lá, no meio dessa gente e dessas coisas, que são as que fazem a vida valer a pena.
E gostei demais de ver a Nina Rizzi e ler o comentário.

Beijo e parabéns por pertencer a esse povo.

Bar de Ferreirinha 50 anos, desde 1959 disse...

Moacy,
A festa continua no Bar de Ferreirinha: conseguimos um vídeo da dança de Nina com Nelhão Benévolo, o mais fanático cliente e leitor do bar. Acesse e confira.
Abraço,
Roberto

líria porto disse...

ó xente! espero viver até a festa de caicó - na próxima eu vooooooooooo

besos

adorei a foto da nina com o ferreirinha!!!

Marco disse...

Eita que essa festa deve ter sido da melhor qualidade...
Que coisa boa...
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.