quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


Negros do Rosário de Jardim do Seridó
(Rio Grande do Norte)
Foto:
Joaquim Júnior


BALAIO PORRETA 1986
n° 2892
Rio, 6 de janeiro de 2010

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
(PÍNDARO, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos,
in Poesia grega e latina, 1964)


POEMA INÉDITO de
Chico Doido de Caicó
[ encontrado entre velhos papéis
na residência do médico caicoense Oberdan Damásio ]

Quando eu era menino em Caicó
O melhor buraco era o da fechadura.
Um dia olhei minha tia tomando banho
E tomei um susto destamanho.
Eu vi a coisa preta de tia Marieta
E fiquei com a minha coisa muito dura.


INVARIAVELMENTE
Assis Freitas
[ in Mil e Um Poemas ]

teu cheiro me chega com as marés
quando se ruflam pássaros
e eu declino da benevolência
de ondas e sargaços
para assistir o coito assustado
das libélulas


VIRAÇÃO
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

brisa
que sopre leve

sobre

insuportável
peso

mormaço
antes das chuvas

silêncio escuro
antes

do primeiro sol



A JORGE GUINLE FILHO
em memória
Tanussi Cardoso
[ in Viagem em torno de, 2000 ]

O que acontecerá aos céus
quando se morre um artista?
Que silêncios, que gritos
Que deuses riscam os ventos
quando se morre um artista?
O que dizer aos filhos
Aos pássaros, ao poema
quando se morre um artista?
Que pintura tão linda
Que natureza tão vil
Que fala tão amarga
quando se morre um artista?
Noiteluzsomdiapasãoharmoniavendavalfuracão?
O que sobra da vida
quando se morre um artista?


13 POR 1
Manoel Onofre Jr., escritor
[ in Preá. Natal, dezembro 2003 ]

Romancista: Eça de Queiroz
Poeta: Fernando Pessoa
Livro: Judas, o obscuro, de Thomas Hardy
Filme: Um corpo que cai
Diretor/Cinema: Billy Wilder
Ator/Atriz: Dustin Hoffman/Rita Hayworth
Pintor: Portinari
Cantor/Cantora: Orlando Silva/Elis Regina
Compositor: George Gershwin
Música: Bachianas 2 e 8
Peça teatral: Auto da Compadecida
Intelectual: Oswaldo Lamartine
Personalidade cultural do RN: Câmara Cascudo

13 POR 1
Ailton Medeiros, jornalista
[ in Preá. Natal, março/abril 2005 ]

Romancista: Gabriel García Márquez
Poeta: Zila Mamede
Livro: Deserto dos tártaros
Filme: Sexo, mentiras e videoteipe
Diretor/cinema: Spike Lee
Ator/atriz: Juliette Binoche
Pintor: Juan Miró
Cantor/cantora: Cazuza
Compositor: Chico Buarque
Música: Todo amor que houver nessa vida
Peça teatral: Vestido de noiva
Intelectual: João Wilson de Mello
Personalidade cultural do RN: Nei Leandro de Castro

13 POR 1
Laurence Bittencourt, jornalista
[ in Preá. Natal, novembro/dezembro 2005 ]

Romancista: Eulício Faria de Lacerda
Poeta: Alex Nascimento
Livro: A banalidade do mal:
O julgamento de Eichmann em Jerusalém
Filme: O homem de Kiev
Diretor/Cinema: Charles Chaplin
Ator/atriz: Marlon Brando
Pintor: Leopoldo Nelson
Cantor/cantora: Sarah Vaughan
Compositor: Ludwig van Beethoven
Música: Pour Elise
Peça teatral: Hamlet
Intelectual: Harold Bloom
Personalidade cultural do RN: Câmara Cascudo


EM DEFESA DE NATAL
João da Mata Costa
[ in Substantivo Plural ]

“Canindés, Caicós, Pajeús, Paianazes, Pegas, Paiatis, Tororós, Janduís, Tarairus (desta derivam os Trairis)… chegando ao Cacique Jaguarari”

Como são belos os nomes das ruas da minha cidade. Não permita Deus que esses bárbaros, iletrados e mal-intencionados mudem esses nomes que fazem parte da nossa geografia sentimental. Vivi muito tempo na rua dos Caicós. Rua que trago gravada na memória e nos documentos que fazem parte da minha identidade.

No carnaval tinham as famosas tribos de índio com sede no Alecrim. Lá tomávamos cauim e brincávamos muito.

O povo diz com nome certo. Ao dar nome a uma rua ela faz parte da nossa identidade e referência.

Em Natal se perde cada vez mais os referenciais:

Que esse bárbaros saibam que as coisas têm nome. Assim como o nosso nome, os nomes das ruas não podem ser mudados.

Leiam Câmara Cascudo.

Não sejam ridículos para só outorgar títulos eleitoreiros de Cidadão Potiguar.

E ridículo. É pífia a nossa representação parlamentar nas Câmeras e Senado.

Vejam que projetos esses “cidadãos” aprovaram para o bem da cidade e do País.

Uma das piores representações políticas do Brasil.

Saibam já qual é o meu voto para vocês. Nulo. O voto em branco vocês não merecem.

E saibam que vocês não podem dinamitar a memória de uma cidade que é nossa.

Indignadamente:

[Nota do Balaio: um vereador de Natal propôs, com aprovação da digníssima dona-prefeita-aliada-de-josé-agripino-maia-o-filhote-da-ditadura, a mudança do nome de parte da tradicional Rua dos Tororós, no bairro de Lagoa Nova, para o nome de um desembargador natalense. Daí a a indignação, mais do que justa, do professor João da Mata Costa.]

15 comentários:

Mme. S. disse...

De poesia de Chico Doido a indignação de João da Mata: post incrível.
beijos, aqui feriado, eu trabalhando...

Anônimo disse...

O protesto do professor João da Mata deve ser ouvido por todos.Um adendo à ética e oportuna crítica do professor: o Desembargador Wilson Dantas era um lacaio da Ditadura Militar.Muito antes dessa fase terrivel da Históra, o Desembargador (que perseguia juízes honestos e democráticos, e funcionários do Tribunal de Justiça) jactava-se de ter elaborado (quando era o chefão da Delegacia de Ordem Social) uma lista completa dos comunistas do Estado. Essa declaração e outras, de caráter semelhante, pode ser encontrada em
jornais comoTribuna do Norte e os
extintos Diário de Natal e Correio do Povo.

João Quintino disse...

Faço coro ao protesto de João da Mata. A imagem de Joaquim Júnior (que em Jardim do Seridó é conhecido como Júnior Flash) é muito singular. Outras, de sua recente exposição, são igualmente belas. O poema de Chico Doido é doido mesmo. Abraço, Moacy!

nina rizzi disse...

Da Mata pegou o mote bandeiriano, dois fodões :)

a imagem é belíssima, Moacy, e assim como o poema do Assis, não consigo deixar de ler...

Um bom dia e um cheiro.

nina rizzi disse...

ah! sim... há um detto, como diz la madre: "arte é che fa benne per occhi", assim, quando um artista morre, ele não morre, ele fica nas beleza dos olhos.

mais um cheiro.

Francisco Sobreira disse...

Meu caro,
Assino em baixo do que diz o professor João da Mata. E uma das coisas que mais me revoltam é quando a nossa Câmara Municipal outorga títulos de cidadão natalense a gente que nunca esteve aqui e não fez um tantinho de nada pela cultura da cidade. E por que dar o nome de Airton Senna a uma das principais avenidas de Natal? Um abraço.

Theo disse...

esses vereadores desgraçados querem burocratizar as cidades até nos nomes de ruas. tiram o gosto pela cidade (ou tentam) até pelo básico do básico. é triste.

abraço!

BAR DO BARDO disse...

Nydia = caso antigo = poesia de boa qualidade = TOC literário.

Assis Freitas disse...

Obrigado mestre Moa é muito bom estar aqui. Chico Doido é mais que uma boa companhia, Tanussi, Nydia idem. Os 13 por 1 estão porretas. Abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

13 por 1? O que dizer? Absoluto.
_________________________
Êta, Caicó! Êta poema com gosto de quero-mais!
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Por que será que desconfio: se o tal desembargador não é da família, é Cosa Nostra?
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Abraço forte!

Mirse Maria disse...

Oi Moacy!

Linda imagem!

Amei o poema do Chico Doido! às vezes preciso rir.


Uma estrela nasce a cada poema de Nydia!

Todos os poemas muito lindos! Respondo à Tanussi Cardoso, que um artista não morre, e se morre deixa seu rastro infinito!

Absurdo trocar nomes de ruas. Marchemos com João da Mata.

Se não tem o que fazer, apreciem a beleza natural e permitam que os nomes originais permaneçam. Absurdo!

Beijos

Mirse

Nydia Bonetti disse...

Bons ventos nos trazem ao Balaio, Moacy.

Solidária em defesa da preservação da memória das cidades. Com certeza, elas contam estórias e a História, bem melhor do que os livros. Que futuro esperar de um país sem memória...

Linda esta foto, Moacy! Beijo.

Francisnaldo Borges disse...

Pois é: se a coisa tava preta ficou mais preta ainda. É doido. Visite meu blog solescito.blogspot.com. Abç

Anônimo disse...

Belo comentário do João da Mata. Esses hipócritas fedem mais que nossas bostas.
Abraços
Oreny Júnior

Maria Muadiê disse...

Moacy, acabo de conhecer esse belo e suculento poema:
o cheiro suculento da pinha
infância que se memória
abre-se para o canto das pedras
sob as chuvas de fevereiro e caicó.
fruticorpo orgasmo,
a pinha
se oferece à boca lenta e atenta
com seu aroma raro
seu aroma claro
e um branco de auroras arrependidas,
assim: a pinha.


[ in Balaio Incomun, n° 1178,
7 agosto 1999 ]

Moacy Cirne

Sou louca por pinha. Lembro uma vez, grávida, em frente a um monte de pinhas maduras... nossa, eu salivava.
Um abraço,